Catarina,
Minha herança para ti é pouca: alguns livros, alguns anos perdidos na escola e alguma instrução para o mundo formal. É isso que te deixo quando partir.
Não deixo automóvel ou apartamento, conta no banco ou empresas, ações ou sociedades. Deixo-te a ti mesma. Minha missão é ser arcabouço, estrutura, base para uma pessoa que será maior, melhor e mais que eu fui.
Mas algumas lições não se aprendem de pai para filha. Listo aqui as que aprendi não a fim de ser modelo exemplar, mas para te dizer que a vida tem a sua própria lógica caótica.
Se tiveres uma história parecida com a minha, minha filha, aprenderás que cada lágrima que tu derramares por um “não” dado por alguém, haverá outra que derramarão por ti. Não por justiça divina ou por ciclo cármico, mas porque o querer tem caminhos e razões impossíveis de serem advinhados e magoamos até mesmo aqueles que queremos bem ou queremos nada. Principalmente esses.
Para cada traição ou grosseria que receberes, saiba que cometerás três vezes ou mais. Trairás teus próprios princípios, teus quereres, tuas metas porque às vezes para ser fiel a si mesma entenderás, serás rude porque às vezes a doçura não é entendida como firmeza ou determinação. Verás que a gentileza às vezes cede à nossa essência reptiliana.
E que estar apaixonado é um vício bom, um mal desejado e querido.
O estar apaixonado é um querer bem de tão bem que quer, guarda-se de sentimento em caixa, em pacote de admiração. É um achar que o outro é maior que a sua sombra, é querer ser figurante se seu filme. É começar e terminar o dia tendo o rosto do outro na retina.
É saber que tudo que percorreres até ali valeu a pena porque o momento da paixão é o que te integra, o que dá a noção que és um, que há sentido e porquê na vida. É chorar em comercial de margarina e sentir o coração palpitar. É querer ficar em casa sem fazer nada só olhando para o outro. Ou não.
E o mais impressionante na paixão é que ela acaba. Derradeiramente acaba.
Catarina, não sei se serás uma pessoa sanguínea como teu pai, mas se herdares essa minha têmpera te prometo um futuro suado, sofrido e lanhado dos mazelos da vida. Mas valerá a pena cada segundo, cada lágrima, cada raio de sol.
É essa a minha derradeira herança.
Do teu distante pai,
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