publicado em LIVinRooom.
publicado na Tribuna da Imprensa.
“Toda mulher tem de ter quatro homens na vida. Se não tiver esses quatro tipos, vai ser uma eterna frustrada.” “Porra Elisa, parece que você leu o texto do Zander.” “Que texto que nada. Aquilo era bullshitagem pura. O cara não entende de porra nenhuma. O que eu te digo é apenas a verdade. Aliás, como sempre, estou certíssima”.
Os amigos riram na mesa e se revezavam entre zoar Elisa, servir-se do linguado à moda e tentar adivinhar o que ela estaria inventando agora. Ela sempre vinha com uma história inverossímil, uma teoria incongruente ou uma aventura impossível. Sempre era diversão garantida dados os maneirismos e as caretas que, inevitavelmente, acompanhavam as suas narrativas. Ela era uma das raras mantenedoras da arte de contar histórias e sempre praticava a sua perícia nas fogueiras modernas: os bares da vida.
“Então, o primeiro homem que uma mulher tem de ter é ‘O Homem Que Ela Admira’. Esse cara tem de ser lindo, inteligente, rico, bem-sucedido, atlético, carismático e carregado dos demais outros atributos que nós atavicamente procuramos em cada macho procriador. Note que ele jamais será o pai de nossos filhos ou tampouco será ‘O Que Nos Acompanhará Por Nossa Vida’. Ele apenas é o fruto de nossa admiração sincera e plena.” “Mas se eu encontrar um cara assim eu caso com ele!” Disse Marco, debochando descaradamente. “Daí, nenhuma novidade.” Diz Júlio, contra-zoando o amigo à mesa.
“Mas não é para casar”, retoma Elisa, “é para admirar. No máximo dar uns beijos ou uma trepadinha casual. Ele é ‘O Intangível’, ‘Aquele Que Não Pode Se Sujar No Mundano’. Saca aquela mulher que você não consegue imaginar cagando ou menstruando? Pois é. Ela caga e menstrua. Esse carinha não peida debaixo do cobertor. Nem cheira depois.” “Mentira! Não tem quem não faça isso!” “Porra Júlio, não tá difícil entender a coisa, né? Quer que ela desenhe?” “Porra Alice, não sou tão estúpido assim.” “Menino, menina, deixe a Elisa terminar que isso tá legal.”
“Pois é. Deixa eu falar do ‘Homem A Se Admirar’.” “Não tem mais o que dizer, Elisa. Tá entendido isso. Ele é O Muso, o que inspira, o intangível.” “Não, Marco. Ele não inspira. Ele, no máximo é um modelo e, como todo modelo, está destinado a ser questionado e substituído. A Musa (ou o Muso) não. Ele, ela, é fonte de inspiração do poeta, do artista e só é substituído numa epifania. Numa nova revelação de entendimento do mundo. ‘O Homem A Se Admirar’ é substituído à medida que a mulher amadurece e vai vendo que precisa cada vez menos de modelos masculinos até aceitar o macho com todas as suas falhas e defeitos.” “Quer dizer que é um modelo descartável?” “É, Alice. Algo por aí. De forma que, quando o modelo antigo não cabe mais na nossa vida, jogamos fora e conhecemos outro homem lindo, inteligente, sensível, milionário, sarado, simpático e igualmente intocável.”
Os meninos trocam rapidamente de assunto enquanto elas se levantam para ir ao banheiro. Na volta os rapazes já estavam com a conta pedida e armando para a noitada. “Vocês querem ir conosco? Hoje tem Maldita na Matriz e posso colocar o nome das duas na lista. O Áureo é meu amigo e sempre tenho lá: ‘Marco e mais três’ na porta.” “Pode ser, baby. Vamos, Elisa?” “Vamos sim. Depois eu falo dos outros tipinhos”.
Conta paga. A noite ainda era uma criança pros quatro.
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