Parábola

October 18th, 2009 § 0

Era uma vez um mercador que vivia entre as cidades impossíveis levando e trazendo o que não era seu para pessoas que pouco tinham a ver consigo. Ia de Calicute, a cidade dos deuses-elefantes, a Madripor, dos prédios de jade; de Bagdá, dos tapetes voadores, a Mu, a cidade afundada. Pasava por Atlântida, por Eldorado, Zion, Ur e Tiges e carregava suas montarias com âmbar, sílex, bronze, ferrro, linho, seda, mirra, ouro, prata, açúcar, pimenta, cravo, canela e arquivos de emipetrês de bandas dos anos 50.

TInha ciência das rotas pelas estrelas, conhecia os povos pelo seu olhar, as comindas pelas cores, os animais pelos grunhidos e cantares, as pedras preciosas por sua sombra e gosto. Era um homem do mundo, enfim.

Numa dessas viagens, após uma semana de caminhada no deserto, olhou o céu para conferir suas anotações e fazer o horóscopo do mês. Depositou a pena e o pergaminho do lado do saco de dormir e se deixou hipnotizar pela fogueira que morria lentamente. Entre as brasas, encontrou seu teto e entendeu que o seu lar era o caminho entre, o meio. Não possuía nada além de si mesmo, entretanto era amarrado por um destino de horizontes abertos e línguas diferentes, cheiro de cavalos, bois e camelos.

Era essa sua nação.

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Sobre Watchmen, o filme, e a violência do ser humano

April 7th, 2009 § 2

Hoje eu li um texto de um amigo que normalmente escreve umas boas piadas que me pegou na virada da esquina. Normalmente ele disserta sobre política, futebol e nerdices afins com uma verve de humor rara. Sarcasmo e ironia de primeiríssima qualidade saem daquelas páginas virtuais e tinta digital.

Mas o puto me manda um texto desconcertante. Uma narrativa inteligente, brincalhona, excepcional e única. O sinal definitivo que o cretino tem um talento inegável e se ele quiser – apenas se ele quiser – se tornará um dos maiores cronistas/contistas/escritores desse país.

É foda ver algo tão raro acontecer ali, na tua frente, na mesa do boteco. Sentir o cheiro da história acontecendo. É de uma violência incomensurável, como se fosse um tapa na cara que ecoasse por meses a vir.

Mas isso até agora não tem nada a ver com Watchmen, exceto o fato que esse mesmo calhorda não tinha lido os gibis até bem pouco tempo – e ele se dizia fã de HQs – mas foi ver o filme com afã de fã, de quem cresceu lendo Alan Moore e tendo sonhos lisérgicos a partir do mofo acumulado em páginas de quadrinhos da Editora Abril e um paralelo forçado que tento fazer.

Quando Watchmen foi anunciado, eu fiquei com os cabelos do pescoço (e até o rego, confesso) arrepiados de expectativa pela estréia. Era um dos meus ícones quadrinísticos migrando de mídia. Já tinha gostado de V de Vingança, mas o tom lírico-anarquista do gibi havia se perdido. Havia amado a versão do Homem de Ferro e gostado muito do novo Hulk (o último filme, o que se passa no Brasil) e achado que finalmente acertaram o tom nos dois Batmen.

Mas treino é treino e jogo é jogo, né? Watchmen e The Dark Knight Returns são quadrinhos-marco da arte seqüencial e, mesmo tendo outras obras que inovaram mais, tiveram melhores roteiros, melhores artes, venderam mais e etc., essas duas sintetizam tudo aquilo que os quadrinhos deixaram de ser nos anos 80 e passariam a ser nos anos seguintes (até voltarem a ser o que eram nos anos 70, mas isso é outro assunto, outro texto, outro blogue).

Quando um quadrinho (ou peça, ou romance, ou canção) migra de mídia e vira filme/série de televisão/desenho animado é esperado que haja concessões na história, no visual e no ritmo da coisa. No caso, comprimiu-se material suficiente para uma minissérie da HBO em quase três horas de filme e – na minha modesta opinião – tivemos um resultado espetacular.

Humor na hora certa (na mais ridícula possível), referências quadrinísticas mantidas e respeitadas, personagens reconhecíveis até na sombra e o grau de suspensão de realidade necessária para o tema. Mas isso não torna o filme genial ou brilhante. O Watchmen, the movie é apenas um puta filme de heróis que tentam salvar o mundo. As discussões, as viagens, os conflitos emocionais, as nuances suaves? Que fiquem no papel, onde funcionam bem melhor que na tela.

O paralelo? Ah! É quando uma pessoa sai da caixinha para fazer algo diferente corre seus riscos. Corre o risco de ser genial.

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as viagens

November 20th, 2007 § 1

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idas e vindas não fazem uma viagem.

memórias sim.

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I´m waiting for the day

September 27th, 2005 § 1

- pós beach boys

Eram três amigos: o Grande, o Gordo e o Burro. Grande era chamado assim porque brincava com todos sobre sua estatura. Era pequeno, bem pequeno. Todo miúdo mesmo. “Eu gosto de armas grandes porque meu pau é curto!” Dizia, ao escolher uma Zweihandder como arma preferida do seu personagem de RPG da semana ou uma M249 no CounterStrike. Fazia isso de brincadeira, é claro. Daquelas brincadeiras que só três amigos entenderiam. A maior parte do papo deles era essa troca de sacanagens sadias que os entretetinham por horas e horas a fio na mesa de bar.

Gordo era o mais calado e o mais sacana dos três. Seus comentários lacônicos eram devastadores. Quase monossilábico, se expressava melhor bebendo, comendo ou rasgando fichas de personagens de RPG. Homofóbico, direitista e anti-estético, era a lady do trio. De certo chorava em propaganda de sabonete com crianças e era o mais empolgado quando saiu da primeira sessão que assitiu do “Sociedade dos Poetas Mortos”. Escondeu lágrimas e soluços no “A Lista de Schindler”. Gordo era assim.

Burro era o falastrão. De prima, diziam que era um gênio. Trabalhava desde os doze anos com programação. Sabia falar de todo e qualquer assunto que pintava em qualquer grupo social. Dizia que não discutia, sofismava. Não debatia, praticava a maiêutica. Enciclopédico, citava duzentos autores sem se repetir. Normalmente ele inventava as citações e os autores na hora. Estranhos se impressionavam com a verborragia e recolhiam as suas armas no embate verbal. “Cara, não sabia que você já tinha usado um mac em 82.” “O mac foi inventado em 84. Eu menti.”

Burro vivia apaixonado. Não aprendia. Mas sempre estava ali, na guerra. Não perdia uma saída com as amigas baranguetes para ver se sobrava uma rapa. Um beijinho na boca de uma menina caída de bêbada que fosse. Mas sempre apaixonado por sua musa, Vênus. Cabelos negros, pele bem branca, olhos negros. Boca vermelha. Fazia merda sobre merda por conta disso, enchia os cornos, pagava paixão em público, cometia poesias. Até pro teatro entrou!

Gordo era um platônico. Apaixonado pela primeira namorada, ainda quando era mais magro, nunca a esquecera. As outras mulheres podiam sentar no seu colo que ele não reagia. Não se sabia se era por medo, timidez ou por inabilidade. Não interessava. Os outros tinham já o seu veredito. “Veado!” Diziam da boca para fora mas sabiam que, no íntimo, Gordo ainda sangrava aquele amor mal-acabado. E nunca iria passar a dor.

Pequero era mais safo com as meninas. Só cantava as lindas, maravilhosas, perfeitas e inatingíveis. Portanto o seu fracasso era mais coroado de méritos, ainda sendo derrotado em cada batalha do bom combate. Juntava-se com Gordo para sacanear Burro nas tentativas de ficar com as mais desarrumadas, desconjuntadas e disformes, mas sabia que Burro tava certo. Ao menos nisso. E sonhava com uma paixão verdadeira, um grande amor.

Cada um foi pro seu canto, ainda que se vissem com regularidade. Gordo foi morar em São Paulo, Burro se formou em Ciência da Computação e Grande virou arquiteto e engenheiro civil. Regularmente viajavam para Sama para zoar Gordo e beber todo o álcool possível daquela cidade.

O tempo foi passando e as viagens começaram a rarear. Gordo casara. “Paulista é muito esquisito mesmo, né Grande?” “Pela primeira vez na vida, concordo contigo.” Cada um foi traçando rumo, trabalhando, estudando, namorando (!) e, eventualmente, saindo para beber.

Nas raras viagens de Gordo de Sampa pro Rio, eles davam um jeito de se encontrar em um boteco novo, previamente aprovado pela seleção de cervejas, petiscos e freqüência feminina, ou apelavam para o bom e velho Sindicato do Chope, na Farme de Amoedo.

“Putaquepariu, caralho. Vocês só vão em bar de veado!” “Porra, o chope lá é bom, e tem história.” “O chope de lá é uma merda, a serpentina tem menos de quinze metros, que é o mínimo aceitável para o líquido sair a quatro graus centígrados que dá tempo para chegar na mesa a dez. Temperatura perfeita para o consumo.” “Ah! Não fode, Burro!” “Burro tá certo. O chope de lá é ruim e só tem veado. Vamos no Bar do Beto.” “Baixo Gávea, então.” “Chope ruim.” “É chope ruim.” “Com gosto de ferrugem.”

Acabavam indo para o Hipódromo mesmo.

Já fazia uns bons ano e meio que não se encontravam. Muito trabalho e email trocado era só de putaria mesmo. RPG não rolava mais. Nem com Burro insistindo para jogar “a nova versão do World of Darkness” ou “no relançamento do do Dungeons and Dragons”. Burro criara um blog pros três, mas pouco postavam por conta de trabalho de cada um mesmo.

Numa tarde, Gordo liga pro Grande: “Tô chegando hoje. Avisa ao viado do Burro que estou na área.” “E a esposa?” “Ex-!” “É ex-posa? HAAHAHAH Tomou pé no cú, cara?” “…” “Er… bom. Te espero no aeroporto. Me liga quando chegar. Tô trabalhando do lado do Santos Dummont.”

Chegou. Foi pego e fez hora no escritório. Gordo tinha um semblante mais fechado, mais triste que de costume. Falou palavra desde que se alojou na frente de um computador que estava vazio. Grande ligou para Burro que confirmou a reserva no Devassa da Barra. “Mas tem de chegar antes das nove senão perdemos o lugar. A serpentina lá tem vinte e cinco metros e a cerveja stout…” “Tá! Tá! Sete e meia passo aí. Gordo se separou. Tá aqui, macambúzio e sorumbático.” “Pô. Não é melhor marcar na Centaurus?” “Porra Burro!” “Sei lá. Vai que ele quer levar seis pra cabine e ficar vendo as meninas correrem peladas dentro do quarto.” “Vamos beber antes. Depois vemos o que rola.”

Chegaram às oito e meia. Mesa boa, dava para ver todo o salão. “Desce três negras. Vocês vão ver! Parece uma Guiness: cermosa, consistente. Uma delícia! Garçom, não deixa o copo secar! Principalmente do meu amigo aqui, esse mais fortinho! Fala alguma coisa, Gordo! Olha lá aquela morena. Ela deve entender do traçado!” “Cala a boca Burro! Porra, não tá vendo que o cara tá maus. Fala Gordo. Como foi a história?” Os dois se calaram e olharam pro Gordo que não tirava a cara inexpressível de quem joga pôquer com a vida. Secou o primeiro chope numa virada. Abriu o menu. Apontou pro garçom uma cachaça. “Traz uma garrafa.” Garçom trouxe e Gordo começou o trabalho.

Fim de noite, Gordo bêbado, Burro bêbado e Grande puto da vida porque tinha de levar os dois para casa.

Eles saindo do Devassa, já quase entrando no carro, param para Gordo vomitar. Burro toma um ar e vê, dentro do bar, dois rostos conhecidos. “Caralho, Grande!” “Eu vi. Vambora.” “Não. É ela!” “Vambora. Isso não vai te fazer bem. Eu tenho um mau pressentimento.” “Tenho de ir lá! Gordo! É ela!” Gordo levanta-se, limpa a baba e recupera-se de pronto. “Luna!” “Putaquepariu. Isso vai dar merda! Pronto. Já deu.”

Grande ficou olhando Gordo e Burro cambalearem para dentro do bar e sentarem-se na mesa das duas. Luna e Vênus. As duas interromperam o beijo e, meio assustadas e meio divertidas olharam as figuras patéticas se acomodarem. Burro, tentando ser galante apesar do álcool e da história; Gordo, apenas mantendo o cenho cerrado, como se criasse uma barragem entre si e ela.

Grande ficou do lado de fora, procurando o telefone no amigo delegado, já prevendo alguma confusão com os seguranças. Espantado, viu as duas se levantarem rindo e os dois pedirem algo ao garçom. Elas saíram do bar e foram até ele. Vênus deu-lhe um beijo na boca. Luna sussurrou-lhe: “Quem teme, não goza.”

Ambas pegaram um taxi que se fundiu à noite.

Grande sentou-se à mesa e juntou-se às libações.

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De prêmios Nobel e sonhos em azul

March 6th, 2005 § 2

para Andrea Capella

Numa noite de insônia, como tantas outras, ele resolveu dar uma volta na praia. Não morava muito longe, uma quadra e meia da praia que, mesmo às 4h da manhã, estava bem freqüentada pela população marginal de uma cidade turística. E, entre putas, pivetes, traficantes, pedintes, população de rua, turistas em busca de sexo barato e bêbados, ele teve uma idéia genial. Aquilo que iria mudar o mundo.

Seriam Vinte Histórias Universais. Daquelas que todos escutam e repetem, verdadeiros Memes Literários, como Branca de Neve, Sete Samurais e O Herói Que Sai De Casa E Volta Maior Que O Mundo.

Apesar disso já ter sido feito várias e várias vezes, o grande diferencial seria a magnitude da obra. Em cada país, ele escolheria um escritor famoso e um ilustrador cujos estilos combinassem e ambos recriariam a história. Então não seriam vinte histórias mas trezentas versões de cada história, recontadas de forma original e ilustradas de maneiras nunca dantes vistas. Haveria espaço para o pesquisador, para o neo-beatnik, para o gótico, para o neo-urbanista, enfim, cada um uma meta-obra em si.

Mas isso não era bastante. Em cada país ele encontraria parceiros que, junto com a Unicef, ajudariam a bancar a produção dos livros que seriam vendidos a uma unidade monetária de cada país, a título de ajuda de custo. As tiragens seriam sempre na casa dos milhões e, em pouco tempo, seria o maior projeto literário do mundo inteiro, desde Gutemberg. Depois, edições encadernadas em aço, uma para cada país participante, guardariam um exemplar de cada obra em cada idoma, preservando a arte e as histórias por si só, seriam distribuidas, juntando-se aos tesouros nacionais. Vinte histórias contadas por todos os povos de várias maneiras possíveis, seria uma obra digna de lembrança por gerações a fio.

Depois viriam os louros, a primeira obra global haveria de ser um sucesso, de certo! quem não gosta de Branca de Neve, dos Irmãos Grimm? Seriam 150 línguas diferentes, já que era um embrião de projeto. Alguns países não botariam fé mas, até no Irã seria publicado. E lá iria ele, receber prêmios e mais prêmios até passar mais tempo nos aviões e aeroportos que em casa, trabalhando.

Mas haveria uma equipe que selecionaria os textos e as artes, espalhada por todo o mundo. E ele coordenaria os prazos de produção e de entrega e os faturamentos. Mas isso não era o que ele quereria para si então ele delegaria a parte burocrática para a própria ONU e seria um embaixador dos contos e rodaria o mundo (185 países) na segunda edição, O Rouxinol do Imperador.

Alguém lhe alertaria que não haveriam tantas histórias assim, então ele pediriria de antemão uma pesquisa sobre as histórias infantis mais difundidas no mundo e ele descobriria que não eram vinte, mas cem, na sexta edição, A Morte de Arthur. Ainda assim, preferiria ficar nas vinte iniciais e desistiria de rodar o mundo todo, apenas indo nos países que recém ingressariam no projeto. Entraria em países em zonas de conflito, mas teria a certeza que estava caminhando com passos que não eram seus, mas da humanidade encarnada, sonhando a vida de alguém.

Nessas viagens, se esqueceria das pessoas que estiveram com ele durante toda a sua vida, da família e da filha que lhe inspirara esse projeto global e, dessa saudade de se lembrar dos que amava, ele sentaria numa cadeira de um aeroporto, viraria para a criança que estaria sentada a seu lado e contaria a única história que ele queria todos conhecessem.

Havia um cavalo azul que pastava nos sonhos das crianças e, quando uma acordava, ele corria e pulava para o sonho de outra para pastar mais sonhos de sorvetes, pés sujos no chão, sorrisos desgovernados, dentes moles e camisas meladas de chocolate.

Mas ele descobriria que estava apenas tentando contar os seus sonhos. E eles não interessavam às crianças que agora leiriam e veriam as maiores histórias da humanidade. Afinal de contas, o que era ele, senão instrumento. Títere de uma força maior que é o legado da humanidade naquilo que ela tem de melhor.

Daí, da praia, ele resolveu comer um cachorro quente, tomar uma coca-cola e voltou para casa, tinha de acordar cedo no dia seguinte e muito trabalho a fazer daí por diante.

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