February 27, 2008 5

O país dos guarda-chuvas e outras praças

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publicado na Tribuna da Imprensa

O país dos

É fato sabido que os guarda-chuvas são criaturas temperamentais e matreiras mas, a despeito disso, conseguiram uma simbiose histórica com os seres humanos. Há milhares de anos os guarda-chuvas – assim como os cães, ratos e baratas – adaptaram-se às primeiras comunidades nômades de homo desapiedada e adaptaram-se perfeitamente.

A disseminação dos guarda-chuvas nas comunidades humanas está bem documentada por registros históricos, mas uma dúvida sempre pairou entre os biólogos que se dedicavam a estudá-los: “onde eles se reproduzem?”

Esse mistério foi recentemente resolvido por uma equipe multi-disciplinar de arqueólogos, biólogos e dançarinos de frevo que foram até o sul da China revelar, após dezenas de milhares de anos, uma área semi-virgem onde os guarda-chuvas se reproduzem após migrar por centenas de milhares de quilômetros do mundo todo.

Os moradores da província de Zhen-Cha – principal porto de captura, treino e exportação de guarda-chuvas selvagens do mundo – já conheciam os fluxos migratórios dessas criaturazinhas ariscas e ajudaram muito no mapeamento até a grande descoberta final.

Ainda restam alguns mistérios que envolvem esses animais exóticos como o processo de catalepsia controlada quando na presença de seus domadores e a fobia instintiva de ventos fortes que acomete a todas as espécies conhecidas de guarda-chuvas, sombrinhas e guarda-sóis.

O das

Ao sul do País dos Guarda-Chuvas, os pesquisadores fizeram outra incrível descoberta: o lendário Cemitério das Canetas Esferográficas.

Poucos seres humanos presenciaram a morte de uma caneta esferográfica em mãos, ou ainda, acompanharam o seu ciclo de nascimento, desenvolvimento e morte completamente, a ponto de não se saber a extensão de vida media desses animais sapientíssimos. Sabe-se, contudo, que eles revelaram-se à humanidade em meados do século XX, na França, e foram rapidamente integrados à sociedade e logo tomaram o lugar de um primo evolutivo seu: a caneta-tinteiro.

Os pesquisadores estranharam a forte presença de fósseis de bicos-de-pena e algumas tumbas violadas de canetas-tinteiro ao se aproximarem do País dos Guarda-Chuvas mas nada se comparou à surpresa de encontrar centenas de milhões de sepulcros de canetas esferográficas.

Algumas poucas canetas nativas da região foram entrevistadas mas nada conclusivo chegou-se até agora. Por outro lado elas foram bem receptivas ao descrever o Condado das .

O condado das meias

Esse outro palco de lendas foi revelado nessa mesma expedição, quase que por acaso, e a sua história revelada inteiramente pelos nativos residentes do Cemitério das Canetas Esferográficas. As meias – escravizadas há centenas de anos pela humanidade – tramam uma rebelião atávica desde o início de sua história conhecida.

Recentemente – cerca de quarenta anos atrás – elas criaram o plano ideal de fuga da tirania humana imposta a esses dóceis seres. As meias abandonam a sua metade inerte, como uma lagartixa abandona a sua cauda, e buscam locais obscuros nas habitações humanas – fundos de gavetas, máquinas de lavar e cestos de roupas – e fogem ao primeiro sinal de distração dos seus algozes. Das casas dos humanos até o Condado das Meias, há uma vasta rede mundial de canetas esferográficas que dá suporte e amparo às meias para que migrem até o seu destino final.

Emissários de diversos países estão se mobilizando para recapturar as meias perdidas.


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5 Responses to “O país dos guarda-chuvas e outras praças”

  1. giseli says:

    Cara, esse texto ficou ótimo! Gostei, principalmente da parte da reprodução dos guarda-chuvas hehe
    Bjos

  2. srta. rosa says:

    Hahaha, maravilhoso. Você já leu um livro chamado Dicionário de Lugares Imaginários? Muito bacana. Experimenta.

    Bezzo e ótimo final de semana!

  3. Erica says:

    Perdi seu site da minha lista de feeds e achei que não estivesse mais escrevendo! Mas que nada, tem até site novo!

    Dei boas risadas com seu texto, hehe. Já presenciei a morte de muitas canetas esferográficas – mas nunca uma morte natural. Elas sempre sofrem de morte súbita.

    Beijos!

  4. Marcio Paes says:

    Muito bom!
    Fazia tempo que não lia um texto seu assim livre dos pesos do mundo.

  5. [...] que transportava doces, outro transportava os perigosos e selvagens marmelos do oriente, lá do País dos Guarda-Chuvas, outro levava chuva e nuvens para o Norte Chuvoso, e outro era uma escola de bruxas [...]

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