Há muito não interagia com pessoa alguma. Nunca fora do tipo social, do que procurava companhia a todo custo quando a noite de quinta-feira se anunciava, e se entediava em conversas sem eira nem beira que os cariocas adoram ter nos bares, quiosques e boates. Não tinha mais paciência para as abobrinhas, para a as fofocas, a vida dos outros, os seus problemas, as suas felicidades, as suas fortunas e os revezes. O simples mencionar de um evento, onde mais de uma pessoa estaria sentada sem função aparente além de simplesmente estar ali, lhe causava náuseas instantâneas.
Todavia, se formara em psicologia e tinha vários tratados sobre a natureza humana, sobre a capacidade comunicativa do homem moderno. Era um expert em gente.
Tampouco gostava de dançar. Achava um desperdício de energia aquele bando de gente desajeitada se sacudindo sob a influência das músicas que a indústria cultural nos manda gostar, acima do bom gosto. Mas ele tinha a estranha mania de assistir às apresentações de balé do Municipal. Fosse o clássico ballet ou um espetáculo de dança contemporânea ou ainda dança de salão. Aquilo fazia sentido. Era arte.
Por motivos semelhantes não ia a shows ou bares de música ao vivo. Normalmente eram pessoas que se arremedavam a executar canções ruins que eram pedidas por um público que nada entendia de música. Esse mesmo público que não sabe dançar e gosta de se ver não-dançando em espetáculos coletivos de não-dança, de descoordenação coletiva estimulada por pessoas que não tocam, ou tocam mal, ou estão executando mal dado o assombro da massa desajeitada defronte de ti. Nunca entendera o Rock Arena. Porque se chamava de Arena se não tinha gladiadores?
Na adolescência era um dos tipinhos que todos adoravam espezinhar. Infelizmente nascera com uma inteligência fora do comum e entendia cada coleguinha da sala de aula como a mãe dos próprios. Sabia exatamente o que falar para causar o máximo efeito de humilhação e dor. Não aquela humilhação típica dos adolescentes, mas aquele tipo que revela um pouco do ser que escondemos de todos. Do “comedor de meleca” ali para o “você gosta de enfiar coisas no reto” aqui. E o timming! Nossa! Tinha um senso de oportunidade único. Obviamente foi burilado anos a fio a ponto de não precisar nada nas discussões na universidade. Bastava olhar pro debatedor e citar o livro certo. Pimba! Discussão vencida.
Passou a sua juventude entre temido e ignorado. Na faculdade era admirado pelo poder de síntese e objetividade, qualidades que normalmente faltam nos acadêmicos em geral. Depois de formado, tentou dar aulas mas a sua empatia negativa não o estimulava a ficar horas em frente de uma turma, respirando pó de giz e gastando saliva com conceitos que, por vezes, ele mesmo contestava.
Por sorte nunca precisou trabalhar. Tinha o seu apartamento de sala e quarto na Domingos Ferreira e uma renda que permitia que pagasse as suas contas, comer, se vestir, ler e sair uma vez por semana.
Assim, foi cerrando os seus contatos e se fechando no mundo que criava para si em casa. Colecionava DVDs de dança, música e filmes; CDs de música de câmara e Jazz; livros de arte e biografias de grandes músicos. Chegou ao ponto que os únicos contatos que tinha com o mundo exterior eram a faxineira de sessenta anos – “Dona Gerbásia! Como eu gosto de falar o seu nome!” – e o computador por onde fazia as suas compras.
Um dia, enquanto ouvia Raphisody in Blue…
“Oh não! Um monstro!AAAAAAAARGH!”
[Nota do Editor]: O arquivo digital acima foi encontrado entre os alfarrábios do autor. Ainda não temos notícia do seu paradeiro ou de quando pretende largar o monstro de preguiça que o seqüestrou. Aguardamos ansiosamente, já que o f*lh* d* p*t* largou uma pá de serviço a ser feito em cima da mesa.
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=O um monstro /o\
adorei. msm msm.
(meus comentarios aqui ja stão monótonos… “adorei”, “ótimo”, “muito bom”, “uau”, “nossa!”. vc nunca escreve mal, ñ? o_Ò)