publicado na Tribuna da Imprensa
Sentado na sala, esqueço o que está passando na telinha no momento seguinte em que as informações chegam à minha retina. Ali eu exercito a minha capacidade de memória de peixinho dourado de aquário. É delicioso me imbecilizar diante do mundo que passa sem fazer qualquer sentido. Os romances de mentira, as necessidades inventadas, as informações que não afetarão em nada a minha capacidade de produzir, interagir ou de entender o mundo. Tudo isso passa, passa, passa, passa, passa, passa, passa. E eu fico sentado ouvindo as pessoas me dizendo: “isso vai passar, cara, vai passar”.
Mas não passa.
É essa a questão. As coisas não passam sempre como na tevê. Por vezes o que resta de uma situação é a exaustão. É como quando num gozo. O evento em si é rápido, mas a sensação e o estupor levam um tempo até o esquecimento. Mesmo o suor demora em secar quando a paixão é muito intensa. Fica na pele como lembrança do desejo feito em ato. É sombra do esforço que terminou. E não passa como um comercial de trinta segundos. Ele tem o seu tempo exato para que os músculos relaxem e retomem a condição inicial. O tempo de cada história é diferente até mesmo para as pessoas que participaram.
É como aquele ator que só tem duas falas no início da novela e lá pelo capítulo cento e cinqüenta tem uma cena inteira só para si, passando cal na parede da casa nova que comprou com a mocinha rica que finge que é pobre por causa da irmã gêmea má que quer roubar o seu namorado pobre, bonitão, boa pinta e bom de cama que sairá na G magazine no mês que vem. O tempo dele é lento e só aparecerá mesmo quando a novela for esquecida. Só a memória da cena dele caiando a parede com uma expressão de cansaço é que ficará nos programas de reprise da vida.
No caso, eu falava do cronista que se largou na cadeira da sala e ficou vendo televisão para esquecer-se que a vida não é nem sombra do que planejara, de que trabalha com o que gosta, mas teve de abandonar as pessoas que mais ama para poder fazer isso, de que tem a sina de amar mais o amor que as pessoas e que se apaixona mais pela paixão que pelo ato em si e que já não está no target do seu público-alvo, que já é velho para ir a shows de indie rock, mas é muito novo para curtir os bares de jazz com sinceridade.
O fato é que a vida pesa e carregar esse fardo cansa. Aliás, cansa diariamente e é por isso que as pessoas dormem. Não tem nada a ver com essas teorias neurológicas aí não. É a exaustão de carregar a si mesmo todos os dias, de sol a sol, que faz o homem arregar ao cair da noite e procurar o aconchego de uma cama.
Não que esse esforço seja ruim, entenda-me. A opção a isso está definitivamente fora dos meus planos momentâneos. Sei que a inevitável se fará presente, mas bem preciso de um século e meio de amargura e azedume antes que a derradeira data chegue. No mínimo. Quero muito esforço, desgaste, coração partido, suor mal-seco no corpo, lençóis desarrumados, empregos que exijam de mim, bocas que se recusam a ser beijadas novamente e noitadas anacrônicas antes que eu descanse essas férias sem fim.
Afinal de contas, única sensação que vale a pena é a do cansaço.
Tags: aleatórios, amar, amor, cansaço, casa, cidade, crônica, crônicas, dia, Jazz, mês, oração, rock, romance, segundo, sol, sono, tribuna da imprensa
Oi, Zander, lindo texto. Suas metáforas me fazem ver as coisas de forma diferente. Espero que você viva sempre de cansaço, nunca de enfado. Eu também quero suor e esforço.
Um trecho de um poema do Drummond, que lembrei quando li a parte em que você fala sobre dormir:
(…)
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas por entre os mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
(…)
Beijo grande.
Esqueci de dizer, o poema se chama Elegia 1938.
Oi Zander. Faz tempo hein???Passei ra dar um oi. Beijao – ms*
<p>ruim é quando o cansaço não passa com a noite de sono…</p>
“… muito novo para curtir os bares de jazz com sinceridade.”, é, como diz a erica, sensacionais as suas metáforas, harry.
tenho sentido coisa parecida, tô meio música da marina lima, que aliás postei hoje lá no terapia… e sem inspiração para começar a escrever. tenho duzentos meios na cabeça, mas sem inícios, sem finais.
“C F
É porque eu quero que nada aconteça
Em Em/D# Em/D Em/C#
Não ando bem da cabeça
C F G G7
Ou eu já cansei de acreditar”
boa semana pra nós.
que eu tenha logo logo logo motivos e desafios para ficar bem cansada. desejo o mesmo pra você. de coração.
;*)
Também gostei do “bares de jazz com sinceridade”
Sei lá, vai ver que rolou uma identificação. Se bem que eu ignoro e acabo continuando adolescente indie, entende?
beijo
Oi Erica, Drummond é sempre ótimo. A não ser quando ele é apenas muito bom.
Monica, tenho lido o seu blogue via RSS e marco quase tudo que você escreve sobre branding. Tenho muito a aprender e tão pouco tempo…
Morena, ruim é cansar e não ter onde descansar. Eu, graças às fiandeiras, tenho amigos, família e colo. Beijos saudosos.
Rachel, o que importa é que o cansaço vem por conta do esforço e não por conta da desistência. Quero é cansar mais e mais.
Bruna, eu sou um punk de araque, um indie wannabe e um velhote em vias de. Claro que entendo.