May 4, 2007 4

Partidas

By in textos, tribuna

publicado na Trubuna da Imprensa

No do Largo do Machado, o anticlímax. Ele, cheio de mãos e dedos, não sabia como contar que já estava apaixonado. Descobrira nas últimas horas que não poderia mais ficar longe daquela menina. Os óculos, os braços esguios, o sorriso matreiro e o jeito de sambista-suíngue-sangue-bom entraram definitivamente na sua vida. E ele se entregara a esse sentimento perdidamente. Perdidamente.

Ela, ainda com a cabeça cheia das promessas quebradas por um outro rapaz, nem pensava no que aquele olhar queria dizer. Tinha a sua vida a lhe ocupar o core e uma batalha de vida contra o mundo que se apresentava a lhe devorar os sonhos e as vontades de tomar o volante de seu próprio destino.

Abraçaram-se com força. Seio contra seio, face contra face, pernas “entrecoxadas”. Sussurro no pé do ouvido. “Não queria ir embora. Por mim o tempo parava.”

Ela olhou com mais atenção e o sorriso amarelo dele disfarçou o desejo incubado. Ela achou que era mais uma das inúmeras piadas e saiu meio trôpega para pegar o trem na direção da Zona Norte. Ele, teso e frustrado, desceu a galope para pegar o que ia para a Zona Sul.

Perdeu mais alguns minutos olhando as janelas e caçou o seu futuro entre as pessoas que esperavam do outro lado. Nada viu. Afundou na cadeira dura e fria e esperou a estação chegar. Na cabeça, repassou as marés emocionais que havia vivido nos últimos anos e sentia que estaria entrando em mais uma encrenca. Podia até fazer um rol de tudo que iria impedir que aquele desse certo. Podia listar a diferença de gostos musicais, o salário curto dos dois, a beleza cinética que ela ostentava que contrastava com o charme de tuberculoso dele, das profissões que tomavam o seu pouco tempo livre, da insegurança de ambos em se largar em braços alheios, as responsabilidades que: dela eram todas suas e dele divididas para muitos, os projetos que eram diferentes e até mesmo os sexos que, por si só, já geram idiossincrasias maravilhosas. Em suma: estava contando que tudo daria errado apesar do seu que só aumentava a cada estação que passava.

O problema é que não passava a vontade de saltar na próxima estação, pegar o celular e implorar: “Me espera! Eu tô voltando!” Pelo contrário, só aumentava a agonia a cada metro perdido entre os dois. Sabia que a história deles poderia terminar ali, com um “até logo” que logo viraria um “adeus, foi bom te conhecer”. Sabia que aquelas distâncias todas só iriam piorar com o tempo e que o amor da sua vida iria embora junto com os trilhos, as pessoas e as paisagens monocromáticas e subterrâneas que ele acompanhava em desalento pela janela. Sentia na carne mais próxima de sua alma que ele jamais beijaria aquela boca. Que a promessa seria vã e teria de se contentar com os sonhos povoados de fantasmas que rondavam o fritado da cama solteira. Sabia que a covardia que o impedira de ser feliz antes, em tantas outras oportunidades, mais uma vez o açoitara. Pior. Iria deixar a naquele mesmo .

Ao desembarcar, atendeu o telefone. Era ela. “Não esquece de mim quando se for?” “Nunca. Não me esquece?” “Nunca.”

Mal reconhecia o sorriso bobo no reflexo da janela. Desembarcou pelo lado direito.


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4 Responses to “Partidas”

  1. mark says:

    É possível ser entusiasta do amor alheio? Se sim, já estou na arquibancada!

    Abs ;¬]

  2. vivien says:

    Ter que ” deixar pra lá” é angustiante.

  3. rachel says:

    bem que o oswaldo me disse que eu tinha uma alma-gêmea-de-blog (rs). olha, nem te conheço, mas já estou torcendo também – porque a covardia alheia também é a minha. e porque também cansei de perguntas sem resposta. a gente tem que tomar fôlego, em algum momento da vida, e apostar em ser feliz!
    boa semana, voltarei sempre [pode?]!

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