Minha querida menina,
Faz tempo, bastante tempo, que não te escrevo cartas que jamais serão lidas. A roda da vida mói almas e o Tempo, senhor de nossas vidas, gira essa roda com um certo sadismo. Especialmente quando as férias findam. Mas nada é desculpa para não escrever-te. Sei disso e me arrependo um bocado, pois depois que Tempo vier cobrar a taxa final, tudo que sobrará para ti serão palavras memórias e sensações.
Para as sensações, não posso fazer muito. Apenas conto com tua capacidade de te manteres sempre vívida e alerta pro mundo que te cerca, desta forma tu poderás ficar pronta, sempre pronta, para o “primeiro momento”. Não há êxtase maior que ouvir a primeira música da primeira banda amada, ler a primeira (ou última) página D’O Livro Preferido, o primeiro beijo da primeira paixão, o primeiro pôr-do-sol só, o primeiro alvorecer sóbrio. Mas essas são e serão coisas tuas, só tuas, apenas tuas. Não me atrevo a intervir ou aconselhar.
Para o segundo, fotos e músicas e filmes e cadernos ajudam bastante, mas teu coração terá que estar ainda aberto e atento. Nossas memórias e lembranças embaçam com o passar das décadas. Eu mal me lembro do menino de treze anos que eu fui. Mal me lembro do que gostava, dos filmes que assistia, dos desenhos que me animavam, das brincadeiras que me entretinham ou de quem eu amava perdidamente. Mentira. Do amor a gente nunca se esquece.
Mas a ideia é te deixar palavras, meu amor, e te escrevo porque senti falta de falar para ti das coisas que importam, contar-te verdades absolutas, referências que deixarás para os meus ou os teus netos. Arrumar uma penca de palavras que farão todo e nenhum sentido. Pena que as únicas palavras que valem a pena são as que ensinam a olhar a vida com o coração.
Então te deixo um pouco, não uma penca. Te deixo um conselho. Mira teu futuro com o coração, mas guia tuas pernas com a cabeça. Olha as pequenas coisas com a alma, mas entende-as com a razão. Crê que há um amanhã, mas entende lucidamente que nem sempre ele vem da forma que se imagina. Sonha, sonha muito e esquece-te de cada um desses sonhos ao acordar. Sê amiga, criativa, sincera, inteligente e ativa, mas aprende o momento de largar o osso, a usar uma roupa repetida e calar quando nada de bom vier à cabeça.
E acima de tudo, minha menina, meu amor, minha querida, aprende a sorrir. Teu sorriso comove mais que litros de choro que podeis derramar. Comove e é mais poderoso, em certo grau.
Do teu pai, distante, relapso e saudoso.
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