September 30th, 2009 §
Queria saber contar uma história de amor daquelas que marcam gerações e forjam caráteres. Uma que fosse citada daqui a centenas de anos, que fizessem estudo e análise e que dissessem que a forma que o amor é escrito define-se antes e depois dessa história aí, que eu nem bem escrevi.
Acontece que ou se ama, ou se escreve o amor. Não dá para fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Porque ou se é sincero com a vida e retrata-se o querer bem que rege a monotonia cotidiana ou escreve-se o impossível idealizado do amor que move realidades e corta o tecido do universo para fazer manto de si mesmo.
Não acho que esses amores inventados façam bem, daí o meu afã de viver o amor diário, mundano e medíocre que eu tanto prezo, cuido, mantenho e nino.
Tudo que vem em desespero de existência me assusta. Uma pessoa hiper-intensa, uma vocação definitiva, um projeto acachapante, tudo isso me desespera, me tira o fôlego e parece irreal. Gosto das coisas miúdas, da pequenenez constante do amar diário, desse amar que tão pouco escrito, é indesejado.
Mas que é tudo o que resta para quem quer viver para sempre.
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September 4th, 2009 §
Apesar de ser uma pessoa de epifanias, me encanto sobremaneira pelos momentos fugazes, mundanos, repetitivos. Adoro observar as pessoas ao caminhar nas ruas. Amo ver a espuma do café girar na mesma direção que o movimento feito pela colher e observar os grãos de café sobreviverem segundos poucos antes de mergulhar no creme marrom. Poderia passar horas só olhando esse café se não fossem os horários que me são impostos e a língua inquieta que me faz falar mais que a palavra.
E é no detalhe que eu percebo que a minha felicidade verdadeira não está em realizações olímpicas, mas em pequenenezas diárias. Está no esparramar-me na minha cama sem fim, em esticar mais dez minutos e mais dez e mai dez e mais dez até o atraso costumeiro para o trabalho. No observar o vai-e-vem de pernas nas calçadas e – prazer que tenho me negado desde que mudei para a selva de concreto e asfalto sem fim – deitar na grama sob o sol frio de inverno e olhar as nuvens displicentes desafiar a minha capacidade de ficar acordado.
Existem outros prazeres óbvios que me encantam. Todos mundaninhos, normaizinhos e que vão-se em poucos minutos.
Por um outro lado, os grandes assombros me assustam. Não que tenham me gerado desconforto imediato, pelo contrário, mas a simples ciência que eles jamais se repetirirão me perturbam avassaladoramente. O fato que serão únicos, impossíveis de serem replicados por mais que tentemos me desespera. A mega-sena emocional me aterroriza. Sem dúvida por conta do potencial de vício que eles potencializam. As marés de dopamina que poderiam – podem, poderão – destruir a minha fé na mediocridade derrubam tudo que planejo para mim daqui a dez, vinte, cem anos.
E é isso mesmo. A Grande Paixão Humana é o epitáfio para o velho rabugento, tabagista, bibliófilo, pernóstico, prolixo e promíscuo que encomendei para mim mesmo. Já as pequenas paixões, os amores miúdos, os quereres ligeiros, me cativam e aninham. A Grande Paixão merece ser emoldurada e colocada em local de destaque na galeria da vida e deixada de história para milhões que seguirão o meu exemplo. A Grande Paixão é digna de um martírio, de um legado de legiões, de epopéias e fortunas.
Mas me cansa essa grandeza impossível. Sou apenas um humano, mais um humano, outro humano e eu não espero deixar outra herança – já disse, sou repetitivo, repito – além da minha memória e meu nome.
Que paulatinamente, arraso.
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September 1st, 2009 §
Não acredito em amor singular, amor exclusivo, amor excludente. O meu amor é geral, genérico, abrangente. É popular, democrático, de pele de gente. Não acredito em amores finitos, amores limitantes, amores vertentes, verticais, vetoriais. O meu amor é um conjunto infinito de possibilidades, é a possibilidade.
Dito isto, não acredito em infidelidades, mas na mentira. Não acredito em traições, mas em desistências. Nem em canalhices ou patifarias. Acredito em essências, pois o escorpião, o da fábula ou história sufi, não é cruel: é o que a sua natureza o faz ser. O canalha só é canalha quando se arrepende do seu ato.
Dessas duas preposições tiro uma terceira: eu sou finito, limitado, pequeno e pífio. Sou definitivamente menor que a minha capacidade de amar e acredito que, acima de tudo e todos, toda forma de amor é válida.
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August 29th, 2009 §
Você me falou de Once um tempo atrás e enrolei até hoje. Eu entrei num ônibus que saiu com os costumeiros dez minutos de atraso e já era sábado, meu hoje é um caminho entre duas cidades, você sabe bem disso, já viveu isso um pouco entre idas e vindas, e eu ainda carrego um sabor amargo de umas conversas amigas que revelam partes de mim que não gosto de olhar e de saber que existem.
Você me contou que assistiu Once tempos atrás, uma cidade e meia atrás, e eu enrolei até hoje para assistir. Cada coisa tem o seu momento, seu talento, seu sentimento.
Eu sou uma pessoa de promessas adiadas. Já disse isso antes e não canso de repetir a quem não quer ouvir: sou uma pessoa de promessas adiadas. Tenho medo do fim, de subir a escada até o último degrau e olhar o mundo do alto da escada, do último degrau da escada. A escada que eu recuso a subir.
Você me falou de Once, me falou da Billy Holiday, me falou de amores irrealizáveis e eu procrastinei tudo isso. Arranco os pelos da minha barba como punição, sabe? Quando alguém me chama na sala, acho que é para ser punido por algo que deixei de fazer. Tenho medo de broncas, de pessoas bravas, de quem parece ser mais forte do que eu e, acima de tudo, da vida. Tenho medo da vida.
Nunca gostei de ir ou voltar. E, definitivamente, odeio fins.
Você me falou de Once, o filme, uma vida atrás. Hoje, assisti, contive os soluços no ônibus e pedi ajuda uma derradeira vez.
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April 8th, 2009 §
Eu não consigo entender o porquê das nossas morais serem voltadas às obrigações e não aos prazeres. Não entendo o porquê de nossos ódios serem mais e freqüentes que nossos amores e o sentido de acordar às 6h da manhã se não for para ver o sol nascer ou voltar para casa sentindo a maresia turvar o Sol.
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February 24th, 2009 §
Eu tenho uma letra horrorosa, quando escrevo com pressa. Para falar a verdade, tenho uma letra horrorosa quando não uso uma “máquina de escrever” o que, para mim, remonta à tenra idade de oito anos, quando ganhei a minha Olivetti Portátil de natal.

Não era um presente usual, eu sei, mas minha mãe não tinha achado o “avião que dava mil piruetas” para vender (o que era bem provável, já que ele só existia na minha imaginação) mas tinha se virado em seis para comprar o “robô que dava cambalhotas”, o “carro que bate-e-volta” e a indefectível bicicleta de rodinhas.
Fato é que não posso me queixar de presentes quando criança. Não mesmo. Já quando adolescente, a história era outra e fica para outra história.
Mas eu falava da minha letra horrorosa – tão feia que nem eu mesmo consigo lê-la quando tento rever minhas anotações – e da minha mania de comprar cadernos e blocos e canetas e lápis. Acho que a minha letra é a minha primeira frustração.
Todos em casa tinham uma letra desenhada. Minha tia até hoje tem uma caligrafia personalíssima e inteligível à distância. Minha mãe tem um traço firme e nervoso, mais parecido com caminhos de formiga. Ainda assim, legível até no escuro. Do meu tio mais velho só lembro dos números, das contas. Precisas, calaras. Dos tios mais novos, não lembro nada.
Fiz caligrafia por um tempo, mas desistia como bom preguiçoso do signo do porco. Dava trabalho e eu escrevia melhor e mais rápido na Olivetti. Pena que era muito pesada para levar à escola. Pena que não dava para escrever com ela nas provas e nas redações.
Um pouco mais tarde, ganhei meu primeiro computador – um TK85 – seguido logo, logo, do segundo – um Hotbit/MSX – que veio a ser o centro da minha primeira “estação de trabalho”: computador, monitor (uma TV), impressora matricial de oitenta colunas e um disk drive de 5 ¼ polegadas. Com a chegada da impressora, a caligrafia há muito abandonada foi de vez para as cucuias. Com o micro, as minhas outras frustrações ficavam mais patentes.
O bichinho “tocava” música, se eu o programasse, e eu sabia ler um pouco de notação musical. Então lá ia o pequeno Zander programar no computador as partituras que ele não conseguia – nem tentava muito – tocar no violão. “Afinal de contas, eu queria um baixo!” – era a minha desculpa – “E nem para ganhar presente direito!” – eu completava com a malcriação típica dos quinze anos. Amava música (se é que punk rock pode ser chamado de música) e não tocava patavinas. O mesmo se aplicava para as meninas: amava-as e necas de pitibiriba de descolar umazinha que fosse.
Obviamente tudo era desculpa para uma falta de empenho meu. Se eu quisesse comprar um contrabaixo, que eu economizasse nos gibis e livros, né? Ou que eu deixasse de comprar tanto vinil, ou que eu vendesse o meu super-hiper-som modular da Philips e fizesse mais umas aulas de violão para eu mostrar que me empenhava em alguma coisa de verdade, que não me viesse fácil. Reclamar da vida sempre fora mais fácil que fazer o meu desejo virar a verdade.
Acho que ouvi uma vez alguém dizer que amadurecer é colecionar frustrações.
Falo disso tudo porque, vira e mexe, me acho uma farsa. Uma farsa no trabalho, com os amigos, com a família, com os amores. Não tenho metade da inteligência que presumo ou apresento, um terço do talento que me atribuem, um décimo da capacidade que vendo, um centésimo da compreensão e da tolerância para os meus entes queridos e um milésimo da capacidade de amar que qualquer ser humano merece.
É como me sinto nas noites insones de calor do Rio de Janeiro. Como uma farsa de mim mesmo, esboço de alguém que eu nunca poderei ser plenamente apenas porque escrever as letras de forma legível dá mais trabalho que inventar o texto do meio dos meus garranchos.
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January 22nd, 2009 §
A coisa mais interessante sobre o passado é que ele sempre volta. Travestido de lembrança, disfarçado de reencontro, infiltrado num sonho ou num hábito repetido, ele sempre retorna de forma avassalador.
Acachapante, até.
Por vezes, queria que o passado lá ficasse, que o presente sempre me trouxesse o futuro. Ou vice-versa. Por vezes, queria me aninhar lá atrás (engraçado como colocamos o passado atrás da gente, como se fosse a vida, uma estrada ou um rio quando o passado apenas foi-se) e mudar uma A ou B feito. Quase sempre agradeço por ser tudo que fui, não ter sido o que não fui, por cada decisão pensada e errada que tomei e cada desejo certo que cedi. Hoje, agradeço ao passado ter-me batido à porta e dito: “bora aí!”
Engraçado. Hoje, agradeço ao que fui e ao que derramei.
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August 29th, 2007 §
publicado na Tribuna da Imprensa
Diz-se que o corpo do homem é um templo. Mineiramente, nunca discordei nem concordei, muito pelo contrário. O que me irrita nesse lugar-comum inocente é a quantidade de baboseiras que se acrescenta, como se fosse glacê de segunda num bolo de festa de massa sincera, competente e bem razoável. Pior, minha senhora e meu senhor, pior! Usam isso para deixá-lo imaculado, virginal e intocável.
Ora vejam só! O que seria de um templo se a comunidade não o penetrasse para realizar os seus cultos? O que seria do Pantheon se os romanos antigos não celebrassem sua civilização em seu centro, sob a maior abóbada do mundo antigo? O que seria das cidades pequeninas se não cuidassem de suas capelas, de suas pequenas igrejas? Ouro Preto, Sabará, Diamantina são famosas pelas pequenas igrejas tão magnificamente decoradas, pintadas e adornadas.
Daí, cometo mais um desses textos bobos sobre o corpo e as igrejas: afirmo que creio piamente no corpo como templo e creio que toda forma de cultuá-lo é válida, divina e vou além! Creio piamente na Igreja Hedonista, nessa que diz que toda forma de prazer é válida e deve ser o objetivo fim da humanidade. E mais! Ouso afirmar que a maior oração é ser consciente, crítico e racional!
Aparentemente pode ter uma contradição de termos aí, mas explico: apenas mantendo-se são e racional, podemos nos deixar guiar pelos nossos instintos numa relação que não difere muito da de um cego e o seu cão. Então essa oração, essa racionalidade santa, esta consciência transcendental carnal pode se tornar a mais bela de todos os tempos.
Falo isso para provocar, obviamente. Não me interesso pelas igrejas e fés – exceto pelos elementos metafóricos e arquetípicos que brotam de ambas – mas seria interessante ver pastores da carne, freis do ócio, abades do deleite a pregarem as delícias que é estar vivo, consciente e são.
Continuando o exercício, precisaríamos de novas disciplinas para cultuar esse novo deus-homem, que prometeria o alívio após as infinitas jornadas de trabalho, que nos ofertaria o descanso merecido nos fins de semana, ou as férias justas e remuneradas a cada ano – como eu preciso de um deus assim! – ou dos salários justos a cada mês, dos juros justos e dos amores que fizermos por merecer. Quão interessante seria essa igreja da carne.
Diz-se que o corpo de um homem é um templo a ser louvado. Já o meu corpo, tenho certeza, não é um templo, tampouco um local, mas um rosário de carne que é desfiado a cada minuto. As contas desse rosário são as histórias que carrego, as lembranças que me assombram e os rostos que entreguei ao oblívio. O peso deles é a minha cruz diária que tento amenizar com os pequenos contos que escrevo, com os sonhos que macero nas manhãs remelentas ou nas madrugadas insones. Gosto de imaginar que cada conta desse rosário de carne – ou melhor: de sua terça parte – é feita de partes de mim. Esse terço é feito de veias, artérias, sangue e coração que hoje estão frios e gelados.
Meu corpo é um rosário. E eu não rezo suas contas.
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July 31st, 2007 §
publicado na Tribuna da Imprensa
Não entendeu quando o telefone foi desligado, lá do outro lado da linha. Ficou um gosto ruim na boca, de algo incompleto. Uma goiabada vencida, sem o catupiry. Não teve opção senão aceitar os fatos e fechar a história. Olhou brevemente para as fotos do criado mudo, repousou o aparelho na baia de recarga e escolheu uma foto aleatória. Não era ela na cena do retrato, mas lembrou-se de quando passearam no parque, juntos, pela primeira vez. Havia um encanto, um élan que não era comum. Eram raros um para o outro e sabiam disso desde o primeiro momento.
Não era o primeiro fora que tomara nem seria o último. Nem por isso o sabor da rejeição estava mais doce. Era fel que lhe vinha à boca quando chegou em casa cansado da viração sem sentido nos bares e boates de Botafogo. Entrara na roda-viva de quem sofria as dores etéreas dos desamores da vida.
Novamente.
O álcool que vomitava em ondas contínuas era o que havia anestesiado o seu choro. E agora, ao vê-lo misturado com a bile negra, ambos expulsos com muito esforço, lembrou-se tristemente que essa seria a última vez que suaria por aquela mulher. Havia dado de si, o esforço do prazer mútuo, tal e qual um guerreiro que enfrentava as legiões por seus generais até o gozo derradeiro da sua amada. Tinha para si o mote que o prazer da parceira era o goal final, o sentido de sua dedicação. No entanto, suava para expurgar a dor e a frustração de um amor defenestrado. Só lamentava que tanto esforço não gerasse um sorriso no fim. Pois não há como sorrir quando o seu corpo expurga tanta dor. Afinal, aquilo não era um parto: era um aborto de um amor.
Passaram-se as semanas e a vida ditou novamente sua monocórdia melodia. As pessoas não tinham mais cores para ele. Eram chatas, medíocres e sem brilho. Mal sabia que ele estava apenas refletindo-se nos outros. Daí veio a chance. A menina estava disponível e queria revê-lo. Contrariando toda a racionalidade e as leis do amor próprio, foi encontrá-la. Nunca poderia dar certo.
Obviamente, não deu.
Chegou uma hora antes do combinado, escolheu a mesa ideal e escondeu a caixa de bombons. Conversou rapidamente com o garçom e já tinha em mente o que iria pedir para comer e beber. Não iria fazer feio. Checou insistentemente no celular chamadas perdidas e mensagens de texto. Faltando quinze minutos para a hora exata, ligou.
“Estou chegando.” Ela disse.
Sonhara meses com aquela voz em diversos tons. Principalmente dizendo uma frase em especial que ele repetira várias vezes, sempre com adendos desnecessários para disfarçar o fato que estava entregue completamente ao sentimento. Era de sua natureza apaixonar-se pela paixão. Não tinha jeito mesmo. Dez minutos de atraso e ela chega. Linda. De vestido vermelho e sandália baixa, de acordo com o figurino em voga na capital do império. Num segundo, ela destrói tudo.
“É estranho isso. Não te cumprimentar com um beijo na boca.” Ela sorri como se tivesse contado uma piada. Ele sorri como se o seu mundo interior tivesse desabado.
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July 16th, 2007 §
publicado na Tribuna da Imprensa
“Me conta alguma coisa feliz? Queria rir um pouco.”
Ela dizia, com os olhos piscando. Não abria a boca ou falava palavra. Dizia tudo com o piscar de olhos e dar de ombros. E eu me debulhava em histórias bobas, inventadas para ela. Ficava feliz quando roubava um sorriso de lado, daquele do tipo que não achou a menor graça na história em si, mas no esforço. Sei ser engraçado, quando preciso, mas isso necessariamente envolve a humilhação pública de alguém ou um desmonte da reputação alheia.
O meu humor é amargo, ácido e cáustico, não é do tipo que faz sorrir, mas do que molha as calças de urina ou que faz babar o bobo de tanta pornografia dita. É assim que eu faço rir o tolo, o presidente e o mercador. E o que ela pedia, eu dava. Ela queria felicidade, eu dava, ainda que me custasse o suor do corpo. Ela pedia um sorriso, e eu comprava, ainda que pagasse por ele o preço da minha infâmia. Ela pedia uma alma, e entreguei várias. Por fim, pediu um coração. Mas não era o meu.
“Ouve minhas histórias? Queria tanto ser lembrada.”
Ela me pedia, debruçando-se sobre meu ombro enquanto eu trabalhava nas teclas para registrar cada respirar que ela não dava. As palavras ecoavam nos meus ouvidos, atropelando as idéias que se formavam, e os dedos já as guardavam todas no papel elétrico. Branco como deveria ser todo papel. Em tinta preta, como deveria ser toda tinta. Manchado de lágrimas, como deve ser toda lembrança boa, mesmo as que não são suas.
E ela povoava as minhas memórias com histórias que não me pertenciam, segurava minha mão para escrever mais e melhor e aguava os meus olhos para que eu visse o que ela tinha visto. Por fim, espremeu a minha alma até fazer sumo de emoção e assinou com um nome inventado.
“Cuida de mim? Vela o meu sono e o meu cansaço?”
Lânguida, deitava-se de costas para não esmagar as asas e o anjo da guarda que, como espírito da natureza, não possuía. Espreguiçava-se sobre a cama, derrubando as almofadas de cetim no chão sujo e empoeirado. Se remexia como quem esperava o amante íncubo durante o sono quente e úmido. Dançava uma coreografia estranha, que despertava em mim algo que imaginava morto e enterrado. O estranho é que ela parecia acordada, mas dormia como se tivesse em si o peso de centenas de anos. Às vezes virava-se de repente e me encarava desejando que eu estivesse pronto para ela.
Eu nunca estive pronto para uma coisa assim, de forma que eu cobria-a com o cobertor e lhe cantava umas cantigas de amores perdidos, de pessoas desencontradas e vidas separadas pelas fiandeiras do destino. Por vezes fazia um carinho descuidado, passando a mão no cabelo desgrenhado, negro, que se espalhava do canto esquerdo da cama até cair fora do colchão, no lado direito. Às vezes pegava um par de meias para calçar os pés que gelavam na madrugada ou trazia um copo de leite morno com mel quando estava mais inquieta que o normal. Fazia massagens nas costas com emplastro nas noites frias de tosse rouca e admirava o seu rosto quando sorria no repouso quando chegava.
“Me dá um beijo? Diz que é o meu homem?”
Ela me pediu, uma vez. Hesitei, pois a tinha apenas como uma fada que vinha me visitar à noite. Principalmente nas noites em que eu me sentia só e desgarrado do mundo. Quando ela notou que a dúvida me calava a boca, secava a língua e amarrava a garganta, desenhou um sorriso amarelo no meio do peito, abriu a janela e voou para se perder no firmamento.
E eu me pendurei na janela, desacreditado do amor.
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