February 15, 2007 1

Sobre o crime dental com o gato

By in textos, tribuna

publicado na Tribuna da Imprensa.

Um amigo, consumidor de substâncias exóticas, me disse que não se sente responsável pela violência da em que vive e que o discurso “o consumidor é que é responsável” é hipocrisia pura. Apesar de eu tender a achar que não há UM responsável, mas uma conjuntura propícia ao estado de anomia a que sobrevivemos, o discurso a que ele se refere não é , muito pelo contrário. Ele chama à responsabilidade quem participa do processo. Deixa eu usar um exemplo hipotético para que possamos analisar a coisa sem as “preferências pessoais”? Entremos agora num mundo paralelo, onde as fórmulas funcionam e a realidade é ligeiramente diferente da nossa.

Fato ficcional 1: a venda de filhotes de gato para culinária é proibida por lei por ser de extrema crueldade com os bichanos e ser considerado eticamente errado o consumo de churrasco felino, apesar de culturalmente ter certa aceitação em comunidades carentes.

Fato ficcional 2: cria-se uma moda — alimentada por personagens da contra-cultura como o Amigo da Onça, de Péricles — de que comer carne de gato é legal, que o churrasco de gato é cult e ainda dá para pegar o couro para fazer tamborins e cuícas. Estudam-se métodos de criação de gatos em cativeiro, preservando o pêlo-curto brasileiro, o tradicional vira-latas de rua. Ainda assim, a sociedade não se convence disso, preferindo consumir o gato contrabandeado de Minas Gerais (dizem que a carne do gato mineiro é mais tenra).

Derivação dos dois fatos: cria-se um mercado ilegal, irregulado e que gira à margem da sociedade. As pessoas fingem que não compram, mas compram. Outros caras fingem que não vendem, mas vendem.

Até aí, “tudo bem”. Funciona assim no esquema de contrabando de peças de computador, peças de carro, roupas e bolsas da 25 de março, não é? Não tem gente se matando por esses pontos de distribuição, né? O problema é quando entram em cena as armas e a violência. Gente se matando por pontos de venda de churrasco de gatos, pelas melhores vias de escoamento de gatos de MG para o RJ e SP, por exemplo. Aí a sociedade idealizada acima se cotiza para uma dessas ações:

a) liberar o consumo de carne de gatos — mas sofrerá pressão dos lobbies da Argentina, Uruguai e Sri Lanka, que exportam carne bovina e de coelho para o Brasil;
b) entrar em uma ação de guerra contra o tráfico de churrasco — que aumenta a escala de outras ações ilegais, como tráfico de armas e eventual lavagem de dinheiro; ou
c) começa-se uma campanha para desestimular o consumo de carne de gato.

De novo, no modelo ideal, sem consumidor — ou melhor, sem massa crítica de consumo — não há mercado. Então, essa seria a forma “pacífica” para se acabar com o problema. Mas o problema é que o ser humano é dependente de carne de gato — estudos em Havard, Massachusetts, Texas, comprovaram isso em 1865 —, e o mercado demonstra-se perene. O que fazer neste caso?

Mudar a lei? A sociedade teria de assumir para si mesma que carne de gato faz parte de suas demandas primeiras, assim como bolsas falsas de qualidade a cento e cinqüenta reais ou programas de computadores a dez reais. No modelo ideal — e bem próximo do real — não se faz lei sem interesse ou respaldo social.

Combater o tráfico de carne de gato? É possível, mas o custo para isso é extremamente alto. Os EUA, que enfrentam altas taxas de consumo de animais exóticos e têm verba suficiente para entrar em guerra contra a Itália — Operação e Calzone nos Alpes, 1992 — não conseguem deter o trafico.

Ignorar tudo e dizer: “comigo não, jacaré! eu só como um churrasco de vez em quando”? Eximir-se de seu papel no palco social é a ação mais hipócrita de todas. Quer comer o churrasquinho? Beleza. Entendemos perfeitamente isso. Mas achar que não há transferência de poder seu para o crime ou, pior, defender que não tem nada a ver com isso é hipocrisia no último nível.

Em tempo: casos como o do pequeno João, dos bolivianos escravizados em um sobrado em Higienópolis, dos preços baixos da 25 de Março e da organização de facções criminosas não têm nada a ver com os pobres felinos e com esse texto acima.

É tudo ficção.


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One Response to “Sobre o crime dental com o gato”

  1. jaq says:

    Diizem por aí que é impossível se comer carne de gato. Lembro de uma aula de biologia em que o professor dizia: ” a carne de gato é esbranquiçada, mané. Impossível de se comer.”

    bjs!!!

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