publicado na Tribuna da Imprensa
Diz-se das pessoas com mãos pequenas que são habilidosas, dado que portam dedos pequenos, sutis e delicados, propícios para trabalhos idem. Que com leveza e presteza conseguem fazer o que portadores de desajeitados formões cárpicos não logram êxito. Que são sutis e meigas. Que são feitas para se segurar coisas macias e suaves. Ou para amolecer o que é carregado pelas eras e endurecido pelas pressões históricas. Que são sinal de destreza e são boas para a prestidigitação. Que conseguem tocar a alma e os corações por conta disso tudo e muito mais.
As pessoas de mãos mínimas são quase um esboço de gente feita. Enganam o mais cético dos homens-cinza. São crianças com idade de anciãos. Criaturazinhas que saltam dos cantos iluminados de sol dessas tardes de domingos outonais e que vêm recheadas de sorrisos e doces e babas e cócegas e tudo que te faz perder horas de trabalho a fio. Te fazem deixar o almoço esfriando e você esquecer a televisão falando sozinha, isolada. Do jeito que as tardes outonais de domingo deveriam ser.
Sempre.
Diz-se das pessoas com mãos miúdas que são capazes de encantamentos ínfimos, mas poderosos. Elas tiram as coisas dos lugares e as colocam onde deveriam sempre estar. A carta que não deveria ser lida, no lixo. O convite para a festa que seria esquecida, na carteira de dinheiro. O marcador de texto do livro de economia, trocado de volume, marcando a poesia favorita. A poesia que jamais seria relida. Não hoje. Não com essas lágrimas que pontuam a saudade e a vontade de estar do lado de quem você ama de verdade.
Diz-se das pessoas que têm as mãos ínfimas, que têm pés igualmente singelos. Que andam em silêncio e entram nos lugares onde você nunca esperou que alguém voltasse a habitar. Que acendem luzes nas horas que você pedia uma penumbra, que te impedem de chorar de desespero por achar que ninguém mais te escuta nesse mundo de estática e estrondos. Que te faz trocar de faixa do disco que você ouvia porque a música que estava a tocar era a que te lembrava de alguém que não entendeu que o seu amor era (é) incondicional e que te fez pensar se valia a pena se apaixonar novamente e de novo e mais uma vez, num ciclo de paixões e desejos que nunca se satisfaziam, apenas te arrastavam para a próxima e a seguinte. Que te faz olhar para o dia seguinte e pensar que é mais um sol que nasce e não um poente que se anunciará. Que te faz desejar o cansaço do fim do dia, sinal da vontade imorredoura de tornar-se maior que a vida. Tornar-se aquilo que pretendia ser quando eras uma pessoa (quase-pessoa) de mãos pequenas, miúdas, ínfimas, singelas, diminutas.
Queria dizer isso tudo das pessoas que têm as mãos grandes, agigantadas pelos afazeres e labuta diários. Queria dizer isso tudo de mim. Mas só posso falar que tenho um coração diminuto, singelo, ínfimo, miúdo e pequenino. Que só cabe nas mãos de quem tem as mãozinhas pequenininhazinhas. Do tamanho de uma menina de metro e meio de altura.
Diz-se isso tudo das pessoas que têm as mãos pequenas. E muito mais.
Tags: aleatórios, amor, cansaço, dia, hora, livro, minuto, música, oração, saudade, sol, trabalho, tribuna da imprensa
Só para registrar que eu ADOREI!!! E não só por que tenho mãos pequeninas! rs
Grandes coisas o dono de um coração miúdo e pequenino pode fazer: uma menina de um metro e meio de altura com mãozinhas tão pequenas. Lindo texto!
Tão lindo o texto, dearest Mr. Z, que você quase quase me convenceu que boas mesmo são as mãos pequeninas. Deixo a mão da minha pequena, pequenina, e para todo o resto continuo preferindo a palma larga e os dedos compridos com os quais vim ao mundo.
Aliás, engraçado. Homem de mão pequena é que não dá. Não dá. Homem tem que ter a mão grandona, pra engolir a nossa e fazer, aí sim, a gente se sentir pequenininha.
De novo, texto lindo.
Bezzos, querido, boa semana!
PS: Tirei o snap, é mole. Eu faço parte das pessoas que buscam essas informações na parte de ajuda; hehe. Valeu a dica.
Já diria E.E. Cummings, que roubo diretamente de um dos meu filmes prediletos do Woody Allen:
“nobody,not even the rain, has such small hands”
Lindo texto, de fazer viver as emoções que ele traz… sentir o mais perto de algo assim.