January 31, 2002 5

pedaço de poema

By in citações, mais poemas (de outros)

Na primeira noite,
Eles se aproximam,
Colhem uma flor,
E não dizemos nada.
Na segunda noite,
Já não se escondem,
Pisam nossas flores,
Matam nosso cão,
E não dizemos nada.
Até que um o mais frágil deles,
Entra sozinho em nossa ,
Rouba-nos a
E conhecendo nosso mundo,
Arranca-nos a voz da garganta,
E porque não dissemos nada,
Já não podemos dizer nada.

Não sei de quem é essa poesia, mas cada vez que eu apanhei de um bandido, cada vez que levei um esporro por fazer o que achava certo, me tornei mais e menos do que isso.


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5 Responses to “pedaço de poema”

  1. Vivien says:

    Maiakowiski?

  2. sarah says:

    eu vi esse poema na novela Luz do sol

  3. Nina says:

    O poema é de Eduardo Alves da Costa.
    Chama-se No caminho, com Maiakóski (um dos meu três poetas em lingua não portuguesa preferidos.)

    NO CAMINHO, COM MAIAKÓVSKI

    Assim como a criança
    humildemente afaga
    a imagem do herói,
    assim me aproximo de ti, Maiakósvki.
    Não importa o que me possa acontecer
    por andar ombro a ombro
    com um poeta soviético.
    Lendo teus versos,
    aprendi a ter coragem.

    Tu sabes,
    conheces melhor do que eu
    a velha história.
    Na primeira noite eles se aproximam
    e roubam uma flor
    do nosso jardim.
    E não dizemos nada.
    Na segunda noite, já não se escondem:
    pisam as flores,
    matam nosso cão,
    e não dizemos nada.
    Até que um dia,
    o mais frágil deles
    entra sozinho e nossa casa,
    rouba-nos a luz e,
    conhecendo nosso medo,
    arranca-nos a voz da garganta.
    E já não podemos dizer nada.

    Nos dias que correm
    a ninguém é dado
    repousar a cabeça
    alheia ao terror.
    Os humildes baixam a cerviz:
    e nós, que não temos pacto algum
    com os senhores do mundo,
    por temor nos calamos.
    No silêncio de meu quarto
    a ousadia me afogueia as faces
    e eu fantasio um levante;
    mas amanhã,
    diante do juiz,
    talvez meus lábios
    calem a verdade
    como um foco de germes
    capaz de me destruir.

    Olho ao redor
    e o que vejo
    e acabo por repetir
    são mentiras.
    Mal sabe a criança dizer mãe
    e a propaganda lhe destrói a consciência.
    A mim, quase me arrastam
    pela gola do paletó
    à porta do templo
    e me pedem que aguarde
    até que a Democracia
    se digne aparecer no balcão.
    Mas eu sei,
    porque não estou amedrontado
    a ponto de cegar, que ela tem uma espada
    a lhe espetar as costelas
    e o riso que nos mostra
    é uma tênue cortina
    lançada sobre os arsenais.

    Vamos ao campo
    e não os vemos ao nosso lado,
    no plantio.
    Mas no tempo da colheita
    lá estão
    e acabam por nos roubar
    até o último grão de trigo.
    Dizem-nos que de nós emana o poder
    mas sempre o temos contra nós.
    Dizem-nos que é preciso
    defender nossos lares,
    mas se nos rebelamos contra a opressão
    é sobre nós que marcham os soldados.

    E por temor eu me calo.
    Por temor, aceito a condição
    de falso democrata
    e rotulo meus gestos
    com a palavra liberdade,
    procurando, num sorriso,
    esconder minha dor
    diante de meus superiores.
    Mas dentro de mim,
    com a potência de um milhão de vozes,
    o coração grita – MENTIRA!

    EDUARDO ALVES DA COSTA
    Niterói, RJ, 1936

    Nota: Poema publicado no livro ‘Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século’, organizado por José Nêumanne Pinto, pag. 218.

    (Claro que embora eu soubesse, por acaso, o autor, o poema completo foi o google quem me deu!)

  4. Nina says:

    Ah!!! Começou muito bem o blog!!

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