September 26th, 2009 §
Não consigo mais escrever histórias infantis. Parece que algo da magia das crianças se perdeu para mim no processo de envelhecer ou eu perdi a mão. Não me encanto mais com os contos puros que me faziam lacrimejar antes ou com os personagens bidimensionais pelos quais torcia. Se bem que esses últimos eram (são) mais frequentes nas bobagens adolescentes/adultas que leio ultimamente.
Ainda tenho um livro para terminar, mas as histórias que conto ali são bem adultas, metafóricamente adultas. E, depois de umas revisões, me pergunto: as histórias para crianças seriam – por fim – uma espécie de adultez preguiçosa? uma linguagem tatibitati de algo maior e mais complexo. É assim que tem de ser? mesmo?
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September 20th, 2009 §
As pessoas olham com dó para mim quando eu digo que não tenho mais sonhos. Eu não sonho, cacete, sonhar é para adolescentes ou para iludidos. Ou eu faço ou deixo quieto, não fantasio. Deixem-me em paz com a minha resignação plácida e a minha morbidez alcóolica.
Arranquei os meus últimos junto com os meus dentes de siso.
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September 6th, 2009 §
Uma prova de amor? De onde eu vim, amor não precisa ser provado. Não no sentido jurídico-científico da coisa. Amor é química – cientificamente falando -, é poesia, é vivência, é fé. Amor é apego pelo que se não gosta. Definitivamente, amor é apelo pelo que desgosta.
Vejam os fiéis, esse rebanho de almas. Ninguém gosta de se desfazer de seu dinheiro (10%, correto?) ou de se submeter às regras caducas de loucos de eras passadas. Mas, surpresa surpresa, milhões, bilhões testemunham mesmo sob a espada a sua fé em algo improvável. Esse amor não precisa de provas. Apenas é.
E notemos os adolescentes – mesmo os de quarenta anos – que testemunham sua fé irracional (existe outro tipo?) ante uma marca, uma banda, um projeto de vida, um time de futebol (basquete, basebol, whatever) e até mesmo um para o outro, sua turma, sua gangue, matando e morrendo para isso. Nenhum desses está disposto a morrer por outro motivo, mas quantos não se atiram ante comportamentos destrutivos por conta dessa coisa esquisita, inquietante e irregular chamada amor?
Mas saí da linha original. Acabei defendendo que, quando se ama de fato, esquece-se de si mesmo a ponto de querer fazer parte o uno amado. É se misturar numa torcida, se cobrir de uma logomarca, berrar num show ou embolar-se com o alheio desejado (ou odiado).
A intenção era demonstrar que esse amor puro, isento, é a moldura do erro do outro. Que o erro, o desvio e o desleixo do amado é que sustenta e realça o querer.
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July 20th, 2009 §
Sete anos atrás escrevi algo sobre reencontros, sobre a estranha emoção que me tomou quando revi aquele punhado de conhecidos que um dia foram meus amigos de convívio diário, das sete da manhã às cinco da tarde. Hoje entendo um pouco melhor o que me tomou ali, misturado às lágrimas e ao álcool quente, choco e abundante.
Era apenas inveja.
Dentre esses meus amigos de outrora, alguns dividiam as dúvidas adolescentes (as minhas e as deles); outros, as conquistas; pouquíssimos, o exemplo; nenhum, a companhia. Mas isso não é incomum. A escola proporcionava a troca exaustiva entre nós, mas nenhuma escola ensina a pegar a mão quando se quer bem a alguém, a comemorar com alegria legítima quando um amigo consegue um feito desejado, a chorar quando um ente querido se vai ou a dar força quando alguém corteja o abismo.
Isso, a vida é quem ensina, nós nos ensinamos.
Vi alguns conhecidos se perderem pro tráfico, pro crime. Outros, ficaram poderosos ou ricos. Um ou dois desapareceram dos nossos radares ou já terminaram sua história entre nós. E a maioria sobrevive nos empregos de classe média alta conseguidos por conta da excelente formação dada pelo CAp UERJ nos proporcionou. Não creio que tenhamos colegas que passem fome ou estejam em situação de dificuldade extrema. Ao menos isso. Mas era esperado, dada a elite que se formou ali
Sempre me senti uma farsa entre esses meus amigos. Nunca fui espetacularmente bom em nada, nunca fui bom aluno, atlético, simpático ou político. Era bobo, fato, e graças a isso sobrevivi a mim mesmo, por não levar a sério o que me rodeava ou a mim mesmo. Assim, podia fazer graça da minha feiúra, da minha magreza, das minhas sucessivas falhas e derrotas.
Sempre me senti só, isolado ante a turma de semideuses. Cada um de nós era “doutrinado” a ser o melhor dentre os iguais, a ser o mais inteligente, o mais culto, o mais interessante. O mundo estava com as portas abertas para nós e iríamos ser os arautos de um mundo novo que se aventava à frente. Éramos os sonhos e esperanças dos nossos professores. Dos nossos mestres. Ou éramos a escória. Sempre me senti mais confortável entre os derrotados, entre os desqueridos. Talvez porque ali a minha parca chama esquentasse um pouco mais o meu enorme ego. Mas me desvio do que pretendia, que era falar do reencontro em si.
No dito evento estavam pessoas com histórias – centenas, milhares de histórias – para contar e eu com tempo nenhum para sentar com cada uma delas e ouvir o que tinham a me dizer, pessoas que eu queria ter tido mais contato ainda no colégio, mas que flanaram na festa – com razão, éramos muitos – e eu não consegui trazer para a teia da minha vida. Enfim, pessoas que já fizeram parte de mim e eu não consigo deixar de sentir um nó no peito ao saber que deixei-as ir embora. Talvez porque seja custoso, muito custoso, admitir que sou uma farsa. E que eu já estou velho demais para rir das minhas máscaras. As velhas, mal ajambradas e desgastadas máscaras da minha vida.
Saí, pois, à francesa para não desmontar no meio do salão.
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February 24th, 2009 §
Eu tenho uma letra horrorosa, quando escrevo com pressa. Para falar a verdade, tenho uma letra horrorosa quando não uso uma “máquina de escrever” o que, para mim, remonta à tenra idade de oito anos, quando ganhei a minha Olivetti Portátil de natal.

Não era um presente usual, eu sei, mas minha mãe não tinha achado o “avião que dava mil piruetas” para vender (o que era bem provável, já que ele só existia na minha imaginação) mas tinha se virado em seis para comprar o “robô que dava cambalhotas”, o “carro que bate-e-volta” e a indefectível bicicleta de rodinhas.
Fato é que não posso me queixar de presentes quando criança. Não mesmo. Já quando adolescente, a história era outra e fica para outra história.
Mas eu falava da minha letra horrorosa – tão feia que nem eu mesmo consigo lê-la quando tento rever minhas anotações – e da minha mania de comprar cadernos e blocos e canetas e lápis. Acho que a minha letra é a minha primeira frustração.
Todos em casa tinham uma letra desenhada. Minha tia até hoje tem uma caligrafia personalíssima e inteligível à distância. Minha mãe tem um traço firme e nervoso, mais parecido com caminhos de formiga. Ainda assim, legível até no escuro. Do meu tio mais velho só lembro dos números, das contas. Precisas, calaras. Dos tios mais novos, não lembro nada.
Fiz caligrafia por um tempo, mas desistia como bom preguiçoso do signo do porco. Dava trabalho e eu escrevia melhor e mais rápido na Olivetti. Pena que era muito pesada para levar à escola. Pena que não dava para escrever com ela nas provas e nas redações.
Um pouco mais tarde, ganhei meu primeiro computador – um TK85 – seguido logo, logo, do segundo – um Hotbit/MSX – que veio a ser o centro da minha primeira “estação de trabalho”: computador, monitor (uma TV), impressora matricial de oitenta colunas e um disk drive de 5 ¼ polegadas. Com a chegada da impressora, a caligrafia há muito abandonada foi de vez para as cucuias. Com o micro, as minhas outras frustrações ficavam mais patentes.
O bichinho “tocava” música, se eu o programasse, e eu sabia ler um pouco de notação musical. Então lá ia o pequeno Zander programar no computador as partituras que ele não conseguia – nem tentava muito – tocar no violão. “Afinal de contas, eu queria um baixo!” – era a minha desculpa – “E nem para ganhar presente direito!” – eu completava com a malcriação típica dos quinze anos. Amava música (se é que punk rock pode ser chamado de música) e não tocava patavinas. O mesmo se aplicava para as meninas: amava-as e necas de pitibiriba de descolar umazinha que fosse.
Obviamente tudo era desculpa para uma falta de empenho meu. Se eu quisesse comprar um contrabaixo, que eu economizasse nos gibis e livros, né? Ou que eu deixasse de comprar tanto vinil, ou que eu vendesse o meu super-hiper-som modular da Philips e fizesse mais umas aulas de violão para eu mostrar que me empenhava em alguma coisa de verdade, que não me viesse fácil. Reclamar da vida sempre fora mais fácil que fazer o meu desejo virar a verdade.
Acho que ouvi uma vez alguém dizer que amadurecer é colecionar frustrações.
Falo disso tudo porque, vira e mexe, me acho uma farsa. Uma farsa no trabalho, com os amigos, com a família, com os amores. Não tenho metade da inteligência que presumo ou apresento, um terço do talento que me atribuem, um décimo da capacidade que vendo, um centésimo da compreensão e da tolerância para os meus entes queridos e um milésimo da capacidade de amar que qualquer ser humano merece.
É como me sinto nas noites insones de calor do Rio de Janeiro. Como uma farsa de mim mesmo, esboço de alguém que eu nunca poderei ser plenamente apenas porque escrever as letras de forma legível dá mais trabalho que inventar o texto do meio dos meus garranchos.
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February 16th, 2008 §
publicado na Tribuna da Imprensa
Nunca mais olhei a pequena com os mesmos olhos. Eles não cabiam mais em mim e a imagem da criança de cabelos encaracolados tampouco cabia nela. A menina, já pré-adolescente, tinha o seu próprio mundo, cercado de nomes que eu não entendia, músicas que eu curtia, maneiras que eu estranhava. E eu, acima de tudo, um estranhamento típico de quem envelhece e não se dá conta disso.
Sentamos na cadeira do shopping center – essa praça moderna – e tomamos um sorvete vadio, um picolé de várzea, um ato cada vez menos urbano e mais confinado. Eu observava a indiferença da pequena ao mundo que a cercava e tinha certeza: havia ali um cínico se desabrochando.
Sabemos todos que o cínico não se faz, é descoberto. Algo entre os dez e os dezoito anos desperta junto com os hormônios e transforma o mais feliz e iludido dos infantes num inexorável e inamovível adulto. Afirmo categoricamente que todo adulto é um cínico.
Mas não é a modorrenta maturidade que me assombrava ali, naquele momento, mas o desabrochar do cinismo e – por que não dizer – do deboche adolescente que jorrava pela boca e pelos olhos daquela criaturazinha que mal ultrapassava os meus ombros no alto dos seus dez anos recém-completados. Eu reparei que ela não se encantava mais com as coisas. E entendi que o cinismo era exatamente isso: a morte do encantamento.
Não confundamos alhos com bugalhos agora. O encantamento pode – e deve – ser um processo bem racional e consciente. Como não se admirar do fato de tudo e todos termos a mesma origem no mesmo evento singular de quinze, dezesseis bilhões de anos atrás. Ou de termos a certeza racional que somos senhores de nós mesmos, com a responsabilidade moral, ética e concreta que isso traz às nossas vidas, sem termos de depositar essas cargas em algo divino.
Mas nada é tão belo quanto o encantamento infantil. Porque ali, as coisas tomam um sentido próprio, o do descobrir os sentido nas coisas ensimesmadas. Nelson Rodrigues escreveu que “aos três anos o sujeito começa a inventar o mundo” e nessa invenção há um deslumbre que não se renova nunca mais na vida. Ok. Talvez quando alguém escute uma determinada musica de uma banda que lhe fará comprar uma guitarra ou uma pintura que lhe convide a sentar horas e horas a fio à sua frente.
Já eu precisei mudar de cidade e encarar um pôr do sol na Lagoa Rodrigo de Freitas para me relembrar encantado com o mundo.
Eu acredito piamente que o homem quando descobre-se cínico, perde a capacidade desse deslumbre primário. Um sorvete passa a ser apenas um sorvete; uma praça, a mesma praça e nada mais que isso. Nós, os adultos, já vimos tanto do mesmo que perdemos a noção da coisa e – tragédia! tragédia! – mantemos a lembrança do deslumbre. Pois o que é essa nossa busca pelo novo, senão um desesperado apelo à memória do universo encantado que nos fora apresentado quando tínhamos menos de um metro?
Ali, na praça do shopping center, os sorvetes derreteram goela abaixo, pegamos as compras e partimos rumo ao dia seguinte.
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November 27th, 2007 §
publicado na Tribuna da Imprensa
Todo homem trai.
Se não está traindo de fato, trai em vontade, desejo e projeção. Não conheço homem que nunca cobiçou mulher alheia ou a mais gostosa do mundo da semana da revista do mês. E nem é culpa deles. Há teses sobre a poligamia natural dos grandes primatas, sobre o custo de geração de gametas para o homem e a mulher, da compensação logística de distribuição de genes e tal, mas o que importa mesmo é que somos compelidos à traição.
E falo não apenas da traição do homem versus mulher, marido versus esposa, mas da traição de conceitos, de crenças, de princípios e idéias. (Digressiono um pouco aqui. É engraçado saber que, em inglês, a traição de um casal é chamada de cheating – trapaça – enquanto o termo traição – treason – é usada para crimes de estado. Nós, ibéricos, é que consideramos a quebra do contrato nupcial, um crime de estado.)
Lembro agora de Giordano Bruno – ex-padre, queimado na fogueira da inquisição – que foi fiel aos seus princípios hereges até o fim: a terra girava em torno do Sol, o nosso sistema era um dentre milhares, os padres deveriam se casar, sexo não era pecado, mas algo divino, etc. Poucos hoje sabem quem foi esse italiano libertino. Mas de outro, todos se lembram. Galileu Galilei ainda é lembrado por suas observações astronômicas porque soube trair seus ideais na hora certa. Traiu para poder publicar seus estudos com a anuência do papa e deixar um legado que seria lembrado até hoje.
De certo a figura do mártir que não abre mão de sua fé ou de seus princípios é impressionante e comovente, mas aposto qualquer valor que a tolerância e a “flexibilidade teológica” foram mais importantes para converter a Irlanda Celta e os nativos no Brasil que o ferro e fogo lançados nos gregos, palestinos e itálicos cristianizados nos primeiros séculos da era cristã.
Novamente saí do assunto, mas retorno agora. O homem trai porque tem de estar mudando o tempo todo. Não é de sua natureza ser uma rocha, um objeto inamovível à toa. O homem é flexível moral e eticamente e é assim que tem de ser, pois, cada outro homem que ele encontra na vida é um universo alienígena que tem de ser traduzido, entendido e decodificado para que ambos possam se relacionar. Por vezes tem de assumir que as verdades do outro não são as suas e ou ele trai o seu pré-conceito de mundo ou passa a rotular o próximo. Ou ambas as coisas.
Homem trai porque precisa sobreviver e os intolerantes tendem a ser exterminados por sua própria cria.
Outra coisa que me vem em mente é a falácia que do “jovem tolerante” ou “jovem flexível”. Exceto na parte física – saudades dos meus joelhos e costas – nunca vi um jovem flexível, tolerante ou compreensivo. Muito pelo contrário, normalmente são os primeiros a criarem rótulos, a se tribalizarem ou se engajarem feericamente em alguma causa ou objetivo – nem que seja comer todas as mulheres do bairro, ganhar milhões de reais antes dos trinta anos ou beber toda a cerveja existente na Lapa, quiçá, do mundo – por mais absurdo e utópico que seja.
Especialmente os adolescentes.
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January 25th, 2007 §
publicado na Tribuna da Imprensa
Eu simplesmente detestei a minha adolescência. Feio, chato e nerd, só não era um fracasso no colégio por conta do meu humor sarcástico e quase non-sense. E também por uma mania suicida que eu tinha de criticar os professores em plena sala de aula.
Isso garantia a minha sobrevida à violência dos recreios.
Música? Não consigo ouvir por mais de dez minutos o que eu escutava à época. Há exceções, é claro. Scorpions (Virgin Killer e In Trance ainda são os melhores discos deles), alguma coisa do Ira, Legião, os roqueiros de Brasília e Sampa em geral, The Cure (Pornography ainda comanda o batatal).
O que sinto saudades mesmo é de ficar nerdando nas lojas de discos da Tijuca e de Copacabana. Principalmente na Sub Som, onde vira e mexe tinham discos bootleg (comprei um do U2 e me arrependo de não ter comprado o picture disc triplo do último show do Led Zeppelin). Bootleg, para quem não sabe, eram os “discos piratas” da época. Eram gravações não-oficiais de shows ou takes de estúdio que eram abandonados pelos artistas e os fãs coletavam. Aquelas lojas eram a internet da minha época. Chegava sempre um maluco com uma fita cassete de uma banda desconhecida e dizia que era o último som do momento. E colocava para todos ouvirem na loja.
Saudade de ficar nerdando na biblioteca da escola e ler toda a coleção de Asterix pela décima vez. E de descobrir “Eu Robô” do Asimov numa estante, de ler “Fundação” sentado no chão do corredor, de passar pelos clássicos de aventura, anotar o nome e depois comprar baratinho nos sebos do centro da cidade. “Moby Dick”, “Da Terra à Lua, todos HG Wells, todo Monteiro Lobato, Kafka. Tenho, em verdade, é saudades de ter tempo de fazer isso. De ter toda uma quinta-feira à tarde para ficar ali lendo.
E as meninas… Queria poder dizer que tenho saudades delas, mas acho que sempre preferi as mulheres feitas. Nunca gostei dos joguinhos de flertes da adolescência. Prefiro a praticidade moderna, madura e adulta… peralá… se bem que muitas mulheres nunca deixam de fazer esses jogos, não é? Mas tenho saudades das minhas paixões platônicas, tão fatais, derradeiras e eternas que só os adolescentes podem ter. Essas eu cultivo com carinho, como quem cuidasse de um filhote perdido. Duas, em especial, me alentam quando estou desesperançado do mundo. Olho algumas fotos e encontro o fiapo de luz escondido no meio do core me dizendo: “Ei, cara. Você pode! Você consegue!”
E os sonhos adolescentes? Mudar o mundo, enriquecer, ser um rock star tupiniquim. Ainda bem que eles se foram. Daí ficaram mudar o próximo pelo seu próprio exemplo, saber o real valor das coisas, ser lembrado pelos amigos e pelas pessoas que te amam. Mais modestos os sonhos, eu sei, mas me dão mais tranqüilidade e acho que consigo viver bem com essas pequenas ambições. Afora isso, uma televisão de plasma de 42″, um LightSaberFX, um iPhone, um MacBook novo e um PCzão da Alien, são gêneros de primeira necessidade, né?
Acho que a única coisa que eu tenho real saudade é da possibilidade de ter tempo jogado fora.
Chegando à beira dos quarenta anos, não tenho tanta nostalgia. Tenho é uma bela coleção de arrependimentos catalogados organizados e que visito regularmente. Uma verdadeira História E Se. E se eu tivesse ficado de boca calada, e se eu tivesse beijado a menina logo de cara, e se eu tivesse tido culhões e peitado o chefe da mesma forma que eu peitava os professores, e se eu tivesse fugido de casa e bancado a minha ida pra Sampa nos idos de 88?
Pra mim, tenho poucas metas até os quarenta anos. Poucas para fazê-las todas.
Uma delas é morar só. Me envergonho de ainda depender de família para teto e sustento básico. Vergonha mesmo. Não tenho mais idade para isso e nem falo do conforto ou (falta de) privacidade mas de hombridade. A cada dia que passo sob o teto de outrem, me sinto menos homem. Emasculado. Tenho de dar um jeito nisso. Ontem.
Outra é começar a juntar algum dinheiro. Não dá mais. A cada hora um aperto aqui, uma coisa inesperada ali, uma festa, uma viagem e pronto. Me ferro sobremaneira no banco, no meu orçamento pessoal. E não consigo alugar o meu apê. Então tá decidido. Vou começar a juntar uns caraminguás regularmente. Só não sei quando começo.
Mais uma é me apaixonar menos. É outra coisa que já deu. Sei que ser blasé é totalmente demodê, mas não tenho mais saúde para essas montanhas russas emocionais. Não nego uma paixão ou um amor, mas menos. Bem menos. Não passar a quarta logo de cara.
A última é me calar mais. Não na mesa de bar, a tagarelice vadia, o conversar de várzea, o papo moleque, a conversa-arte, mas me calar sobre coisas que sei que não serão bem recebidas ou compreendidas de prima. Em síntese: ter menos opinião ou expressá-la da forma veemente que me é habitual. Não sei se isso será possível, dada a minha natureza ariana, mas me evitaria confusões que não me acrescentam em nada. Nem é pelos problemas gerados. Quem me entende sabe como sou, quem não, não me interessa. Mas pelo esforço em domar as paixões.
Aos quarenta, se completados os passos, poderei começar a preparar o meu sossego.
Afinal, nunca achei que chegaria tão longe.
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December 4th, 2005 §
Há muito não interagia com pessoa alguma. Nunca fora do tipo social, do que procurava companhia a todo custo quando a noite de quinta-feira se anunciava, e se entediava em conversas sem eira nem beira que os cariocas adoram ter nos bares, quiosques e boates. Não tinha mais paciência para as abobrinhas, para a as fofocas, a vida dos outros, os seus problemas, as suas felicidades, as suas fortunas e os revezes. O simples mencionar de um evento, onde mais de uma pessoa estaria sentada sem função aparente além de simplesmente estar ali, lhe causava náuseas instantâneas.
Todavia, se formara em psicologia e tinha vários tratados sobre a natureza humana, sobre a capacidade comunicativa do homem moderno. Era um expert em gente.
Tampouco gostava de dançar. Achava um desperdício de energia aquele bando de gente desajeitada se sacudindo sob a influência das músicas que a indústria cultural nos manda gostar, acima do bom gosto. Mas ele tinha a estranha mania de assistir às apresentações de balé do Municipal. Fosse o clássico ballet ou um espetáculo de dança contemporânea ou ainda dança de salão. Aquilo fazia sentido. Era arte.
Por motivos semelhantes não ia a shows ou bares de música ao vivo. Normalmente eram pessoas que se arremedavam a executar canções ruins que eram pedidas por um público que nada entendia de música. Esse mesmo público que não sabe dançar e gosta de se ver não-dançando em espetáculos coletivos de não-dança, de descoordenação coletiva estimulada por pessoas que não tocam, ou tocam mal, ou estão executando mal dado o assombro da massa desajeitada defronte de ti. Nunca entendera o Rock Arena. Porque se chamava de Arena se não tinha gladiadores?
Na adolescência era um dos tipinhos que todos adoravam espezinhar. Infelizmente nascera com uma inteligência fora do comum e entendia cada coleguinha da sala de aula como a mãe dos próprios. Sabia exatamente o que falar para causar o máximo efeito de humilhação e dor. Não aquela humilhação típica dos adolescentes, mas aquele tipo que revela um pouco do ser que escondemos de todos. Do “comedor de meleca” ali para o “você gosta de enfiar coisas no reto” aqui. E o timming! Nossa! Tinha um senso de oportunidade único. Obviamente foi burilado anos a fio a ponto de não precisar nada nas discussões na universidade. Bastava olhar pro debatedor e citar o livro certo. Pimba! Discussão vencida.
Passou a sua juventude entre temido e ignorado. Na faculdade era admirado pelo poder de síntese e objetividade, qualidades que normalmente faltam nos acadêmicos em geral. Depois de formado, tentou dar aulas mas a sua empatia negativa não o estimulava a ficar horas em frente de uma turma, respirando pó de giz e gastando saliva com conceitos que, por vezes, ele mesmo contestava.
Por sorte nunca precisou trabalhar. Tinha o seu apartamento de sala e quarto na Domingos Ferreira e uma renda que permitia que pagasse as suas contas, comer, se vestir, ler e sair uma vez por semana.
Assim, foi cerrando os seus contatos e se fechando no mundo que criava para si em casa. Colecionava DVDs de dança, música e filmes; CDs de música de câmara e Jazz; livros de arte e biografias de grandes músicos. Chegou ao ponto que os únicos contatos que tinha com o mundo exterior eram a faxineira de sessenta anos – “Dona Gerbásia! Como eu gosto de falar o seu nome!” – e o computador por onde fazia as suas compras.
Um dia, enquanto ouvia Raphisody in Blue…
“Oh não! Um monstro!AAAAAAAARGH!”
[Nota do Editor]: O arquivo digital acima foi encontrado entre os alfarrábios do autor. Ainda não temos notícia do seu paradeiro ou de quando pretende largar o monstro de preguiça que o seqüestrou. Aguardamos ansiosamente, já que o f*lh* d* p*t* largou uma pá de serviço a ser feito em cima da mesa.
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March 30th, 2005 §
publicado na Tribuna da Imprensa
Tem aquela história que se conta quando se fala da mulher ideal: ela tem de ser uma dama na sociedade e uma puta na cama. Nunca o inverso. De certa forma é verdade. Pelo menos a parte da puta, já que ser uma dama na sociedade é eticamente bem mais questionável.
Sei que isso pode chocar as pessoas mais recatadas e as legiões de meninas colegiais japonesas virgens que lêem esse venerável jornal, mas a grande verdade é que a única mulher que vale a pena levar para a cama é aquela que gosta do antigo esporte bretão de correr pelado no quarto.
Não adianta nem tentar ter uma relação continuada com aquela que não sabe como pegar o negócio, que reclama que de um jeito dói, que a unha estala, que o cabelo desarruma, que o espelho tá embaçado, que as confluências astrais estão erradas e tal. Porque essa aí não está mesmo a fim de ser a sua Puta. De jeito nenhum. Mas isso não quer dizer que ela não queria ser a de uma outra pessoa. Bem provável que tenha sido no passado ou vá ser no futuro a de alguém. Mas hoje, meu caro leitor (e eventual leitora), coloque as meias e parta pra casa. Ela está no modo “boneca de plástico” (também conhecido como: bege, definitivamente bege) ligado.
Essa daí não dá. Em vários sentidos. Tá certo que o atletismo sexual é um esporte a ser praticado por adolescentes sortudos, profissionais do sexo ou uns poucos afortunados, mas é uma verdade universal que todos gostamos de uma variação e da pré-disposição (perene?) para o ato em si. E contigo, ela vai no máximo fazer uma concessão eventual de se despir. Quiçá deixar você cheirar as axilas (ou beijar os pés) dela.
Mas não tem problema. Você pode ainda se divertir, apresentando-a para os seus amigos ou levando-a para passear em shoppings, cinemas ou boates da moda. Porque ela até poderá ser a tua Musa (explicada na última semana) ou mesmo a Mãe, mas você vai ter de se contentar com vídeos de sacanagem ou um 5×1 eventual para aquietar a tua libido (se é que você tem isso, né?).
Pois é. Enrolo, enrolo para falar do segundo tipo de mulher que um homem tem de ter em algum momento da vida: a puta, meretirz, safada, cachorra, vadia, vagabunda, aquela que te faz ficar em riste apenas com um olhar, um sussurro ou um beijo mais demorado.
É aquela que faz você se esquecer que é um cara civilizado, polido, educado e faz você pensar se a cortina do lado da cama mancharia, se está bem firme ou soltaria pêlos, independente do local onde vocês estão – se o digníssimo leitor não entender a metáfora da cortina + mancha, me envie um e-mail e eu envio um desenhinho explicando – ou do evento social que vocês estão se apresentando.
É claro que isso está intimamente ligado à produção de ferormônios e da pré-disposição sexual de cada um. Mas essas são as únicas restrições que eu imagino para que qualquer mulher possa ser a Puta.
Acho que divaguei um pouco mais aqui que na última semana, mas vamos listar os pontos interessantes:
- Toda mulher pode ser uma Puta com o seu parceiro; aliás, deve;
- Uma determinada mulher pode bem ser uma puta com um homem e uma pau-com-pinça com outro. Não há regra para isso;
- Uma mulher não precisa ser uma Puta o tempo inteiro; mas sabe a hora exata para sê-lo; mesmo que pareça a hora mais errada;
- Não existe idade máxima para a mulher se tornar a Puta; mas deve-se sempre respeitar os limites legais, fisiológicos e físicos de cada um. Não dá para se animar em saliências e ter de ir correndo pro hospital por conta de uma câimbra ou algo semelhante. Eu atesto que não existe situação pior.
Não são muitos ítens, eu sei, mas esse é um conceito mais fácil de entender mesmo. Afinal de contas, graças à randomicidade da criação ou ao design inteligente, toda mulher é puta.
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