Sou basicamente um monotemático. Gosto de falar de sensações e emoções. “Zander, são dois temas aí”. Tá certo. Bitemático, portanto. Mas, pra mim, é tudo uma coisa só. A forma que eu olho o mundo é a forma pela qual me encanto por ela. E o meu encantar pelo mundo é a forma que eu olho. E vice-versa ao contrário de novo.
Sou muito míope e não consigo ver as pessoas à distância. Isso tem piorado – e muito – com o passar dos anos e o cair da velhice. Obviamente a forma que eu (não) enxergo o rosto do alheio (ou das que me são infelizmente alheias) interfere diretamente na forma que eu lido com o não-eu.
Falo para a esposa que sou egoísta, ególatra, auto-referente, auto-centrado. Um babaca egocêntrico. Ela discorda, mas não por todo. Acho que o mundo termina no fim do meu entendê-lo. Se eu não entendo, não existe e é assim que as coisas funcionam até agora.
Por sorte, tenho uma capacidade absurda de me colocar em outras peles, de me colocar na vida do alheio. Isso não é nenhum tipo de modéstia ou humildade, mas uma presunção absoluta e suprema de que eu, de fato e direito, consigo ser um outro alguém se eu simplemente imaginar como é a vida do outro. Não que eu acerte ou que tenha êxito nisso, mas…
Talvez essa capacidade venha por conta de eu não ver o outro como um limite de cores e luz, mas como um borrão mesclado ao mundo que o cerca. A minha miopia, que esconde os detalhes marcantes do outro, faz com que ele vire uma mancha na minha percepção do que me cerca e, em última instância, ao que me define, o que me constitui.
Ou talvez porque eu nunca tenha gostado do que via no espelho, eu tenha tentado a vida toda ser um não-eu.


