September 12th, 2009 §
Era uma menina que não devia ter mais de que dezesseis anos. Curvas perfeitas, pele rosa e cabelo ruivo loiro, daquele raro, que só uma ou outra atriz de Hollywood ainda ostenta. Naturalmente loiro-ruivo, pelo jeito, já que o rabo de cavalo deixava à mostra as raízes, o couro cabeludo. Olhos impossivelmente verdes e uma boca criminosamente rosa. Usava uma roupinha casual de quem saiu do curso noturno, pós expediente em loja de varejo. Soutien à mostra, reaçando, emoldurando e vulgarizando na medida exata aquele projeto de afrodite, apontando os seios semi-virginais para a lua. Devia estar cursando administração, comunicação social ou direito, esses cursos que quem não sabe o que irá fazer no futuro cursa. Aliás, devia é ter matado aula. Nem caderno, fichário ou livro na mão. Só um jeito rosa de olhar pro rapaz que fitava o seu rebolado ao descer a estação de metrô.
Era um rapaz nos seus vinte e poucos anos, moreno, comum. Apaixonou-se da menina na mesma hora que a viu. Cercou lourenço de longe, como quem anda de macio na floresta e não quer assustar a corça. Aquela corcinha tão bela, tão tenra e que deveria gemer e berrar e dar na sua cara quando estivesse de calcinhas arriadas e sendo comida como se não houvesse amanhã. Entrou no mesmo vagão e com uma dissimulação digna de criança cagada, sentou-se do lado da presa. Deu uma de Vitor Fasano e bancou o besta, lequeando um livro de bolso de um autor que só ele e mais cinco pessoas na América do Sul conheceriam. Ante a indiferença da moça, sacou os olhos de lascívia e comeu a menina sem abrir a boca.
Ela sorriu. Ele, estupefato, perguntou o nome dela. Ela, disse boa noite, sou Verônica. Ele, disse boa noite, sou Carlos e quero casar com você. Ela riu, gargalhou e disse você é engraçado. Ele dise você é linda e eu quero de fato casar contigo. Duas horas mais tarde ela disse que tinha um namorado e que nunca tinha transado com alguém que conhecera no metrô. Ele disse dificilmente você fará isso de novo.
No dia seguinte, as manchetes do jornais berravam: Canibal Pego com a Boca na Botija.
Textos relacionados
May 18th, 2009 §
A casa da minha alma é pequena. Nela, cabem umas poucas lembranças, um cálice vazio e um farrapo de vontades gastas pelo tempo. A alma ocupa um canto iluminado pelos sóis de inverno. Tem janela para um quintal de grama verde, onde ela pode se deitar e brincar de desenhar nuvens. Por vezes, cochilar na rede que prende às paredes. É onde ela se lembra de onde veio e para onde irá.
A casa dos meus sonhos é um campo aberto. Não é casa ou teto, mas horizonte infinito, sol a pino e nuvens escarradas no ciano cinzento. A casa dos meus sonhos tem um vazio ensimesmado, um nada indefinido, uma ausência de ser. Ela se insinua, mas inexiste. Como um desenho abandonado. Ninguém mora lá.
A casa dos meus desejos é um pássaro migratório. Mora em calendários, pousa em meses, cria ninhos em semanas, cisca nos dias, come nos feriados vermelhos. Ele existe no ir e vir, sempre em movimento. É filho das horas e das efemérides. Eu o alimento com os segundos que roubo do relógio.
A casa do meu futuro foi erigida em nuvens sem pé de feijão. Ela é feita de desenhos animados e de cores acachapantes. Os amigos do futuro são caricaturas de gente e eu os conheço vidas a fio. Eu acredito em suas histórias que me são enviadas em cartas de tarô. Desenho a casa em mapas astrais e traço seus contornos em trígonos, quadraturas e sextis.
A casa do meu exílio tem verão todo dia e inverno para o sono. Tem uma cama quilométrica e uma rede com paisagem de concreto e luzes. Uma lua safada me visita quando chego do trabalho e me ilude com promessas de carinhos. O exílio não é local de carinho.
A casa do meu trabalho é vizinha da alma. Sólida como chumbo, negra como o medo, fria como o beijo de quem não te ama mais. Não tem portas. Não tem janelas. Não tem saídas. Ela é carregada como um casco, uma corcova de gente. Meus dias se passam ali dentro. Algumas noites também.
A casa da minha mãe tem a mãe da mãe e a filha do filho. Já teve minhas lembranças, meus prazeres e o meu acalanto. Hoje tem conversas e uma longa espera pelo fim. É uma casa de cura, ainda que essa venha de forma inesperada. É onde podemos dormir à tarde e sabemos que alguém nos guarda à porta. Ninguém fica com fome na casa da minha mãe.
A casa da minha esposa tem o meu nome prometido e a promessa de um futuro. É feita de paredes arranhadas e a derradeira tentativa de felicidade. Sair dali é entregar-me àquilo que não quero mais ser. Toda semana parto com a esperança de retorno. Toda semana volto com a esperança de ficar.
A casa das minhas casas tem chaves gigantes, seis cores de duração e uma sombra eterna.
Textos relacionados
December 12th, 2008 §
A Lua – A importância de aquietar-se e fazer silêncio

Arcano 18 - A Lua
Neste momento, Zander, em que o arcano XVIII brota como carta conselheira, a recomendação veemente é a de que você procure se aquietar e não realizar movimentos. Existem fases em que a vida praticamente exige que “tiremos o nosso time de campo”, a fim de avaliar as coisas com maior inteireza e sagacidade. Você não está enxergando as coisas com clareza neste momento e, por isso mesmo, é melhor não agir do que tomar atitudes tolas que depois lhe conduzirão ao arrependimento.
Procure investigar seus sonhos e dar mais atenção à sua voz interior. Evite o contato com conselhos de outras pessoas, tente, ao menos por um tempo, voltar-se para o mais profundo de sua alma. Você poderá evitar muitos problemas futuros, a partir desta atitude. Na dúvida, afinal, o melhor é não agir.
Conselho: Momento de recuar.
do Personare
Textos relacionados
July 17th, 2008 §
Odeio o Personare.
Sol na casa 6, lua na casa 12
16/07 (ontem) às 3h20 a 18/07 às 14h45
Lua Cheia, Zander! Os momentos cheios da Lua tendem a ser fases particularmente instáveis, num sentido emocional. Neste momento em particular, em que ela atua sobre sua Casa 12 astrológica (enquanto que o Sol atua na sexta casa), convém tomar um cuidado especial com doenças. A doença é, muitas vezes, uma mensagem que o inconsciente tenta nos transmitir, portanto convém dar atenção aos sinais que o corpo lhe dá. Não é absolutamente obrigatório que você adoeça, portanto procure descansar, recolher-se, evitar farras e festas. Entre 16/07 (ontem) às 3h20 e 18/07 às 14h45, você estará vivendo uma fase fisicamente delicada. Repouse!
Merda de gripe!
Textos relacionados
January 29th, 2008 §
29/01 (hoje) às 1h a 31/01 às 19h
Eis que, entre os dias 29/01 (hoje) às 1h e 31/01 às 19h, a Lua entra em seu quarto-minguante. O conflito aqui envolve carreira versus anseios pessoais. É bem provável que você, Zander, venha a perceber de uma maneira bastante clara todas as coisas que lhe incomodam em seu trabalho ou estudos. A idéia do momento envolve a percepção da defasagem entre o ideal e o real. Há também um choque entre quem você é de verdade e aquilo que a sociedade exige que você seja.
Como a fase envolve um conflito, é bem provável que você sinta suas energias vitais em baixa, portanto não é recomendado que você abuse nestes dias, se alimente direito e durma bem, caso contrário pode sentir fraqueza e alterações fortes de humor.
do site personare
Textos relacionados
October 27th, 2006 §
publicado em LIVinRooom
publicado na Tribuna da Imprensa.
Chicão era um negro arretado: alto, forte, esguio. Sedutor como poucos, sabia achar o caminho para a alma e as pernas das moçoilas desavisadadas de Ipanema, Leblon e adjacências. Arrebatava corações e demais partes da fisiologia feminina de Tijuca, Estácio, Lins, Rio Comprido e cercanias da Praça da Bandeira. Flertava com as meninas boêmias de Botafogo e Flamengo e encantava as radicais da Lapa e Centro da Cidade. Era desejado pelas putas da Avenida Atlântica e tinha um lugar cativo no coração daquela beldade do Leme.
Apesar de transitar por tal repertório ele era, acima de tudo, um romântico.
“Porra Chicão, tu tá na fossa de novo?” “Deixa o cara, Gordo! Tu não pode ver o negão triste que vai logo tirar uma com a cara dele!” “Aí, Grande! Tu não se mete no meu assunto com Big Chico que fico na moita com aquele probleminha que tu sabe…”
Gordo era um dos amigos mais antigos de Chicão. Uma característica engraçada de Gordo é que ele não dizia, quando chegava o momento, que “tinha amigo(s) negro(s)”. Sabe naquela hora que alguém vai fazer um comentário neo-eugênico ou pró-discriminação e fala: “mas isso não quer dizer que sou racista, eu até tenho amigos negros…” Pois é. Gordo não tinha amigos negros ou viados ou chineses. Tinha amigos. O fato de Chico ser negro ou do Burro ser judeu eram meros complementos. Como o pau pequeno do Grande.
Se conheciam de peladas na praia desde os doze anos. Gordo até fazia um esforço para jogar alguma coisa na adolescência, mas descobriu que ser amigo de Chicão garantiria o efeito desejado sem ter o suadouro de correr sob a Lua de quarenta graus. Saca os abutres que ficam acompanhando os grandes caçadores? Era essa a tática que Gordo usava. Como Chico não podia comer todas ao mesmo tempo, ele ficava com as “sobras” do negócio.
Perderam o contato quando foram para a universidade. Gordo foi para a Cândido enquanto Chico foi para Havard com bolsa pelo desempenho na escola Americana. Depois foi fazer o mestrado em Marketing na UCLA com grana que economizara do seu parco salário de cinco dígitos numa das big five de consultoria. Voltou rico de investimentos feitos na bolha das pontocom e vivia de rendas em Euros no país do Real.
“Falaí Chicão. Que foi dessa vez?” “Pô Gordo, tô na merda.” “E como pode isso?” “Porra cara! Eu não aprendo. Tá ali a menina. Na minha frente. Linda, linda, linda.” “Já sei, cara… conheço bem essa história.” “Que história, galera? Sévys, desce um chope para mim. Escuro. Qual é o assunto da vez?” “Sentaí, Burro, e cale a boca. Chicão tá apaixonado e broxou na hora H.” “Não porra! Quando o negão aqui broxa, tem tsunami no outro lado do mundo!” “Péssimo exemplo, Chico.” “Verdade, Grande. Mas não tem a ver com broxada. Nem com pé na bunda.” “Não?”
Os três olharam embasbacados pro cara.
“Cara, tava tudo perfeitinho: amorzinho, carinhozinho, declarações, paixonite, vontade de ficar junto o tempo todo e tal, tesão de um lado e de outro. Tudo muito certinho, sabe? Mas aí foi, comemo-nos uma, duas, três, quatro…” “Porra, caralho! Não precisa humilhar!” “… cale a boca, Gordo! Cinco vezes. Daí banho, a menina se levanta, pega o telefone e pede a conta.”
Ninguém entendia onde o negão queria chegar
“Eu disse: ‘Poxa bem, fica um pouco comigo, dorme aqui, vamos acordar juntinhos’, E ela disse: ‘Lindão, tô só provando uma teoria.’ Caiu o meu queixo enquanto ela pediu um táxi, pagou a conta do motel e ainda me mandou a rima: ‘Paguei o restante do pernoite, Fica bem, viu?’”
“Putaquepariu! Que nego de sorte!!!” “Porra Burro, tu não tá vendo qual é o problema? A mulher usou o Chico para ser o modelo número dois de homem.” “Cara… tu tava com a Elisa?”
Chicão ficou lívido.
“Era a Elisa sim, Grande.” “Filha da puta! Tu é o tipo de homem número dois.” “Como assim, cara.” “Ela diz que a mulher tem de ter quatro tipos de homem na vida. O segundo é o Negão. O cara com o pau de seis metros e duzentos quilos que lhe dá uma sova de pica e mostra para que o Kama Sutra foi escrito. Saca o ‘Deus de Ébano’ da Fórum? Lembra? Pois é. Ela pegou um que, além de boa-pinta, é resolvido e decidiu te fazer de escravo sexual por uma noite.”
Grande chamou o garçom.
“Desce a garrafa de Nêga Fulô pra mesa que vamos ter muito pra xingar essa vagabunda!” “Puta!” “Canalha!” “Safada!” “Pô… eu não comi a Elisa…” “Porra Burro!”
Textos relacionados
January 15th, 2006 §
Catinha passou o Dia de Ano comigo. Aliás, comigo não, com a avó com quem tem uma xipofagia afetiva. Tem várias histórias dessas duas, mas é para outra hora. A história de hoje é que a Catinha estava toda cheia de si com o vestido branco novo, feito por encomenda à costureira da casa. Toda prosa, toda princesinha para ver os fogos de Ano Novo à praia de Copacabana.
Dando onze e meia, a mesma rotina anual: xinga-se os elevadores como culpados das pessoas quererem sair no mesmo horário, xinga-se a multidão como se não fosse ela o motivo pelo qual a festa ser cada vez mais bonita e grandiosa, xinga-se a chuva que ameaça e não cai.
“Tá vendo, Catinha? É bom xingar o céu que evita a chuva de cair.” Diz o pai orgulhoso de revelar uma verdade científica para a filha.
“Você é tão bobo, papai.” Responde a filha, desmontando o pai que, de fato, é bobo.
Atravessa-se o mar de pessoas semi-alcoolizadas, desvia-se de cacos de vidro, arruma-se um local à beira-mar para assistir com conforto aos fogos desse ano. Espera-se a contagem regressiva em uma contagem desordenada da população.
“Dez, nove, oito…” Abre, espumante, abre! “sete, seis…” Cacete! A merda da espumante não quer abrir! “cinco, quatro…” POP! DROGA! Estourou antes da hora! “Três, dois, UM!”
Ê!
Daí banho de espuma em todos da família, da bisavó que desvia atrás do tio mais alto, aos “agregados” do ano que começam a cumprimentar a todos em volta.
A avó coloca a neta nos ombros e para que ela veja melhor o show pirotécnico. Daí uns minutos de esporro coordenado e clarões no céu, noto que Catinha está soluçando. Chego perto e ela aos prantos. Desço ela dos ombros da avó preocupada, coloco-a no meu colo.
“Tá com medo dos fogos, minha flor?” Ela faz que não com a cabeça.
“Tá com saudades da mãe, lindinha?” Ela faz que sim.
“Quer que eu ligue para ela?” “Não precisa.”
Tentamos, não conseguimos. Óbvio. Linhas congestionadas na virada do ano é algo com que se pode contar. E com as contas. E com o ausência do arroz-doce na geladeira que a avó-bisa fez para você mas que todos (menos você) da casa comem.
Cruzamos a Avenida Atlântica com ela ainda em prantos. Passamos num camelô que vendia pingentes luminosos de borracha macia.
“Pai, quero um!”
Sabia! Brilhou, é de pendurar no pulso ou no pescoço e tem forma de bicho, Catinha quer. Tentei explicar para ela que tirar dinheiro no meio da rua, àquela hora, era perigoso, que ela ia usar o badulaque por dez minutos e iria jogar fora logo depois, que a teoria da oferta e procura indica que o preço praticado para a aquisição do tal objeto de utilidade discutível seria acima dos limites praticáveis por qualquer pessoa de classe média baixa, bem baixa.
“Pai. Eu quero.” Disse entre soluços e lágrimas.
Comprei. Passei atestado de bobo, burro e molenga mais uma vez. Não tem jeito.
Andamos com cuidado, desviando dos cacos e das poças de líquido não-identificado. Chegamos em casa, lavamos os pés. Esperamos o resto da família chegar, deixei Catinha com a avó e fui para a minha festa de Reveillon.
Dia seguinte, mesmo cansados da noite anterior, enterramos os ossos da ceia e ficamos jiboiando na sala. Eu, no computador, Catinha, avó e bisa em frente à TV. Aliás, ela, suas bonecas, o cavalo alado, as fantasias de rastafari e odalisca. Tudo ao mesmo tempo.
Chega a mãe e o padrasto que cumprimentam a todos. Ela vem de mansinho e me dá um abraço looooooooongo, sem que eu o pedisse. Eu mal viro para o lado – tava matando gente virtual, vocês sabem como é, né? – e ela se vai.
Acabei a fase do jogo. Cadê minha filhota? Foi-se e não vi mais. Iria viajar primeiro para a casa da avó materna, depois para a casa do pai do padrasto, depois para a Lua, Marte e Vênus e só quando estivesse na hora de me apresentar os tataranetos, voltaria para casa.
Três longos dias depois ela manda uma mensagem SMS para mim: “Pai. Te amo e estou com saudades.”
Chegou da farra no meio de janeiro, toda arranhada nas pernas e nos joelhos, mordida de mosquitos e formigas, bronzeada de roça e com um sorriso enorme, cheio de dentes.
Aliás, sorriso diferente. Não era dela, mas lhe caía muito bem.
Foi na médica fazer a revisão com a avó (recomendação da mãe). Médica diz que ela amadureceu muito nesses últimos meses. Não é mais um bebê grande, já é uma mocinha.
Quando chegam, a avó me conta e me dou conta que não sei se disse àquele bebê que eu a amava. Não sei se disse o suficiente. Provavelmente não. De certo que não.
E só fica a lembrança do abraço apertado que eu não soube encarar.
Textos relacionados
September 18th, 2005 §
A menina estava disponível e ele também. Já se conheciam de outros carnavais e já fizeram aquele caminho outras vezes. A bem da verdade, eram outros tempos e outras intenções. Hoje, eles eram adultos: experimentados, maduros, resolvidos e sabiam bem o que queriam um do outro.
Ou assim pensavam.
Passearam pelo Arpoador de mãos dadas. Emocionaram-se com a Lua que nascia em Copacabana e com o Sol que se punha em Ipanema. Pensaram ouvir ao longe os aplausos do Posto 9 mas, dada a distância, os aplausos estavam em suas imaginações. Como se elogiassem a si mesmos subconscientemente.
Conversaram bastante, a ponto de acabar a saliva no meio de uma conversa. O assunto era recorrente. Se comentavam da Lua, do Sol ou do cheiro de mijo das pedras, era apenas para dar uma pausa para tomar fôlego ou para embasar o tema principal. A paisagem se tornara uma metáfora para relações mal-acabadas. Mal-acabadas para eles, diga-se de passagem, porque o “outro” estava muito bem da vida. Sorrindo como nunca antes ao lado deles. Se divertindo como idem. Transando como nunca antes transaram em suas patéticas vidas.
Pois é.
Durante o cair da tarde ele só falava da ex-noiva e ela, do ex-namorado. Os ex-outros eram o tema principal e o único assunto que os unia naquela tarde. Talvez essa fosse a forma que encontraram para dizer que estavam sendo o mais verdadeiro e sincero possível. Não haveria enganação, sentimentos dúbios ou ilusões que não fossem consentidas por ambos, conscientemente. Sabiam o porque de estarem ali e essa conversa só reafirmava isso.
Passearam até a noite se firmar e sentirem que a saudade já se manifestava por dentro das suas calças. Era tanta saudade que já davam vexame público e evitavam os olhares invejosos de quem caminhava castamente pelas pedras.
Já em casa, nus, cometeram uma dúzia de erros fatais.
Amaram com sofregudão, mal dando tempo para os preparativos. Preliminares? Ora, estavam nas preliminares há meses. E ficaram ali por horas praticando o antigo esporte bretão.
Mentira!
Mal durou dez minutos!
Ela, por cima dele, controlava a situação como sempre sonhara fazer com o seu amado e ele cometeu o erro de chamá-la pelo o nome errado por três vezes.
“Me desculpe, eu não queria…” “Não… tudo bem… eu te entendo!” “Como assim entende?” “Deita aí e imagine que sou ela!” “Não! Pera lá!” “Faça isso! Anda!”
No décimo-primeiro minuto já estavam satisfeitos, e se contemplavam. Ele, procurando algum tipo de carinho. Qualquer carinho. E não encontrou. Ela, tentando inventar um amor que não teria como existir naquelas condições.
Se vestiram, tomaram a rua, pegaram um táxi. Ele foi deixá-la em casa. Na volta, não se conteve e pediu para o motorista passar por uma rua que não passava fazia tempo.
“O caminho por aqui é mais longo.” “Tudo bem. Pode até pegar a praia depois. Não tô com pressa!”
A rua estava vazia e o motorista não se demorou o tempo que ele esperava. Procurou um tipo de emoção dentro de si e não achou. Não vieram as lágrimas nem a auto-comiseração. Achou que estava pronto.
Saltou em frente ao Othon Palace. Foi até a praia. Tirou os sapatos e pisou na areia com calma, como se quisesse sentir cada grão roçando os pés. Olhou em volta para ver se havia perigo e foi calmamente andando até a água.
A Lua estava ali, lhe esperando. “Então. Como foi?” “Não sei. Tudo é muito estranho. Há um vazio agora. Não tenho mais raiva, ou paixão.” “Duvido. Você ama ser rejeitado.” “Mentira!” “Ama sim. Vai negar que a ama agora mil vezes mais que antes?” “Não nego.” “Então?” “Talvez você tenha razão. Talvez eu seja um maldito masoquista.” “Não fique assim.” “Não?” “Não é produtivo isso.” “Você tem razão novamente.” Sorriu para ele e o chamou para si. “Não posso ir agora. Você deveria ficar aqui também.” “Não sei se devo…” ela titubeou “…não sei se conseguiria viver uma vida de carne e osso.” “Você mesmo quem me recomendou isso!” “Mas tenho medo. Já me magoei muito antes.” “Olha só a rota falando do esfarrapado!” “Eu sei, eu sei. Mas você é Marte. Você está apto para a guerra, para os ferimentos da batalha. Se eu me ferir, me desfaço em água, vou com as marés.” “Querida, você é a maré! Vem. Desce do teu pedestal e seja feliz.”
Ela olhou com o olho mais doce e depois com o olho mais vil. “Você sabe que sou terrível e divina. Sou mãe e bruxa. Sou o teu prazer e teu sacrifício e…” “Blá, blá, blá… Luna e Hecate, yadda yadda yadda. E eu sou Marte e Ares, sou Medo e Terrror, sou Libido e Potência… Porra! Sou um ser humano, caralho!” “Eu sei!” “E é em cada queda que aprendemos a andar, a sermos seres melhores. Você fica aí, num altar, cortejada pelos pobres, poetas e melancólicos e se esquece que, quando envelhecer, vai ser deixada de lado. Tua corte procurará outra Lua. E eu, deverei aposentar minhas armas, vou procurar um canto para criar meus livros e plantar meus discos. Cansei da Guerra, do Bom Combate. Quero sossego.” “Então está combinado.”
Ela desceu do pedestal e, antes de ir para São Paulo, disse no ouvido dele: “Tudo muda.” E ele: “Nada mudará.”
E era belo e verdadeiro, assim no alto, como embaixo.
Textos relacionados
August 20th, 2005 §
Diziam que ele era o rapaz perfeito, inteligente, hábil, bonito, educado. Era obediente e levado, sabia instintivamente quando podia forçar uma situação ou quando poderia chutar um balde. Era excelente na escola, notas à perfeição. Achava que tinha o mundo em suas mãos.
De fato tinha.
Um dia, encontrou um par de olhos azuis. Eram os primeiros olhos azuis que via. Pele branca, cabelo negro e olhos azuis como bolas de gude. Encantou-se por eles e decidiu que queria acordar do lado deles o resto de sua vida. Que queria ter filhos com esses olhos. Que envelheceriam juntos e ficariam vendo o tempo passar quando se aposentassem. Comprariam um café em Paris. No primeiro piso o café, no segundo livros e computadores. E isso era bom e certo.
Mas ele sabia que não estava escrito que ficariam juntos. Ela lhe passaria ao largo da vida. Nunca lembraria do seu nome ou que sentava a uma carteira dele na segunda série. Até porque ele adotaria um outro nome para si quando chegasse à maioridade. Um nome mais curto, mais forte. Ela mal se lembraria do franzino de franjas que lembrava uma menina. E ele usava um outro nome curto. Não era forte, tampouco feroz. Apenas infantil.
E ele tinha lido o livro de sua própria vida várias vezes.
Numa noite acordou, vagou pela sala vazia e sentou-se no sofá. Acendeu um abajur e começou a ler um gibi de terror qualquer. Teve um pouco de medo de andar “A Mão vai me pegar!” diria mais tarde para a mãe que lhe proibiria café, açúcar e gibis de terror. “Super-heróis pode! Mônica também!” “Mônica é de menina, mãe!” “E aquele de dinossauros?” “Esse é legal! Quero o do Tio Patinhas também!” “Tá bem!” Mas esse diálogo se daria apenas uma ou duas semanas depois de sua primeira virada. Lia o gibi e só conseguiu pregar os olhos quando o sol raiava.
Antes de amanhecer decidiu: “Não quero ganhar a vida. Vou ser ganho por ela.” Sempre sabia o que os outros iriam dizer, advinhava o que lhes encantaria mais, sabia que aos onze trocaria de escola, aos dezessete entraria numa faculdade, aos vinte e cinco terminaria o seu mestrado, aos trinta dominaria o mundo, aos quarenta morreria odiado, sem filhos, sem legado mas imprimiria a sua marca na história. Cem anos depois a humanidade encolheria para um sexto. Colonizaríamos a Lua e Marte, andaríamos em carros voadores e trabalharíamos três horas por dia apertando botões. Mas antes teríamos de passar por sua ditadura que expurgaria as fronteiras e as liberdades. “Não quero ser rei. Quero ser um pai.” Falou para a sombra que o fitava no umbral da porta. Fecharam os seus livros ao mesmo tempo. “Teu sangue herdará o mundo” disse a sombra. Decidiu que não queria o mundo mesmo. Os olhos verdes valiam mais à pena.
Chegou na escola (olhando com cuidado para os cantos escuros para ver se A Mão não aparecia para pegar a sua perna) no dia seguinte ainda virado. “Você não vai comer mais açúcar! Que é isso! Menino dessa idade virando a noite!” Não deu bola para a vó que o levava. Parou na banca, comprou figurinhas. Dividiu em dois pacotes. Uma para as repetidas e outra com as que não tinha, entregou para a vó. “Tó!” Esperaram o portão abrir e entrou à aula. Sabia o que a professora iria dizer antes mesmo de vê-la. Encontrou o Capitão Asa cantando Sideral e guardou na memória a letra da música. Subiu para a sala e sentou-se atrás dos olhos azuis que nem por relance o fitavam.
Ao chegar em casa recebeu a notícia que iriam se mudar do Méier no meio do ano. Ele teria de sair da escola e iriam para Copacabana.
Num relance o seu mundo caiu. Aquilo que tinha lido não serviria mais de nada e agora via, ainda que desmanchando no ar, os fios que ligavam suas mãos e pés ao nada.
Chorou um pouquinho. “Não quero ir para a outra escola.” “Mas lá tem praia, dá para catar tatuí e você gosta tanto.” “Quero ficar na vila.” “A escola de lá é melhor.” “Eu quero essa aqui!” “Não tem jeito, filhinho.” Chorou um bocado.
As férias o fizeram esquecer as aulas e mudou-se no meio de julho. Ao entrar na nova escola não sabia o que a professora lhe diria mas encontrou um par de olhos verdes sentados na segunda fila.
Sorriu por fim.
Textos relacionados
September 17th, 2003 §
Ainda tento me recuperar das dores do passado, que agora me parece distante, inatingível. Mesmo tendo se passado há seis horas, no calar dos lençóis. Você sabe como é. Nós, pequenos seres que tentam ser humanos, nos acostumamos a tudo, ao sol que passa a nascer no oeste, à luz da lua que fica maior e mais freqüente que o sol, invertendo o alto e o baixo e o dentro e o fora. Dormir na sarjeta é freqüente para quem não tem destino ou guarida para a alma e o corpo. Mas esse preâmbulo, esse desperdício de tinta e papel é apenas egotrip do narrador, que se compadece da história dos miseráveis, que se apieda de seus destinos, que inveja a sua altivez e que, no fundo, pouco se importa com o destino de quem não é umbigo.
Horácio era um partido. Não que tivesse perdido o rumo de sua vida, ou que tivesse um emprego infernal ou mesmo que tivesse uma família desgraçada. Trabalhou muito, é certo. Desde pequeno no banco, como contínuo, vendia enciclopédias de noite e cursou a escola por apostilas. Formou-se, abriu sua empresa, vendeu sua parte, abriu outra empresa, vendeu a empresa, entrou numa outra maior, saiu desta, abriu mais uma empresa, dá palestras e consultoria no Brasil inteiro, nesse ínterim deu aulas, casou-se, teve uma filha, descobriu-se diabético, comprou apartamentos, viajou para o exterior algumas vezes, separou-se, casou-se novamente. Este poderia ser o resumo de uma vida completa, mas é apenas o que a vida faz por conta dos homens, parte-se sua essência em diversos pedaços de horas que são, por sua vez divididos nos diversos pedaços de história que, juntos não dão a menor noção de sua tribo, de sua linhagem.
Para começar ele não seria Horácio, ou Luiz, ou Francisco. Ele não teria um nome até se provar digno de um. Seria qualquer coisa, como Moleque, Tiziu, Nenen, Filhote ou outro nome vexaminoso assim. Assim que chegasse à idade, receberia os ritos de seu pai (que não teria morrido quando tinha apenas 15 anos), trabalharia seis verões e cinco invernos na oficina da família aprendendo seu ofício tradicional, como sobreviver no deserto, de saber quando o búfalo da pradaria vem em manada para ser caçado, qual erva deveria colher para curar o corte na perna, como cerzir o tecido da vela e como fazer a própria rede de pesca e, antes de ser declarado homem, com o nome que homenagearia um antepassado, um animal, ou uma dor de barriga do mais velho de sua tribo, aos vinte anos de idade, aprender a construir a própria casa com madeira e junco dos rios.
Tendo em si o conhecimento de todo o seu povo, sendo um homem apto a sobreviver em sua terra sem precisar de outros, ele saberia qual o seu papel no mundo, seria um homem inteiro com a consciência do que lhe reservaria a vida até os derradeiros trinta e poucos anos, quando morreria doente, faminto e sem dentes.
Portanto, na condição de partido, ele consome toneladas de revistas, acumula centenas de livros, dezenas de CDs e DVDs para degustar em sua sala com ar condicionado e espera ativamente a morte nos seus oitenta ou noventa anos bem vividos com todos os seus dentes na boca.
Ana Lúcia partiu-se nos seus vinte anos. Antes disso estudava nas melhores escolas de seu bairro, morou um tempo em minas gerais, com uns tios, por conta de uma história mal contada. Arrumou um emprego, depois outro. Arrumou um namorado, depois outro. Este lhe deu um filho, mas não um nome, e não arrumou mais filhos, ateve-se aos namorados e empregos. Fez uma faculdade, não exerceu a profissão, amou, desamou, encantou-se, desapontou-se, deleitou-se com a vida, embriagou-se com ela, foi atropelada, ficou à beira da morte por duas vezes, aborreceu-se com o filho, orgulhou-se dele. Viveu da melhor forma possível e espera juvenil a idade e o fato que nivela a todos.
Se não fosse partida, teria uma vida plana, nasceria, cresceria, teria as obrigações da fêmea que seria pouco educada, adestrada para a mudez do fundo da sala e para a cozinha. Se fosse de personalidade, comandaria empregadas e talvez conseguisse um marido rico e bom, teria 2,4 filhos, cachorro ou gato, casa de três quartos, seria formada em pedagogia ou em letras e se resumiria à casa e aos filhos. Teria uma vida tranqüila e esperaria, resumida, a morte do seu marido e a pensão que o marido lhe deixaria. Seria boa mãe. Boa esposa. Boa dona de casa. Boa patroa. Boa mulher. Boa morte. Seria chorada e lembrada pela família (5 filhos, seis netos e doze bisnetos). Os amigos de infância e juventude fariam elogios de suas próprias tumbas, a sua conduta e sua lisura seriam lendários entre todos os habitantes do cemitério Santa Maria de Muriaé.
Após sua partida, o marido sem saber o que fazer, choraria durante doze dias e noites e morreria de desidratação no décimo terceiro dia. Estava agora partido. (incompleto)
Textos relacionados