Sobre verdades e mentiras

September 19th, 2009 § 1

Estou viciado em House M.D. desde que “descobri” que o ator principal é o Hugh Laurie, do A Bit of Fry and Laurie, com quem contracenava com o fabuloso Stephan Fry. Era viciado nessa série, que passava no Eurochannel, na TVA, nos idos de 1990 e muitos.

Mas isso não interessa. O que me chamou a atenção é que ele usa um jargão sensacional: “todo mundo mente” e normalmente é a chave para ele desvendar a doença do paciente da semana. Adoro o método de tentativa e erro que eles usam ali, mostrando bem didaticamente o que é o método científico. Afora a quantidade de patadas por centímetro quadrado que ele dá em todo ser vivo falante. Adoro.

E é verdade mesmo: não se pode confiar no alheio. Não que todos sejam canalhas ou pilantras, mas a verdade dificilmente fica na superfície. Nós temos a tendência de ou escolher o caminho mais fácil, aparentemente, ou de ficarmos com a melhor opção de acordo com o nosso viés ideológio, a despeito dos fatos gritantes à nossa frente.

Falo isso por conta de dois fatos recentes na minha vidinha: uma, foi a leitura do livro A Lógica do Consumo, (Buyology) de Martin Lindstron. Como todo livro para executivos e profissionais de marquetingue, ele é bem raso na apresentação de suas idéias, mas o texto claro, abrangente e caloroso, compensa a falta da exposição de dados e estatísticas. Em resumo, o autor fala sobre como a maioria das nossas decisões diárias é baseada em impulso, em falsas lógicas e muito mais na percepção do que temos da realidade que dos fatos brutos em si. Da mesma maneira, como a personificação das marcas e das empresas ajuda (ou atrapalha) suas vendas, a despeito do que a “lógica” diz.

O segundo fato foi uma discussão boba, com uma criatura que insiste em ulular seus vieses. Explico. Eu nem sempre tomo decisões e afirmo fatos que tenho certeza absoluta. Muitas vezes crio minha argumentação on the fly e tento dar uma coerência àquilo que digo, mas, por um outro lado, procuro sempre estar informado sobre o que digo, falo para evitar erros crassos. Em suma, fico orbitando no famoso educated guess e estou confortável assim.

A priori, nao acredito em “certezas absolutas” exceto como força retórica argumentativa. Tudo que eu falo pode ser demonstrado contra ou refutado. Aliás, deve. Adoro uma discussão porque posso ser provado errado e aí aprendo uma coisa nova, um ponto de vista diferente e repenso o meu pensar. E não tem nada mais excitante que entender o outro por um viés diferente, adotar um novo viés.

Mas não dá é para deixar de notar que, quanto mais estapafúrdia a criatura, mais desembasada e mais pedante, a sua argumentação tende a ser mais pedestre. O apelo para o óbvio, quando o óbvio é o oposto. O apelo para “todos sabem” quando todos não foram consultados sobre isso. O apelo para “quem discorda de mim é crasso, vil e torpe, porque eu estou do lado dos príncipes”. Adoro. Pego no pé de gente assim. Mentem porque não têm vontade de conhecer nada que prove o oposto do que acreditam. Aliás, o erro dessa gente é querer acreditar e não querer saber. Mas isso é outra história.

Isso tudo porque – de novo, no banho – me veio à mente que só as Putas têm licença para mentir.

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dos homens

June 29th, 2008 § 2

publicado na Tribuna da Imprensa

Diz Maria Bercovitch, querida amiga, em A mulher pós-moderna-erna-erna

Os homens são um problema. Onde estão os caras inteligentes, interessantes e sinceros? Difícil o homem que não sai correndo, que não morre de medo dessa mulher que sabe o que quer. O machismo ainda existe. A cafajestagem, também. Algumas continuam aceitando. Outras choram, sofrem e seguem adiante solteiras.

Minha querida, os homens são os mesmos desde a sua invenção. Tal e qual as moças (virginais ou não) eles são a soma dos símbolos que atribuem a si mesmos e que são emprestados dos outros.

Qual canalha não se derramou em lágrimas pelo aconchego de uma menina que lhe fazia um cafuné a troco apenas da sensação? Qual príncipe encantado não olhou para as curvas calipígeas de uma transeunte incauta?

O que importa, no fim das contas, é o sorriso que a vida te entrega diariamente no nascer do sol. Você o pega com o jornal, ou não.

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Do livro dos desvirtuosos: o canalha

March 25th, 2008 § 7

publicado na Tribuna da Imprensa

Lei primeira: Nunca se envolva com o objeto do seu interesse. O distanciamento emocional é fundamental para a sobrevivência do canalha.

Sempre achou que o tempo ideal de uma relação era de três meses. Nem mais nem menos. Desta forma poderia ter uma história inteira – flerte, foda e fim – e virar a página rapidamente sem ter nenhuma seqüela para ambas as partes. Obviamente nunca consultava o outro “time” para ver se este discordava dessa metodologia em que era submetida sem o seu consentimento prévio. Como bom canalha, assumia na cara dura o seu comportamento misógino a guisa de “sinceridade”. Só que nem toda sinceridade é honesta e nem toda honestidade é sincera. Pena que poucos sabem disso.

Eis que o dito fez-se apaixonar por diversas meninas da Tijuca a Bangu, visto que era bem-apessoado, bem-nascido e tinha uma conversa interessante, apesar de se deixar levar pelo som da própria voz. De fato, adorava ouvir-se discorrer por centenas de assuntos que não tinha interesse ou conhecimento, apenas para ver o resultado desse encantamento umbilical se transpor nas meninas incautas e imaturas. Acima de tudo, amava esse poder de fazer descer as calcinhas das meninas.

Era um tipo de narciso bem estranho.

Lei segunda: Nunca, em hipótese alguma, se apaixone pelo objeto do teu interesse. A ausência de paixão é o que garante a sobrevida do canalha.

“Três meses.” Ele dizia. “Três meses e tchau. É assim que funciona comigo e pode funcionar com todos vocês. Em semanas vai chover mulher na cama de cada um. A ponto de ter de colocar uma catraca para os amigos contabilizarem no final da semana.” Os amigos olhavam embevecidos e invejosos. Não acreditavam em metade das aventuras que o canalha à mesa contava, o que, estranha e ilogicamente, fazia a lenda aumentar. “Nem tudo pode ser inventado, gente. Já vi o cara carregando duas para casa.” “Eu lembro do dia que ele catou a loirinha da praia que ninguém com menos de dois metros pegava” “E a menina-blogueira-fox-trot? Eu tava lá, minha gente! Era só gemido e chão batendo no quarto do lado!” “E a escritora da Barra da Tijuca? Essa eu também vi.” “E não se esqueçam do anão! Um anão, gente! Um anão!”

Porém, mais que as histórias das conquistas, ele se deleitava em discorrer sobre as derrotas, sobre as deusas monumentais que nunca sucumbiram aos seus – poucos – encantos , sobre os términos. Podia-se dizer que era um apaixonado em fins de relacionamentos. E se orgulhava de cada biltrice que praticara em dezenas de anos de prática ininterrupta de canalhice crônica.

Lei terceira: Todo canalha irá, inevitavelmente, se apaixonar pelo objeto do seu interesse. Deste ponto em diante, o canalha está morto.

Calhou de cruzar o caminho do nosso personagem preferido, moça prendada que cheirava a jasmim. Ela, da tez macia, do olhar brejeiro, do rebolar cadente, do olhar triste, sucumbiu como mais uma. Apenas mais um número de telefone na sua agenda de celular. Ao levantar-se derradeiramente da cama, deixou ali o velho promíscuo e rabugento e não reconheceu o estranho brilho nos olhos de cafajeste. Ele, ao fitar-se no espelho enquanto calçava as meias, sentiu o peso da vida e a doçura irem porta afora.

Foi-se o último canalha verdadeiro.

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Ciclo fechado

January 12th, 2007 § 4

publicado em LIVinRooom 

Fim de ano.

Comemorações a troco de coisa alguma e um calor de rachar a boa vontade entre os homens e mulheres do Rio de Janeiro. E os amigos aproveitam a pausa na correria diária para dar um sossega leão em si mesmos e botar a casa em ordem.

Para Alan isso significava ligar para todos os pulhas e canalhas que conhecia e as lacraias de dois mangos que chamava de amigos e amigas. Na verdade, essa era a forma carinhosa de tratar a todos que fizeram parte de sua vida torta desde o colégio até o fim da faculdade. Poucos, bem poucos mesmo, eram os amigos do dia-a-dia, mas todos moravam no seu coração. Ao menos no fim do ano. Ao menos uma e única vez por ano.

Como sempre, teve de marcar no centro, apesar do protestos daquele povo que morava na Barra da Tijuca e insistia em se chamar de carioca. Os da Zona Norte eram maioria e, a bem da verdade, a Barra não é lugar para esse tipo de comemoração. As Barbies e Kens de plástico daquela região provavelmente reclamariam desde as calçadas de pedra portuguesa até à escolha do cardápio, passando pelo banheiro (sujo, definitivamente sujo) e pelo atendimento (e desde quando bar bom tem atendimento idem?).

Alan chegou cedo, não queria reservar mesa – de premeditado, organizado e planejado, já bastava o calendário – mas se comprometeu em arrumar lugar para todos. Não era todo dia que juntava tantos ditos amigos num lugar só. Normalmente os eventos de Alan eram resolvíveis numa mesa simples ou, quando a lotação passava a marca histórica de seis pessoas, arrumava-se um capô de carro alheio para servir de mesa e/ou assento. Para o fim do ano era diferente: mais de vinte confirmaram e mesão grande assim na Casa Urich só com lábia e adiantamento de conta. Como ele era cliente preferencial desde os vinte e cinco anos, rolou a “reserva” com pouca relutância da gerência.

Os amigos foram chegando aos poucos. A cada abraço, um comentário de um outro que partiu para o exterior ou para uma outra cidade. Um que casou, outro que virou numa curva errada e beijou um poste, outra que engravidou, outro que teve o sexto filho. As novidades dos amigos repassadas a cada ano. A cada fim de ano.

E a sensação que ainda havia algo a ser feito não passava. Aliás essa tinha sido uma constante em sua vida desde os dezessete anos. Àquela época achava que poderia domar o mundo com a mão esquerda enquanto se masturbava com as restantes.

Frase de Alan, não desse autor.

Certa hora, notou que perto do banheiro tinha uma turminha desanimada, umas sete cabeças, duas meninas. Nossa! Que morena é aquela? Bom, continou o processo de embriagamento e abriu uma nova rodada com um úisque duplo. Sem gelo. Tá certo que o verão queima as pedras portuguesas da Rua São José e o ar parece de verdade com o bafo indelével do centro do Rio, mas uísque tem de ser tomado assim, sem gelo e na valentia.

Novamente, coisa de Alan.

Os chopes sucediam os refrigerantes e as caipirinhas e, determinada hora, a natureza falou mais alto. Alan atravessou a borda da mesa que se estendia por quase todo o comprimento do restaurante e, inevitavelmente, esbarrou trôpego na mesa da morena que não parava de flertá-lo desde o início do fim da tarde. Falou alguma gracinha inócua e inefetiva para fins sexuais e entrou no mictório desesperançado.

Na volta, a mesa vazia. Aliás, todas as mesas vazias. Só um carinha num canto. Mas não tava vazio. Coisa esquisita.

“Puta que pariu! Depois de velho, delirium tremens?”

O carinha fez sinal para Alan se sentar.

“Cara, já sei. Você é a minha consciência e vai me dar um sermão sobre abuso de álcool, sexo e drogas nas terças-feiras.” “Calaboca e escuta.” “…!” “Olha ali no canto” – apontou para a mesa onde estaria a morena – “e me diga o que você vê.” “Porra tem nada ali.” Levou um cascudo seguido de um pescotapa.

“Olha direito, caralho” “Tá bom, cacete! Doeu isso!” Apertou os olhos míopes e o mundo rodou mais devagar por um momento. Enfim viu.

“Bom. Ali tem uma morena fantástica numa ponta, uma outra lindinha da silva mais mignonzinha, dois coroas, um viado marombado, senhor publicitário na outra ponta e um nerd fotógrafo no canto.” “Não aprendeu porra nenhuma. E eu com esperanças em você.”

Acordou abraçado na privada com uma das meninas a lhe acordar.

“Tive de dizer pro gerente que era sua namorada. Tu tá legal?” “Tô não, Vivien. Deixa eu voltar para a mesa e pagar a conta.”

Estranhamente se sentiu mais sóbrio que nunca ao caminhar entre as mesas. Sinal claro, óbvio e ululante de alcoolismo em estado extremo. Ao sentar, pediu a atenção de todos. Discursou sobre o fim do ano, o fim do salário, o fim da história e do comunismo, o fim dos tempos. Todos riam quando ele trocou de tom e, falando através de si, começou.

“Existem quatro tipos de mulheres que um homem tem de ter: a musa, a puta, a mãe e a amiga.” E continuou falando, ensinando as verdades essenciais, enquanto as nuvens de chuva anunciavam que as comemorações iriam continuar noite adentro.

O povo se calou. Alan não era do tipo de cagar regra.

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