June 13, 2007 5

Papo de bar

By in textos, tribuna

publicado na Tribuna da Imprensa 

“Não entendo a tua relação com Paula, cara. Você diz que é apaixonado pela garota mas deixa ela correr solta.” “É complicado mesmo. Não sei se vale a pena explicar.” “Também não acho que valha a pena. Mas não quero entender o teu nela, mas o porquê de você não colocar essa fila para andar.” “Mas a fila anda, o caixa é rápido e eu ainda a quero.” “Só pode ser fissura.” “É isso. É uma fissura. Fissura aqui dentro, ó. Fissura chamada ciúmes.”

Enquanto Marquinhos apontava para a cabeça, Júlio pedia mais dois chopes. Colarinho curto, por favor. Isso. Dois dedos.

“Por que você pede ‘por favor’ pros garçons? Eles não estão fazendo favor algum a ti. É o deles.” “Mania de carioca. Lá podemos não fazer uso de ‘muito obrigado’, ‘com licença’ ou ‘por favor’. A não ser com os garçons.” “Juro que não entendo.” “É simples: temos de ficar dos garçons para conseguirmos ser atendidos. Nos bares ‘clássicos’ é assim ao menos.” “Ainda não entendo.” “É porque você não é carioca. Não vai entender a referência de banheiro sujo e atendimento ruim para boteco bom.”

Os chopes chegam, Júlio agradece mais uma vez e elogia o excelente serviço. Muito obrigado, doutor. Estamos aqui para isso mesmo.

“Mas conta aí. Quando começou essa tua fissura na menina.” “Não é uma fissura nela. É uma fissura por conta dela. Um ciúme que foge aos padrões, meu.” “Que seja. Conta.” “Então. Eu a conheci nessas idas e vindas da USP. Numa vernissage estávamos falando de Sartre e Heiddeger. Eu, o Carlos – que você conheceu ontem – e o nosso professor de Lógica.” “O coroa tem pinta de curtir uma caninha mesmo.” “Não perde um evento de ácool gratuito, o puto. Mas estávamos lá vomitando de quinta movida a vinho de sexta quando surge do meio do nada a menina linda. Cabelos negros, um olhar de desesperada, uma sensacional no ombro e um cheiro de quem havia dado há pouco. O professor catou a menina num canto e faturou a noite. Nunca mais esqueci dela.”

Júlio virou o que restava do chope e pediu um jiló assado. Com alho, por favor. Ah! Manda uma porção de pastéis de carne e queijo. Valeu! Olhou pro amigo e começou a entender a questão.

“Fala mais.” “Nem tem o que falar. Ela fez contato via Orkut com uma galera do evento e ficamos ‘amiguinhos’. Daí messenger, telefone, cafés e sopas e eu me vi confidente das aventuras sexuais dela.” “Dançou, negão. Mesmo. Essa daí você nunca vai ver pelada na vida.” “Eu sei. Mas não sei o que fazer.”

Marquinhos virou o chope quente e comeu um pastel. Fez careta quando viu que era de queijo e sinal pro garçom quando capturou sua atenção. Me vê mais um. Chope. Olhou pro amigo e respirou fundo antes de falar.

“Meu, o lance não é ela ter alguém. Tô pouco me lixando para isso. Será que é tão difícil de entender? Não quero saber de , traição, adultério, essas merdas todas que rodeiam os relacionamentos. O meu lance é o desejo e até onde chega a tolerância de um homem frente a esse desejo. Ela tirou umas peladas com o carinha atual, sabe? E eu estou pouco me lixando se o mundo vai ver ela pelada ou se o cara vai transar com ela centenas de vezes. Ou com centenas de homens. Ou , tamanduás, anões de jardim. Não me importa. A questão é entre mim e ela: eu quero vê-la gozando e eu sendo o responsável por esse gozo. E eu não consigo viver com ela me negando a chance de fazê-la feliz uma vez ao menos.”

Pediram a conta.


Tags: , , , , , , , , , , , , ,

Tags: , , , , , , , , , , , , ,

5 Responses to “Papo de bar”

  1. Mr T. says:

    É fato, ser mal tratado nos bares cariocas é como uma tradição… Jamais esquecerei da vez em que eu e B. estávamos lá no bar e uma pessoa na nossa mesa pediu “garçom, o cardápio” e ele mais que prontamente respondeu “chope?”, “não não, cardápio”, “não, agora é só chope, cardápio fica pra depois” e saiu andando… Acho que isso foi na mesma noite que tentaram botar a gente pra fora do bar por termos cometido o pecado de parar de consumir por 5 minutos…

    Agora, vem cá, que negócio é esse de Jorjão brother? Rs.

    Abraços.

  2. Thaís says:

    Caralho, não agüento mais ler teu link na Blogueiros, então pra ver se te anima e você para com essa porra, vim deixar um comentário carinhoso..
    E que você se livre desse mal que te faz publicar tantas vezes o link dessa joça.
    Beijinhos

  3. Erica says:

    Oi, cheguei aqui pelo site do Edu Lobão. Achei esse texto lindo. Parabéns! :)

  4. Ceila Santos says:

    Fantástico. O verdadeiro desejo carnal… não tem a típica moral nem nenhum cuidado, é cru e nu…bárbaro… só mesmo quem o conhece para respeitá-lo como tal assim como quem passa pelo rio para aprender a tratar bem os garçons….hahahahahaha. adorei. Parabéns!

  5. Muneo says:

    Eu simplesmente trato bem garçom, pois já vi garçom sacana, que depois da grosseria do cliente, cuspir no copo de chop do rapá. Por isso, nunca, em hipotese nenhuma trate mal um garçom(pelo menos antes de ser servido!)

    Ótima crônica! =)

Leave a Reply

You must be logged in to post a comment.

友情链接:

南京装修网

南京装修日记

南京装修风水

南京装修验收

南京装修问题

南京装修家具