publicado na Tribuna da Imprensa
Sou um incapaz.
Incapaz de nomear os meus sentimentos desconexos. Brinco com as letras tentando achar meio de exprimir o turbilhão de desejos e quereres que movem a minha vontade verbal. E verbo, como sabemos, é a palavra divina, a expressão do que é Inconhecível que se faz alma, espírito e carne. O verbo, assim, é sagrado e eu só queria ser um profano mundano.
Esse deus de verbo não tem me servido.
Não há dicionário que me defina ou me ajude a me entender. Hoje não sou dicionarizável. Não tenho gramática ou léxico suficientes para abrir o meu coração ao mundo e dizer o que sinto. Ou o que deixei de sentir. E é frustrante para alguém que se pretende, à guisa de arte, domar as palavras e fazer delas instrumento de sua alma.
Hoje não tenho Alma, apenas coração.
A criação é forjada na palavra que ainda não foi dita, no sopro que precede o som. E é essa intensidade que eu busquei frustradamente erigir de dentro do meu parco alcance. Porque o meu alcance está na boca e na língua e, nesta, não encontrei espaço para novas letras ou sílabas. A intenção é maior que a minha ação que não tem nome.
E se não tenho como nomeá-la não me serve.
Eu hoje queria apenas uma palavra nova, sem fronteiras ou bordas. Apenas uma palavra que, quando pronunciada pela enésima vez, ainda possuísse a sua força enoquiana, transcendental e esotérica. Uma daquelas palavras que os cabalistas medievais passavam a vida calculando e reinventando nas suas anotações em pergaminhos de vida curtida. Um devir em apenas poucas sílabas. Mas ainda encaro o incapaz na frente da tela branca. Não se define e nem me ajuda a me definir.
Me serviria como consolo ter um manual de mim mesmo com guia de instalação e manutenção controlada regularmente. A cada cinqüenta mil quilômetros ou dois anos. Não é para isso que fazemos esses check ups depois dos trinta? Se assim fosse, encontraria mais facilmente as palavras que busco ou como evitar os sentimentos mais traiçoeiros e dissimulados, aqueles que aparecem quando se menos espera ou planeja.
Mas não é o caso.
Sou incapaz de dizer de maneira apropriada a quem me lê ou leria, a quem me quer ou quereria, o que passa em mim. Sou forçado a usar de jargões e clichês que as pessoas já se enojaram de escutar – maldito Shakespeare que tudo disse quinhentos anos atrás – ou de comprar com os cartões comemorativos de dia dos namorados, aniversário de namoro, novela das oito ou filme água com açúcar.
Não queria fazer desse jeito, tão crasso, comum, mundano e chulo, mas sou compelido a, pois é mais forte que eu, mais forte que a minha vontade de ser inédito, genial ou único. Mais forte, maior e mais eterno que qualquer coisa que eu consiga escrever em quarenta e poucas linhas e que desarma qualquer pretensão pernóstica de ser eu considerado algo próximo a um escritor.
Arre! Quão difícil é dizer um simples “eu te amo” a ti, mulher!
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Você é capaz das coisas mais lindas
Declaração de amor é bonita sempre, de qq jeito, em qq língua.