Hormones

Blind Melon – Change

November 12th, 2006

I don’t feel the sun’s comin out today
It’s staying in, it’s gonna find another way.
As I sit here in this misery, I don’t
Think I’ll ever see the sun from here.
And oh as I fade away,
They’ll all look at me and say, and they’ll say,
Hey look at him! I’ll never live that way.
But that’s okay
They’re just afraid to change.
When you feel your life ain’t worth living
You’ve got to stand up and
Take a look around you then a look way up to the sky.
And when your deepest thoughts are broken,
Keep on dreaming boy, cause when you stop dreamin its time to die.
And as we all play parts of tomorrow,
Some ways will work and other ways well play.
But I know we all can’t stay here forever,
So I want to write my words on the face of today.
And then they’ll paint it
And oh as I fade away,
They’ll all look at me and they’ll say,
Hey look at him and where he is these days.
When life is hard, you have to change.

O quarto cara

November 10th, 2006

texto publicado em LIVinRooom

publicado na Tribuna da Imprensa

Ela chegou em casa e ligou o micro quase como um ato de desespero físico. Queria algo para se ocupar que não envolvesse álcool, tabaco, música alta para dançar e homens despidos. Ali ela podia, enfim, degustar a exaustão que o fim de uma festa proporciona. Parecia que a fadiga de anos torcia qualquer expressão naquela hora. Não sorria, nem chorava, tampouco se entendia com o que o corpo pedia. Estava à beira de um divórcio consigo mesma. Talvez fosse uma maldita TPM fora de hora ou o resto de um mal estar com a comida do bandejão da empresa. Ou então a maior ressaca moral de sua vida.

Enquanto tirava a roupa se lembrou de diversas situações erótico-engraçadas. Nenhuma dessas envolvia os rapazes que devorara recentemente. Assustou-se quando viu que a maior parte deles era com o Claudinho, amante de priscas eras. Ele, definitivamente sabia entreter uma mulher por bastante tempo. Por dois anos, de fato.

Colocou as mãos entre as pernas e lembrou-se, delicadamente, dele. A ardência da atividade do feriado estendido fê-la lembrar de quão animados, curiosos e criativos eles eram. Viviam colados e transavam em toda e qualquer oportunidade que a vida lhes dava. E, saibamos que a vida dá muitas oportunidades para sexo de entretenimento quando se tem vinte e poucos anos.

Soube que tinha extrapolado os limites quando fez a conta mental e realizou que tinha se deitado com o terceiro homem diferente em apenas um feriado estendido. Só não era algo digno para entrar no livro dos recordes porque sabia que Amandinha tinha feito dezesseis num carnaval passado.

Entrou no banho e deixou que a água morna lavasse o suor de três dias de farra acumulada. Depois tapou o ralo da banheira e sentou-se sob o chuveiro, esperando que a água chegasse à borda. Derramou um pouco de sabonete líquido na água e fechou os olhos para relaxar em cozimento leve.

Sentiu latejar mais uma vez, mas ignorou. Conferiu mentalmente se tinha usado camisinha em todas as vezes e supôs que sim. É claro que sim! Com certeza! Espero. Será? Iria conferir com os rapazes após acordar do sono de beleza, algumas horas depois.

Acordou ainda ressacada, ao meio-dia. Brigou com o travesseiro e os lençóis que não a deixavam ter o sono entorpecido sem sonhos. Imagens caleidoscópicas lhe fizeram doer a cabeça e a luz do dia pleno em nada ajudava. Xingou os fabricantes de cortinas vagabundas que a convenceram a dispensar o blackout que a defenderia desses infernais momentos. Abençoou os inventores do ar-condicionado quando se levantou para trocar a regulagem do mesmo de “muito frio” para “frigorífico caseiro”.

Caçou quatro aspirinas na gaveta e catou um copo de água na cozinha. Encheu-o de coca-cola e se arrastou como moribunda pela quitinete até voltar ao longínquo quarto gelado. Engoliu os quatro como se fosse uma panacéia universal e tentou dormir mais uma vez.

Quando a enxaqueca já anunciava que tinha comprado as passagens de ida para a terra das lembranças dos males que o álcool faz, o telefone tocou. Elisa acordou de supetão e ficou encarando o celular como se não acreditasse no que estava acontecendo. Tocou duas, três vezes e parou. Não era o Cláudio. Obviamente não. Fazia mais de ano que eles tinham tido o seu último revival. Tocou novamente. Ana. “Mulher. Tu não sabe quem eu acabei de ver aqui na praia!” “Hmmm.” “Claudinho!” Putaquepariudequatro.

“E sabe por quem ele perguntou?” “Hmmm.” “Por você, amiga! Esse homem não te esquece, boba! E aí… noite boa ontem?” “Depois te ligo, Ana. Beijo. Te adoro.”

Desligou rapidamente, jogou o aparelho no pé da cama e ficou encarando o Nokia rosa. Dormiu oito horas seguidas e ligou prum dos bofes para mais uma rodada de esquecimento fácil.

Poemeto

November 7th, 2006

O que lhes digo é a verdade
a mais pura verdade
aquilo que não pode ser negado

Digo-lhes que não existe o “falar o sexo”

Afinal quais palavras podem traduzir
o prazer do roçar dos corpos?

os cheiros?
os gostos?
os gemidos?
os tremores?
os suores?

as acrobacias desastradas?
os vexames ali revelados?
a exposição desavergonhada?
os calores gerados?

o gozo o gozo o gozo

não existe o falar o sexo.

O pai de seus filhos

November 3rd, 2006

texto publicado em LIVinRooom

texto publicado na Tribuna da Imprensa 

Elisa recebeu o telefonema logo pela manhã. Mal tinha terminado a profilaxia bucal e já tinha de dar satisfações sobre a troca de saliva do fim de semana recém-encerrado. Após o usual papo de quarenta e cinco minutos, conseguiu se desvencilhar da criatura que a alugava e terminar de se arrumar para o trabalho. No caminho, algum trânsito e devaneio. Parou na Barão da Torre para pegar Ana, que era carona certa e confidente matutina.

Dado momento no caminho para São Conrado, Ana teve de salvar o celular da amiga do suicídio certo. Uma curva mais brusca fez deslizar o telefone pelo painel do carro. Quase que o bichinho tem a sua primeira lição de vôo.

Curiosa, resolve fuxicar nas mensagens da amiga.

“Sexta-feira, 17h43min – Saio do trabalho em meia hora. Passo aí e já emendamos ou espero você ir para casa? Beijos.”

“Quem é o bruto?” “É novidade. Quis brincar de namorado no fim de semana.” “Aprovado?” “Sei não. Talvez. Beija bem.” “Bom sinal.”

Ana estranhou o silêncio da amiga. Bom. Talvez fosse apenas uma fodeca temporária e sem importância. Continuou a fuçar.

“Sexta-feira, 21h24min – Estou na portaria. Beijo.”

“Sábado, 12h02min – Adorei ter amanhecido com você. Cinema hoje? Já com saudades.”

“Sábado, 20h02min – Estou na portaria. Beijo.”

“Domingo, 10h37 – Já tomou café da manhã? Garcia e Rodriguez?”

“Garcia e Rodriguez, amiga?” Ana não conteve o deboche.

“Que que é isso? Não se pode ter mais privacidade?” Elisa riu um bocado.

“Vamos parar no posto para comer alguma coisa? Tô faminta.” “Por mim, ok. Estamos adiantadas mesmo. Aproveita e me conta do bofe.” “Não tenho muito a contar. Ele é bonito. Tem um bom emprego. É asseado.” “Asseado? E isso é qualidade que se atesta no curriculum de alguém?” “Deveria constar. Cansei de homem que não troca as cuecas ou apara os pentelhos. Bom… ele é asseado, beija bem, atencioso, carinhoso. Inteligente. Mas não muito. Culto, sem ser pernóstico. Cavalheiro, sem me subestimar. Enfim: quase perfeito.” “Por que quase? Para mim tá perfeito. Já sei! Péssimo na cama?” “Não.” “Mas o que tem de errado no mancebo, mulher?” “Nada.” “Acho que entendo…” “Pois é. Esse é o pai dos meus filhos.” “Mas você não quer ter filhos, Elisa.” “Exatamente. Não agora. E eis que me aparece o príncipe encantado.” “Que merda!” “Nem tanto. Vou administrando. Se ele se revelar um sapo ou um chato, descarto. Caso contrário…” “Caso contrário o quê, Elisa?” “Caso contrário, me caso com ele, ora.”

Entraram no carro. Ana ligou o rádio e, na mesma hora, o telefone vibrou. Mais uma mensagem de texto.

“Posso ver?” “Claro. Dificilmente ele mandaria algo impróprio para mim.” “E se for uma cafajestagem de um outro qualquer?” “E cafa manda mensagem de texto?” “Ô se manda!” “Pode ver sim.”

“Segunda-feira, 7h46min – Minha linda. Adorei o domingo. Vamos jantar?”

A mensagem decepcionou Ana, que esperava ver algo mais picante. Mas é claro que o homem perfeito não faria essa deselegância com a sua lady. Previsível. Ana olhou a amiga que estava estranhamente compenetrada na direção. No rádio tocava uma músia do Aldir Blanc. Contava a história de uma ex-amante que arruma um bom partido.

“Finalmente teu garoto/ vai ter um pai de primeira/ você mais segurança e um pingüim na geladeira/ na cabeceira um relógio/ a hora mais luminosa/ churrascaria aos domingos/ dois bombons e uma rosa.”

Virou-se de novo para Elisa que catava os óculos escuros ao sair do túnel Zuzu Angel.

“Não há xampu não há creme/ que apague ou que desmarque/ da tua pele o meu beijo/ fedendo a conhaque.”

Elisa reprimiu algo em si e as amigas ficaram em silêncio até o carro ser estacionado. Na saída falou entre soluços.

“Eu não o amo, amiga. Não o amo.”

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October 30th, 2006

Big Chico

October 27th, 2006

publicado em LIVinRooom

publicado na Tribuna da Imprensa.

Chicão era um negro arretado: alto, forte, esguio. Sedutor como poucos, sabia achar o caminho para a alma e as pernas das moçoilas desavisadadas de Ipanema, Leblon e adjacências. Arrebatava corações e demais partes da fisiologia feminina de Tijuca, Estácio, Lins, Rio Comprido e cercanias da Praça da Bandeira. Flertava com as meninas boêmias de Botafogo e Flamengo e encantava as radicais da Lapa e Centro da Cidade. Era desejado pelas putas da Avenida Atlântica e tinha um lugar cativo no coração daquela beldade do Leme.

Apesar de transitar por tal repertório ele era, acima de tudo, um romântico.

“Porra Chicão, tu tá na fossa de novo?” “Deixa o cara, Gordo! Tu não pode ver o negão triste que vai logo tirar uma com a cara dele!” “Aí, Grande! Tu não se mete no meu assunto com Big Chico que fico na moita com aquele probleminha que tu sabe…”

Gordo era um dos amigos mais antigos de Chicão. Uma característica engraçada de Gordo é que ele não dizia, quando chegava o momento, que “tinha amigo(s) negro(s)”. Sabe naquela hora que alguém vai fazer um comentário neo-eugênico ou pró-discriminação e fala: “mas isso não quer dizer que sou racista, eu até tenho amigos negros…” Pois é. Gordo não tinha amigos negros ou viados ou chineses. Tinha amigos. O fato de Chico ser negro ou do Burro ser judeu eram meros complementos. Como o pau pequeno do Grande.

Se conheciam de peladas na praia desde os doze anos. Gordo até fazia um esforço para jogar alguma coisa na adolescência, mas descobriu que ser amigo de Chicão garantiria o efeito desejado sem ter o suadouro de correr sob a Lua de quarenta graus. Saca os abutres que ficam acompanhando os grandes caçadores? Era essa a tática que Gordo usava. Como Chico não podia comer todas ao mesmo tempo, ele ficava com as “sobras” do negócio.

Perderam o contato quando foram para a universidade. Gordo foi para a Cândido enquanto Chico foi para Havard com bolsa pelo desempenho na escola Americana. Depois foi fazer o mestrado em Marketing na UCLA com grana que economizara do seu parco salário de cinco dígitos numa das big five de consultoria. Voltou rico de investimentos feitos na bolha das pontocom e vivia de rendas em Euros no país do Real.

“Falaí Chicão. Que foi dessa vez?” “Pô Gordo, tô na merda.” “E como pode isso?” “Porra cara! Eu não aprendo. Tá ali a menina. Na minha frente. Linda, linda, linda.” “Já sei, cara… conheço bem essa história.” “Que história, galera? Sévys, desce um chope para mim. Escuro. Qual é o assunto da vez?” “Sentaí, Burro, e cale a boca. Chicão tá apaixonado e broxou na hora H.” “Não porra! Quando o negão aqui broxa, tem tsunami no outro lado do mundo!” “Péssimo exemplo, Chico.” “Verdade, Grande. Mas não tem a ver com broxada. Nem com pé na bunda.” “Não?”

Os três olharam embasbacados pro cara.

“Cara, tava tudo perfeitinho: amorzinho, carinhozinho, declarações, paixonite, vontade de ficar junto o tempo todo e tal, tesão de um lado e de outro. Tudo muito certinho, sabe? Mas aí foi, comemo-nos uma, duas, três, quatro…” “Porra, caralho! Não precisa humilhar!” “… cale a boca, Gordo! Cinco vezes. Daí banho, a menina se levanta, pega o telefone e pede a conta.”

Ninguém entendia onde o negão queria chegar

“Eu disse: ‘Poxa bem, fica um pouco comigo, dorme aqui, vamos acordar juntinhos’, E ela disse: ‘Lindão, tô só provando uma teoria.’ Caiu o meu queixo enquanto ela pediu um táxi, pagou a conta do motel e ainda me mandou a rima: ‘Paguei o restante do pernoite, Fica bem, viu?’”

“Putaquepariu! Que nego de sorte!!!” “Porra Burro, tu não tá vendo qual é o problema? A mulher usou o Chico para ser o modelo número dois de homem.” “Cara… tu tava com a Elisa?”

Chicão ficou lívido.

“Era a Elisa sim, Grande.” “Filha da puta! Tu é o tipo de homem número dois.” “Como assim, cara.” “Ela diz que a mulher tem de ter quatro tipos de homem na vida. O segundo é o Negão. O cara com o pau de seis metros e duzentos quilos que lhe dá uma sova de pica e mostra para que o Kama Sutra foi escrito. Saca o ‘Deus de Ébano’ da Fórum? Lembra? Pois é. Ela pegou um que, além de boa-pinta, é resolvido e decidiu te fazer de escravo sexual por uma noite.”

Grande chamou o garçom.

“Desce a garrafa de Nêga Fulô pra mesa que vamos ter muito pra xingar essa vagabunda!” “Puta!” “Canalha!” “Safada!” “Pô… eu não comi a Elisa…” “Porra Burro!”

Quatro homens e uma mulher

October 22nd, 2006

publicado em LIVinRooom.

publicado na Tribuna da Imprensa.

“Toda mulher tem de ter quatro homens na vida. Se não tiver esses quatro tipos, vai ser uma eterna frustrada.” “Porra Elisa, parece que você leu o texto do Zander.” “Que texto que nada. Aquilo era bullshitagem pura. O cara não entende de porra nenhuma. O que eu te digo é apenas a verdade. Aliás, como sempre, estou certíssima”.

Os amigos riram na mesa e se revezavam entre zoar Elisa, servir-se do linguado à moda e tentar adivinhar o que ela estaria inventando agora. Ela sempre vinha com uma história inverossímil, uma teoria incongruente ou uma aventura impossível. Sempre era diversão garantida dados os maneirismos e as caretas que, inevitavelmente, acompanhavam as suas narrativas. Ela era uma das raras mantenedoras da arte de contar histórias e sempre praticava a sua perícia nas fogueiras modernas: os bares da vida.

“Então, o primeiro homem que uma mulher tem de ter é ‘O Homem Que Ela Admira’. Esse cara tem de ser lindo, inteligente, rico, bem-sucedido, atlético, carismático e carregado dos demais outros atributos que nós atavicamente procuramos em cada macho procriador. Note que ele jamais será o pai de nossos filhos ou tampouco será ‘O Que Nos Acompanhará Por Nossa Vida’. Ele apenas é o fruto de nossa admiração sincera e plena.” “Mas se eu encontrar um cara assim eu caso com ele!” Disse Marco, debochando descaradamente. “Daí, nenhuma novidade.” Diz Júlio, contra-zoando o amigo à mesa.

“Mas não é para casar”, retoma Elisa, “é para admirar. No máximo dar uns beijos ou uma trepadinha casual. Ele é ‘O Intangível’, ‘Aquele Que Não Pode Se Sujar No Mundano’. Saca aquela mulher que você não consegue imaginar cagando ou menstruando? Pois é. Ela caga e menstrua. Esse carinha não peida debaixo do cobertor. Nem cheira depois.” “Mentira! Não tem quem não faça isso!” “Porra Júlio, não tá difícil entender a coisa, né? Quer que ela desenhe?” “Porra Alice, não sou tão estúpido assim.” “Menino, menina, deixe a Elisa terminar que isso tá legal.”

“Pois é. Deixa eu falar do ‘Homem A Se Admirar’.” “Não tem mais o que dizer, Elisa. Tá entendido isso. Ele é O Muso, o que inspira, o intangível.” “Não, Marco. Ele não inspira. Ele, no máximo é um modelo e, como todo modelo, está destinado a ser questionado e substituído. A Musa (ou o Muso) não. Ele, ela, é fonte de inspiração do poeta, do artista e só é substituído numa epifania. Numa nova revelação de entendimento do mundo. ‘O Homem A Se Admirar’ é substituído à medida que a mulher amadurece e vai vendo que precisa cada vez menos de modelos masculinos até aceitar o macho com todas as suas falhas e defeitos.” “Quer dizer que é um modelo descartável?” “É, Alice. Algo por aí. De forma que, quando o modelo antigo não cabe mais na nossa vida, jogamos fora e conhecemos outro homem lindo, inteligente, sensível, milionário, sarado, simpático e igualmente intocável.”

Os meninos trocam rapidamente de assunto enquanto elas se levantam para ir ao banheiro. Na volta os rapazes já estavam com a conta pedida e armando para a noitada. “Vocês querem ir conosco? Hoje tem Maldita na Matriz e posso colocar o nome das duas na lista. O Áureo é meu amigo e sempre tenho lá: ‘Marco e mais três’ na porta.” “Pode ser, baby. Vamos, Elisa?” “Vamos sim. Depois eu falo dos outros tipinhos”.

Conta paga. A noite ainda era uma criança pros quatro.

Cibelle e Pedro

October 18th, 2006

“Vem cá.” Ele a puxou pelo pulso sem fazer força mas com a firmeza de quem já tinha decidido o fim da noite. “Não vá embora agora. O povo vai sair daqui para comemorar o aniversário do Jorge.”

Meia verdade. Era ele o homenageado mas também era o aniversário do editor. Caía bem juntar as duas comemorações. A noite de autógrafos do primeiro livro do fotógrafo talentoso e o aniversário do sexagenário chefe de fotografia daquela famosa revista semanal.

“Não quero ir. O Alex tá me esperando em casa.” Ela disse sem convicção. “Mas você não tinha se separado dele? Não foi isso que você me disse há pouco?” “Nos separamos sim. Não estamos mais casados.” “Então?” “Mas ainda temos uma casa juntos. E quem mora no mesmo teto deve, no mínimo, respeito.”

Ele a soltou. Ela não moveu centímetro para arredar pé dali.

“Vem comigo.” “Foi um erro eu ter vindo.” “Concordo. Mas a merda tá feita.” “Sempre há tempo para se corrigir um erro.” Ele se virou para as caixas do estoque e chutou uma delas. Doeu o pé, mas ele não iria demonstrar. Doeu muito. Ele não segurou a careta. Nem ela o sorriso de deboche.

“Acho melhor eu voltar para a loja. Não fica bem eu ficar trancada contigo na tua noite de autógrafos, né? E nem você ficar aqui dentro isolado. O povo lá fora quer te ver, te bajular e paparicar.” Ela abriu a porta da saleta e saiu deixando um olhar e um meio sorriso.

Ele levou uns segundos para digerir os dois.

Tinha uns dez anos que ele entrara no curso de teatro. Entrara de onda, só para ficar mais perto do mulherio. “Esse povinho de teatro dá feito chuchu na horta.” Dizia para os amigos de farra e de cursinho pré-vestibular. Mas comer gente, que era bom, necas de pitibiriba. Secura total.

Inscreveu-se, fez um ano e meio de curso e duas peças. Ao mesmo tempo aprendeu a fotografar na oficina da faculdade de jornalismo. Tirou todas as fotos de pré-produção das peças e passou a acompanhar a companhia de teatro Brasil afora registrando as demais. Trancou a faculdade nos três anos de turnê e começou a tomar gosto pelas paisagens humanas. Ah! Comeu gente no processo. Na verdade, acreditava que o teatro não tinha nada a ver com o seu sucesso em levar gente para a cama. O fato de ter deixado de ser um adolescente histérico e desesperado e passado a ser um homem de fato interessante, era mais plausível.

Um dia, cansou-se da vida mambembe e dura.

Voltando para casa, sabia que tinha um bom portfólio nas mãos. Preparou uma edição das melhores fotos com uns amigos e bateu em algumas editoras atrás de frilas. Deu sorte de uma cópia do book ter parado no colo do Jorge Oliva. Pintou a vaga de correspondente internacional. Topou e ganhou o mundo. Rodou África, Ásia, Europa e América Central. Mais de cem mil fotos tiradas. Há dois anos ouviu o conselho do mestre. “Publica isso, moleque. Não dá dinheiro, mas dá prestígio. E prestígio, tu sabe…” “Sei sim. É metade da equação.”

Ele chiou sozinho um pouco mais e saiu mancando do estoque. Abriu um sorriso amarelo quando viu a quantidade de gente que olhava com cara de sacana para ele. Notou Cibelle no meio deles. Ela tinha tirado o sorriso divertido e usava um parecido com o dele, cheio de ‘ai meu Deus, que estou sem-graça’. Jorge veio salvá-lo.

“Bora pro chope que meus dias estão contados. Vocês que são jovens podem esperar. O Véio aqui tem de encher a cara enquanto pode!” Meia dúzia riu e outra meia dúzia se dirigiu para a saída. Ela estava entre eles.

Ele abriu mais um sorriso e foi acertar as contas com o gerente. Vendeu mais que esperava apesar de ter ido pouca gente. “Assim é que é bom, Carlinhos. Pouca muvuca e boa grana. Se toda noite de autógrafos fosse assim eu nem cobrava para usar o espaço.” “Valeu mesmo!” Deu um abraço no amigo e partiu para as libações.

Há doze anos ele era um adolescente espinhudo, desengonçado, duro e desesperado. Há doze anos atrás ele estudava num pré-vestibular da moda cheio de patricinhas malhadíssimas e maurícios empertigados. No meio de futuros engenheiros, advogados, publicitários e marqueteiros ele sumia como pedra de sal no meio da Lagoa Rodrigo de Freitas.

Depois de não lograr êxito em despertar interesse de cópula com nenhuma das fêmeas disponíveis daquele ecossistema, ele tentou uma estratégia que costumava funcionar em festinhas suburbanas: começou a sondar as feias e as apagadas. Era uma tática perigosa. Caso levasse toco de alguma, sabia que a notícia iria se espalhar por toda a manada e a chance dele praticar sexo com alguma delas seria adiada para todo o sempre. Também não podia arriscar ‘relacionamento’ com nenhuma delas. O efeito era parecido, e moralmente pior. Tinha de alçar mira no alvo correto e abater de primeira.

Uma tática boa era fazer a dança do acasalamento para uma que fosse extremamente discreta e não tão feia assim. O truque era ir se aproximando aos poucos, com cuidado para não espantar a presa. Depois de pesquisa árdua, achou um possível alvo. Dois braços, duas pernas, duas orelhas e olhos. Bunda pequena, mas parecia durinha. Seios médios, discretos. Uma boca. Um nariz. Cabelos negros, pele alva. Olhos cor de mel. Magrinha. Baixinha. Voz macia. Doce. Inteligente. Culta. Simpática. Sorriso encantador. Perfume ácido, mas suave. Usava Aquamarine para lavar os cabelos. Virgem com ascendente em Escorpião. Puta merda, tava apaixonado!

Caiu no velho truque da selva. Era ela quem caçava, não ele. Cibelle.

Chegou no bar com algum atraso, o que era esperado. Jorge tinha separado um local à mesa do seu lado e um chope esquentava com o seu nome. Procurou-a por entre os amigos mas encontrou um ‘nada consta’. Relaxou no oitavo chope e contou causos, de Adis Abeba, Guaiaqui e Bagdá. Jorge assumiu a mesa no ínterim e ele ficou livre para pensar no ocorrido há pouco.

Do outro lado da Bolívar, quase na Aires Saldanha, ele a vê saltando do táxi. Linda. Linda. Simplesmente linda.

Ela não estava só.

De uma hora para outra, um desespero se apossou da sua fleuma e ele ensaiou uma ida para casa. Os protestos foram mais altos que a coragem e ele se congelou na cadeira. Ela entrou no Belmonte com Alex que não disfarçava o desgosto de estar ali. Foram apresentados desnecessariamente. Ele desprezava o homem que regularmente tinha intimidades com a sua maior paixão. O outro querendo ir embora para cumprir com o dever matrimonial de entediar o cônjuge até à morte. Ela se ajeitou no meio da turba com o esposo.

Quando partiu com a companhia de teatro, ele elencou para si mesmo uma centena e meia de motivos racionais, lógicos e plausíveis para tal. Todos para servir como cortina de fumaça do motivo real.

Ela nunca o quis como o seu homem.

Dizia para ele que queria ser só amiga. Que se pudesse escolher por quem se apaixonar, ele seria o homem da vida dela. Que ele tinha entendido tudo errado. Que era um erro ele insistir. Que ela estava saindo com um outro cara. Que estava apaixonada por ele. Que o nome dele era Alex e ele era mais velho, mas não muito; mais bonito, apesar de um pouco estrábico e ser um calvo aos vinte e sete; bem-sucedido, afinal era empresário desde os vinte; que a respeitava, apesar de fazê-la ir ao tedioso futebol de domingo; que sabia ouvir um não e se conformava quando perdia uma batalha. Que iria se casar em quatro meses. Que estava grávida. Que iria colocar o nome do pai na criança. Que não iria se chamar Alex. Que ele não poderia ver o filho. Que estava tendo complicações no parto. Que não pode enterrar o filho. Que não poderia ter mais nenhum filho. Que o odiava. Que o amava. Adeus.

No bar, mais seis rodadas de chopes já removiam o que havia de civilidade entre os presentes e estranhos já confabulavam como se fossem amigos de centenas de anos. Uns resolviam os problemas do Brasil e do Mundo entre os pastéis de camarão e as casquinhas de siri. Outros confessavam o inconfessável para os ossos do frango à passarinho. Ele emudecera há muito, mas nunca fora de tagarelar. Jorge, mais experiente, já levantava o acampamento e pedia a conta.

“Meu aniversário, conta minha.”

Na confusão da saída, uns programavam a esticada, outros já chamavam o táxi na própria Bolívar para ir para casa. Alex já se confundia com a turba, apesar da careca reluzente, e partiu só.

Ele ficou a sós com Cibelle.

“Quer ir lá para casa?” “Não acho uma boa.” “Ci, o que é ‘uma boa’? Você aparecer no meio da noite de autógrafos e me dizer que se separou? Você medrar na hora que te chamei no canto? Você trazer o mané para cá? Qual dessas idéias foi ‘uma boa’ até agora? Me explica porque estou perdidinho da silva.” “Não faz isso comigo. Tá sendo difícil para mim também.”

O pé ainda doía. Provavelmente ele encravara a unha quando chutara a caixa.

“Vamos dar uma caminhada na praia?” “Eu topo.”

Copacabana é testemunha de diversas histórias e as areias da praia são o seu palco principal. Parece que existe uma mágica que emana do elán que prende os grãos brancos e imundos daquele pedaço de chão entre o Atlântico e a Atlântica. Talvez porque a areia, a maresia e o soar das ondas não julguem os homens. Parece que há uma inteligência natural que entende que a vida não é preta e branca. As nuances de gris moral são o sal de prata desse mar de vidas que inunda aqueles cinco quilômetros de terra encurralada.

Eles amanheceram no Arpoador e nunca mais se viram de novo.

Livinrooom

October 17th, 2006

É com três Os mesmo. Vai .

trieze lo octobre – Lo dia international del hablarse portuñol

October 11th, 2006

lluntemo-nos pela el unión del pueblo portunõl!