November 24th, 2009 §
Escrevi hoje cedo que é difícil “levantar é difícil não pelo esforço das pernas, que essas já estão acostumadas ao esforço de carregar o corpo, mas pela vergonha da queda”. Especialmente quando essa dor vem da maior humilhação, daquela que é perpretada diariamente por nós e não nos damos conta até o momento em que deixamos de ser sujeito e passamos a ser o objeto direto.
Tenho amigas que não sabem quando parar de doer uma ferida. Principalmente aquelas que já passaram do prazo. Ser preterido é uma merda, fato. Mas quantas e quantas vezes não fizemos isso com quem passou por nós? pelo carinha que era legal, beijava bem mas era meio mala, meio gosmento. Pelo gordinho que até tinha pegada, mas era flamenguista (ou corinthiano, ou cruzeirense) e ela tinha meio vergonha de ficar com ele na frente dos amigos.
Foda adiada, meu amor, é foda perdida, como diriam os amigos do bas-fond. Aquele amor passado é amor perdido, não tem mais volta. Não com a mesma cara, não com o mesmo fulgor. E quando o rapaz não te quer mais, não adianta ficar cutucando a chaga com cigarro aceso. Não adianta ficar remoendo os momentos ruins, as palavras meio ditas, o “o-que-fiz-de-errado” vivido. É passado já, beibi. Já era.
O lance é chorar a dor do amor verdadeiro, chorar a morte do que foi bom e nunca mais será. Daí é colocar a melhor roupa, chamar as amigas mais periguetes, cair na noite e deixar a vida acontecer.
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November 2nd, 2009 §
Uma amiga me perguntou como eu conseguia advinhar quanto tempo durava um relacionamento – meus e dos outros – com alguma precisão. Obviamente eu não sou onisciente e nem tenho uma taxa de acerto razoavelmente alta, cientificamente alta, mas como tudo que envolve o sentimento, os acertos contam mais que os erros.
Daí eu expliquei que todo relacionamento tem uma “matemática”. Já escrevi sobre isso antes e acho que consegui sintetizar isso hoje. As regras são simples e são cinco ou seis.
A regra primeira diz que é necessário ter algo em comum. E esse algo tem de ser dentro de casa. Gostar de shows, filmes, bares e amigos e atividades na rua é legal, mas sob um teto a coisa muda de figura. Se os relacionantes não conseguem fazer um bocado de nada juntos, diminui-se o tempo do relacionamento.
A regra segunda diz que eles têm de ter alguma discordância. Mas daquelas brabas, que cause brigas, tapas na cara ou ódio eterno. É no atrito que se aprende a negociar os espaços, a ceder, a treinar a tolerância. Mas ambos têm de ter isso ou o lado cedente acaba cansando.
A regra terceira diz que eles precsiam achar que o outro é melhor que eles em algo ou em tudo. Mas tem de ser mútuo. A admiração pelo outro é o que impulsiona o dia-a-dia. Caso contrário, o outro vira objeto de escárnio e qualquer opção fora do relacionamento acaba valendo mais a pena. Novamente ambos precisam achar que o outro é melhor, senão o caldo desanda.
A regra quarta diz que ambos têm de ter um nível sócio-econônico-cultural próximo um do outro. Mais cultural, sócio ou econômico dependendo da índole de cada um. Nada contra uma pessoa ser sustentada mental, social ou economicamente pela outra, mas há de ter troca entre os relacionantes. Já conheci casais perfeitos que sucumbiram à dureza, à burrice ou ao isolamento social. Não nessa ordem.
A regra quinta diz todas essas regras anteriores devem e serão quebradas em algum momento e nunca serão sempre observadas durante os relacionamentos que tivermos pela vida.
E a sexta, a derradeira e única absoluta, é que só se entra num relacionamento sabendo e esperando que um dia ele acabe. É a única garantia de que será infinito, como diria o poetinha.
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September 13th, 2009 §
De manhã o senhorzinho cumprimentava o sol já com o café na mesa e o pão sevido. Gostava de acordar antes do dia começar e estar pronto para a vida que se anunciava. Fez disso um costume desde quando tirou férias forçadas. Aposentado, ocupava um lugar que poderia ser preenchido por alguém menos experiente, mas mais barato e produtivo. Aceitou de bom grado o destino contemplativo que lhe arranjavam e, como precisava de bem pouco para viver, o dinheiro miúdo da aposentadoria lhe sobrava.
Não tinha parentes próximos ou proximidade com o que restou da família. Uma filha morava longe, um irmão sem falar há cinquenta anos, um primo intragável a duas horas de ônibus na mesma cidade era a única referência que tinha dos outros. Gostava da vida quieta que levava.
Tinha saudades do tempo em que se deitava com mulheres. Lembrava de algumas, de ex-esposas, de ex-amantes, de paixões passadas. A maioria morta ou não queria saber se ele estava vivo. Com motivos justos, aliás. Nunca fora uma pessoa que deixava os outros chegarem perto de si. Não a ponto de poder chorar no colo de uma ou de achar que sua história juntos duraria para todo o sempre.
Havia amigos. Poucos. Raros. Bons. Uns passavam de tempo em tempo em sua casa. Outros ligavam ou mandavam cartas. Não das antigas, de papel. Mas dessas novas aí. Ainda assim, cartas.
O que restava era a espera do amanhã, as lembranças do passado, a rotina prazeiroza que desenhara para si e os seus livros. Enquanto houvesse um livro para ler, ele saberia que não iria embora.
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September 9th, 2009 §
Sou um chato. Meus amigos, colegas de trabalho e conhecidos podem atestar isso veementemente e com exemplos eternos, infindáveis. Sou chato com as músicas que ouço, com o que calço, com os meus perfumes (desodorante com cheiro? NUNCA!), com o que resolvo comer, com o(s) meu(s) computador(es) e com os amigos. Especialmente com os amigos.
Estou na idade que não posso ser visto com qualquer pessoa em público. Imagine só eu ser visto do lado de pessoas bonitas, chiques, alegres, descoladas, tatuadas, inteligentes, cultas, famosas, poderosas, absolutas e colocadas? Que sujeira eu faria à imagem delas, não é mesmo? “O que esse velho bundão está a fazer com as meninas bonitas e com os rapazes ‘da hora’?” Mas quem disse que eu consigo? sou atraído como mariposa para a luz e confesso que todos os meus amigos são exponencial e potencialmente mais interessantes e divertidos que eu.
Fazer o quê? sou chato com meus vícios. Tenho poucos, mas de estimação. São meus e só eles me entendem nos momentos de solidão. Abro a garrafinha de coca-cola como quem sabe que virará a noite matando pessoas digitais em algum reino perdido da digesfera. Como toneladas de paçoca como quem espera encontrar o cupom dourado do Willy Wonka em cada um deles. Tudo para me entreter quando estou comigo mesmo.
Sou chato com a minha solidão. Não gosto de ninguém intervindo nela. Gosto de estar só, mas morro de medo de ficar só. Por isso falo pelos cotovelos, dialogo insistentemente com o outro, idependente da vontade do outro me escutar e refalo o que disse quantas vezes sinta necessidade para preencher o vazio que existe entre mim e a alma do outro. Falo para me acostumar com minha voz. Porque gosto da minha voz. Porque é isso que me resta nos dias que não consigo me ver como um entre muitos e principalmente quando me vejo como mais um entre muitos.
Sou um velho chato e implicante com a linguagem. Especialmente com a linguagem dos outros. A minha não, que não sou suficientemente humilde para apontar os meus próprios defeitos. Não na frente de platéia. Afinal, o destino (ou a genética, não sei ver a diferença entre eles) já foi suficientemente sacana comigo me dando essa cara de woodyallen tupiniquim e uma conta bancária eternamente negativa, além de uma incapacidade patológica de conduzir um automotivo.
Talvez por tudo isso acima eu implique sobremaneira com quem confunde probabilidade e possibilidade. Porque, apesar de ser muito improvável, eu morro de medo da possibilidade de morrer só.
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September 8th, 2009 §
Nunca entendi quem gosta de separar definitivamente, entre dois mundos à parte, duas coisas: amizade e lascívia. Quer dizer, não que ambos venham acompanhados sempre e absolutamente juntos, mas que achem impossível a convivência pacífica dos dois.
Claro que esse problema – na minha humilde opinião – afeta quase que exclusivamente as mulheres. Homens tendem a separar (e misturar) afeto com tesão desde priscas eras. Aliás, somos adestrados a querer sexualmente a outra (ou o outro) pelas revistas de mulé pelada, filmes pornográficos e admiração de calcinhas distraídas que se anunciam debaixo das carteiras do colégio.
Isso talvez se dê pela forma paradoxal que as mulheres se referem ao próprio ato sexual. Na mesma argumentação com um cavalheiro, a dama irá se referir ao ato em si como “apenas sexo” e como “isso aqui” – apontando para as áreas púdicas – “não é para qualquer um”. É a síndrome que eu chamo de buceta cara/buceta barata.
Explico. Uso o termo crasso buceta (ou boceta) para tornar a coisa ridícula porque, em essência, não faz o menor sentido o processo. E uso o binômio cara-barata para ilustrar a contradição em termos.
Ilustro em caso.
Rapaz aborda a menina. Ela é sua conhecida, talvez uma amiga. Há tensão sexual do lado da menina. Há clara e declarada do lado do rapaz. Resolvem sair juntos. Ele aborda a menina. Ela diz “mas você só quer sexo comigo”. Ele diz “como assim sexo é ‘só’ sexo? Sexo nunca é só. É algo mais, é completude, é o carinho definitivo, o beijo mais íntimo e o afago mais descarado. Nunca é pouco.”
Ela pensa, bebe uma cerveja – talvez uma tequila, se o mancebo for ardiloso e inescrupuloso – e diz: “eu não sou qualquer uma. Eu não transo com qualquer um. Eu me valorizo, sabe?”
Quantas vezes não vimos essa cena? Então a menina tem um grande valor e o sexo em si é pouca coisa?
Nunca consegui entender o conceito de “sexo estraga a amizade”. Sé é algo sem valor, então qual a diferença entre um beijo na bochecha e o sexo? Se é algo valiosíssimo, que mantenhemos a virgindade acima de tudo e até o casamento, certo? Mas não é o que se pratica. As moçoilas preferem ser iludidas pelo príncipe em armadura reluzente que se revela um cretino a transar com o amigo que está ali, ouvindo as mazelas diurnas – e noturnas – da outra.
De outro lado, entendo quem não quer nenhum tipo de intimidade com os amigos. Que o limite da intimidade com o alheio é o beijo no rosto. Mas essas não abrem sua necessaire emocional para outros, para o conselho, o desejo e o querer do amigo do lado.
Ou talvez eu esteja redondamente enganado e não passe de um cretino. Mais um cretino.
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July 20th, 2009 §
Sete anos atrás escrevi algo sobre reencontros, sobre a estranha emoção que me tomou quando revi aquele punhado de conhecidos que um dia foram meus amigos de convívio diário, das sete da manhã às cinco da tarde. Hoje entendo um pouco melhor o que me tomou ali, misturado às lágrimas e ao álcool quente, choco e abundante.
Era apenas inveja.
Dentre esses meus amigos de outrora, alguns dividiam as dúvidas adolescentes (as minhas e as deles); outros, as conquistas; pouquíssimos, o exemplo; nenhum, a companhia. Mas isso não é incomum. A escola proporcionava a troca exaustiva entre nós, mas nenhuma escola ensina a pegar a mão quando se quer bem a alguém, a comemorar com alegria legítima quando um amigo consegue um feito desejado, a chorar quando um ente querido se vai ou a dar força quando alguém corteja o abismo.
Isso, a vida é quem ensina, nós nos ensinamos.
Vi alguns conhecidos se perderem pro tráfico, pro crime. Outros, ficaram poderosos ou ricos. Um ou dois desapareceram dos nossos radares ou já terminaram sua história entre nós. E a maioria sobrevive nos empregos de classe média alta conseguidos por conta da excelente formação dada pelo CAp UERJ nos proporcionou. Não creio que tenhamos colegas que passem fome ou estejam em situação de dificuldade extrema. Ao menos isso. Mas era esperado, dada a elite que se formou ali
Sempre me senti uma farsa entre esses meus amigos. Nunca fui espetacularmente bom em nada, nunca fui bom aluno, atlético, simpático ou político. Era bobo, fato, e graças a isso sobrevivi a mim mesmo, por não levar a sério o que me rodeava ou a mim mesmo. Assim, podia fazer graça da minha feiúra, da minha magreza, das minhas sucessivas falhas e derrotas.
Sempre me senti só, isolado ante a turma de semideuses. Cada um de nós era “doutrinado” a ser o melhor dentre os iguais, a ser o mais inteligente, o mais culto, o mais interessante. O mundo estava com as portas abertas para nós e iríamos ser os arautos de um mundo novo que se aventava à frente. Éramos os sonhos e esperanças dos nossos professores. Dos nossos mestres. Ou éramos a escória. Sempre me senti mais confortável entre os derrotados, entre os desqueridos. Talvez porque ali a minha parca chama esquentasse um pouco mais o meu enorme ego. Mas me desvio do que pretendia, que era falar do reencontro em si.
No dito evento estavam pessoas com histórias – centenas, milhares de histórias – para contar e eu com tempo nenhum para sentar com cada uma delas e ouvir o que tinham a me dizer, pessoas que eu queria ter tido mais contato ainda no colégio, mas que flanaram na festa – com razão, éramos muitos – e eu não consegui trazer para a teia da minha vida. Enfim, pessoas que já fizeram parte de mim e eu não consigo deixar de sentir um nó no peito ao saber que deixei-as ir embora. Talvez porque seja custoso, muito custoso, admitir que sou uma farsa. E que eu já estou velho demais para rir das minhas máscaras. As velhas, mal ajambradas e desgastadas máscaras da minha vida.
Saí, pois, à francesa para não desmontar no meio do salão.
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May 18th, 2009 §
A casa da minha alma é pequena. Nela, cabem umas poucas lembranças, um cálice vazio e um farrapo de vontades gastas pelo tempo. A alma ocupa um canto iluminado pelos sóis de inverno. Tem janela para um quintal de grama verde, onde ela pode se deitar e brincar de desenhar nuvens. Por vezes, cochilar na rede que prende às paredes. É onde ela se lembra de onde veio e para onde irá.
A casa dos meus sonhos é um campo aberto. Não é casa ou teto, mas horizonte infinito, sol a pino e nuvens escarradas no ciano cinzento. A casa dos meus sonhos tem um vazio ensimesmado, um nada indefinido, uma ausência de ser. Ela se insinua, mas inexiste. Como um desenho abandonado. Ninguém mora lá.
A casa dos meus desejos é um pássaro migratório. Mora em calendários, pousa em meses, cria ninhos em semanas, cisca nos dias, come nos feriados vermelhos. Ele existe no ir e vir, sempre em movimento. É filho das horas e das efemérides. Eu o alimento com os segundos que roubo do relógio.
A casa do meu futuro foi erigida em nuvens sem pé de feijão. Ela é feita de desenhos animados e de cores acachapantes. Os amigos do futuro são caricaturas de gente e eu os conheço vidas a fio. Eu acredito em suas histórias que me são enviadas em cartas de tarô. Desenho a casa em mapas astrais e traço seus contornos em trígonos, quadraturas e sextis.
A casa do meu exílio tem verão todo dia e inverno para o sono. Tem uma cama quilométrica e uma rede com paisagem de concreto e luzes. Uma lua safada me visita quando chego do trabalho e me ilude com promessas de carinhos. O exílio não é local de carinho.
A casa do meu trabalho é vizinha da alma. Sólida como chumbo, negra como o medo, fria como o beijo de quem não te ama mais. Não tem portas. Não tem janelas. Não tem saídas. Ela é carregada como um casco, uma corcova de gente. Meus dias se passam ali dentro. Algumas noites também.
A casa da minha mãe tem a mãe da mãe e a filha do filho. Já teve minhas lembranças, meus prazeres e o meu acalanto. Hoje tem conversas e uma longa espera pelo fim. É uma casa de cura, ainda que essa venha de forma inesperada. É onde podemos dormir à tarde e sabemos que alguém nos guarda à porta. Ninguém fica com fome na casa da minha mãe.
A casa da minha esposa tem o meu nome prometido e a promessa de um futuro. É feita de paredes arranhadas e a derradeira tentativa de felicidade. Sair dali é entregar-me àquilo que não quero mais ser. Toda semana parto com a esperança de retorno. Toda semana volto com a esperança de ficar.
A casa das minhas casas tem chaves gigantes, seis cores de duração e uma sombra eterna.
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March 25th, 2009 §
Sou um possuidor de um coração vagabundo. Desses desclassificados mesmo. Nunca tive medo de me atirar ao chão e pedir carinho, fingir de morto, virar a barriga para cima, olhar com orelhas caídas e olhos grandes para quem queria/fingia me dar afeto. Certa feita, menina me subornou com um beijo se fizesse eu uma cena em plena Praça Saens Peña. Não fiz a cena por vergonha – esse sentimento estúpido e inútil, especialmente a vergonha alheia – e fiquei sem. Acho que ali tracei uma linha no chão e me recusei a cruzar.
Obviamente, com a idade, as vergonhas tendem a deixar de travar a mão. Mas essas trocam de nome e passam a se chamar de “conveniência”. Pois, como se diz no mundo da moda, tudo pode, mas nem tudo convém.
Estava no chope, conversando com amigos e conhecidos (mais desses que daqueles) e, ao voltar para casa, lembrei de pessoas com quem eu queria dividir a noite, seja no papo moleque, na conversa de várzea, no papo-furado arte, ou no aconchego de lençóis da minha cama king size. Tudo armadilha da necessidade de autopsiar a minha própria melancolia. Resultado: muito chope e uma enxaqueca pela manhã.
Passam-se os dias, as inspirações para escrever, as tarefas burocráticas d’A firma, as oportunidades de ficar milionário, os 2,4km que caminho de volta para casa quase que diariamente e eu, preso em uma nostalgia das coisas que deixei de fazer.
Nem São Paulo, com seus céus azuis e seus poentes impossíveis me comovem mais.
Aí, a amiga Mariana Blanc posta no seu perfil do Orkut: “Do que são feitas as estrelas? saudade.” Se for verdade, minha estrela brilha forte, cada vez mais forte.
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February 24th, 2009 §
Eu tenho uma letra horrorosa, quando escrevo com pressa. Para falar a verdade, tenho uma letra horrorosa quando não uso uma “máquina de escrever” o que, para mim, remonta à tenra idade de oito anos, quando ganhei a minha Olivetti Portátil de natal.

Não era um presente usual, eu sei, mas minha mãe não tinha achado o “avião que dava mil piruetas” para vender (o que era bem provável, já que ele só existia na minha imaginação) mas tinha se virado em seis para comprar o “robô que dava cambalhotas”, o “carro que bate-e-volta” e a indefectível bicicleta de rodinhas.
Fato é que não posso me queixar de presentes quando criança. Não mesmo. Já quando adolescente, a história era outra e fica para outra história.
Mas eu falava da minha letra horrorosa – tão feia que nem eu mesmo consigo lê-la quando tento rever minhas anotações – e da minha mania de comprar cadernos e blocos e canetas e lápis. Acho que a minha letra é a minha primeira frustração.
Todos em casa tinham uma letra desenhada. Minha tia até hoje tem uma caligrafia personalíssima e inteligível à distância. Minha mãe tem um traço firme e nervoso, mais parecido com caminhos de formiga. Ainda assim, legível até no escuro. Do meu tio mais velho só lembro dos números, das contas. Precisas, calaras. Dos tios mais novos, não lembro nada.
Fiz caligrafia por um tempo, mas desistia como bom preguiçoso do signo do porco. Dava trabalho e eu escrevia melhor e mais rápido na Olivetti. Pena que era muito pesada para levar à escola. Pena que não dava para escrever com ela nas provas e nas redações.
Um pouco mais tarde, ganhei meu primeiro computador – um TK85 – seguido logo, logo, do segundo – um Hotbit/MSX – que veio a ser o centro da minha primeira “estação de trabalho”: computador, monitor (uma TV), impressora matricial de oitenta colunas e um disk drive de 5 ¼ polegadas. Com a chegada da impressora, a caligrafia há muito abandonada foi de vez para as cucuias. Com o micro, as minhas outras frustrações ficavam mais patentes.
O bichinho “tocava” música, se eu o programasse, e eu sabia ler um pouco de notação musical. Então lá ia o pequeno Zander programar no computador as partituras que ele não conseguia – nem tentava muito – tocar no violão. “Afinal de contas, eu queria um baixo!” – era a minha desculpa – “E nem para ganhar presente direito!” – eu completava com a malcriação típica dos quinze anos. Amava música (se é que punk rock pode ser chamado de música) e não tocava patavinas. O mesmo se aplicava para as meninas: amava-as e necas de pitibiriba de descolar umazinha que fosse.
Obviamente tudo era desculpa para uma falta de empenho meu. Se eu quisesse comprar um contrabaixo, que eu economizasse nos gibis e livros, né? Ou que eu deixasse de comprar tanto vinil, ou que eu vendesse o meu super-hiper-som modular da Philips e fizesse mais umas aulas de violão para eu mostrar que me empenhava em alguma coisa de verdade, que não me viesse fácil. Reclamar da vida sempre fora mais fácil que fazer o meu desejo virar a verdade.
Acho que ouvi uma vez alguém dizer que amadurecer é colecionar frustrações.
Falo disso tudo porque, vira e mexe, me acho uma farsa. Uma farsa no trabalho, com os amigos, com a família, com os amores. Não tenho metade da inteligência que presumo ou apresento, um terço do talento que me atribuem, um décimo da capacidade que vendo, um centésimo da compreensão e da tolerância para os meus entes queridos e um milésimo da capacidade de amar que qualquer ser humano merece.
É como me sinto nas noites insones de calor do Rio de Janeiro. Como uma farsa de mim mesmo, esboço de alguém que eu nunca poderei ser plenamente apenas porque escrever as letras de forma legível dá mais trabalho que inventar o texto do meio dos meus garranchos.
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February 9th, 2009 §
Idas e vindas estão fazendo parte da minha vida como rotina semanal e, se tudo continuar nesse passo de cágado manco, ainda serão rotina triste durante um bom tempo. A parte boa da rotina é que o querer ir se confunde com o querer voltar. Por conta da regularidade, os reencontros ficam mais raros.
Talvez por ter certeza que estarei na semana que vem de volta, estarei por ali mesmo, descuido dos outros. Descuido de minha filha, descuido dos amigos, descuido de mim por extensão.
Avisaram-me que desistiram de mim. É justo.
Justíssimo.
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