O querer, quando mal nascido, torna-se uma doença que corrói a alma, que queima a capacidade de agir e bitola a visão. O querer, quando mal parido, é algo que tira o viço do flanar, tira o gozo da espera e estirpa o contemplar do advir. Tudo passa a ser urgente, premente, insistente. Não existe outro tempo além do agora, do já, para o querer natimorto. É uma antítese do deleite e do desejo, é um motor vil que mói mentes e corpos.
Um outro tipo de querer mal nascido é o que consome a ti, minha filha. É o que devora suas entranhas e consome seus atos. Esse querer faz-te criar um mundo esimesmado onde suas fantasias são o alimento para um monstro devorador de almas, para uma ansiedade que dissolve ânimos, a exaustão já na largada da corrida da vida
Mas o querer quando bem cuidado desde a concepção, é o motor que faz as coisas acontecerem, é o que faz criar uma obra de arte, compor uma sinfonia, escrever uma saga ou atravessar o inferno de canto a canto só para ver a pessoa amada. Não há limites para a força do querer.
Ele é a força irresistível da humanidade.
Por isso temos que ter cuidado com o que queremos, como queremos e quem arrastamos na nossa torrente. É como se fôssemos tornados atrozes, tempestades históricas cuja ação altera vidas em cada gesto, em cada levantar de braços, em cada piscar de olhos, em cada frase dita pela metade, cada gesto mal ensaiado. O querer bem nascido vem com o gêmeo responsabidade a tiracolo.
É esse siamês que precisamos fazer crescer amiúde, alimentar com atenção redobrada, com danoninho e yakult se for necessário. Mesmo os erros que cometemos na vida têm de ser cometidos com responsabilidade e atenção para que essas lições sejam aprendidas. E mais, meu amor, só se aprende errando. E muito!
Do teu distante pai,
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