June 20, 2007 2

Pulando corda

By in textos, tribuna

publicado na Tribuna da Imprensa

A moça, quando entrou no quarto, era toda saia rodada e sorriso. Um sorriso moreno e olhar esperto encantaram à primeira vista o incauto que lhe abrira a porta. Ele sabia que estava irremediavelmente encantado por ela. Daquele momento até o fim de eles tentariam, a todo custo, tornar-se um. Reviveriam o mito do Andrógino, contado por Platão em O Banquete, de todas as maneiras erradas e divertidas possíveis. Até amanhecerem na segunda-feira e buscarem novamente as saias rodadas e os sorrisos espalhados pelo apartamento.

Ela seguiu o seu caminho conforme havia planejado. Tá certo que os planos estavam ali para serem mudados a qualquer momento, mas ela não contara com tamanha alteração no escopo. Não esperava uma paixão a essa altura do campeonato. Tampouco uma paixão dessas, fora de esquadro do que estava habituada a viver. Era de um ineditismo que lhe tirava o chão sempre que tentava racionalizar. E como era bom ter os pés em outros lugares que não o asfalto previsível. Ela sentia que haveria carência e de doer os ossos mas tinha certeza que algo compensaria a dor do devir. Pior, sabia que era algo por demais forte e importante para ousar se negar.

Ele seguiu o seu caminho contrariado. Queria torcer o destino novamente, da mesma forma que havia feito no recente, mas sabia o custo que era lidar com as velhas nornes. Brincar de pular nas cordas das fiandeiras do destino era coisa para quem estava acostumado a viver várias vidas ao mesmo tempo. E não era esse o caso. Ele havia sido uma criança esperta, sabia do futuro traçado e tal, e tinha a manha de mudar o seu destino quando se apresentava cômodo demais. O problema eram as conseqüências imprevisíveis dos seus atos. O bem imediato que fazia ao mexer no seu era um presente louco armado na mesma . Achou por bem deixar quieto e ver o que daria essa história. Uma coisa estava certa: ela era a mulher da sua vida. Até ali, ao menos.

Cada um foi para um canto do mundo. A ponte que unia as duas vidas era bem fácil de transpor, bastando uma hora e muito dinheiro no bolso ou seis horas e paciência de Jó, mas o rio que os separava era outra história. Ambos sabiam e temiam isso. Ainda assim as lembranças dos toques, os gostos na memória, os cheiros que não tinham sido lavados das mãos, dos rostos, dos peitos e do ventre gritavam uma história que teria de ser a dois.

O fio das tecelãs imortais dera um nó cego nesse encontro.

Ela, ao chegar em , abriu sua caixa de lembranças e guardou o que sobrara do fim de semana. Um bombom. Algumas flores. Um pacote de preservativos ainda fechado. Dois frascos de creme. Ele, anotou algumas datas e fez umas contas. Vinte dias, a partir dali, voltaria. E mudaria os cursos de rios se fosse preciso. Iria bater um papo – novamente – com as três bruxas que ficam opinando na vida dos outros. Ou apelaria para instâncias superiores. Ou compraria uma garrafa de cachaça, o que fosse mais fácil e desse jeito no fim das contas.

Fato é que já tinha discurso em mente. Iria chegar à tecelaria dos brâmanes e diria: “Não se nega a uma paixão o direito de persistir. Ainda que seja erro. Ainda que seja um acerto.” Já imaginava toda a corte celeste se curvando e as três megeras tendo de dar mais atenção ao fio novo que surgiria dos dois. Afinal de contas, acabara de conhecer a mãe dos seus outros . A mulher com quem ele iria morrer.

Mas isso, só amanhã.


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2 Responses to “Pulando corda”

  1. anaí says:

    Que bonito, Zander! Gostei especialmente do final “Fato é que já tinha discurso em mente. Iria chegar à tecelaria dos brâmanes e diria: “Não se nega a uma paixão o direito de persistir. Ainda que seja erro. Ainda que seja um acerto.” Já imaginava toda a corte celeste se curvando e as três megeras tendo de dar mais atenção ao fio novo que surgiria dos dois.”

  2. Luly says:

    “Ela sentia que haveria carência e saudades de doer os ossos ” . Essa frase resume os dias que ela vai viver. Certeza.
    Muito bem descrito. A mulher da vida dele até ali sentiria um grande aconchego ao ler isso, e eles teriam aquela sensação gostosa de reciprocidade. :)

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