December 1st, 2009 §
Pois bem, já sabemos que todo ano eu preparo uma indefectível mensagem por conta da experiência inefável da virada de ano.
E todo ano exprimo um desejo diferente. Já quis que o ano fosse mais humano que nunca, que tivesse 366 dias, que nada acontecesse, que eu mudasse por dentro e que eu me tornasse uma pessoa melhor.
Isso tudo já aconteceu de alguma forma, melhorei, piorei, mudei, continuei o mesmo, nada aconteceu, já tive minhas dezenas (muitas!) de 365 dias e muito mais.
Pra todos, para 2010 que chega, eu espero apenas que ele termine, dado que é início de tantas outras coisas.
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December 19th, 2008 §
Mais um ano termina e a sensação é – de novo – um milk-shake de alívio com sensação de tempo perdido. Nesse ano que passou a vida me trouxe algumas surpresas. A maioria realmente muito boa, o restante ainda está sob análise da distância emocional que só o tempo dá.
Vocês já conhecem a velha história, né? O amor que deu errado abre as portas para uma felicidade mais ampla, plena e absoluta (para ambas as partes); o emprego que te dispensou gerou uma reinvenção da maneira que você se colocava perante o mundo; os amigos que te humilharam no passado te fizeram escolher e entender melhor a humanidade.
Tudo isso só se dá com o passar do tempo.
Viver do passado é a essência da condição humana, racional. É através desse arremesso para o ontem que conseguimos ter certeza que haverá um amanhã. É paradoxal que só consigamos projetar o futuro através do seu oposto mas é assim que o homem funciona. É assim que gosto de ser.
Num papo de almoço dessa semana, falávamos sobre a vida e a morte e o que acontece nesse ínterim. Independente da fé e religião de cada um, a única coisa que me parece certa é que estamos sempre pendendo sobre um enorme abismo que nos devora dia-a-dia, comendo com fastio a essência criativa, a fagulha primeira, mas que é o responsável por nessa geração. É um Urano devorador de sonhos e gerador de monstros bípedes pensantes. Um senhor das chances que deu as condições para nos trazer até aqui apesar da improbabilidade da simples existência – da criação do universo até a chance de nossos pais se encontrarem, tudo é muito raro, único, uma loteria química altamente improvável – e apesar dessa mega-sena cósmica, estamos aqui desafiando as certezas e as firmezas do mundo.
Andamos numa corda-bamba de probabilidades entre o caos completo e o oblívio, entre a inércia e a explosão térmica. E nesse fio de existência criamos, construímos, vivemos, nomeamos, destruímos, esquecemos, amamos, desamamos, geramos, exterminamos, nascemos e morremos e crescemos como nossos pais e avós. Cada um de uma maneira única. Pessoal.
Somos improváveis, paradoxais, imprevisíveis, certos e inexoráveis.
Pois o que espero de 2009, é que ele seja mais humano que nunca, que seja paradoxal, improvável, imprevisível (apesar de certo e inexorável) e que me coloque cada vez mais balançando sobre o abismo que é a existência.
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December 25th, 2007 §
Pois é de seu direito, como ano bissexto, de tê-los – cada um com um nascer e pôr do sol – e que cada em cada dia seja respeitado o direito cósmico de se ter vinte e quatro horas e que cada hora tenha apenas sessenta minutos.
Já faz tempo que insistimos em ter mais horas que o dia nos dá, mais dias que as semanas comportam, mais semanas que os meses e mais meses que o ano. E cada hora dessas que insistimos em multiplicar diariamente tem de ser cada vez maior e mais extensa, transbordando os sessenta minutos que tradicionalmente lhe cabem. Sem falar nos “minutinhos” que insistem em se transformar em centenas de segundos a fio.
Então esse é o meu desejo para 2008: que saibamos respeitar os limites do tempo e saibamos viver cada minuto, cada segundo da melhor forma possível e não inventemos mais atividades para cada hora que nos tire o sossego e o bater compassado do coração.
Porque cada minuto que se vai, não volta.
Bom 2008 para todos nós com todos os trinta e um milhões e seiscentos e vinte e dois mil e quatrocentos segundos que nos cabem nessa revolução solar.
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February 23rd, 2007 §
publicado na Tribuna da Imprensa
“Mas eu não entendo o porquê de você ficar assim tão macambúzio, rapaz. Afinal de contas, é Carnaval!”
Bruno deixou escapar um sorriso amarelo e, dentre os dentes, respondeu que estava de ressaca da noite anterior. O Carnaval para ele era apenas mais um feriado quente no início do ano e que, eventualmente, coincidia com o Ano Novo chinês. Inclusive, era esse o caso.
De certa forma, podia-se dizer que ele estava enchendo a cara desde o ano passado. Achava um saco essa coisa de desfile de escolas de samba e só tinha simpatia pelos blocos que ficam só na “concentração”. Como eram poucos – e bons – o seu circuito carnavalístico era bem limitado.
Anderson já era o oposto. Só parava no boteco para recarregar as baterias e colocar em dia a lista de foliãs abatidas pelos amigos. Já estava se preparando para levantar e partir pro Bip-bip quando viu que Claudinho se aproximava.
Alan era um moderado. Não dispensava uma farra, mas não morria de amores pelas aglomerações que o Carnaval estimulava. Decerto, as fêmeas em fúria uterina e a cerveja farta eram atrativos que o mantinham na atividade, a despeito do calor senegalês que o Rio de Janeiro é submetido no fim do verão.
“Desce uma gelada, Juvenal. Qual é o babado, rapaziada? Bruno, que cara de cu é essa? Ainda com dor de corno?”
Dessa vez ele engoliu o sorriso amarelo para mostrar os dentes brancos bem desenhados. Custaram uma fortuna, dissera uma vez, mas derretem o coração de qualquer menina desavisada do canalha devorador de gente que morava atrás da arcada.
“Dessa vez, não. Chicão nos dará a honra da sua presença? Ou está enrolado com uma qualquer por aí?” “Provavelmente, cara. Aliás, decerto”. “E Claudinho, Alan? Ainda em lua-de-mel com Elisa? E os nerds dos infernos? Quais as novas da galera?” “Sem novas. Sim, Claudinho tá lá marcando o território. Gordo foi pra França, Burro tá trabalhando”. “Se ferrou o mané!”. “Pois é, Bruno. E o Grande tá em Petrópolis. Eu, dado o interesse manifesto de vossas senhorias, estou em guerra ampla, geral e irrestrita”.
Os três riram e brindaram aos amigos ausentes. Aos “vencidos” na batalha dos sexos, aos que partiram do exército dos solteiros e se alistaram na tropa dos casados, enrolados, amarrados e afins. Fizeram um brinde, mais tímido, aos que “trocaram de time” efetivamente, aumentando as chances de cada macho disponível e praticante do heterossexo de, de fato, fazê-lo.
Bruno, findas as libações, cerrou o cenho novamente e se fechou em copas. “Bruno, o que há?” Olhou para a cara de Alan. Olhou para o relógio. Lembrou das bebidas da noite passada e lembrou que a única ressaca que tinha, naquele momento, era a moral. Virara a madrugada entre as pernas de uma menina quinze anos mais nova e, apesar do troféu conquistado, sentia-se impuro. Como se tivesse cruzado uma linha amoral.
“Qual a idade da menina, afinal?” “Vinte e um, Anderson. Vinte e um aninhos.” “Já era mulher?” “Sim, e como.” “Então? Qual o problema?” “Eu nunca mais terei vinte e um. É esse o problema.”
Dito isso, olhou novamente para o relógio e viu que uma linda moça, de cabelos negros, olhos amendoados e verdes – sempre os verdes olhos – se aproximava. Se beijaram. Os colegas saudaram a chegada da beleza que a Quaresma anunciava.
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December 21st, 2006 §
E eis que chega a época do ano que comemos e bebemos indevidamente, gastamos o que não podemos e fazemos as pazes com quem nos quer ver pelas costas. Também é a época de avaliarmos o que foi feito no ano anterior e planejarmos o ano que se seguirá. Também é a época das promoções de lojas, de décimo-terceiro e de gente vestida de vermelho e saco grande nas ruas.
Também é época de missiva infame de Zander Catta Preta.
Dois anos atrás desejei que fôssemos pessoas melhores em 2005, que o mundo mudasse depois de nossas mudanças, que fôssemos exemplos do porvir.
Pois é.
Ano passado desejei que 2006 fosse diferente, um ano de mudanças. E que mudanças! De cidade, de emprego, de amores, de colegas. Larguei a zona de conforto por um exílio divertido na maior cidade do Brasil. Não posso dizer que não me arrependo, mas não digo que preferia ficar. Preferi apostar me jogar no desconhecido a repetir a roupa de ontem amanhã. Espero que cada um tenha vivido a sua cota de mudança, de desafio.
Em 2007 eu espero um grande, salgado e amargo, imenso e intenso NADA.
Pois nesse nada quero projetar os meus poucos sonhos que sobreviveram aos 35 anos de realidade implacável, aos 15 anos de vida adulta. Quero que ele seja uma lousa limpa, um caderno sem pautas, um computador reformatado, um bloco vazio, uma tela meio amarrotada.
Sei que cada um de nós tem em suas mãos as ferramentas para criar o seu futuro. Não nos falta coragem, bom senso, competência e talento para criarmos o mundo à nossa imagem ou nos imaginarmos o mundo. Mas o que falta, acho, é a oportunidade para lançarmos o nosso trabalho em terreno virgem.
E o que há de mais virgem que o nada absoluto?
Então façamos assim: zeremos o passado, as relações, as estruturas e responsabilidades. Guardemos-as todas em prateleiras, gavetas e arquivos e encaremos o futuro como a oportunidade definitiva. Se as leis te ofendiam no passado, escreva-as novamente e lance-se como legislador de tua nova nação. Se os teus amores te cerziam a boca e as vontades, reinvente sua forma de amar e beije de um jeito novo as pessoas da tua vida. Lance sua semente nesse terreno limpo, lavado e intocado.
Então ficamos combinados: muito nada para mim e você em 2007.
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January 15th, 2006 §
Catinha passou o Dia de Ano comigo. Aliás, comigo não, com a avó com quem tem uma xipofagia afetiva. Tem várias histórias dessas duas, mas é para outra hora. A história de hoje é que a Catinha estava toda cheia de si com o vestido branco novo, feito por encomenda à costureira da casa. Toda prosa, toda princesinha para ver os fogos de Ano Novo à praia de Copacabana.
Dando onze e meia, a mesma rotina anual: xinga-se os elevadores como culpados das pessoas quererem sair no mesmo horário, xinga-se a multidão como se não fosse ela o motivo pelo qual a festa ser cada vez mais bonita e grandiosa, xinga-se a chuva que ameaça e não cai.
“Tá vendo, Catinha? É bom xingar o céu que evita a chuva de cair.” Diz o pai orgulhoso de revelar uma verdade científica para a filha.
“Você é tão bobo, papai.” Responde a filha, desmontando o pai que, de fato, é bobo.
Atravessa-se o mar de pessoas semi-alcoolizadas, desvia-se de cacos de vidro, arruma-se um local à beira-mar para assistir com conforto aos fogos desse ano. Espera-se a contagem regressiva em uma contagem desordenada da população.
“Dez, nove, oito…” Abre, espumante, abre! “sete, seis…” Cacete! A merda da espumante não quer abrir! “cinco, quatro…” POP! DROGA! Estourou antes da hora! “Três, dois, UM!”
Ê!
Daí banho de espuma em todos da família, da bisavó que desvia atrás do tio mais alto, aos “agregados” do ano que começam a cumprimentar a todos em volta.
A avó coloca a neta nos ombros e para que ela veja melhor o show pirotécnico. Daí uns minutos de esporro coordenado e clarões no céu, noto que Catinha está soluçando. Chego perto e ela aos prantos. Desço ela dos ombros da avó preocupada, coloco-a no meu colo.
“Tá com medo dos fogos, minha flor?” Ela faz que não com a cabeça.
“Tá com saudades da mãe, lindinha?” Ela faz que sim.
“Quer que eu ligue para ela?” “Não precisa.”
Tentamos, não conseguimos. Óbvio. Linhas congestionadas na virada do ano é algo com que se pode contar. E com as contas. E com o ausência do arroz-doce na geladeira que a avó-bisa fez para você mas que todos (menos você) da casa comem.
Cruzamos a Avenida Atlântica com ela ainda em prantos. Passamos num camelô que vendia pingentes luminosos de borracha macia.
“Pai, quero um!”
Sabia! Brilhou, é de pendurar no pulso ou no pescoço e tem forma de bicho, Catinha quer. Tentei explicar para ela que tirar dinheiro no meio da rua, àquela hora, era perigoso, que ela ia usar o badulaque por dez minutos e iria jogar fora logo depois, que a teoria da oferta e procura indica que o preço praticado para a aquisição do tal objeto de utilidade discutível seria acima dos limites praticáveis por qualquer pessoa de classe média baixa, bem baixa.
“Pai. Eu quero.” Disse entre soluços e lágrimas.
Comprei. Passei atestado de bobo, burro e molenga mais uma vez. Não tem jeito.
Andamos com cuidado, desviando dos cacos e das poças de líquido não-identificado. Chegamos em casa, lavamos os pés. Esperamos o resto da família chegar, deixei Catinha com a avó e fui para a minha festa de Reveillon.
Dia seguinte, mesmo cansados da noite anterior, enterramos os ossos da ceia e ficamos jiboiando na sala. Eu, no computador, Catinha, avó e bisa em frente à TV. Aliás, ela, suas bonecas, o cavalo alado, as fantasias de rastafari e odalisca. Tudo ao mesmo tempo.
Chega a mãe e o padrasto que cumprimentam a todos. Ela vem de mansinho e me dá um abraço looooooooongo, sem que eu o pedisse. Eu mal viro para o lado – tava matando gente virtual, vocês sabem como é, né? – e ela se vai.
Acabei a fase do jogo. Cadê minha filhota? Foi-se e não vi mais. Iria viajar primeiro para a casa da avó materna, depois para a casa do pai do padrasto, depois para a Lua, Marte e Vênus e só quando estivesse na hora de me apresentar os tataranetos, voltaria para casa.
Três longos dias depois ela manda uma mensagem SMS para mim: “Pai. Te amo e estou com saudades.”
Chegou da farra no meio de janeiro, toda arranhada nas pernas e nos joelhos, mordida de mosquitos e formigas, bronzeada de roça e com um sorriso enorme, cheio de dentes.
Aliás, sorriso diferente. Não era dela, mas lhe caía muito bem.
Foi na médica fazer a revisão com a avó (recomendação da mãe). Médica diz que ela amadureceu muito nesses últimos meses. Não é mais um bebê grande, já é uma mocinha.
Quando chegam, a avó me conta e me dou conta que não sei se disse àquele bebê que eu a amava. Não sei se disse o suficiente. Provavelmente não. De certo que não.
E só fica a lembrança do abraço apertado que eu não soube encarar.
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December 18th, 2005 §
Amanhã é dezenove de dezembro e, se minhas contas não estão erradas, faltam apenas doze dias para a passagem do ano.
Para muitos, é momento de confraternização, de alegria, festa e farra, de viajar, estar com a família e com os amigos queridos. Para outros é a hora de renovar esperanças, energias, promessas não cumpridas, fazer novas promessas, planejar aquilo que será feito.
Dia trinta e um de dezembro é, de fato, apenas a véspera do dia primeiro de janeiro.
E só isso.
O calendário vira, adiciona-se um número ao ano e continua-se vivendo da mesma maneira que antes. As promessas são esquecidas no dia dez de fevereiro, as energias acabam na porta de saída do carnaval e o trabalho, os estudos, as procuras pessoais continuam prosseguindo da mesma forma.
Pouco muda.
Ano passado resolvi fazer apenas uma promessa. Ser uma pessoa melhor em todo e qualquer aspecto da minha vida, apenas uma pessoa melhor. Para cada passo dado, viraria para trás e diria “Putz! Que passo duca!” e obviamente não cumpri isso plenamente: fiz coisas das quais me arrependi e desarrependi logo depois; agi errado com uns e mais errado com outros; cresci muito em pouco tempo para me descobrir infantil, imaturo e imbecil logo em seguida; ganhei muito dinheiro para perder em bobagens que me duraravam apenas um sorriso de minutos.
Mas nunca, nunca mesmo, posso me referir a dois mil e cinco como um ano ruim.
Não ouso dizer que aprendi, pois o ser humano é notório pela capacidade inesgotável de cometer os mesmos erros sempre, mas afirmo que tenho mais histórias para contar em mesas de bar. Histórias patéticas, heróicas, eróticas, exóticas e mais.
E que conheci um pouco mais desse desconhecido que mora aqui dentro de mim.
Então desejo a todos que tudo que será planejado em 2006 seja invertido, deslocado. Que se apresente de novas maneiras, que te surpreenda a ponto de você olhar para cada ação sua e não se reconheça de imediato mas que realize que você se tornou mais humano em cada ação.
Pois o mundo está sedento de humanidade.
Bom 2006 a todos.
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December 31st, 2004 §
Esse tal de 2005, que tá chegando aí, será definitivamente melhor que 2004, esse outro que está a acabar. E isso não é uma esperança minha, ou um fruto de fé (essa crença ilógica na ocorrência do improvável), ou mesmo uma repetição de um desejo quase que cultural, atávico mesmo, de esperar que o ano novo traga mais amores, mais dinheiro, mais saúde, mais felicidade (essa coisa etéria, irrealizável).
2005, não acho: tenho certeza, trará mais amores (em quantidade, gênero, número e intensidade, à escolha do freguês), trará mais dinheiro (para pagarmos as contas, que não cessam), mais saúde (e doenças, conseqüentemente, para ficarmos mais e mais resistentes e resilentes) e algumas felicidades.
Ainda assim, isso não faria 2005 melhor que 2004.
O que fará 2005 melhor é o fato que teremos a vivência e a experiência de todo o 2004 para acertarmos e errarmos novamente, para olharmos para o passado e termos um ano inteiro para nos tornarmos pessoas melhores.
E eu sei que me tornarei uma pessoa melhor. Você não?
Bom 2005!
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December 28th, 2004 §
… e é isso aí.
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May 14th, 2002 §
Catarina era uma menina nos seus anos. Nem mais velha, nem mais moça. Ou melhor, às vezes era mais velha, ou mais moça. Ela costumava pulava os anos.
Tinha quatro ou seis anos, três ou cinco, um ou nove, cinco ou oito, ninguém nunca sabia ao certo. Todo ano era um ano novo, mas novo mesmo. Às vezes nem ano era, bastava ser um aniversário.
Não é que ela não soubesse contar, mas dessa forma era mais divertido e ela ficava maior ou menor quando pulava os seus anos para mais ou para menos. Velha, moça, criança, bebê, nem uma nem outra ou todas juntas ao mesmo tempo.
Brincava com os anos e com as horas também. Para ela, entrar no colégio era como sair; na hora de brincar, estudo; na hora de estudar, lanche e no lanche, papel e lápis, elástico e corda, bola e areia.
Tudo em volta de Catarina também a acompanhava nessa brincadeira esquisita. O pintinho que ganhou, virou ovo e depois galinha e, de repente, um dinossauro de penas que saiu voando pela janela.
Os colegas de amarelinha envelheciam a olhos vistos, casavam-se, tinham filhos e filhas e seus filhos tornavam-se pais e avós, continuando sempre crianças. Criança-adulto, criança-pai-e-mãe, criança-criança.
As horas do dia brincavam com ela, sempre doze por vez, ou vinte e quatro ou trinta e sei horas se lhes desse na telha do relógio de parede. Às vezes lá marcava seis da tarde, oito da noite ou três da manhã. De três em três horas, o remédio que tomava quando estava boa, e cuspia quando estava doente. Ninguém entendia bem, mas ela se jogava na vida assim, deixando tudo confuso e divertido ao mesmo tempo com os anos, as horas e as eras pulando à sua volta.
Mas teve um dia (manhã, tarde ou noite, sei lá!) que tudo ficou muito mais estranho. Ela ficou grande e pequena, velha e nova e seus amigos de tempos não mais a reconheciam.
Não era mais menina, criança. Mas não era adulta, nem moça-mulher.
Era isso tudo e nenhuma das coisas. Os anos já não pulavam em volta dela e ela não queria brincar mais com eles. Era já uma mocinha, adolescente, alguns diriam. Decidiu ser assim daqui por diante.
Só que os anos, as horas e os minutos, acostumados a ouvir a voz aguda da menina, não reconheceram a mulher-moça que estava a lhes falar.
Não a escutavam mais.
E o tempo passou a andar como anda para todos nós, tomando dela o que sempre foi seu. Só a memória de Catarina é que pulava os anos, de bebê a mulher, de filha a mãe.
Bem depois, seus netos brincariam com os dinossauros e as bisnetas, entre as estrelas.
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