Chovia e não passava um puto de um taxi. O desgraçado já estava molhado até os ossos e xingava o tempo, Deus, São Pedro e a mãe dos filhos da puta que passavam de carro, quentinhos, sequinhos. O mar decidira mudar de endereço justamente naquela noite. Do Atlântico para Botafogo. E trouxera bagagem.
Depois de desviar de três ratos mortos, quatro restos de sacos plásticos, uma centena de latas, garrafas pets e outros objetos de dejeto urbano ele consegue chegar no abrigo de ônibus da Rua da Passagem. Dez minutos que pareciam cem, passa um taxi. Parou. Entrou.
“Pronde, doutor?” “Xavier da Silveira, Copa” “Chuva forte, né?” “É”
“Putaquepariuquefriacadanadatomolhadoegeladoatéosossos!” Pensou.
“O doutor já traiu?” “Hein?” “To vendo que o doutor é noivo.” “Doutor não que eu não sou médico nem advogado nem tenho PhD!” “O doutor é noivo, né?” “Sou.” “Já traiu?” “Por quê a pergunta?” “Por que eu to traindo a minha mulher. Ela fica lá em casa o dia inteiro e eu, aqui na féria, to me amarrando com uma aí que tripulou mês passado. Não tinha dinheiro e me chamou para subir pro apê. Gostosa a dona. Corrida de Copa pro Méier. É puta, sabe?” “Sei.” “Mas me entende, conversa comigo. Não me enche o saco, nem me cobra nada. E fode comigo todo dia. Dá até o cu. E goza gritando como se fosse um bicho. Chega a acordar os vizinhos. Mas é puta, sabe?” “Sei.” “Cozinha bem pra caralho. Ganhei uns dois quilos.” “E a tua esposa? Já sabe?” “Sabe.” “E ela diz o quê?” “Diz nada. Ta querendo separar” “E você vai separar?” “Não sei. É caro. E ela é puta, sabe?” “Sei.”
O carro para. “Dez reais, normalmente seriam sete, mas com chuva, transito ruim, sabe?” “Sei.” “O senhor acha que eu devo me separar?” “Não sei.” “O senhor já traiu?” “Sim.” “Mas não era puta, era?” “Não.” “Boa noite!” ”
Atravessou a calçada, abriu a porta, acordou o porteiro. Subiu os dois lances de escada, abriu a porta do apartametnto, tirou a roupa, entrou no banheiro.
“Filho da puta.”
E chorou como se estivesse vivendo tudo de novo naquele momento.