Sobre ciência e deslumbre

September 27th, 2009 § 0

Estou numa onda esquisita, de voltar aos tempos de moleque. O que é estranho, pois me lembro muito pouco – cada vez menos – dessa época. Mas a sensação de calor amigo, de vento morno, de amendoeira fazendo sombra, não me abandona.

Estou também lendo o Tábula Rasa, do Steven Pinker (já devo ter dito isso aqui, estou esquecido das coisas) e cada página que viro com descrições de processos neurológicos, cognitivos, de discussões filosóficas caindo ao chão ante algumas descobertas científicas (nem tão recentes, nem tão conhecidas), de individualismos e personalidades sendo reduzidas (no bom sentido) a processos normais, comuns e mundanos.

Se, por um lado, amo a idéia de que não existe nada especial, mas tudo é possivelmente conhecível, cada vez mais quero apenas o colo quente, um estalar maroto de orelhas e o copo de leite com Nescau.

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Escrevendo para crianças

September 26th, 2009 § 1

Não consigo mais escrever histórias infantis. Parece que algo da magia das crianças se perdeu para mim no processo de envelhecer ou eu perdi a mão. Não me encanto mais com os contos puros que me faziam lacrimejar antes ou com os personagens bidimensionais pelos quais torcia. Se bem que esses últimos eram (são) mais frequentes nas bobagens adolescentes/adultas que leio ultimamente.

Ainda tenho um livro para terminar, mas as histórias que conto ali são bem adultas, metafóricamente adultas. E, depois de umas revisões, me pergunto: as histórias para crianças seriam – por fim – uma espécie de adultez preguiçosa? uma linguagem tatibitati de algo maior e mais complexo. É assim que tem de ser? mesmo?

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Ateu

September 25th, 2009 § 3

Quando disse que não tenho sonhos, equivoquei-me. Tenho alguns sonhos sim, afinal não controlo meu subconsciente e sabemos todos que somos mais instintivos que racionais, mais emocionais que conscientes, mais sinestésicos que literais. Tenho-os, mas os renego como filhos bastardos (e olhe que eu entendo bem o que é ser um bastardo), como esquecidos e abandonados que é o que são na verdade.

O fato é que não me importo com sonhos, mas com o real. O que é palpável e realizável me é muito mais interessante que o imaginável, que o impossível.

Me espanta a falta de espanto das pessoas com o mundano, o real.

Da mesma forma que não preciso de sonhos, não preciso de deuses, espíritos, anjos, rezas. Entendo o seu porquê, confio em sua prática e na sinceridade de quem pratica. Até estudo com atenção uma ou outra coisa. A forma de pensar, a língua, a mitologia de cada expressão de fé me encanta. Me encanta como realização da vontade, do querer.

Não preciso de sonhos da mesma maneira que não preciso de um Deus. Minha vida é a minha guia. Minha cabeça, minha moral, minha ciência.

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Botafogo’s nights

September 24th, 2009 § 1

A chuva fina nao apagava a alegria da menina. Saiu da boate com cheiro de cigarro até na calcinha e aproveitou o chuveiro natural para tirar a nhaca da noite boêmia com o ácido que caia na cidade. Apagou o último gole da bebida sem nome e sem categoria na goela que clamava por um almoço. Há três dias não colocava nada de saudável no estômago nem na cabeça. Estava no automático.

Mas é assim quando se tem vinte e bem poucos anos. Uma adultez que não condiz com a falta de grana na carteira e a bem pouca responsabilidade no dia seguinte. É estágio ou emprego júnior em alguma empresa, uma faculdade levada nas coxas, um trabalho tranquilo de loja. Tudo que a pós adolescência classe mediana pede. Mil e quinhentos dinheiros – menos impostos e descontos vis – na conta corrente todo mês e o mundo abre as pernas para você.

A menina chapinhava feliz na chuva que caia em Botafogo. Tinha todo o tempo do mundo nos sessenta anos que separavam aquele dia do derradeiro. Em sessenta anos faz-se muita coisa, até as coisas certas, por incrível que pareça.

Chapinhava feliz, com a boca inchada de tanto beijar outras bocas na festa que tinha nome brega e era mais velha que a própria moça. Chapinhava como no filme que tinha a idade de sua mãe e cujas canções ela desafinava ao caminhar para casa. Tinha vinte e poucos anos, a menina, vinte e poucos anos e achava que a vida se resumiria numa sucessão de festas, boates fedidas a cigarro e bocas beijadas. Vinte e poucos anos.

Que pena dessa juventude. Que inveja dessa juventude.

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Sobre as tarefas de setembro

September 23rd, 2009 § 0

O velhinho tinha a mania de procrastinar as tarefas. Achava que assim trapaceava a morte. Certa feita, resolveu colocar algumas metas para si. Escolheu setembro porque era um bom mês, segundo a cabala.

Decidiu ler dois livros difíceis, mas trapaceeou na tarefa. O primeiro era um livro de capa preta e letras miúdas e texto fácil, apesar da complexidade da matéria. Ali, ele aprendeu a entender a natureza humana, que de fantástica tem muito pouco. Que diferimos bem pouco dos macacos, das lesmas e das ferramentas programáveis. Que não somos “fantasmas na máquina”, “tábulas rasas” ou “bons selvagens”. Que somos o que somos e só podemos ser os melhores seres humanos possíveis. E nada mais.

Isso o fez pensar um pouco, sobre o que fizera de sua vida, do que quisera para si e dos momentos de felicidade que tivera até então, no alto de sua velhice matusalênica. Lembrou-se das palavras de uma ex-amiga que disse “só você pode ser você e ninguém pode percorrer o seu caminho”. Isso o fez lembrar de que até no inferno você pode ouvir uma verdade. Até os demônios podem ser sinceros. Aliás, só os demônios o são até as últimas consequências.

O outro era um livro vermelho que dizia como as pessoas pensam e porque pensam assim. Mas esse ele deixou para trás na estrada. Era uma outra forma de desafiar a morte.

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As amendoeiras

September 22nd, 2009 § 1

Faz tempo que não sento numa praça de brinquedos. Talvez porque não haja mais praças de brinquedos do mesmo tempo que existia quando eu era um dos que ali brincava. Sinto uma falta dessa velhice que me foi negada, a de contemplar lentamente as crianças que crescem rápido. Cada ir e vir do balanço, um ano, dez centímetros, uma puberdade, casamento, filhos, banco da praça.

Sinto falta das rolinhas e dos bem-te-vis cantando nas amendoeiras lá no Méier. Das disputas de marimba e de bola de gude. Nunca fui bom, mas gostava de ver a meninada jogando pião, uma piorra, empinando pipa ou andando de carrinhos de rolimã. Infância suburbana tem dessas coisas, de ficar na rua contando casos de fantasma na quaresma, de correr atrás de sacos de cosme e damião. De cantar ponto em centro de umbanda em terreno baldio. De não se preocupar com os assaltos, mas com os homens que somem com quem falava muito de governo e política. Disso não sinto falta.

Eu queria ser um velho bem velho, bem de cabelos brancos e barba rala. Que faz mágicas para os meninos e ensina-os a acender fogo com lupas de aumento. Que conta histórias já desatualizadas e que finge que sabe mais porque é velho.

Eu queria é ter o aval da idade para não ser mais contrariado ou para apenas descansar sob a sombra da amendoeira que mora nas minhas lembranças.

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Divagações sobre a chuva e o tempo

September 21st, 2009 § 0

São Paulo é mais ela mesma quando chove. Talvez porque seja uma cidade feminina no tratar (nunca vi alguém se referindo a ela como “o” São Paulo), eficiente como só as mulheres são, caótica e confusa como uma TPM, tensa como uma mãe que não vê o filho dar as caras à noite, seca como a amante que não te quer mais.

Quando chove, respira-se melhor. E não tem nada a ver com o ar que fica limpo, mas com o trânsito que vira um mafuá. As pessoas entrincheiradas em casa ou nos escritórios dão mais tempo para o tempo já que esperarão o trânsito melhorar, desistem da “balada” compulsória, da necessidade de “curtir o seu tempo” de aproveitar cada segundo. E respiram.

Fico imaginando as pessoas no século XII, “curtindo o tempo” enquanto esperam a plantação crescer ou cuidavam de sua vida nas cidades que renasciam. O engraçado que curtir é deixar o tempo endurecer algo, no caso, o couro das pessoas.

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Sobre sonhos e sisos

September 20th, 2009 § 2

As pessoas olham com dó para mim quando eu digo que não tenho mais sonhos. Eu não sonho, cacete, sonhar é para adolescentes ou para iludidos. Ou eu faço ou deixo quieto, não fantasio. Deixem-me em paz com a minha resignação plácida e a minha morbidez alcóolica.

Arranquei os meus últimos junto com os meus dentes de siso.

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Sobre verdades e mentiras

September 19th, 2009 § 1

Estou viciado em House M.D. desde que “descobri” que o ator principal é o Hugh Laurie, do A Bit of Fry and Laurie, com quem contracenava com o fabuloso Stephan Fry. Era viciado nessa série, que passava no Eurochannel, na TVA, nos idos de 1990 e muitos.

Mas isso não interessa. O que me chamou a atenção é que ele usa um jargão sensacional: “todo mundo mente” e normalmente é a chave para ele desvendar a doença do paciente da semana. Adoro o método de tentativa e erro que eles usam ali, mostrando bem didaticamente o que é o método científico. Afora a quantidade de patadas por centímetro quadrado que ele dá em todo ser vivo falante. Adoro.

E é verdade mesmo: não se pode confiar no alheio. Não que todos sejam canalhas ou pilantras, mas a verdade dificilmente fica na superfície. Nós temos a tendência de ou escolher o caminho mais fácil, aparentemente, ou de ficarmos com a melhor opção de acordo com o nosso viés ideológio, a despeito dos fatos gritantes à nossa frente.

Falo isso por conta de dois fatos recentes na minha vidinha: uma, foi a leitura do livro A Lógica do Consumo, (Buyology) de Martin Lindstron. Como todo livro para executivos e profissionais de marquetingue, ele é bem raso na apresentação de suas idéias, mas o texto claro, abrangente e caloroso, compensa a falta da exposição de dados e estatísticas. Em resumo, o autor fala sobre como a maioria das nossas decisões diárias é baseada em impulso, em falsas lógicas e muito mais na percepção do que temos da realidade que dos fatos brutos em si. Da mesma maneira, como a personificação das marcas e das empresas ajuda (ou atrapalha) suas vendas, a despeito do que a “lógica” diz.

O segundo fato foi uma discussão boba, com uma criatura que insiste em ulular seus vieses. Explico. Eu nem sempre tomo decisões e afirmo fatos que tenho certeza absoluta. Muitas vezes crio minha argumentação on the fly e tento dar uma coerência àquilo que digo, mas, por um outro lado, procuro sempre estar informado sobre o que digo, falo para evitar erros crassos. Em suma, fico orbitando no famoso educated guess e estou confortável assim.

A priori, nao acredito em “certezas absolutas” exceto como força retórica argumentativa. Tudo que eu falo pode ser demonstrado contra ou refutado. Aliás, deve. Adoro uma discussão porque posso ser provado errado e aí aprendo uma coisa nova, um ponto de vista diferente e repenso o meu pensar. E não tem nada mais excitante que entender o outro por um viés diferente, adotar um novo viés.

Mas não dá é para deixar de notar que, quanto mais estapafúrdia a criatura, mais desembasada e mais pedante, a sua argumentação tende a ser mais pedestre. O apelo para o óbvio, quando o óbvio é o oposto. O apelo para “todos sabem” quando todos não foram consultados sobre isso. O apelo para “quem discorda de mim é crasso, vil e torpe, porque eu estou do lado dos príncipes”. Adoro. Pego no pé de gente assim. Mentem porque não têm vontade de conhecer nada que prove o oposto do que acreditam. Aliás, o erro dessa gente é querer acreditar e não querer saber. Mas isso é outra história.

Isso tudo porque – de novo, no banho – me veio à mente que só as Putas têm licença para mentir.

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Continho babaca, cretino e verdadeiro

September 18th, 2009 § 4

Confesse, você já está com a calcinha úmida antes mesmo de eu dar a cantada definitiva. Não me enrole, não precisa. Sei que você está louca de vontade que eu te pegue de jeito, dê um beijo de cinema (ou um beijo meia-boca, babado de cerveja, whatever), te dê uns malhos fortes e quase pornográficos ali no canto estratégico do lado do bar, pague a conta (minha, sua) sem tirar os olhos dos seus peitos, te arraste pro meu carro depressa e te apalpe de todas as maneiras possíveis e inimagináveis. Que eu finja ser uma lula ou algum outro animal com muitas patas no processo. E você irá fingir que não quer dar hoje, que é muito cedo, que não tá na hora. Aquela babaquice toda.

Aí a gente irá se catar alucinadamente, teu soutien irá pular fora, vai pagar um peitinho maroto, a calça irá descer até o joelho e uma das inúmeras mãos irá conferir aquela carne mijada que está doida, mas doida para levar pica a noite toda. Se não for dessas que acha pica um troço nojento, irá me chupar até quase gozar e tocará uma punhetinha amiga até eu gozar pela primeira vez no chão do carro. Daí pedirá para eu te deixar em casa.

Na frente do teu prédio, a mesma história. Carro balançando, vidros esfumaçados pelo nosso furor (pelo seu furor, eu estou sob controle, controle pleno da situação) e, de novo, “não! não mete! hoje não!”.

Daí eu pego o seu telefone e toco uma punheta vendo você entrar no prédio. Nunca mais ligo. Mulher que não dá na primeira noite não dá nunca mais para mim.

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