da felicidade

January 24th, 2009 § 9

Eu tenho uma confissão a fazer: nunca estive tão feliz na minha vida. E não é essa felicidade de paixão ou de time que ganha o campeonato.

Até porque, no primeiro quesito, a paixão foi substituída por um amor mais sereno e perene e, no segundo, o meu time foi rebaixado para a segunda divisão.

É que, graças a uma amiga, eu entendi que olhava a vida com os olhos de quem não espera a morte, de quem acha que a vida vai se estender para sempre. Eu, que sempe combati ideologicamente a eternidade, me comportando como quem crê no eterno.

Resolvi admitir para mim o fim das coisas, que a dor faz parte dos processos de tudo que é bom (e o alívio do que não prestava). Resolvi assimir a postura de quem é passageiro e quem quer deixar pegadas discretas na história.

Hoje, quero apenas as dores vindouras, as tristezas futuras, que o momento é de felicidade.

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Sobre a arte de suar e arranhar as paredes

August 30th, 2008 § 9

Eles foram amantes há tempos.

Percebia-se pela forma que se tocaram e pelo olhar que traia a brasa – fantasma de uma chama – que insistia em habitar a memória dos dois. Há anos não se viam, mas o toque era o mínimo efeito necessário para desencadear a virada da história.

Mesmo sem perceber, diziam a todos que já haviam rolado desnudos por noites a fio e fizeram festa e dança nos quartos que testemunharam a santa loucura que se apossa dos corpos entesados. Que já haviam berrado, xingado e se agredido em êxtase por não entender completamente o que se passava com eles.

Quando o amor é tamanho, a mente se nega aos fatos e cria fantasias para poder suportar os calores e os resfriares da alma. E assim acontece porque, para ambos, é como se tudo o que fosse, deixasse de sê-lo apenas porque podem assim fazê-lo. São onipotentes, esses devassos apaixonados! Agem como se o universo ali dobrasse na singularidade de dois corpos em fúria de cópula incessante. E isso fosse o suficiente para a eternidade.

Os amantes criam fossas abissais para o restante do mundo, já que esse é incapaz de compreender o isolamento que se faz necessário para o frutificar dessa paixão tarada e explícita, que se crie barreiras intransponíveis entre os enlaçados e os demais infelizes que jamais – Nunca! Nunca! Nunca! – atingirão aquele êxtase que só os dois são capazes de parir e manter. O prazer é início, meio e fim dos amantes.

O resto é desculpa.

E há o gozo, que parece ser impossível de ser replicado quando socializado. O gozo é algo solitário, mesmo a dois. E a busca do gozo faz aumentar as barreiras, as profundezas e o isolamento. E a busca do gozo faz com que o universo perca toda a lógica. O que importa é apenas a busca e a busca. Sempre só. Sempre só. Sempre sozinha. Mesmo a dois.

E quando os amantes encontram-se em gozo pleno, descobrem-se isolados de tudo, até mesmo de si. As barreiras passam a falar, a gritar em acordes quebradiços uma angústia sem fim. E só o fim é que promete uma falsa paz. Como a próxima dose de heroína acalma e derruba, o fim corta o canal de dor.

Eles foram amantes há tempos e viveram a loucura do gozo sem fim. Temiam que essa fúria retomasse o curso de suas vidas e lhes colocasse antolhos e os transformasse em bestas que ululam entre lençóis e arranham a mobília, os azulejos, as paredes, os tetos e o óbvio chão. Receavam que tivessem de se distanciar dos amigos, da família e de tudo o mais que lhes dava alento quando os vícios se tornavam impossíveis de serem carregados.

Receavam, acima de tudo, arremessar a vida e a televisão pela janela. Defenestrar a vida como sempre fora ensinada nos romances de sete reais e na novela das oito. Borravam-se de se desconstruir ou de se expor sem pele – perdida no atrito horário dos corpos – e de ficarem assados de tanto querer se atracar.

Contra tudo, tocaram-se. Apesar de tudo, tocaram-se. Por causa de tudo, tocaram-se.

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Na paulista…

June 1st, 2008 § 2

publicado na Tribuna da Imprensa

…costumava ser uma expressão usada na faculdade para o ato de passar a brenfa, marofa, canha, baseado, doizinho, pega, a maconha – enfim – com velocidade que, a priori, não deveria ser própria de quem está consumindo um entorpecente relaxador. Ou seja, o cara pega, puxa, traga, e passa sem ter tempo de contemplar o ato, de curtir o momento, e só espera que a onda bata logo. Obviamente pegar a bagana, a vela, a maria-joana, o fumo, o cigarro e ficar contemplando o mundo enquanto ficava olhando a parada queimar lentamente para o nada era chamado de “na carioca”.

Hoje fico pensando se não existe algo mais nessa comparação que a falsa calma do carioca e da pressa inequívoca do paulistano.

Antes que me processem por apologia ao narcotráfico, aviso: nunca fui adepto do uso da cannabis sativa – jamais consegui dar mais que dois tapas e não desmaiar em seqüência – mas curtia ficar com o pessoal na vila dos diretórios acadêmicos da PUC-RJ, na chamada esquina da esquadrilha da fumaça, a quina formada pelas casinhas do povo de desenho industrial, de filosofia e geografia e era completada pela casa do CA de Direito que, diga-se de passagem, o único que tentava fazer algo que lembrava remotamente um movimento estudantil naquela época pós-caras pintadas, pós-reabertura política, pós-ideologias, pós-juventude.

Gostava porque a maioria ouvia o bom e velho rock’n’roll – apesar de um reggae ocasional me torturar a paciência – e todos gostavam de quadrinhos e de alguma literatura. Além disso era o pit-stop obrigatório no caminho do boteco. Esse sim, fornecedor do meu elemento de entorpecimento favorito.

Desculpem se tergiverso um bocado, mas é que me lembrei disso hoje ao andar na Avenida Paulista.

Chovia de um jeito que é cada vez mais raro em São Paulo – chuva fina, tempo frio, vento cortante – e eu ia da Consolação ao Paraíso. Da rua Augusta à rua Brigadeiro Luiz Antônio. Na calçada, a fauna de costume: casais gays na altura do Conjunto Nacional – e da Frei Caneca – jovens executivos entre a Freica e o Trianon, alguns rapazes perdidos no parque, estudantes nos botecos até a Joaquim Eugênio de Lima, mais jovens executivos que foram estudantes há pouco nos mesmos botecos com mesas e cadeiras em plena calçada, hippies/mendigos na altura daquela casa branca que estava abandonada e que fora um MacDonalds até um tempo atrás.

No passar da turba, uma cena insólita. Como sou muito míope, as imagens me vêem aos poucos, sendo construídas no meio da minha falta de foco. Primeiro, um engravatado carregando algo pesado. Depois, consegui ver o portador de terno completo e gravata com mais nitidez. Ele carregava um monitor velho de computador, daqueles de tubo, de umas quinze polegadas, com algum esforço, mas andava com energia e determinação. Mais uns cinco metros consegui ver a face. Barba por fazer, cabelos desgrenhados e loiros, olhar injetado de fúria e os braços de terno sem camisa.

Passou por mim como se não existisse chuva ou destino. Na paulista.

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trânsito astrológico: Momento de recolhimento afetivo

January 22nd, 2008 § 2

22/01 (hoje) às 20h a 16/02 às 4h
Vênus na casa 12

Entre os dias 22/01 (hoje) às 20h e 16/02 às 4h, o planeta Vênus estará fechando um ciclo, ao passar pela décima-segunda casa do seu mapa de nascimento, Zander. Esta é uma fase de introspecção afetiva, de reflexão de como têm sido os seus relacionamentos. O período envolve a idéia de acalmar a sede de amor, dando um tempo em relação às buscas externas, voltando-se mais para dentro da própria alma. Para quem já está envolvido num relacionamento, esta fase pode significar um momento de discórdias e conflitos… Como evitá-los? É relativamente simples, Zander: basta observar – e respeitar – que todas as pessoas precisam de um espaço próprio por algum tempo, e que mesmo a melhor das relações necessita de um tempo.

Para quem está solteiro, o momento envolve a consciência de que ao invés de buscar o amor fora de si, é chegada a hora de verter este amor para a própria alma: cuidar de si, dar mais atenção às próprias questões, fazer alguma forma de terapia. Em suma, cuidar das próprias feridas, pois sempre existe uma!

Em alguns casos, verifica-se uma tendência altruísta mais forte neste momento, e é bem provável que você venha a sentir uma maior necessidade de ajudar pessoas ou grupos que precisam de auxílio. É um bom momento para pensar em ser voluntário – ainda que temporariamente – em alguma coisa, Zander. Este é o momento da percepção de que existe uma parte de nós que não verte amor para apenas uma pessoa, mas que sente a necessidade profunda de favorecer até mesmo os desconhecidos: aquilo que se chama de “amor incondicional”.

do Personare

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Paula

May 9th, 2007 § 2

publicado na Tribuna da Imprensa

publicado em Não… Não para!

Ela tinha o péssimo hábito de me desnudar com as palavras. Não havia parte de mim que ela não conhecesse ainda que mal passasse os dias em casa. Chegava, despejava o vinho no copo – sequer tinha a finesse de pedir para que eu a servisse – que pegava dentre os menos sujos da pia, os que estivessem sem resíduo de cerveja, refrigerante ou batom, e sentava-se ao meu lado estendendo as pernas em cima das minhas.

Eu já me habituara com a convivência despojada de Paula e não me assustava mais quando, dentre aquele desconcerto ambulante, ela sacava um naco de minha alma dentre os dentes.

“Você é um covarde, cara. Diz que pode ganhar o mundo e se contenta apenas com a tevê e esse sexo fácil com incautas que conhece pela vida morna que leva. Quero ver o dia que encontrar uma mulher de verdade. Aí sim você vai tremer nas bases e vai engatinhar implorando o cheiro da calcinha dela.”

Eu olhava com desdém fingido. Já conhecia o número e tinha a minha máscara pronta para isso. Obviamente, em nada ajudava em diminuir a dor que a exposição abrupta causava em mim. Normalmente eu me levantava, pegava um filme ou livro ou um cobertor e assistíamos à tevê. Depois, ela se cansava e partia da mesma forma que entrava. Tinha a chave que eu dera para ela e sabia que a porta sempre lhe estava aberta.

Eu gostava do seu jeito desafiador. Ela me ouriçava de uma forma diferente, mais como uma competidora que uma amante. Queria ver como ela era na cama, mas sabia que daria em nada.

Porém, certas feita, exagerando no vinho de quinta que habitava minha geladeira, deixou aberta a porta frágil das frustrações e eu, canalha de escola centenária, me aproveitei. Disse que os homens de sua vida eram pálidos – apesar de belos, talentosos e ricos – e que eu lhe daria uma lição. Não hoje, pois não gosto da fêmea entorpecida. Gosto da minha mulher consciente do tipo de homem que a penetra. Disse-lhe que ela iria me procurar um dia e eu a colocaria aberta e eu iria mostrar o que a língua de um sátiro era capaz de fazer com as suas dobras, nervos, mucos e lábios. Iria lhe mostrar o que um homem sedento pelo sangue imaturo e faminto por carne jovem é capaz quando a oportunidade se apresenta. Que ela iria viver o prazer gerado de um corpo cansado, malhado pelo tempo, com a energia de uma pilha lenta, que aquece, ilumina e faísca por horas do jeito certo e da maneira exata. Sem explosões ou fúrias. Apenas a calma de quem já fez aquilo centenas e centenas de vezes antes.

Que iria surpreendê-la com posições velhas, com variações nulas e, dentro da repetição, ela iria gozar não uma ou duas vezes, mas uma dezena ao menos e quando suas pernas estiverem bambas de tanto ver tremer e bolinar o que é de atrito, eu a penetraria na meia potência típica dos quarentões sem química para anabolizá-los. E que quando eu estivesse entrando, ela sentiria o que é ser uma mulher em sua totalidade.

Sem glamour. Sem ilusões. Sem mentiras. Apenas o homem no fim das suas forças e a mulher no limite do desejo. E quando eu gozasse, ela veria o resultado do esforço que é fazer uma mulher feliz.

Ela abriu um sorriso e as pernas para mim. Perguntou:

“Hoje?”

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Metade – Oswaldo Montenegro

March 2nd, 2007 § 7

Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
pois metade de mim é o que eu grito
mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
porque metade de mim é partida
mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que falo
não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimento
porque metade de mim é o que ouço
mas a outra metade é o que calo

Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz que eu mereço
que essa tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
e a outra metade um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
que me lembro ter dado na infância
porque metade de mim é a lembrança do que fui
e a outra metade não sei

Que não seja preciso mais que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o teu silêncio me fale cada vez mais
porque metade de mim é abrigo
mas a outra metade é cansaço

Que a arte nos aponte uma resposta
mesmo que ela não saiba
e que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
porque metade de mim é platéia
e a outra metade é a canção

E que a minha loucura seja perdoada
porque metade de mim é amor
e a outra metade também.

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Alan e Cláudio

November 24th, 2006 § 1

publicado em LIVinRooom

Dessa vez Alan decidiu que não iria sair. Já estava cansado da farra ininterrupta dos últimos quinze dias e precisava de um pouco de descanso. Mas a necessidade de ver gente ainda não acalmava dentro de si: ele era um monstro social, afinal das contas. Decidiu chamar a turma para assistir a uns filmes em casa mesmo. Tinha cerveja, refrigerantes, salgadinhos, uma tevê de quarenta e duas polegadas, vários devedês e sofás super aconchegantes na sala.

Ligou para uma galera que refugou frente ao convite. A noite tava quente demais para ficarem trancados vendo filmes antigos ou tomando cerveja com amigo cueca. Tava quase desistindo do programa quando ligou para Claudinho que topou de prima. Ele andava meio borocoxô fazia uma semana e precisava sair da gosma da pasmaceira casa-trabalho-casa. Sabia que Alan era um bom anfitrião. Nunca enchia o saco com perguntas desnecessárias tampouco ficava xeretando na vida alheia. Além disso tinha um ótimo gosto para música e cinema. Só era amigo de uns três babacas que ele não topava de jeito algum.

Outro que deu uma meia-confirmada foi o Burro. Disse que iria, mas Alan sabia que Grande estava marcando uma despedida do Brasil no bas fond da Prado Júnior. Então, se um dos putos viesse, seria por pouco tempo. Ou ainda, viriam os três e colocariam a casa abaixo. O que era um bom programa no fim das contas. Pena que Cláudio não topava com os três. Fazer o quê? O cara tinha a Elisa na mão desde que ela deixou de ser uma ninfeta promissora e passou a ser uma fêmea furiosa. Uns têm sorte. Outros ficam na rebarba.

Cláudio chegou na hora marcada. Trouxe doze cervejas já geladas e começamos logo os serviços de consumo de líquidos. Primeiro filme selecionado da lista de DiVx do computador foi LEXXX, uma ficção científica obscura do Canadá. Ambos se amarravam nessas produções trash e ficavam bebendo e zoando os filmes. Faziam isso desde a adolescência. Tava no finalzinho da fita quando Alan atendeu o telefone.

“Olá lindona! Finalmente deu sinal de vida, né?” “…” “Pois é… estamos vendo uns filmes trash aqui e esperando o resto do povo chegar. Se chegar.” “…” “É… tô só eu e Cláudio aqui de bigode esperando…” “Sei. Você tem certeza disso? Talvez os putos cheguem depois da farra na Prado Júnior.” “…” “Não deram certeza de nada. Não mesmo.” “…” “Então tá. Te espero aqui. Traga amigas. E camisinhas.” “…” “Ha ha ha ha! Também te adoro. Beijo.”

Cláudio olhou pro Alan e não precisou perguntar nada.

“É cara. Ela não vem contigo aqui.” “Eu imaginei isso. Achava que ela já tinha passado por cima de tudo.” “Cara, sei que não é da minha conta e você pode…” “Já sei o que você vai perguntar.” “Então.”

Cláudio levantou-se, mexeu no controle do Xbox hackeado que tinha os quatro filmes da série canadense, escolheu um disco cheio de emipetrês e colocou para tocar. Abriu uma cerveja nova. Sentou-se no sofá e fez cara de quem tinha uma longa história para contar.

“Os caras vêm?” “Acho que sim. Grande não tava a fim de ficar na putaria. Embarca amanhã cedo para Sampa e de lá para Buenos Aires. Fica seis meses, se não me engano. Os ourtos é que podem virar a noite lá mesmo.” “Tu tá a fim de encontrar os caras?” “Não mesmo. Gosto de todos, mas preciso de tempo. É muita nerdice concentrada no mesmo lugar.” “Tu sabe porque eu não gosto deles, né?” “Sei que você não gosta do Gordo. Dos outros, tem antipatia por proximidade.” “Isso.” “E isso tem a ver com a Elisa, né?” “Claro.”

Alan foi até a cozinha, pegou uns pedaços de queijo, pão, facas e uma tábua. Trouxe para a sala para comerem algo. A cerveja tava acabando e ele fez sinal que iria trazer mais se acabasse aquela.

“Não vou encher os cornos hoje, cara. Não tô no clima para andar bêbado por Copacabana afora. Vou acabar num puteiro ou brigando desnecessariamente com alguém.” Comeram os pães, o queijo, mataram mais doze cervejas e criticaram filmes de ficção científica canadenses, filmes de fantasia japoneses, a estética de quadrinhos belgas e as coreografias exageradas do Pacto com Lobos. Listaram as próximas aquisições de devedês, cedês e livros nos próximos meses. Falaram dos trabalhos que estão fazendo em seus respectivos escritórios, comentaram da extinção dos cinemas de rua e da segurança e qualidade das salas em shopping centers.

Deu três e meia da manhã e o telefone de Alan tocou novamente. Era o Burro. Mal se entendia o que ele falava, mas parecia que estavam arrastando umas cinco mulheres de profissão para a casa do Alan e precisavam do aval dele para a realização de evento pouco ortodoxo. Alan riu e mandou-o tomar devidamente no cu. Burro riu do outro lado e disse que ia dispensar as meretrizes, mas iria para lá da mesma forma e que Gordo já tinha soçobrado ante os espíritos do álcool e Grande tinha partido para casa horas antes.

Cláudio se levantou no meio da conversa e foi ao banheiro. Na volta, Alan já tinha desligado o telefone.

“Você ainda quer saber da história?” “Na verdade, não. Nunca foi da minha conta. Mas você é meu chapa. Queria ajudar de alguma forma.” “Então faz uma coisa para mim. Fala com aquela mulher que ela é a mãe dos meus filhos. Eu agora tenho certeza disso.”

Se despediram e Alan começou a arrumar a pequena bagunça quando o interfone tocou novamente. Era Elisa.

“Ele já foi, menina. Você chegou tarde.” “O que ele disse?” Ela estava soluçando. Ele tentou convencê-la a subir, mas nada a demovia do intento de continuar no seu posto. “Ele repetiu aquilo que você me disse, menina. Esse cara te ama.”

Elisa despediu-se e fez sinal para um táxi que acabara de despejar cinco mulheres e um nerd na portaria do Alan.

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Porto Solidão – Jessé

February 19th, 2006 § 3

Composição: Zeca Bahia e Gincko

Se um veleiro repousasse na palma da minha mão
Sopraria com sentimento e deixaria seguir sempre
Rumo ao meu coração, meu coração
A calma de um mar que guarda pra amanhã os segredos
De versos naufragados e sem tempo

Rimas, de ventos e velas vida que vem e que vai
A solidão que fica e entra
Me arremessando contra o cais

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Sobre diferenças e semelhanças

January 22nd, 2006 § 2

publicado na Tribuna da Imprensa

O fôlego fora suficiente apenas para cruzar a portaria, pegar o elevador e entrar em casa. Abriu a porta de sopetão e desmanchou-se ali mesmo. Era só soluços e lágrimas ácidas. Levou poucos minutos para recuperar o controle sobre si mesma e menos para desmontar-se. Entrou no banho e deixou que a ducha quente lavasse a alma e as dores. Viu a espuma descer em redemoinhos no ralo. Pensava na vida e na morte da bezerra.

Não entendia como entrava sempre nesses mesmos rolos. Conhecia o cara, saía com ele, amavam-se alucinadamente como se não houvesse um amanhã e depois de um café da manhã no Garcia e Rodrigues (com sorte): beijo, tchau e nunca mais. Não que achasse ruim. Na maioria dos casos os sapos continuavam uns batráquios inexpressivos, não importando o quão ou como os beijasse. Ou onde.

Mas o que lhe incomodava mesmo eram os carinhas que aparentemente pareciam que iriam lhe ligar no dia seguinte, aqueles que esperava ter um algo mais, nem que fosse uma segunda vez. Ou uma terceira, quarta. Sabe-se lá.

Pior que esses: os que realmente ligavam! Ligavam, marcavam, saíam e eram melhores que antes, se superando a cada noite. Sempre uma surpresa, uma novidade: um restaurante da moda, um presente bem escolhido, um show especial e pimba! Cama e espetáculos pirotécnicos nos motéis da vida. Ou nos apartamentos cinematográficos. Ou nas casas discretas no Alto da Boa Vista ou na Urca. Mas tinha dentre essa turma toda, tinha um tipinho que era hors concours na canalhice e na perfídia: os que se apaixonavam por ela.

Ele era perfeito: bonito à medida exata, inteligente o suficiente para saber que não deveria ofuscá-la, elegante, sabia onde levá-la, tinha os programas corretos, conhecia as pessoas nos locais exatos, bem-resolvido financeiramente, disponível para os seus caprichos e um atleta sexual.

Então porque ela sentiu-se agoniada quando ele a deixou em casa? Não conseguia achar razão e só manteve o fôlego por questões de compostura e câmeras indiscretas nas áreas públicas.

Mais calma, quebrou alguns pratos e copos enquanto esquentava a comida. Xingou os cachorros que pouco tinham a acrescentar ao diálogo interno que ela travava. Sentou-se à sala, entre as almofadas e colocou um devedê aleatório no tocador. Rá! Manhattan de novo! PUTA QUE PARIU!

Encostou. Assistiu. Pegou o telefone.

“Não vai dar certo.” “Mas, qual o porquê?” “Não tem atrito.” “Hã?” Antes que se debulhasse novamente, desligou.

Apagou o número dele da agenda do celular.

Antes, porém: “Hmmmm… Ângelo. Acho que vou ligar para esse escroque!”

E assim achou o caminho para a sua felicidade.

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Estado de Sítio

November 25th, 2005 § 1

Sempre tiveram um plano de contingência. No caso de alguma tropa ameaçar invadir o Rio de Janeiro, ocupariam o apartamento da Tonelero com Reública do Peru até tudo se acalmar e voltar à normalidade. O apartamento era discreto e ocupava um ponto estratégico em plena Copacabana. Era razoavelmente longe das favelas e das ruas mais movimentadas, apesar da entrada ser na própria Tonelero. A janela da sala tinha uma vista que permitia ver a “urbe” desde o Meridien até o Othon Palace. Do terraço do prédio era possível perceber a aproximação de tropas, caso chegassem, da praia ou mesmo pelo Morro de São João. Para relaxar nas noites quentes, dava para curtir o céu estrelado e a visão da praia quebrando eternamente.

Obviamente a localização fora estudada meses a fio antes dos conflitos se tornarem irreversíveis.

Ela tinha um dom para perceber quando havia uma tensão no ar, mesmo no nível internacional. Se houvesse uma loteria para guerras, ela já estaria milionária. Portanto, antes mesmo das forças invasoras se organizarem, ela já tinha tudo planejado. Tinha montado um estoque de arroz, carne seca, macarrão, sal, leite em pó, livros, CDs, DVDs e açúcar que lhes renderia três meses de sobrevivência. Justamente na hora em que os primeiros invasores declaram sua intenção de tomar o Sudeste Brasileiro.

Apesar das diferenças óbvias, eles funcionavam bem como dupla: ela, excelente em estratégia e análise de informações; ele, mestre de táticas e de sobrevivência em ambientes difíceis; ela, treinada pela inteligência da subversão das faculdades de ciências sociais; ele, o melhor que o CPOR e o IME poderia dar a um rapaz saudável e inteligente. Fossem outros os tempos, se odiariam. Nessa era de exceção, tornaram-se amigos, colaboradores, simpatizantes, amantes e uma unidade de combate imbatível em área urbana. Nada os derrotaria enquanto estivessem juntos.

Nada mesmo.

Quando as primeiras forças desembarcaram efetivamente em Campos – provavelmente atraídas pelo petróleo local – eles já estavam instalados no seu bunker privado e dispostos a resistir. Não entrariam em combate franco ou aberto a princípio, sabiam que isso era inócuo se não houvesse uma coordenação por trás. Assim passaram algumas semanas esperando e analisando a movimentação das forças enquanto discutiam as melhores teses e táticas de resistência, ainda que estranhassem o silêncio que vinha das Laranjeiras. Nada se ouvia da Cidade Nova ou mesmo dos subúrbios, de onde se tomava a temperatura política do Rio de Janeiro.

Surpreendido pela velocidade e voracidade do inimigo que tomou Campos e todo o Norte Fluminense em menos de uma semana, o Governador declarou Estado de Sítio, fugiu para São Paulo e começou a organizar uma força de resistência. Em pouco tempo o combate se concentraria nas zonas Cariocas. O interior do Estado já estava perdido.

Para eles isso não era surpresa, aliás até contavam com isso. Sabiam que o inimigo tinha a vantagem da surpresa e da mobilidade. Quem não se rendia era assimilado à força. Muitos capitulavam ante a mera visão da força que se agigantava em suas terras.

Para enfrentar essas ameaças, sabiam que teriam apenas um ao outro. Nunca quiseram filhos. “Não vai dar certo, tá tudo se fechando em cima da gente, você não vê?” Dizia ela para as amigas que cobravam o rebento. “Filho nesse mundo? Só se for para morrer com tiro ou para pegar em arma para matar.” Dizia ele para quem mais perguntasse.

Ela pensou em comprar um rifle ou uma pistola quando as tropas tomaram São Conrado e declararam a Zona Oeste território livre. Foi mais ou menos na mesma época que a Zona Norte caiu sob o controle das Milícias de Resistência e o combate franco se instaurou na Grajaú-Jacarepaguá. O Governador e sua família foram “resgatados” do Palácio das Laranjeiras e agora estavam no centro do Governo Temporário de Governo em São Paulo, capital. Tropas da República foram deslocadas para defender o petróleo fluminense enquanto o antigo Distrito Federal ruía ante combates em avenidas asfaltadas ou em escaramuças noturnas. Aos poucos, ele a convenceu de que não era uma boa idéia. Nenhum dos dois atirava bem e, na pior das hipóteses, seriam mortos antes mesmo de pegar a arma. Melhor se esconder e se fazer de inofensivo, de apático mesmo.

E até que sobreviviam bem no meio da Zona de Guerra. Por um lado, se as atividades da “urbe” continuavam “normalizadas”, eles tinham de ser cada vez mais discretos quando tinham de repor matimentos ou tentavam ficar informados sobre as batalhas em andamento. Por sorte procuravam andar nos horários que passavam por cidadãos comuns, de segunda classe.

Nunca ficavam sós. Sabiam que, se um caísse, o outro não teria condições de sobreviver sozinho nessa terra de ninguém. Tiveram a prova cabal disso quando ele teve de “caçar” alguns remédios na farmácia na Xavier da Silveira e quase se viu em encontro aberto dos invasores com os resistentes.

Era um grupo pequeno, uns quatro pelo que notou, engravatados e sérios. Com uma aura de cacetice que drenava o glamour, o charme e a graça por onde passavam. Pareciam yuppies atávicos, herdeiros de centenas de anos de mau gosto e de cultura rasa. Não tinham estilo, criatividade, idéias ou mesmo carisma. Eram da Legião das Gravatas e portavam os seus MBAs, MBOs, PMIs e SPCs como quem banisse espíritos ruins. Nada se escutava de dentro de seus carros de luxo, com portas e tamanho desnecessários. Eram legítimos representantes de um oblívio moral.

Do outro lado, seis jovens que bebiam despreocupadamente. Mal notaram o inimigo se aproximando.No carro em que estavam encostados – uma pickup a diesel – ouvia-se uma espécie de batuque atonal, algo que remetia a um estado de hipnose frenética em que qualquer consciência ou senso crítico se perdia ante o ulular de vogais em versos surreais.

Ficou ali parado, indeciso, entre o void mental e o crasso medular. Olhava para um grupo, assustado com a possibilidade de nulidade de seu eu. Para outro, com medo da individualidade falsa, do coletivo pasteurizante.

Correu para casa já com os medicamentos e procurou, entre os resquícios de uma vida de consumo que tiveram eons antes, um par de fones de ouvido que se ligavam a um CD player. Selecionou um disco de suas músicas preferidas, catou um terno meio demodê e par de óculos escuros – espelhados, a bem da verdade – e declarou-se pronto para se mimetizar ante os invasores.

“Amor, acho que agora sobrevivo ao Centro da Cidade.”

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