publicado na Tribuna da Imprensa
Rosa sentou-se em sua rotina e arrumou os pratos da longa mesa. Os glutões já estavam fartos de carnes, doces, pães, queijos e presuntos diversos. Esvaziaram o estoque de vinho no processo e agora davam-se o trabalho de comentar do trabalho, das mulheres, da vida alheia, dos jogos escutados no rádio do centro de sala, de arrotar e peidar e de processar o alimento.
À cozinha, arrumava os restos para os cães, verificava se tinha sobrado algo do manjar de coco, roubava um pedaço de pão, presunto gordo, queijo minas e do pernil do almoço. Nunca se juntava à mesa da sala. Dizia que não gostava de almoçar ou jantar ou mesmo de um frugal café da manhã. Falava que precisava emagrecer, que seria capaz de viver de ar e sol. Na verdade comia mais que os sete esparramados na sala. Mais que todos eles juntos!
Os pratos para Rosa, as panelas para Branca; os cães para Branca, as roupas para Rosa.
Finda a tarefa de minimizar o estrago da tropa, Rosa se aquietava no cantinho perto da janela para cozer uma meia, cerzir uma calça, bordar um bolso de camisa e Branca voltava à despensa para planejar o jantar e a ceia. A essa altura os sete já tinham terminado a sesta e voltavam para o campo para cuidar da vida e trazer mais dinheiro, comida e histórias.
Caindo a noite, a cena se repetia com cores mais vivas. Um puxava a viola e executava uma trilha sonora para Rosa forrar a mesa, espalhar os pratos e talheres. Outro abria um livro e contava histórias para as crianças dos vizinhos. Um terceiro arrumava a despensa com ajuda do quarto. Os demais se ocupavam das tarefas eventuais: portas, janelas quebradas; animais a serem pelados; fios desencapados do único poste de luz; uma carta a ser escrita; uma saliência com uma das cabras ou mesmo uma das galinhas. Apenas o menor deles é que se sentava no lado oposto de Rosa e a via cerzir peças e mais peças de roupas, fazia-lhe companhia e corte.
Após a ceia, dormiam. Ou quase.
Poderia ser uma vida tanto sofrida, mas elas se divertiam à sua maneira. Encaravam a escravidão doméstica como uma eterna brincadeira de bonecas, com os pequenos indo e vindo do trabalho sem fim e as entretendo com sua repetida ação cotidiana. Eles, de sua parte, sabiam que deviam ser gratos às duas. Já tinham tarefas duras demais durante o dia e reconheciam que o fardo das moças não era menos pesado. E todos tinham aprendido que os pesos, quando divididos, tornam-se escola e não um castigo. Um aliviava o outro de sua maneira, compensando a rotina pela segurança, a monotonia pelo ombro amigo, a distância do mundo pelo aconchego à cama, à noite.
Rosa sempre acordava antes de Branca e depois do menor de todos que pegava a água no poço e a colocava para aquecer antes mesmo da hora mais fria. Com a água já fervendo, Rosa se levantava da cama, limpava os rastros da noite anterior e ia preparar o desejum. Branca levantava sempre com o cheiro de café recém-coado e de broa esquentada no forno à lenha. Os outros seis acordavam aos poucos, revezando a bacia d’água. Água, barba, café e rua. Rotina, teto, companherismo.
Ao saírem os pequenos, um a um: meio sonolentos, meio cantando, Rosa e Branca encontram um momento para olharem o Sol a nascer e entenderem que, na sua própria e medíocre maneira, eram felizes e imortais.
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