July 27, 2008 5

Sobre a arte do fim – carta ao Chico

By in textos, tribuna

publicado na Tribuna da Imprensa

Meu caro Chico,

Estou com duas cartas prontas na minha cabeça, mas relutava e reluto em escrevê-las. Escrevo-lhe essa primeira carta porque lhe devo desculpas prementes e desculpar-me é o que farei antes de tudo.

Há um ano você me telefonou e eu reagi de uma forma tosca. É que não sei ouvir um elogio sincero. Nunca soube ser elogiado. Me desconcerta, me quebra de uma forma que me impede de voltar à minha empáfia e arrogância normais.

Sei que você não me conhece ao vivo – pelo telefone não dá para saber como se olha, como o cara se porta, onde coloca as mãos e tal – ou bem o suficiente para poder reconhecer uma pessoa inteira nesses pedaços de gente que deixo antever nos textos. Por agora, apenas acredite que sou uma criatura pra lá de desinibida e com a língua mais rápida do sudoeste. Obviamente, tudo questão de defesa. Não existe pior tímido que o falastrão.

Pela situação esdrúxula e constrangedora, peço desculpas. Mas deixe-me explicar um pouco mais o que acontece nessa cabeça esquisita.

Você me elogiava com sinceridade e eu não sabia onde meter a cara. Elogio sincero – de quem não tem intimidade com a gente – é coisa muito rara. Acho que só fui elogiado assim por um professor de que invadiu a nossa sala num intervalo apenas para falar de um texto meu que estava exposto num mural da . De resto, só aquele papo social dos amigos e tal. E você me elogiava justo quando eu escrevia sobre coisas que são difíceis para eu falar até hoje: basicamente sobre os fins e sobre o meu pai.

Mas deixe estar. Provavelmente, quando desencantar o chope entre nós, eu paro com essa babaquice e tudo volta ao normal.

Só para fechar a coisa toda, aquele texto, “Crônica do amor seco”, foi escrito num momento de epifania, quando dei por mim que tenho muito pouco a ofertar às pessoas. Basicamente um sorriso rápido, uma tirada rasteira e uma profundidade de pires. Sabe?

E quando escrevi aquilo eu estava me sentindo como quando Dorian Gray encontra o seu retrato envelhecido e distorcido. Era uma ficha que não precisava ter caído, mas veio redonda numa caminhada triste pela Avenida . Chegando em , precisava vomitar tudo. Daí nasceu um dos meus textos mais redondos, que nasceu sem cortes, sem emendas, sem ajustes. Quase que nem o do nascimento da minha filha, “E assim se passaram sete anos”. Quando escrevi sobre o meu pai, foi um desafio que impus a mim mesmo e o processo é outro, a ser tratado em outra carta.

Mas, rodeios à parte, eu queria te falar dos fins.

Cada vez que começo alguma coisa sinto lá plantado o finzinho dele, sabe? É como se eu sentisse o cheiro da noite cair antes mesmo do nascer. Aquela maresia que vem anunciando o por do . Eu só fico me lembrando como era bom chegar da aula e ficar na janela sentindo o cheiro do mar anunciando as seis da tarde. Maresia, reza do Ave-Maria e bolo quente.

Sempre me senti confortável com o fim das coisas. A dor da finalização – que indica que a história havia sido verdadeira, do fundo do coração – e a sensação de uma história bem contada sempre me acompanharam.

Obviamente estou romantizando a coisa. A maresia nem era tão forte assim. E muitas vezes tive de engolir amargo um pé-na-bunda. E eu nunca gostei de romper com quem gosta de mim. Especialmente se gosta de verdade de mim. Mas não existe só esse fim, obviamente. Sair de um trabalho é sempre uma emoção interessante. Entregar um trabalho, nem tanto. Enterrar um ente querido, menos ainda.

Quando moleque, li um da Coleção Primeiros Passos: O Que é Morte. O dizia que a morte – ou o velório, como seu símbolo primeiro – foi migrando do interior da casa, da mesa da sala de jantar, para o hospital, para um lugar-comum de morte e fim.

Com os relacionamentos, a coisa é parecida. Se antes ficávamos adubando relacionamentos findos – que já fediam de tão mortos dentro do quarto, partilhando a mesma cama – hoje eles começam e terminam em um beijo sem nome. Não faço juízo de valor, até porque sou de pouca moral para julgar alguém, mas me espanta a facilidade que temos (que tenho! que tenho!) em virar uma página, chorar o texto que fora escrito e continuar em frente.

Talvez porque sejamos mesmo fadados a seguir em frente, apesar do que tenhamos feito.

Abraços do teu fã.


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5 Responses to “Sobre a arte do fim – carta ao Chico”

  1. Srta. Rosa says:

    É amigo. Parabéns. Lindo texto, Mr. Z. Nem tá rabugento nem nada. Poeta aí dentro mora (agora só falo contigo à la Yoda, reparou?).
    Leia a Louca da Casa, da Rosa Montero.
    E sobre fins, o que dizer? A gente compra no primeiro impulso um armário das Casas Bahia que não dura muito. Eu talvez ainda esteja na época em que se namore vitrines, junte-se dinheiro pra comprar e não saio terminando coisas por aí. Mas enfim. Tempos modernos.

    Bezzos, querido.

  2. Bruce says:

    “A noite é sempre mais escura antes do amanhecer”.
    Harvey Dent

  3. Achei o texto muito bonito. Me identifiquei com várias partes dele. ;-)

  4. Paula Muniz says:

    “O que você tem capacidade de fazer, tem capacidade também de não fazer”. (Aristóteles).

  5. Ana says:

    Linda carta senhor Catta Preta. :)

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