“Eu tenho pensamentos homicidas. Quero matar, matar com truculência, com requintes de crueldade. Quero que haja agonia terror e uma compreensão fulgurante – embora tardia – da minha autoria e da gravidade da minha fúria. Que haja o desejo inútil de voltar no tempo para que todo esse horror pudesse ter sido evitado.”
Tags: blog, casa, dia, laertesobre indivíduos, grupos, consciência: um esboço
By zander catta preta in filosóficas, textosUma questão que não consigo deixar de lado – e que não sei responder ainda – é onde termina a programação genética e onde começa o cultural, o social. Quando olhamos um cardume de peixes ou um colmeia de abelhas, analisamos o comportamento do todo partindo do pressuposto que o comportamento do indivíduo é totalmente suprimido pelo social como uma característica intrínseca, genética, desses seres. Outros animais sociais também apresentam uma aparente anulação do indivíduo perante o todo, formigas, lemingues, búfalos, zebras, e outros afins.
Nós somos essencialmente animais sociais. Andamos em bando e somos mais, maiores e mais capazes em grupo que individualmente, soltos no mundo. Parte desse “mais, maiores e mais capazes” é gerado pela nossa capacidade de entender padrões, replicá-los e transmiti-los adiante. Outra parte é por termos ainda em nosso código genético um “comportamento de manada” que determina a aceitação de valores morais ubíquos, de regras unívocas, de comportamentos coerentes, independente de cultura, classe ou formação mas, ainda assim, cremos na individualidade que se reflete em nosso comportamento no relacionamento com o não-eu, talvez para facilitar o processo de padronização, de name giving às coisas.
Se levarmos esse conceito no extremo, o indivíduo é uma ilusão, uma projeção da abstração do eu enquanto tenta compreender o que está ao seu redor e se isola do todo para analisar o que há de igual (os “nós”) e o que diferencia (“eu” + “nós”) do “outro”. Se “eu” não me construo como indivíduo, como único, não consigo criar referenciais nem de semelhança, tampouco de diferença para as coisas que precisam ser nomeadas.
Tags: cidade, dia, solAlento
By zander catta preta in textosA menina me perguntou da garrafa vazia de vodca em cima da cabeceira logo quando deu pausa para respiro e fumar um. Era uma Arsenitch, a marca da bebida, vodca cara e meio desconhecida. Contei para ela a história. Comprei a diacha para beber com um amiga mas ela me disse “tis ain’t your place no more, nigga˜ e eu não entendi nada. Estava tudo bem até então. Sexo, papo, louças lavadas e gargalhadas, mas fiz o que sabia fazer de melhor: saí, deixando as lembranças tomarem conta do presente.
Ao virar a esquina da semana, como se Marte estivesse em trânsito em alguma casa do ódio e fúria, chorei alguns mares de mágoa. Bebi a memória da moça-amiga para afogar a dor que a lágrima falhara. Mas a dor era tanta que eu tinha raiva de quem me olhava, era uma dor que vinha como um gosto da garganta e eu não conseguia engolir por nada, nem com um consumo industrial de álcool e drogas.
Na outra esquina, eu estava um farrapo de vontades, um arcabouço de forças, um esqueleto de moral. A mim, tu me vieste, menina. E me lembrou que bem tem que ser compartilhado, a alegria, dividida e o mal, guardado.
A garrafa é onde eu escondo o meu mal, é o meu último alento.
Tags: casa, dia, semana, sexoDo mal que os poetas fazem à humanidade
By zander catta preta in textosEu sonhei com Poesia ontem. Lia as “obras completas” do Manuel de Barros e obviamente tive vontade de fazer das minhas também. Nota-se que matei essa vontade com afinco e eficácia. Poesia não se faz de noite, antes de dormir. Antes de dormir, escova-se os dentes, chafurda-se na pessoa amada, vira-se estasiado e dorme-se. Não é essa rotina, a da poesia.
Poesia é hábito, não é rotina.
Eu nunca me considerei poeta ou escritor (ou boa coisa, vá lá!), mas quem não cometeu uma poesia ruim ou outra na vida que entre na fila dos sem coração. Mas chega um dia que alguém bate à sua porta e diz: “mermão! larga mão disso que tu é muito pereba nessa parada de poesia”. Pois é. Uma amiga me fez essa gentileza e hoje me contento a ler, apenas a ler.
Poesia é talento, dedicação.
Tags: dia, oração, rotinaHistórias asasssinadas
By zander catta preta in textosEu mato algumas histórias por dia, sonhadas no banho matinal as esqueço assim que a rotina se faz presente. Afinal de contas, só as histórias que valem a pena sobrevivem ao dawirnismo corporativo que os proto-escritores se submetem para pavimentar o laborioso caminho até o jaguar próprio (Juca Chaves Style mode on).
Mas algumas sobrevivem da mesma maneira que a natureza trata os seres vivos. Sobrevivem porque são resilentes, sobrevivem porque são adaptáveis, urgentes ou porque têm sorte. Essas últimas tendem a ser as melhores delas todas.
Pessoalmente, gosto daquelas histórias que têm que ser contadas, são mais fortes que eu e me causam incômodo durante o período que ficam guardadas no meu cenho. O humor piora, as regras idem, e eu me vejo acorrentado hormonal e emocionalmente a um teclado, digitando palavras que não me pertenciam e já deixam de ser minhas. Algo que a compulsão me empurra a fazer. É impulsão de texto, propulsão de léxicos. alma.
Obviamente essa não é uma delas.
Tags: dia, humor, rotinaReconhecimento de padrões
By zander catta preta in textosMais de duas semanas sem escrever no blogue. Isso não é novidade, já fiquei meses sem atulizar mas agora é diferente.
Ando numa fase onde o presente é o mais importante, onde o momento vale mais que o período (apesar da chefia me cobrar estratégia, planejamento, previsão).
Descobri que sou definitivamente incopetente para projetar o meu amanhã. Sou bom para advinhar padrões, fato!, mas sou ruim para entender o movimento deles.
Eu já sabia disso desde o tempo do clube de Xadrez, do colégio. Adorava assistir às partidas e ver quais eram as estratégias usadas (não me lembro de nenhuma hoje) mas era terrível ao aplicar na minha vida. Fato, sou bom em análises, péssimo em planejamento. Mas era particularmente bom em adivinhar o que estava a fazer, o que se passava na cabeça dele e o que ele pretendia aplicar em dois, três movimentos. Dificilmente eu errava e, de certa forma, isso é que me dava a sobrevida no xadrez diário. Entender o que acontece na minha família, na minha casa, no meu emprego, no mercado é fácil para mim.
E é isso. Não tenho mais novas, velhas ou diferentes. Só comunico a quem se interessa que continuo entendendo muito bem os modelos, os clichés. E dificilmente eu erro.
Tags: blog, blogue, casa, dia, família, semanaa vidente
By zander catta preta in textosTinha como meta advinhar o futuro nas cartas, nas estrelas, nas entranhas dos amantes que se dobravam em perdição de sentidos e moral na sua alcova. Mas nada que previra lhe era útil. Só um eterno e incessante carrossel de carne, jogos, bile e vileza trotava ante seus olhos, como se acelerasse o tempo (ou se tornasse mais lento para os demais) e ficasse impassível ante o mundo que se redobrava nos cantos mais ermos, escuros, escusos, úmidos e viciado.
Ela via o futuro e se inconformava: queria a volta da inocência perdida.
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