publicado na Tribuna da Imprensa
Eu sonhei com uma casa. Uma casa pequena, que tivesse trepadeiras de folhas verdes cobrindo toda a parede de frente. As raízes das trepadeiras carcomeriam os tijolos em que elas se apoiavam e entre seus ramos deixariam as moscas, lagartixas, aranhas, caracóis e outros animais de jardim morar. Elas também guardariam um pouco de seu frescor para liberar nos dias mais quentes de verão e amenizar o sofrimento do velho ranzinza que sentaria à sua frente com jornais que não foram lidos pela manhã e seriam a moldura e pando de fundo ideal para a cadeira de vime que teria a fôrma das ancas imensas e dos braços pesados do mau humor centenário. A cadeira e o reconheceria diariamente emitindo gemidos de aceite quando ele derramaria o seu cansaço milenar sobre o branco descascado de seu trançado.
Eu também sonhei com um labrador que eu viria crescer desde filhote. Ele corria nos quintais das casas da vila em que a casa com trepadeiras na entrada morava. Por vezes ele incomodaria o velho cansado com o seu ganir e quando a porta da casa com trepadeiras na entrada se abria, o abraço e o afago e a festinha acalentavam o cão que lambia as rugas solitárias do velho. Um prato de água e outro de ração estariam sempre no quintal que existia depois da última porta da cozinha. Mas a cozinha não teria trepadeiras. Nem o quintal. O cão sumiria entre as portas da casa e o velho retornaria à varanda da entrada da casa com trepadeiras.
Na vila não existiriam outras casas com trepadeiras, mas a rua entre as casas seria povoada por amendoeiras de copas largas, à semelhança daquelas que eu convivi quando morava em uma vila, em uma casa sem trepadeiras na entrada. As amendoeiras têm folhas largas, boas para se fazer marimbas e as crianças subiriam nos telhados para jogar as marimbas nos fios das pipas que se digladiariam no céu ensolarado de verão. As mães dessas crianças se desesperariam quando as vissem tão alto, tão entretidas, tão longe de si mesmas, tão perto dos sonhos. E as trariam para o chão sob ameaças de puxões de orelha, sovas e restrições alimentares. E não adiantaria muito, pois enquanto houvesse verão, amendoeiras e pipas, as crianças subiriam nos telhados e guerreariam com suas marimbas.
As disputas de bolas de gude e corridas de tampinhas de garrafa seriam os esportes nacionais da vila em que sonhei a casa com trepadeiras na entrada. Depois da troca de figurinhas, das peladas vadias, dos jogos de pião, das corridas de pegar, das cirandas e cantigas de roda, de ver o sol se por num telhado sem pipa ou marimba. E nos campeonatos teria sempre aquele que iria organizar tudo, o que desistiria no meio, propondo uma nova brincadeira, o que acharia chato tudo aquilo e a menina que iria propor andar de bicicleta e o menino que iria descer a ladeira da rua da vila no seu carrinho de rolimã.
Haveria também os vizinhos que deixariam as mazelas da vida adulta ao sentar nas suas varandas e respirariam o ar úmido e pesado do verão. Entre eles, o velho na cadeira de vime que ficaria na varanda da casa com trepadeiras na entrada, se lembraria da infância no subúrbio e que se lembraria que um dia sonhou com uma casa que tivesse as lembranças que amealhou nos milhares de anos de sua vida.
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