Eu resisto à tentação de transformar este blogue em um sítio de filosofia, política e outras diatribes que cometo em listas de discussão, papos com amigos e afins. Resisto em transformar este espaço em um local de crítica literária, dicas culturais e roles de álbuns, livros, filmes consumidos por mim. Tampouco transformo-o em mais uma página de objetos de desejo.
Há pessoas que fazem isso tudo mais e melhor que eu jamais poderia fazer.
Tenho alguns ditados pessoais (a maioria impublicável e envolvem partes bem específicas do sistema digestivo humano) e um que se aplica propriamente ao que apresento é o “tempo é uma função mental”. Nunca aceitei a justificativa de “não haver tempo” para deixar de fazer A, B ou C, principalmente de amigos ou colegas que me prometem uma ilustração, um texto, uma música. Isso não quer dizer que eu não faça isso, pelo contrário, é normal que eu diga: “não tive tempo”.
Talvez porque eu entenda que um “não tive tempo” é uma forma mais adocicada de dizer “caguei para você e resolvi centenas de coisas desimportantes ao invés dessa paradinha aí” e outras variações da mesma função babaquara. Quando eu digo: “não tive tempo” quero dizer exatamente isso.
(Agora atenção. Essa é a virada do texto, ok?)
Mas há um outro lado na história. Nós costumeiramente damos mais valor às pequenas coisas que às grandes, aos pequenos aborrecimentos que às grandes tragédias – até porque o aborrecimento do outro é a nossa tragédia e vice-versa, né? – e tendemos a priorizar essas pequenenezas diárias ante o plano geral.
Já é cliché o quadro do pai que deixa de brincar com o filho para fechar mais um dos intermináveis formulários que preencherá para o trabalho, ou para entregar no prazo um texto dentre os bilhões que serão escritos e ignorados pela massa ignara (se a massa é ignara, ela ignora o seu redor). Ou ainda o livro que fica à beira da cama sendo cortejado, acariciado, enamorado e se desfaz antes que o seu dono consiga folheá-lo. Ele chega em casa diariamente estropiado pela máquina de moer gente que tira o sal do seu suor e mal tem o tempo – mental! mental! – de abrir a primeira folha e deixar-se levar pelo que fora escrito.
É assim o meu dia. Entro numa máquina de moer gente e pensamentos e ideias e textos e planilhas e saio no fim do dia (ou no meio da noite, vá lá) exaurido da vontade de abir um livro, de tocar um filme, um disco. Quiçá de trazer para cá a minha vida, essa mesma, drenada, secada, destilada pelas horas diurnas.
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[...] This post was mentioned on Twitter by zander_cp. zander_cp said: daí temos um textinho pro blogue bissexto. ah! é sobre o tempo! http://bit.ly/a1OMvW [...]
Maldita máquina de moer corpos. Tento driblá-la, mas daí me perco no caminho, insônia, faculdade atrasada, problemas… Aliás, seria esse não uma perda, mas um caminho alternativo?
Achei fantástico, só quis vir aqui te dizer isso.
O tempo nao existe na verdade, é só uma abstração que faz passarem as coisas em ritmos diferentes.
E fico feliz que vc nao tenha tempo pra mudar isso daqui. Tá ótimo do jeito que é.
Gostei do conceito de tempo & espaço mentais. Vou me lembrar deste texto da próxma vez em que disser que estou sem tempo… rs!