Cordeiro, lobos e peles

September 15th, 2009 § 0

Sou basicamente um monotemático. Gosto de falar de sensações e emoções. “Zander, são dois temas aí”. Tá certo. Bitemático, portanto. Mas, pra mim, é tudo uma coisa só. A forma que eu olho o mundo é a forma pela qual me encanto por ela. E o meu encantar pelo mundo é a forma que eu olho. E vice-versa ao contrário de novo.

Sou muito míope e não consigo ver as pessoas à distância. Isso tem piorado – e muito – com o passar dos anos e o cair da velhice. Obviamente a forma que eu (não) enxergo o rosto do alheio (ou das que me são infelizmente alheias) interfere diretamente na forma que eu lido com o não-eu.

Falo para a esposa que sou egoísta, ególatra, auto-referente, auto-centrado. Um babaca egocêntrico. Ela discorda, mas não por todo. Acho que o mundo termina no fim do meu entendê-lo. Se eu não entendo, não existe e é assim que as coisas funcionam até agora.

Por sorte, tenho uma capacidade absurda de me colocar em outras peles, de me colocar na vida do alheio. Isso não é nenhum tipo de modéstia ou humildade, mas uma presunção absoluta e suprema de que eu, de fato e direito, consigo ser um outro alguém se eu simplemente imaginar como é a vida do outro. Não que eu acerte ou que tenha êxito nisso, mas…

Talvez essa capacidade venha por conta de eu não ver o outro como um limite de cores e luz, mas como um borrão mesclado ao mundo que o cerca. A minha miopia, que esconde os detalhes marcantes do outro, faz com que ele vire uma mancha na minha percepção do que me cerca e, em última instância, ao que me define, o que me constitui.

Ou talvez porque eu nunca tenha gostado do que via no espelho, eu tenha tentado a vida toda ser um não-eu.

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I Want You (She’s So Heavy)

September 15th, 2009 § 0

pós The Beatles

A música ainda ressoava nos tímpanos quando ele resoveu ligar para a moça. Os The Beatles sempre foram o seu oráculo pessoal quando se tratava de flertar ou não com a colega da faculdade, mandar ou não flores para amiga por quem sentia um tesão especial ou ligar para a ex-foda-fixa que tinha descartado no mês passado.

Bastava ouvir os acordes de “I want you (She’s So Heavy)” que entumecia-se todo ao se lembrar de Marcela. Entumecia-se mesmo. Não tinha nada de paixão ou amor ou de carinho ali. Era um tesão animal, descontrolado. Mas só quando ouvia os mesmos acordes finais da guitarra, baixos, cadentes, marciais e o John falando “she’s so heavy. heavy.”

Ele se lembrava no mesmo momento de calcinhas no chão, de cheiro de perfume caro, de camisinhas apressadas e encaixar coxas à sua cintura. Sentia a umidade permissiva na hora que ouvia as linhas de baixo do Paul e a canção tinha a duração correta para o coito inteiro. Do “oi, tudo bem” ao “deu deu, acabei”. Sete minutos e quarenta e sete segundos. O suficiente para o rapaz ver a menina virar os olhos cheios de desprezo e dizer “nunca mais, viu? nunca mais”.

Aí passava-se mais uma semana, um mês, quarenta e cinco dias, no máximo. Ele colocava Abbey Road no tocador de emipetrês e pronto. Mais uma vez, mais uma vez.

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Esquinas da memória

September 14th, 2009 § 1

Não havia um dia que ele não se lembrasse dela e que não relembrasse as caminhadas no calçadão de Copacabana, os beijos ardentes nos bancos da praça do parque Garota de Ipanema e os baseados na Pedra do Arpoador. A história dele estava tão encruada naquelas ruas que os prédios pareciam dizer “você nasceu aqui”, “aqui você amou pela primeira vez”, “aqui você viveu pela primeira vez o prazer de uma mulher”, “aqui você amou para sempre”.

Mas tudo tem o seu fim. É a lei natural das coisas e é mais natural e lei quando se tem dezesseis anos. O Arpoador ensinou ao rapaz que o desamor dói e dói mais quando é o outro que desama. Principalmente quando é o outro.

A menina não deu explicações, não contou histórias. Apenas chegou com um “não quero” no bolso e entregou para ele na Gomes Carneiro. Ele sentou no canteiro e chorou as derrotas de adolescente desencantado. Não sabia a menina que o que se faz nessa idade, grava na alma. Como o cenário de um romance, como uma música que se escutava quando aprendemos a sorrir, como um ato sem motivo.

Sua vida virou um eterno “por quê?”

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Os compromissos com o tempo

September 13th, 2009 § 1

De manhã o senhorzinho cumprimentava o sol já com o café na mesa e o pão sevido. Gostava de acordar antes do dia começar e estar pronto para a vida que se anunciava. Fez disso um costume desde quando tirou férias forçadas. Aposentado, ocupava um lugar que poderia ser preenchido por alguém menos experiente, mas mais barato e produtivo. Aceitou de bom grado o destino contemplativo que lhe arranjavam e, como precisava de bem pouco para viver, o dinheiro miúdo da aposentadoria lhe sobrava.

Não tinha parentes próximos ou proximidade com o que restou da família. Uma filha morava longe, um irmão sem falar há cinquenta anos, um primo intragável a duas horas de ônibus na mesma cidade era a única referência que tinha dos outros. Gostava da vida quieta que levava.

Tinha saudades do tempo em que se deitava com mulheres. Lembrava de algumas, de ex-esposas, de ex-amantes, de paixões passadas. A maioria morta ou não queria saber se ele estava vivo. Com motivos justos, aliás. Nunca fora uma pessoa que deixava os outros chegarem perto de si. Não a ponto de poder chorar no colo de uma ou de achar que sua história juntos duraria para todo o sempre.

Havia amigos. Poucos. Raros. Bons. Uns passavam de tempo em tempo em sua casa. Outros ligavam ou mandavam cartas. Não das antigas, de papel. Mas dessas novas aí. Ainda assim, cartas.

O que restava era a espera do amanhã, as lembranças do passado, a rotina prazeiroza que desenhara para si e os seus livros. Enquanto houvesse um livro para ler, ele saberia que não iria embora.

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A ruiva e o lobo mau

September 12th, 2009 § 0

Era uma menina que não devia ter mais de que dezesseis anos. Curvas perfeitas, pele rosa e cabelo ruivo loiro, daquele raro, que só uma ou outra atriz de Hollywood ainda ostenta. Naturalmente loiro-ruivo, pelo jeito, já que o rabo de cavalo deixava à mostra as raízes, o couro cabeludo. Olhos impossivelmente verdes e uma boca criminosamente rosa. Usava uma roupinha casual de quem saiu do curso noturno, pós expediente em loja de varejo. Soutien à mostra, reaçando, emoldurando e vulgarizando na medida exata aquele projeto de afrodite, apontando os seios semi-virginais para a lua. Devia estar cursando administração, comunicação social ou direito, esses cursos que quem não sabe o que irá fazer no futuro cursa. Aliás, devia é ter matado aula. Nem caderno, fichário ou livro na mão. Só um jeito rosa de olhar pro rapaz que fitava o seu rebolado ao descer a estação de metrô.

Era um rapaz nos seus vinte e poucos anos, moreno, comum. Apaixonou-se da menina na mesma hora que a viu. Cercou lourenço de longe, como quem anda de macio na floresta e não quer assustar a corça. Aquela corcinha tão bela, tão tenra e que deveria gemer e berrar e dar na sua cara quando estivesse de calcinhas arriadas e sendo comida como se não houvesse amanhã. Entrou no mesmo vagão e com uma dissimulação digna de criança cagada, sentou-se do lado da presa. Deu uma de Vitor Fasano e bancou o besta, lequeando um livro de bolso de um autor que só ele e mais cinco pessoas na América do Sul conheceriam. Ante a indiferença da moça, sacou os olhos de lascívia e comeu a menina sem abrir a boca.

Ela sorriu. Ele, estupefato, perguntou o nome dela. Ela, disse boa noite, sou Verônica. Ele, disse boa noite, sou Carlos e quero casar com você. Ela riu, gargalhou e disse você é engraçado. Ele dise você é linda e eu quero de fato casar contigo. Duas horas mais tarde ela disse que tinha um namorado e que nunca tinha transado com alguém que conhecera no metrô. Ele disse dificilmente você fará isso de novo.

No dia seguinte, as manchetes do jornais berravam: Canibal Pego com a Boca na Botija.

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A dor, o amor e outras rimas ruins

September 11th, 2009 § 1

Amar dói sim. Dói porque sabe-se do fim do amor desde o primeiro momento, o instante inicial.

Na hora em que você olha para aquela pessoa cujo destino você sabe que estará um dia enlaçado com o seu, já imagina o que dirá, como fará a abordagem, como será o primeiro beijo, a pegada, o cheiro, o toque, a temperatura, o gosto o gosto e o gosto, o sexo, o gemer, o gozo, a ligação do dia seguinte, o pedido de namoro, a rotina de cinema-barzinho-festa-motel, a família do outro, o pedido de casamento, a cerimônia, o apartamento novo, a decoração da casa, os filhotes, a briga por conta das mesquinharias diárias, o sexo de pacificação, o girar da roda da vida. Você sabe: é essa a pessoa com quem você quer amarrar seu nome.

Mas o amor sempre acaba em dor. Nem que seja por conta de um dos dois terminando sua historia na Terra. Dói porque sabemos que amar é bom e só se ama a dois. Dói porque o que é bom e sublime não é o nosso normal, é a exceção, a reserva divina que nos mantém maravilhosa e necessariamente insanos ante a brutalidade do amanhã.

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Adeus

September 10th, 2009 § 1

O menino acordou ainda zonzo e ressacado da farra. O quarto ao seu redor era desconhecido, mas definitivamente de um motel de primeira. Os quadros eram de uma breguice elegante, os lençóis macios e suaves e cheirava a lavanda e não a um spray odorizante qualquer.

Checou a carteira na mesa de cabeceira, os envelopes de camisinha (dois abertos, quatro fechados) espalhados no chão, a chave de casa, o celular desligado (bateria descarregada), a cama desarrumada dos dois lados, as roupas (suas) na entrada, no pequeno hall entre a porta e o banheiro, os roupões largados no chão, a poça de água no chão que denunciava a bagunça no banheiro cuja porta cerradíssima escondia, as janelas com blecaute fechado que impediam-no saber que horas eram, a televisão desligada, algumas cervejas abertas, pratos sujos na paródia de mesa de jantar com dois lugares onde se divertiram pela derradeira vez.

Do seu lado, o vazio da despedida.

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O possível provável e o provável possível

September 9th, 2009 § 5

Sou um chato. Meus amigos, colegas de trabalho e conhecidos podem atestar isso veementemente e com exemplos eternos, infindáveis. Sou chato com as músicas que ouço, com o que calço, com os meus perfumes (desodorante com cheiro? NUNCA!), com o que resolvo comer, com o(s) meu(s) computador(es) e com os amigos. Especialmente com os amigos.

Estou na idade que não posso ser visto com qualquer pessoa em público. Imagine só eu ser visto do lado de pessoas bonitas, chiques, alegres, descoladas, tatuadas, inteligentes, cultas, famosas, poderosas, absolutas e colocadas? Que sujeira eu faria à imagem delas, não é mesmo? “O que esse velho bundão está a fazer com as meninas bonitas e com os rapazes ‘da hora’?” Mas quem disse que eu consigo? sou atraído como mariposa para a luz e confesso que todos os meus amigos são exponencial e potencialmente mais interessantes e divertidos que eu.

Fazer o quê? sou chato com meus vícios. Tenho poucos, mas de estimação. São meus e só eles me entendem nos momentos de solidão. Abro a garrafinha de coca-cola como quem sabe que virará a noite matando pessoas digitais em algum reino perdido da digesfera. Como toneladas de paçoca como quem espera encontrar o cupom dourado do Willy Wonka em cada um deles. Tudo para me entreter quando estou comigo mesmo.

Sou chato com a minha solidão. Não gosto de ninguém intervindo nela. Gosto de estar só, mas morro de medo de ficar só. Por isso falo pelos cotovelos, dialogo insistentemente com o outro, idependente da vontade do outro me escutar e refalo o que disse quantas vezes sinta necessidade para preencher o vazio que existe entre mim e a alma do outro. Falo para me acostumar com minha voz. Porque gosto da minha voz. Porque é isso que me resta nos dias que não consigo me ver como um entre muitos e principalmente quando me vejo como mais um entre muitos.

Sou um velho chato e implicante com a linguagem. Especialmente com a linguagem dos outros. A minha não, que não sou suficientemente humilde para apontar os meus próprios defeitos. Não na frente de platéia. Afinal, o destino (ou a genética, não sei ver a diferença entre eles) já foi suficientemente sacana comigo me dando essa cara de woodyallen tupiniquim e uma conta bancária eternamente negativa, além de uma incapacidade patológica de conduzir um automotivo.

Talvez por tudo isso acima eu implique sobremaneira com quem confunde probabilidade e possibilidade. Porque, apesar de ser muito improvável, eu morro de medo da possibilidade de morrer só.

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As amigas e o sexo

September 8th, 2009 § 6

Nunca entendi quem gosta de separar definitivamente, entre dois mundos à parte, duas coisas: amizade e lascívia. Quer dizer, não que ambos venham acompanhados sempre e absolutamente juntos, mas que achem impossível a convivência pacífica dos dois.

Claro que esse problema – na minha humilde opinião – afeta quase que exclusivamente as mulheres. Homens tendem a separar (e misturar) afeto com tesão desde priscas eras. Aliás, somos adestrados a querer sexualmente a outra (ou o outro) pelas revistas de mulé pelada, filmes pornográficos e admiração de calcinhas distraídas que se anunciam debaixo das carteiras do colégio.

Isso talvez se dê pela forma paradoxal que as mulheres se referem ao próprio ato sexual. Na mesma argumentação com um cavalheiro, a dama irá se referir ao ato em si como “apenas sexo” e como “isso aqui” – apontando para as áreas púdicas – “não é para qualquer um”. É a síndrome que eu chamo de buceta cara/buceta barata.

Explico. Uso o termo crasso buceta (ou boceta) para tornar a coisa ridícula porque, em essência, não faz o menor sentido o processo. E uso o binômio cara-barata para ilustrar a contradição em termos.

Ilustro em caso.

Rapaz aborda a menina. Ela é sua conhecida, talvez uma amiga. Há tensão sexual do lado da menina. Há clara e declarada do lado do rapaz. Resolvem sair juntos. Ele aborda a menina. Ela diz “mas você só quer sexo comigo”. Ele diz “como assim sexo é ‘só’ sexo? Sexo nunca é só. É algo mais, é completude, é o carinho definitivo, o beijo mais íntimo e o afago mais descarado. Nunca é pouco.”

Ela pensa, bebe uma cerveja – talvez uma tequila, se o mancebo for ardiloso e inescrupuloso – e diz: “eu não sou qualquer uma. Eu não transo com qualquer um. Eu me valorizo, sabe?”

Quantas vezes não vimos essa cena? Então a menina tem um grande valor e o sexo em si é pouca coisa?

Nunca consegui entender o conceito de “sexo estraga a amizade”. Sé é algo sem valor, então qual a diferença entre um beijo na bochecha e o sexo? Se é algo valiosíssimo, que mantenhemos a virgindade acima de tudo e até o casamento, certo? Mas não é o que se pratica. As moçoilas preferem ser iludidas pelo príncipe em armadura reluzente que se revela um cretino a transar com o amigo que está ali, ouvindo as mazelas diurnas – e noturnas – da outra.

De outro lado, entendo quem não quer nenhum tipo de intimidade com os amigos. Que o limite da intimidade com o alheio é o beijo no rosto. Mas essas não abrem sua necessaire emocional para outros, para o conselho, o desejo e o querer do amigo do lado.

Ou talvez eu esteja redondamente enganado e não passe de um cretino. Mais um cretino.

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As últimas linhas

September 7th, 2009 § 0

Algumas pessoas gostam de relembrar o primeiro parágrafo de um livro ou mesmo a primeira frase de um texto. Diz-se até que, depois da primeira página, as seiscentas seguintes até que vão fácil.

Comigo não é assim. Não tenho disciplina, nem perserverança sequer para dois mil toques de texto, quanto mais para seiscentas páginas de enrolação maravilhosa.

Sou da pós-geração de blogues, daqueles que eram preguiçosos demais para colocar uma resma de papel do lado da olivetti cansada e debulhar pensamentos e tinta meses a fio. Um post já me basta, um texto curto me satifaz (de diversas maneiras) e resolve tudo.

Mas há um orgulho babaca, idiota mesmo, de querer fazer uma obra maior que eu mesmo. Algo pelo qual eu seja lembrado depois da minha morte e garanta o sustento do imbecil com quem minha filha se casará num futuro bem distante.

Eu, quando abro um livro novo, vou direto para o último capítulo. Se ele for bom e me despertar o interesse, leio-o de cabo a rabo. Até gosto de inícios bem contados, mas é a possibilidade do desfecho que me agarra na história.

É o devir que me mantém amarrado ao presente

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