August 6, 2002 0

O País dos Covardes

By in textos

Não abro mais a minha porta sem olhar pela câmera, falar pelo interfone e pedir RG e CPF.
Não olho as pessoas na minha rua, no meu prédio, sequer encaro meu filho adolescente.
Não compro uma arma porque ela pode se voltar contra mim.
Não ligo para a polícia porque posso “me sujar com o movimento”.
Fico amigo dos bandidos para que eles não me batam muito.
Não voto.
Não dou esmola.
Não ajudo.
Não ligo, nem retorno as ligações.
Não namoro mais.
Não trepo.
Não saio.
Não peço , DVDs, água ou comida.
Sou um escravo do meu .
E, o pior, não estou só.

Que tipo de humano me torno quando opto por morar perto aos meus iguais, mas distante ao meu próximo?
Que tipo de vida eu pretendo ter, que tipo de eu quero para mim?

Queria fazer um texto curto sobre a revolta que eu sinto com isso, de como nos transformamos em números, deixamos de ser pessoas para sermos coisificados, mas hoje, já não me importo mais.

Todas as vezes que tentei fazer algo diferente, que acha digno e justo, ganhei a alcunha de otário.
Me sentia um estranho, alienígena, um estrangeiro no meu próprio país.
Se defendo o que é justo, me chamam de sonhador, se brigo pelo que é certo, me chamam de bagunceiro, se cobro de quem tem de tomar atitudes, me mandam calar.
Eis a expressão de quem se instala no poder, no poder de fazer calar.

Mas ainda tenho um sonho, que não sou o único aqui que acha que esse chão é para mim e meus e os destes, que não acha que a melhor forma de viver é em cooperação com os outros, sem me aproveitar das fraquezas alheias, que existem outros como eu e que esses que me mandam calar, são apenas invasores, eles alienígenas de um que deveria já ter morrido.
Quero crer que a minha nação é de covardes.

Covardes porque não berram, como berram esses fanfarrões; covardes porque não lutam, não matam, como fazem esses assassinos, bárbaros; covardes porque não cobram, com medo.
Quero crer que sou mais um desses.

Nas lendas, sempre havia alguem que vestia as roupas de guerra e lutava pelos choros mudos, pelos gritos calados, pelas liberdades básicas negadas.
E a esse chamávamos de heróis.
Mas somos adultos, e sabemos que heróis não existem, a Terra dos Bravos é uma bazófia.

Que faremos então?

Um dos símbolos das legiões romanas era um feixe de palhas que, por simbolismo ensinado na alfabetização simbólica de todos nós, significa que, quando o Um é fraco, o Muitos torna-o forte.

Não sou herói, nem o seu bardo.
Só estou cansado de ter medo.


Tags: , , , , , , ,

Tags: , , , , , , ,

Leave a Reply

You must be logged in to post a comment.

友情链接:

南京装修网

南京装修日记

南京装修风水

南京装修验收

南京装修问题

南京装修家具