Para a maioria dos seres humanos, chega um momento inevitável que é o de trocar todas as estruturas de relações que estabelecemos nas nossas dezenas de estações vividas. E é uma situação esquisita, uma verdadeira “troca de paradigmas”, ou melhor, reaplicação dos sintagmas que forjamos sob muita troca de ATP por ADP, desde a tenra infância até a idade adulta, para a maioria dos seres humanos.
Num determinado momento, você deixa de ser apenas uma criatura egoísta e mesquinha, vil e torpe, referenciado por todos como “aquele cuja sombra faz crianças chorarem” ou “o terror dos corações das meninas” ou ainda “a detonadora de zíperes do marketing”, para ser a mesma criatura torpe, vil, mesquinha e egoísta, mas com um adendo que muda tudo: “pai (ou mãe) de cicrano (ou beltrana)”.
É aí que se dá a maior revolução estrutural possível numa mente madura e adulta. Chego a crer que essa é a prova iniciática definitiva para o mundo de gente grande. Tudo até então era ensaio e bazófia, agora, as cores que regem a vida são de tom pastel (ou rosa, no caso de pais de meninas com seis anos ou mais).
A revolução começa (mas não se limita) nos termos que passam a ser empregados no dia-a-dia real. É claro que você mantém a sua identidade, mas todas as relações familiares trocam de nome. Seu cônjuge passa a ser a Mãe ou o Pai; seus irmãos, os Tios; seus pais, os Avós; seus cunhados, os Tios (cunhado não merece título diferenciado); seus sogros, Avós (Os Outros Avós) e, se você bobear, seus amigos são automaticamente agregados ao seu núcleo familiar com o título genérico de Tio ou (o horror!) Dindinhho.
Nessa passagem, é normal que os pais se sintam um tanto quanto desconfortáveis quanto à forma de tratamento. Leva um tempo até que se habitue a chamar a sua progenitora de Vó ou, em casos mais raros, sua avó de Bisa. Faz-se isso tanto para não confundir a criança (que não tem culpa de tanta nomenclatura familiar) quanto para encarnar na sua mãe que dizia que era muito nova para ser avó ou no seu irmão que se recusa a ter sobrinhos: “Só tenho primos!!”. Chistes apropriados para essas ocasiões são: reforçar àquela cunhada solteirona e mal-apessoada a alcunha de tia — “Querida, dá um beijo na sua tia e pergunta quando ela vai te arrumar um priminho para você brincar…” — e jogar um neologismo como “prima-avó” para aqueles parentes mineiros distantes que você nunca dominou a linha de parentesco.
Alguns revezes inevitáveis: o cunhado passa, definitivamente, a ser um membro da família; você terá de aturar a figura do “padrinho”, cara que aparece no batismo completamente encachaçado, canta sua irmã e só aparece no aniversário de quinze anos de tua filha, com a pior das intenções. Uma maneira de contornar isso é transformar o cunhado em padrinho. Se você tiver sorte, ele aparecerá apenas no batismo (encachaçado ou não) e na festa de quinze anos da tua filha. Na pior das hipóteses, você resume dois chatos possíveis em um inevitável.
Mas esse processo acontece na infância dos teus filhos. Tudo piora quando chega a adolescência e, principalmente, a pós-adolescência, quando todas as pessoas interessantes (leia-se aqueles projetos de semi-deuses e semi-deusas que são os colegas de seus filhos) te referem como “pai” ou “mãe” de fulano. Pior: tio!
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