November 11, 2010 7

A indefectível mensagem de fim de ano retorna mais uma vez. De novo!

By in textos

Não vou listar aqui o que desejei no para 2005, 2006, 2007, 2008, 2009 ou 2010. Não farei o feito anual de redigir um texto neo-piegas, pós-cool desejando que o ano que se seguisse seja mais humano que nunca, que tivesse 366 dias, que nada acontecesse, que eu mudasse por dentro, que eu me tornasse uma pessoa melhor ou simplesmente que ele termine.

Não farei isso! Nunca!

Ou não.

Os anos terminados em 1 que, curiosamente, se repetem em décadas, são definitivos para mim. Definitivos em derrotas heróicas, massacres fragorosos, dignos de armadas espanholas ou de esquadras chinesas contra o vento.

Listo-as.

Em 1981, vi-me criança feita, formada, sadia, pronto para encarar a adolescência – essa aberração social – e completamente preparado para o futuro. Nunca poderia estar tão errado. Nada prepara o ser humano para as flutuações hormonais e a falta de papéis definidos que a sociedade moderna nos apresenta. E os meus dez anos foram uma síntese do adolescente que eu me tornaria. Nada prepara o homem para o .

Em 1991, fui apresentado à vida adulta e eu tinha planos. Muitos planos. Alguns de conquista global, outros de enriquecimento ilícito. Muitos de realização egóica que, obviamente, foram soçobrados repetida e vigorosamente pelo tempo que se seguiria. Ainda bem. Nada prepara um jovem adulto a encarar o não-plano, o não-projeto. Principalmente àqueles que querem realizar coisas, que querem fazer a diferença. Nada prepara para a .

Em 2001, fui apresentado aos meus limites. Era um balzaca recém-ingresso e tive que abrir mão do que amava e achava sólido para que todos os envolvidos no processo pudessem crescer. Fiz uma promessa que cumpro até hoje. Voltei a escrever bissextamente e abri mão dos , dos planos, dos projetos e deixei a vida contar para mim a minha história. Descobri que era melhor ouvinte que storyteller e tomei algum ciso. Obviamente isso foi fruto da derrota do convívio. Nada prepara o ser adulto para a solidão, para o reconhecimento que não será aceito de forma completa. Nada prepara o indivíduo para a do . Nada prepara o homem para o adeus.

Em 2011 já antecipo movimentos. Estou na curva descendente do “modismo”. Deixo de ser experiente para ser vintage ou “clássico”. Ambos eufemismos para velho. Sou velho e assumo que a velhice está entre as orelhas (e não na carteira de identidade) e assumo que o futuro cada vez mais me assusta com seus prognósticos. Não me vejo mais saudável ou inteligente ou culto ou charmoso ou potente. Não me vejo mais disposto, atento, convincente ou antenado. O oposto, sempre o oposto, é o que me espera. Nada prepara o homem para a morte, essa obviedade única e democrática. Eu não estou preparado. Acho que nunca estarei. Mas se a coisa for clara e anunciada, talvez eu consiga conviver com ela como um tique nervoso
ou uma mancha na retina que a gente vê e ignora.

Então, para 2011, desejo que sejamos óbvios, por motivos idem.

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November 9, 2010 0

Eleven Legs – Martini Street

By in letras de música, poemas

Eleven Legs – Martini Street

I lost myself in Martini Street
I lost myself in River Street
All of my mind in a daydream bottle
All of my mind in a wave of sorrow

Walking on a razor balde
Running form a reasoned fate

I’ll call my drinking dreams
Then I’ll cut all my strings

And I’ll forget my way home
And you know I’m looking for some home
And I’ll put me back on my way to home
To Martini Street

ouça aqui!!

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October 25, 2010 3

Os beijos vadios

By in textos
Beijo - Foto de Bia Moraes (c)

Beijo - de Bia Moraes (c)

Os roubados são os melhores. Eu já me apaixonei por meninas que tinham absolutamente nada a ver comigo. Nunca acreditei nessa história que os opostos se atraem. Os opostos são opostos e só. Ao mesmo tempo nunca me neguei a alguém por causa de um detalhe. Ou vários detalhes. Amei morenas, loiras, ruivas, jazzistas, roqueiras, sambistas. Eu e o Martinho da Vila. Eu não tinha e não tenho regra.

Mas, dentre todo esse desregramento, sempre tinha algo em comum em todas elas. Obviamente o atento leitor percebeu que era (é) o beijo. E existem diversos beijos assim como existem diversas formas de se beijar. Beija-se distraidamente, beija-se com convicção, beija-se para calar, beija-se para despir, beija-se por até. Mas o sôfrego e apelativo beijo de bambear as pernas e estourar os sapatos é o que me faz virar a cabeça e dizer: “eu caso!”.

Afora esse beijo, tem um outro que eu chamo de beijo vadio. É um beijim que se anuncia na despedida ou numa apresentação. É um roçar de latarias dos dois dragsters potenciais. É o canto da boca que quer a língua do outro, mas o pudor não deixa no momento: é cedo demais para o ato. O que excita mais nesse caso é que fica aquela promessa de beijo, é algo que pende no ar e se transforma numa promessa de volúpia que me encantava e encanta.

Muitas vezes a história em si nem rendia, nem passava daquela coisa meio acidental meio safada meio casta meio tímida e era adeus e nunca mais. O superego racional logo cortava a potencialidade ali mesmo.

Mas a promessa… ah… essa guardava tantas possibilidades dentro de si… que delícia de inventado.

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October 22, 2010 5

quero morrer de distração

By in textos

taí.

quero morrer distraído. morrer sem sacar que a vida acabou. morrerei achando que ainda tem um amanhã, que ainda haverá roupas a serem lavadas, a serem lidos, músicas a serem escutadas, para serem doídos, jogos para serem roubados e um canto de grama e sombra que me confortará. morrerei achando que minha me ama, minhas me amam, meus me amam e meu senhorio me odeia. defuntar-me-ei crente que haverá uma conta nova a pagar.

e provavelmente haverá.

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October 13, 2010 0

Toque outra vez, meu amor

By in textos

Morava há anos no mesmo furdúncio que descolara num golpe de sorte com uma ex esquisita. Ela se fora com algumas lembranças ruins e deixara o contrato do aluguel com ele. O contrato, alguns móveis, uma grande almofada e algumas revistas bolorentas. As revistas foram pro lixo, os móveis doados assim que ele os repôs com memórias de outras namoradas e a almofada teve sua capa trocada. Tudo de acordo com as normas de Feng Shui que ele mesmo inventara.

O cantinho era espaçoso, ajeitadinho e ele tratou de povoá-lo com e garrafas vazias de uísque, vodca, importada, , absinto, o escambau. Se fosse líquido, ele bebia e guardava a garrafa para alguma utilização esdrúxula. Desde o garrafão cortado ao meio de Sangue du Bois que virou um porta-jornais às garrafas de tequila especiais que duram na geladeira refrigerando líquidos mais nobres. Mas isso era apenas um índice da coisa toda.

A decoração por si só era um amontoado de histórias. À semelhança das casas das avós e tias centenárias, ela amontoava não só a memorabilia, os mementos do morador, mas era um acúmulo de diversas vidas que cruzaram com a dele. O incrível era que conseguia se lembrar com detalhes – e fazia questão de contar a quem quisesse – de cada causo de cada item da casa, independente da sua (ir)relevância real. Os cartazes, os bibelôs, os tapetes, mesmo as garrafas vazias e os livros, tudo tinha um causo, um nome e, normalmente, uma mulher envolvida. Ou várias.

Uma das poucas coisas que ele dizia que não tinha causo ou história era o tal do violoncelo – que ele, pernóstico, insistia em chamar de tchelu – guardado desafinado e empoeirado atrás dos sofás da sala.

O cello era uma presença muda na sala caótica. Se perguntavam se ele tocava, ele não tocava. Se perguntavam se ele gostava de clássica, ele não desgostava e não amava. Se perguntavam se era de decoração o bicho, ele achava-o horroroso. Se perguntavam se valia dinheiro, ele não sabia nem quanto custava para tirar o treco dali. Ainda assim, meio por inércia e meio por charme, o cello permanecia incólume, impávido e assunto inexorável para as visitas.

(Aí tem a virada na história, né? a gente – essa gente que se predispõe a escrever – tem que colocar virada na história para ela ficar interessante e dar liga para quem lê. E o que seria da gente que tem história para contar se quem lê não dá bola nem pelota para o que a gente diz?)

Certa feita, certa moça resolve entrar na vida do moço (que de moço tinha bem pouco) e você já pode adivinhar o que ocorre, né? ele cai de quatro pela moça, fica embasbacado e, como em toda história de verossímil, rola um lance ela não liga mais para ele e ele fica na mão. Literalmente.

Acontece que a moça curtiu o cara a ponto de voltar mais uma, duas vezes. Sempre de forma irregular. Não muito diferente do que os moços com muitas opções fazem. Afinal essa coisa de romance é questão de oportunidade de convencimento, né? Um convence o outro que é o the one e ambos seguem juntos até verem que não é bem assim, que não existe essa parada de the only and sonely one mas que é legal ficar juntos e tal e bora pra frente que a vida não pede licença para acabar e vem chegando e arrastando a gente pela corrente sem fim de acontecimentos. Ou cai a ficha e ambos dão o pinote antes que virem inimigos ou se odeiam por anos a fio e todas as variações que todas as novelas já exploraram de forma exaustiva e cacete por esses anos todos.

Mas teve tal dia que a moça resolve passar a noite com ele. Estava triste, carente e ele nem era tão feio e nem tão chato e nem tão ruim de cama que não rolasse um cafuné pelado dessa vez. De manhã, ela – já linda, linda – sacudiu os cabelos que agora usava curtinhos e platinados para espaços que não existiam mais. Era um carinho eventual auto-indulgente que virara um tique dos tempos que as melenas eram mais longas. Ele já sabia porque ela havia confessado que queria deixar crescer um pouco antes do fim do ano e ele mentiu que também pensava em deixar crescer mas o que queria dizer é deixa eu vê-lo crescer a cada dia, todos os dias até que ambos ficassem grisalhos e velhos e os netos iriam zombar dos cabelões do avós e eles iriam rir e morrer felizes.

Ela foi nua até à sala e fitou o cello. Disse para ele que queria dançar – nada a ver com o instrumento, só que ela achava interessante aquele bicho marrom no meio da sala bagunçada – e disse que queria riscar o chão. Falou isso como quem conhecia bem o jargão da noite como quem já rodara por todas as academias e rodas de bolero pagode choro valsa funk e tango da . Tá faltando alguém com brio de encarar a loira aqui, brincou com ele, e tá faltando um lugar legal também. Saí da festa anteontem arregaçada de vontade e necas de pitibiriba.

Ela se vestiu logo depois e deu beijo de adeus até não sei quando te ligo não me liga, tá?

Quando voltou da porta fechada, ele olhou de novo pro bicho vermelho. Nunca vou aprender a tocar essa merda mesmo, sentenciou.

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September 29, 2010 0

historieta

By in textos

o menino conhece a menina e se encantam.

viram noite e e mal põem as roupas e riem bobas e se chocam com as coisas sérias e quebram camas e comem feijoadas. eles bebem cachaça e vinho e comem peixe cru e vivem cinco meses de putaria paixão carinho piada e mais carinho. daí é tempo pra vida e a vida dá tempo para que eles passem sozinhos e vejam rostos corpos conversas mas nada era como antes e nada fora do jeito que fora. pelo menos ele achava assim. ele quisera que as que tiraram juntos fosse a história pra sempre felizes para sempre. mas a moça pensa diferente. eles em choro e papo e carinho dizem adeus e a historia termina aí.

mas tem outro parágrafo cinco anos depois quando eles se vêem de novo e ele balança como sempre balançou ao ver as fotos, ouvir as músicas que ele não gostava mas ela amava e ele passou a gostar de chico e ela de roquenrou maluco e eles se flertavam mas a vida vadia ficou entre eles e eles não se amavam mais porque amor é coisa que se conjuga dois. amor sozinho é maluquice, é punheta, é coisa de gente velha que deixou as pessoas morrerem antes dele e ficou para contar história de todos que nem lembra mais. ele olha a moça bonita e nem é moço mais.

ela diz que ama ama e ama e o amor dela é tão grande que o coração vai embora e passeia no mundo no xingu no meio do mato com os índios e deixa rodar pelo mundo. enquanto roda ela se diverte com os meninos tolos mas o coração volta e volta com e vontade e ela deixa os meninos irem embora moídos e quebrados e quando o coração volta traz tristeza e vontades que não ficam juntas que não ficam no mesmo teto.

o velho ouve a moça e quer ser moço de novo para . mas é para os moços e para as meninas de saia esvoaçante. para quem sabe que a vida é uma história a ser contada e não recalque, e desejo macerado.

o velho só tem a si e a história acaba.

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September 28, 2010 0

tocata e fuga em dó maior

By in poemas, textos

ai que me apaixono pelas tuas ausências.
ai que me encanto por tuas faltas.
ai que me enrolo em tuas escapadas.
ai que me doo sem teu retorno.

é tu que me foges, me negas e me caças.

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September 16, 2010 5

Das ausências

By in textos

caiu e quebrou o braço e engessou-o e ficou boa e teve o primeiro flerte na escola e o primeiro admirador e foi no primeiro show de roquenrou e teve os seus períodos e já não é mais a menina bonitinha, mas a moça que se engraça a cada dia mais.

Ela escolhe cadarços, posta no tuíter, fica de castigo, tira notas ruins, aprende a tocar violão e baixo e teclado, brinca com o irmão como uma “superior” e derrete-se em lágrimas e e hormônios adolescentes irracionais que irão lapidar da personalidade impertinente e irritante da moleca que nos abandona uma belíssima mulher.

Me pede , que os dela já “acabaram”. Pede os da moda, os legais, os que jamais lerá (os que eu escolhi), pede para ir ao , para comprar uma revista, um gibi, um brinquedo e um doce. Pede um beijo e uma promessa de presente de fim de ano legal e que eu já tenho de bolar na cabeça. Talvez uma guitarra, talvez um cascudo se não passar de ano, talvez um Nintendo DS.

Conhece bandas que eu nunca ouvi ou ouvirei, conhece atores que nunca curti, programas de tevê que eu não tomo ciência, divide tudo comigo e eu simplesmente – e atavicamente – ignoro. Teimo ainda que tenho mais a ensinar que aprender e ainda não chegou o momento em que me convenço que estou enganado.

Enganado. Nunca errado.

Ficou comigo um fim de porque a bisa tava doente, a ficou com a bisa e mãe tinha viajado. Teve cafuné, papo, macarrão colorido, doce, , beliscão, implicância e a sensação que estou perdendo um tempo precioso com coisas que não me dão o alento devido como , noites, farras e jogos de computador.

Dessa maneira torta, toco a vida sabendo que a pessoa – o protótipo de gente – que é o ser vivo mais importante na minha história, cria-a sem a minha presença, sem a minha influência diária, sem a minha sombra a fazer-se temer, honrar ou .

E cria-se bem.

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September 12, 2010 0

em um mundo perfeito…

By in fotos, fotos dos outros

eu quero…

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September 11, 2010 0

histórias de sexo casual

By in textos

…as minhas variam entre o patético e o sublime (que descambam pro melancólico), mas tem uma que é contável.

Eu trabalhava na e saí para uma festinha com o pessoal do . era aniversário do editor da finada e saudosa e fomos todos encher os cornos de . À época, para mim era um evento quase teórico, exercitado diariamente em experiências solo, aquela coisa que adolescente faz incessantemente até quebrar alguns recordes e um nerd tru faz até achar o tom de voz com o desejado.

À mesa das libações estavam os nerds-varões da redação e quatro meninas. Era a turma toda da redação e mais uns agregados da Geográfica Universal que foram cooptados pela simpatia do Sérgio, editor-chefe. Depois de uma garrafa e meia de tequila e diversas doses de álcool variado, propus a uma delas — a mais gatinha, a mais lindinha, a mais improvável — um estica no bar Empório, em Ipanema. ela, para minha total surpresa e estarrecimento, topou.

Depois, no botequim, rolou um papo aqui, uma bebida ali, acabamos no Vip’s, no caminho de São Conrado. Disso só sei por conta das lembranças do motel que vieram no meu bolso porque desde o momento em que sentamos no boteco até o meio do seguinte só tenho lembranças pontuais de beijo, toque e carinho e da cara de desespero da menina ao acordar, olhar os corpos nus e dizer: “Zander? VOCÊ?”

Daí foi só constrangimento e carona para .

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