Não vou listar aqui o que desejei no passado para 2005, 2006, 2007, 2008, 2009 ou 2010. Não farei o feito anual de redigir um texto neo-piegas, pós-cool desejando que o ano que se seguisse seja mais humano que nunca, que tivesse 366 dias, que nada acontecesse, que eu mudasse por dentro, que eu me tornasse uma pessoa melhor ou simplesmente que ele termine.
Não farei isso! Nunca!
Ou não.
Os anos terminados em 1 que, curiosamente, se repetem em décadas, são definitivos para mim. Definitivos em derrotas heróicas, massacres fragorosos, dignos de armadas espanholas ou de esquadras chinesas contra o vento.
Listo-as.
Em 1981, vi-me criança feita, formada, sadia, pronto para encarar a adolescência – essa aberração social – e completamente preparado para o futuro. Nunca poderia estar tão errado. Nada prepara o ser humano para as flutuações hormonais e a falta de papéis definidos que a sociedade moderna nos apresenta. E os meus dez anos foram uma síntese do adolescente ridículo que eu me tornaria. Nada prepara o homem para o ridículo.
Em 1991, fui apresentado à vida adulta e eu tinha planos. Muitos planos. Alguns de conquista global, outros de enriquecimento ilícito. Muitos de realização egóica que, obviamente, foram soçobrados repetida e vigorosamente pelo tempo que se seguiria. Ainda bem. Nada prepara um jovem adulto a encarar o não-plano, o não-projeto. Principalmente àqueles que querem realizar coisas, que querem fazer a diferença. Nada prepara para a frustração.
Em 2001, fui apresentado aos meus limites. Era um balzaca recém-ingresso e tive que abrir mão do que amava e achava sólido para que todos os envolvidos no processo pudessem crescer. Fiz uma promessa que cumpro até hoje. Voltei a escrever bissextamente e abri mão dos sonhos, dos planos, dos projetos e deixei a vida contar para mim a minha história. Descobri que era melhor ouvinte que storyteller e tomei algum ciso. Obviamente isso foi fruto da derrota do convívio. Nada prepara o ser adulto para a solidão, para o reconhecimento que não será aceito de forma completa. Nada prepara o indivíduo para a perda do amor. Nada prepara o homem para o adeus.
Em 2011 já antecipo movimentos. Estou na curva descendente do “modismo”. Deixo de ser experiente para ser vintage ou “clássico”. Ambos eufemismos para velho. Sou velho e assumo que a velhice está entre as orelhas (e não na carteira de identidade) e assumo que o futuro cada vez mais me assusta com seus prognósticos. Não me vejo mais saudável ou inteligente ou culto ou charmoso ou potente. Não me vejo mais disposto, atento, convincente ou antenado. O oposto, sempre o oposto, é o que me espera. Nada prepara o homem para a morte, essa obviedade única e democrática. Eu não estou preparado. Acho que nunca estarei. Mas se a coisa for clara e anunciada, talvez eu consiga conviver com ela como um tique nervoso
ou uma mancha na retina que a gente vê e ignora.
Então, para 2011, desejo que sejamos óbvios, por motivos idem.
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