September 7, 2010 3

Aniversários

By in textos

Esse fará oito anos na primeira de janeiro e cada vez menos vejo motivos para mantê-lo. Não tenho audiência, prestígio ou “conversão focada” como diria um amigo de um blogue mais pragmático. Não melhorei meu texto, não virou fonte de projetos nem de dinheiro. Não me deu , ou paixões (esses fi-los apesar do blogue, exceções contadas).

E o principal, deu-me poucas felicidades. Mantenho-o como uma coceira, uma mania, um vício, um desespero. Arremeto-me a ele quando a mente acalma ou as emoções transbordam. Só recorro a esse espaço quando se faz necessária uma terapia, uma cachaça ou uma masturbação compulsiva. É coisa de doente, de louco.

Ainda assim, ele tem uma sobrevida

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September 6, 2010 0

Metas cumpridas

By in textos

Há alguns anos eu fiz uma lista de coisas que queria fazer antes dos quarenta anos. Boa parte – a maioria – delas eu consegui fazer. Falta apenas juntar algum dinheiro de fato, mas acho que já estou no caminho, meio caminho andado.

Hoje, no entorno dos quarenta, tento me projetar à frente e tento desenhar que tipo de pessoa quero ser aos cinqüenta. Quero crer que chegarei fácil em 2020 mais lúcido, rabugento, pernóstico, prolixo e promíscuo que chego hoje, mas essa estrada tem mais armadilhas que a minha vista consegue alcançar.

Mal sobrevivi os meus dez primeiros anos. Ficava doente sempre aos verões, corri risco de perder a vida umas três vezes ao menos. Descobri-me perdendo os céus e o jogo de pipas com a miopia cavalgaste, descobri-me irremediavelmente apaixonado pelos olhos verdes e azuis e inexoravelmente sabendo-me abandonado pelas mulheres.

Os dez anos seguintes foram menos arriscados para a minha saúde, mas determinantes para a formação do meu (mau-)caráter. A adolescência me transformou de criança linda e andrógina em um protótipo de membro da banda Devo. Ao mesmo tempo me ensinou a duras penas que ser diferente não é bom, nem ruim, é apenas o jeito que tenho. O meu destino, a minha caligrafia no caminhar. Optei pelo que é alternativo, estranho e bizarro não por fetiche, mas por sobrevivência. Os deuses que me perdoem, mas não entendo o culto pela a adolescência, pela juventude eterna.

Durante os meus vinte anos vi meus sonhos morrerem, meus ideais soçobrarem, uma carreira degringolar e minha esperança no ser humano puro e eternamente evolutivo desmontar. Tornei-me arrogante, amargo, cruel, grosso, ambicioso, frustrado, torpe, tedioso, mediocrizaste. Ao mesmo tempo minha – minha luz, minha obra, minha vida – nasce e minhas prioridades viram de ponta-cabeça. Começo a pensar seriamente em sobreviver os meus trinta anos e ver minha tornar-se uma mulher.

Nesses tais de trinta anos, essa tal de quarta década para os que sabem contar, vivi o mundo que pude abarcar com braços, pernas, mãos, bocas, ouvidos, nariz e outras extremidades. Beijei bocas impensáveis, comi comidas inacreditáveis, escrevi textos deploráveis, ouvi músicas que só sonhara na adolescência – não tinha internet para fazer downoad de discos raros, meninos e meninas – e consegui aparar arestas cujas pontas me impediam de ser uma pessoa mais tolerável. Ainda há muito a fazer aí, mas acho que já tracei as trilhas para que a erosão do tempo cumpra seu caminho.

Para os próximos dez anos, eu planejo bem poucas coisas, pois sei que o processo será mais complicado. Não tenho o viço e ímpeto dos teenagers ou o charme pós-jovem dos trintões. Serei, de fato e direito, uma pessoa de meia-idade (se a expectativa de vida bazuca aumentar para os cem anos) e, como tal, caio no limbo dos velhos demais para “baladas” e dos jovens demais para a meia-entrada e passagem gratuita de idosos. Serei, definitiva e irremediavelmente, um estranho no meu ambiente de internet. Minha filha– minha luz, minha obra, minha vida – deixará de ser uma menina e cairá no mundo, ávida e ansiosa por devorá-lo como todas as meninas-mulheres dos seus quase-vinte anos. E as mulheres… bem… essas serão capítulos para outros na minha história, já não tenho mais a paixão e a libido. Sou uma lata vazia de vaselina. Um pacote rasgado de camisinhas, um tubo de KY usado. Dos pecados capitais, a luxúria definitivamente não está mais no trono de predileta e a preguiça começa ensaiar uma lenta e paulatina tomada de poder.

Além disso a minha saúde não irá melhorar. Sempre fui sedentário e – não me venham com essa merda de “sempre há tempo para começar” – isso não ajuda a melhorar o meu péssimo condicionamento físico. O que eram irritações ou inconveniências, passarão a ser motivo de consultas, remédios e inquietude. Já são, fato, em menor escala. Tudo bem, né? está na de começar a fazer uso do plano de saúde que pago desde sempre.

Por outro lado, a minha capacidade de produzir não irá aumentar. De fato, já tive o meu auge vinte anos atrás e não aproveitei o que deveria. É um dos meus , mas faz parte de mim como a miopia e um dente torto. Só posso contar é com textos mais irrelevantes, mais autocomiserados e inócuos. Tudo bem, é o que preciso para manter um fogo ainda ardendo na mente. Talvez consiga aprende o que é determinação e disciplina e feche um , uma , um . E, no bojo, me forme na maldita e adiada faculdade.

A minha capacidade de degustar o novo é comprometida. Não consigo gostar realmente de nada que apareceu nos últimos dez anos. Não tenho a epifania da descoberta de uma banda, de um disco ou de um filme há eons. Tudo parece pastiche, plástico, isopor. Ainda assim tenho fé que há encantamento em alguma esquina e ainda há um livro que me encanta por vez ou outra. É a magia da . Mesmo velho, Homero desperta um gigante que há em mim.

E a fortuna. Bom, essa eu já desapeguei. Se eu queria ser rico, muito rico, aos vinte e poucos, hoje espero só que as contas se paguem por si só. Que minha diversão eletrônica mantenha-se em , que eu coma, que eu beba, durma, tenha um teto e luz elétrica e acesso à internet.

O resto?

Bom… tenho dez anos de espera para ver o que o mundo me trará.

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August 27, 2010 0

livros e máscaras

By in fotos
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August 23, 2010 0

Rotina

By in textos

Acorda cedo, antes do . Atravessa o vão dos e pisa na realidade morna-fria. Antes de chegar no banho morno-quente, já se despe da noite passada. Deixa as águas lavarem o que restou dos amantes. Sai, renovada, outra mulher, outra pessoa. Toma para si o nome do batom que vermelhava na pia. É mulher, não-menina.

Volta tarde, bem depois da prima estrela. Atravessa o beco do idílio e se arremessa no copo do consolo. Acaricia a possibilidade da solidão, mas se lembra dos possíveis outros. Opta por ambos. Atira-se para o nada, o perdido, o baticum repetido das mãos sem nome, das bocas sem propostas, das coxas (ah! as coxas!) rijas, das partes – pudicas ou não! – (ah! o pudico poder).

Adormece sem saber como, sem , num eterno não-acordar.

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July 23, 2010 2

meu primeiro livro

By in textos

Não me lembro do meu primeiro livro. Nem do primeiro gibi. Lembro-me, porém, da cartilha da – O Mundo de Talita – e dos coelhos A, E, I, O e U. Lembro dos cadernos e da menina Egle – Egle? era isso mesmo? – que era loira dos olhos azuis. Lembro do Marça, o japonês de brigar e cair no lago da e de ficar na biblioteca municipal do Méier, ali na Rua Engenheiro Julião Castelo.

Meu Pé de Laranja Lima - José Mauro de Vasconcelos

Meu Pé de Laranja Lima - José Mauro de Vasconcelos

Lembro do Meu Pé de Laranja Lima, do José Mauro de Vasconcelos. Lembro de ser novela e antes de ser livro. Lembro de um tempo de Cantiflas, de Trapalhões e Mazaropi no cinema. Lembro de ser barrado no cinema ao tentar assistir o King Kong. A versão dos anos 1970 e não a dos 1930, que esteja bem claro.



Lembro de ficar cercado por revistas Kripta, Mickey, Pato Donald, Recruta Zero e Gibi. E do Mundo Animal. E de Fatos e – O Homem na . E Animais pré-históricos. E dos álbuns de figurinhas Ciência, Animais pré-históricos, Mundo animal e Galeria Disney. E da figurinha do Mancha Negra, que nunca tive.

Lembro de vila com amendoeiras e sombra farta e calor idem. Lembro de pipas que iam ficando mais e mais desfocadas à medida que eu envelhecia. Lembro de balões, de festa junina na rua, de jogar marimba, pião, bola de gude e futebol e de ser ruim em tudo isso junto. Lembro de brincar com imaginários que moravam dentro da engrenagem do ventilador de chão. De lutas eternas entre os playmobil, de super-heróis e de um sorriso farto que se misturava com os meus cabelos muitos à época.

Kid Zander

Kid Zander

Sinto falta do tempo que tinha para perder, do meu flanar sem responsabilidade, do cochilo quando ficava quente e da sensação que teria muito, mas muito tempo pela frente.

post-resposta a enviado por Lucia Freitas, do Ladybug Brasil. Quem for de bom core, de quentes e verdes, que nos siga!

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July 1, 2010 0

Egberto

By in textos

Egberto nunca curtiu esse lance de caraoquê. Sempre achou que era coisa de gente chata que bebe, não sabe cantar e se empolgava em pagar mico. Depois que assistiu ao “500 dias com ela” até se empolgou um tico para ver se encontrava a “sua” Zoey Deschanel na vida, mas desencanou. Zoey só tem uma – dizia, acomodado – e é muita areia para mim.

Certa feita, já alcoolizado, foi chamado para um boteco suspeito na Liberdade. Ingênuo, foi e caiu na arapuca. Sentou-se no lugar mais inacessível da mesa dos e rezou aos deuses e espíritos alcoólicos que não o chamassem para o palco. Foi em vão. Chegou trôpego no palco e escolheu uma ao acaso. Estava tão alterado que não via o público, ouvia o que acontecia ao seu redor e sequer tinha noção onde estava. Quando voltou a si, estava sentado de volta à mesa com olhares estupefatos voltados para sua expressão lacônica.

O amigo comentou. Nunca soube que você cantava Elis tão bem. Parecia até ela.
Aquilo ficou zanzando na sua cabeça até a seguinte. Ele não se lembrava de ter escolhido “Disparada” dela (do Jair Rodrigues, na verdade) e tampouco gostava daquela mocréia cocainômana suicida. Pelo contrário, era avesso à de uma forma geral. Na verdade, era avesso à música num conceito mais amplo e irrestrito.

Não gostava de musicais, rádios, trilhas sonoras, o escambau. Bando de vagabundos que não tinha nada melhor para fazer, nada mais produtivo, pensava.

Movido pela curiosidade, voltou lá. Vou na terça porque é mais vazio e não corro risco de pagar mico. Se ferrou de novo. Se não estava lotado como no fim de semana, tinha uma turma barulhenta comemorando o aniversário de um deles. Sentou ao balcão e pediu um guaraná. Quando deu por si, estava descendo do palco sob aplausos e bises. Se tocou que estava com purpurina nos braços e no rosto. Nunca vi alguém interpretar a Clara Nunes tão bem, cara. Tu devia ir num show de calouros desses aí.

Clara Nunes? Que diabos…

Não se lembrava copiosamente de nada. Teve uma idéia. Deu mais uma semana e chamou o Marcão para voltar lá, ele é culpado disso tudo só podia ser, e colocou uma câmera fotográfica dessas que também filma vídeos na mão do sacana. Se eu subir no palco, você filma tudo. Fechado! Posso colocar no YouTube? Pode até enfiar no rabo depois que eu vir.

De novo, teto preto e palco. Marcão, boquiaberto, deu a câmera já desligada para ele. Se tu fosse preto não seria mais parecido com o Mussum. Cantou As Mariposa e emendou com Tragédia no Fundo do Mar. Virou para trás como num reflexo e só deu tempo de ver o grande, fabuloso e poderoso Antônio Carlos ir sumindo até sobrar apenas o seu sorriso. Ouviu no pé do ouvido. Cacildis, tu é muito manézis. Tocou a “fita” e não acreditou no que via.

Era um astro.

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June 22, 2010 Off

sobre entendimentos

By in textos

fim de noite: a moça deixa o rapaz em . ambos suados, cansados, sonados, querendo esticar mas não podendo. ela dá uma derradeira patada nele. ele sai do carro, vai até o lado do motorista, dá um beijo na moça e diz que foi uma noite inteira de carinho afeto e amizade e só ganhou patadas. fato. homem não entende nada mesmo.

cai o pano

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June 21, 2010 1

O que a vida nos trouxer

By in textos

Sábado assisti a Whatever Works do Woody Allen. Novamente, um excelente. Novamente me identifiquei com o protagonista. Novamente vi que faço tudo errado. De novo.

Mas queria falar de algo que notei no filme: a “mensagem” que me fica é a óbvia dica para aproveitar todo o alento que o mundo nos dá. A vida é curta, vil e torpe e não dá a menor bola para nós, tolos, que acreditamos que há um sentido maior no mundo. Nem que seja 42.

E enquanto flanamos buscando sentido e rumo para as coisas, nos contentamos com o pouco de afago das poucas coisas que carregamos conosco. Passamos a ser carentes desse afeto que só outros companheiros, viajantes por esse nada irrelevante que chamamos de história, podem nos dar.

Acontece que algumas pessoas interpretam os gestos de carinho como uma violência, uma agressão. E não estão erradas.

O gesto de carinho nada mais é que a tentativa (bem-sucedida ou não) de invadir o sacrossanto espaço alheio, de agredir o próximo com a sua débil, ridícula e patética cena de bem. Um hostile takeover da atenção, desejo e afeto nem sempre merecidos. É, sobretudo, o primeiro e ultimo grasnar dos carentes.

Isto posto, o carinho, o gesto de súplica de atenção e afeto, é a mais comovente de . Nenhum Romeu e Julieta se compara às mãos que se desencontram na mesa, ao beijo não finalizado, à carta de ridicularizada, espanada e divulgada a seus algozes. Nenhum jamais descreveu a dor que o animal sente ao ver cada gesto de amor indelével cair no oblívio inexorável do desprezo de quem se quer bem.

E aos poucos percebo que estou virando um velho patético, débil, emotivo e .

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June 18, 2010 0

Diagrama no.6: Arrependimentos

By in fotos dos outros

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June 17, 2010 0

Adeus

By in textos

Já escrevi várias cartas de despedida na minha vida. Despedindo-me de empregos, de pessoas, da vida, de . Já me despedi de , de músicas, de locais, de , de , de mim mesmo. Já dei adeus, até logo, até breve, nos veremos, espero que suma, tchau, eternas, see you soon beibi, queria te ver de novo e de novo, sabendo que nunca mais olharia naqueles olhos que brilhavam já no primeiro momento com a chama do nunca mais.

Já pensei em fechar o blogue, em trocar de emprego, de cidade, de amores, de vida, de nome, de aparência, (de , nunca!), de ideias e ideais. Já cansei de projetos, de filmes, de algumas muitas músicas, de bandas, de cores, de esportes, de jogos, de , brinquedos.

Já até me cansei de beijar, mas isso sempre tem alguém que me faz mudar de opinião e me convence do contrário.

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