January 22, 2008 9

Os céus azuis de São Paulo

By in textos, tribuna

publicado da Tribuna da Imprensa

Costumo acordar relativamente cedo às segundas-feiras.

É algo já bem enraizado na minha personalidade que não consigo apagar, mesmo com o hábito de nerdar até tarde com joguinhos de computador ou em mensageiros instantâneos que me mantém em contato com os e, principalmente, as amigas daqui e do Rio. Não sei quando esse mau hábito nasceu, mas acho que tem algo a ver com o meu desinteresse pelo Fantástico e o fato de eu ter de acordar às 5h da matina para ir ao colégio ainda no milênio .

Além desse hábito desagradável, tenho a estranha mania masoquista de insistir em sentir saudades das pessoas que passaram na minha vida. Pior. Tenho saudades de quem sequer se lembrará de mim na próxima ida ao cinema ou tomar um chope num quiosque no calçadão de Copacabana. Mas não os culpo. Como bom ariano, o meu gostar é egoísta: eu não espero que elas gostem – ou se lembrem – de mim, faço-o por minha conta e pronto! Nunca tive essa coisa de esperar retribuição de carinho, ou . Eu careço, quero e amo incondicionalmente. Nunca aprendi a agir diferente e não vai ser agora, na virada do cabo da boa esperança, que eu vou mudar o meu jeitão esquisitão de ser.

Estou com outra mania detestável. Essa, mais chique e tecnológica, me isola do mundo e dos ruídos do trânsito paulistano que me estressavam antes mesmo do expediente começar. Explico: no fim do ano troquei o meu lapetope Apple e comprei um iPod. Daí, posso agora escrever com muito mais tecnologia e processadores múltiplos as mesmas letras que escrevia antes no meu antigo iBook e a minha vida tem trilha sonora. Uma vasta, enorme e peripatética trilha sonora.

Outra coisa que estou criando nessa terra esquisita é um gostar do calor. Não estou dizendo que gosto de ver uns trinta e cinco graus nos termômetros espalhados pela , mas, diabos, é verão afinal de contas! Como assim acordar segunda-feira, às 6h30min da manhã, com uma temperatura de treze graus? É insalubre isso!

Esse preâmbulo todo foi para dizer que eu estava escutando Chico no meu iPod, no táxi, indo para o trabalho, numa manhã fria de segunda-feira e resolvi tirar os olhos do meu livro do Mário Prata – Cem Melhores – para olhar o céu e, putaquepariu, que céu! Que céu!

Como uma desgraça só nunca vem sozinha, o Chico me sussurra “Pedaço de Mim” ao pé do ouvido. Batata! Começo a soluçar como uma menina de seis anos que se perdeu dos pais e descobre que ser independente não é tão legal assim. É assustador, na verdade.

Me lembrei das pessoas que ficaram para trás na vida e eu não disse adeus. Daquelas que eu queria que estivessem do meu lado naquele momento, sentindo a brisa fria e luminosa da Faria Lima, que estivessem do meu lado – mesmo a mais de quatrocentos quilômetros de distancia – e com os mesmos projetos divididos, na minha que mais me ensina e que mal acompanhei os centímetros que viraram metro e sessenta e que provavelmente não verei chegar ao seu metro e oitenta.

Chorei porque eu não podia – juro! Por tudo que é mais sagrado! – descer do carro naquele instante, às 6h55min da manhã, tirar os sapatos, sentar na grama com orvalho, encostar-me numa árvore ou numa pedra e apenas curtir o céu azul de São Paulo. Chorei porque morreu dentro de mim alguém que faria isso sem pensar duas vezes na reunião que eu teria às 9h e curtiria aquele momento como se não houvesse amanhã.

Pra que, meu Deus, inventaram manhãs assim?


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9 Responses to “Os céus azuis de São Paulo”

  1. Gaborin Gaboriela says:

    Só inventaram manhãs assim pra dilacerar os peitos de quem sente, mas que é obrigado e conviver com os insensíveis….

  2. rachel says:

    mmmmf, você é um ariano muito chato mesmo, mas escreve bem à beça. tá lindo isso. parabéns, querido, emocionante.
    beijoca e boa semana,

  3. dehynha says:

    Foooooooodaaaaaaaaaaaaaa!!!
    Vc me emociona com manhãs assim… E me lembrou de uma manhã assim, só que no Rio,ou melhor, bem no vão central da ponte rio-niterói. A cena: céu azul, sol no nascente, gaivotas, vários barcos de pesca num mar quase parado. Brisa fresca… e no rádio “what a wonderful world”… ok, batido, mas lindo bagarái!
    Abração!

  4. Morena says:

    Existem manhãs assim, pelo mesmo motivo que exitem fins de tarde como esse: céu baixando dourado na face da pedra da gávea… nuvens redondinhas, vento com cheiro de mato, e gaivotas zombando da minha cara hipnótica atrás desse vidro insufilmado do 13 andar…

  5. andescva says:

    oi,

    teus textos são lindos. adorei, vou voltar…

    ah, o céu de outono de porto alegre é imbatível!

    abraço.

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