Estou viciado em House M.D. desde que “descobri” que o ator principal é o Hugh Laurie, do A Bit of Fry and Laurie, com quem contracenava com o fabuloso Stephan Fry. Era viciado nessa série, que passava no Eurochannel, na TVA, nos idos de 1990 e muitos.
Mas isso não interessa. O que me chamou a atenção é que ele usa um jargão sensacional: “todo mundo mente” e normalmente é a chave para ele desvendar a doença do paciente da semana. Adoro o método de tentativa e erro que eles usam ali, mostrando bem didaticamente o que é o método científico. Afora a quantidade de patadas por centímetro quadrado que ele dá em todo ser vivo falante. Adoro.
E é verdade mesmo: não se pode confiar no alheio. Não que todos sejam canalhas ou pilantras, mas a verdade dificilmente fica na superfície. Nós temos a tendência de ou escolher o caminho mais fácil, aparentemente, ou de ficarmos com a melhor opção de acordo com o nosso viés ideológio, a despeito dos fatos gritantes à nossa frente.
Falo isso por conta de dois fatos recentes na minha vidinha: uma, foi a leitura do livro A Lógica do Consumo, (Buyology) de Martin Lindstron. Como todo livro para executivos e profissionais de marquetingue, ele é bem raso na apresentação de suas idéias, mas o texto claro, abrangente e caloroso, compensa a falta da exposição de dados e estatísticas. Em resumo, o autor fala sobre como a maioria das nossas decisões diárias é baseada em impulso, em falsas lógicas e muito mais na percepção do que temos da realidade que dos fatos brutos em si. Da mesma maneira, como a personificação das marcas e das empresas ajuda (ou atrapalha) suas vendas, a despeito do que a “lógica” diz.
O segundo fato foi uma discussão boba, com uma criatura que insiste em ulular seus vieses. Explico. Eu nem sempre tomo decisões e afirmo fatos que tenho certeza absoluta. Muitas vezes crio minha argumentação on the fly e tento dar uma coerência àquilo que digo, mas, por um outro lado, procuro sempre estar informado sobre o que digo, falo para evitar erros crassos. Em suma, fico orbitando no famoso educated guess e estou confortável assim.
A priori, nao acredito em “certezas absolutas” exceto como força retórica argumentativa. Tudo que eu falo pode ser demonstrado contra ou refutado. Aliás, deve. Adoro uma discussão porque posso ser provado errado e aí aprendo uma coisa nova, um ponto de vista diferente e repenso o meu pensar. E não tem nada mais excitante que entender o outro por um viés diferente, adotar um novo viés.
Mas não dá é para deixar de notar que, quanto mais estapafúrdia a criatura, mais desembasada e mais pedante, a sua argumentação tende a ser mais pedestre. O apelo para o óbvio, quando o óbvio é o oposto. O apelo para “todos sabem” quando todos não foram consultados sobre isso. O apelo para “quem discorda de mim é crasso, vil e torpe, porque eu estou do lado dos príncipes”. Adoro. Pego no pé de gente assim. Mentem porque não têm vontade de conhecer nada que prove o oposto do que acreditam. Aliás, o erro dessa gente é querer acreditar e não querer saber. Mas isso é outra história.
Isso tudo porque – de novo, no banho – me veio à mente que só as Putas têm licença para mentir.
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Muito bom o texto. Também adoro a serie House.