rotina dos fins de semana

January 12th, 2009 § 2

rodoviária carioca pela manhã. táxi. casa. acordo a moça. durmo. acordo. banho. casa da avó. almoço. papo. lanche. shopping. cinema. janto. casa. acordo domingo tarde. banho. almoço na casa da tia. papo. café na casa de amigos. casa. filmes (2). despedida. rodoviária. ônibus. sono. são paulo.

no ínterim, sexo sempre que conveniente.

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Sobre a arte de dar as mãos

July 11th, 2008 § 9

publicado na Tribuna da Imprensa

Hoje eu li em um blogue de uma amiga (http://simsenhoras.blogspot.com/2008/07/quero-namorar-o-wall-e.html) que ela não vê mais as pessoas simplesmente dando as mãos por aí. Que no arsenal da conquista não se usa mais o singelo gesto de procurar a mão da menina e segurar os dedos entre os dedos num enlace quase que obsceno, mas mais singelo que os olhares que enrubescem. Que não vê mais o gesto em si mesmo gerando o momento mágico.

Eu sou uma criatura de “grude”. Gosto de tocar, abraçar de dar beijos e tal em quem tenho carinho e afeto. Obviamente já passei da fase adolescente onde os futuros adultos arrumam n desculpas para se jogar uns em cima dos outros ou se amontoarem pelos cantos. Algo a ver com os hormônios em ebulição ou uma desculpa esfarrapada para pré-sexo. Dito isto, acho que poderão entender melhor o caso que tenho para contar.

Pois bem.

Um dia, numa das minhas idas profissionais à cidade do dinheiro e à terra da fortuna, eu saí com uma conhecida para podermos materializar o nosso conhecimento mútuo. (Não me entendam mal! A frase anterior é só uma forma pernóstica de dizer que fui conhecer de fato uma pessoa que conhecia pela Internet. É que às vezes conheço mais de fato quem nunca vi de perto. E às vezes conheço menos de perto quem já vi de fato. Fato.) Fomos a uma pizzaria numa praça que só recentemente voltei – e gravei o nome. E obviamente me esqueci novamente, a ponto de não ter sequer referência para citar nessa crônica de quarenta linhas.

A pizzaria era modernosa, com uma decoração bem interessante. Como bom carioca, sempre achei que pizza boa era a que era servida rapidamente. Ali fui introduzido à grande arte de ser fazer Pizzas em Sampa.

Antes mesmo de fazermos o pedido, senti que havia algo no ar. Uma atração definitiva. Da minha parte, claro, por minha amiga. As pizzas não tinham nada a ver com a história. A moça era bonita, charmosa, interessante mesmo. E tinha bom gosto. Afinal de contas, sabia escolher a companhia para o jantar.
Durante o evento inteiro eu não conseguia desgrudar os olhos dos olhos da moça e “dava um jeito” de fazer as mãos delas encontrarem as minhas. Quando ocorria, parecia que eu estava segurando o braço de uma cadeira ou apenas uma maçaneta. Nada. Nem uma fisgada, nem uma alteração na voz da moça. Nadica de nada. Um suspiro ou uma pausa ao menos? Não.

Obviamente achei que não tinha logrado sucesso e tal. Mas são coisas da vida. Se todas as mulheres desejassem todos os homens (e vice-versa), não haveria agenda que desse jeito para tanta fornicação. Ou romance. Fica no teu critério. Fato é que não funcionaria de forma alguma. Há de se ter a rejeição por bem da humanidade.

Mas, como a vida sempre surpreende e desconstrói as primeiras impressões, na saída, a moça me permite um beijo. Obviamente voltei pro Rio sem entender coisa alguma.

Quando mudei em definitivo para Sampalândia, eu entendi que havia um tipo de gente que não se toca, a não ser na intimidade. Que um abraço pode ser sinal de posse e que um pegar em mãos pode ser ostensivo, declaratório e íntimo demais para duas pessoas que apenas se flertam.

Da pior forma, entendi que esse não era o meu tipo de gente.

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Na paulista…

June 1st, 2008 § 2

publicado na Tribuna da Imprensa

…costumava ser uma expressão usada na faculdade para o ato de passar a brenfa, marofa, canha, baseado, doizinho, pega, a maconha – enfim – com velocidade que, a priori, não deveria ser própria de quem está consumindo um entorpecente relaxador. Ou seja, o cara pega, puxa, traga, e passa sem ter tempo de contemplar o ato, de curtir o momento, e só espera que a onda bata logo. Obviamente pegar a bagana, a vela, a maria-joana, o fumo, o cigarro e ficar contemplando o mundo enquanto ficava olhando a parada queimar lentamente para o nada era chamado de “na carioca”.

Hoje fico pensando se não existe algo mais nessa comparação que a falsa calma do carioca e da pressa inequívoca do paulistano.

Antes que me processem por apologia ao narcotráfico, aviso: nunca fui adepto do uso da cannabis sativa – jamais consegui dar mais que dois tapas e não desmaiar em seqüência – mas curtia ficar com o pessoal na vila dos diretórios acadêmicos da PUC-RJ, na chamada esquina da esquadrilha da fumaça, a quina formada pelas casinhas do povo de desenho industrial, de filosofia e geografia e era completada pela casa do CA de Direito que, diga-se de passagem, o único que tentava fazer algo que lembrava remotamente um movimento estudantil naquela época pós-caras pintadas, pós-reabertura política, pós-ideologias, pós-juventude.

Gostava porque a maioria ouvia o bom e velho rock’n’roll – apesar de um reggae ocasional me torturar a paciência – e todos gostavam de quadrinhos e de alguma literatura. Além disso era o pit-stop obrigatório no caminho do boteco. Esse sim, fornecedor do meu elemento de entorpecimento favorito.

Desculpem se tergiverso um bocado, mas é que me lembrei disso hoje ao andar na Avenida Paulista.

Chovia de um jeito que é cada vez mais raro em São Paulo – chuva fina, tempo frio, vento cortante – e eu ia da Consolação ao Paraíso. Da rua Augusta à rua Brigadeiro Luiz Antônio. Na calçada, a fauna de costume: casais gays na altura do Conjunto Nacional – e da Frei Caneca – jovens executivos entre a Freica e o Trianon, alguns rapazes perdidos no parque, estudantes nos botecos até a Joaquim Eugênio de Lima, mais jovens executivos que foram estudantes há pouco nos mesmos botecos com mesas e cadeiras em plena calçada, hippies/mendigos na altura daquela casa branca que estava abandonada e que fora um MacDonalds até um tempo atrás.

No passar da turba, uma cena insólita. Como sou muito míope, as imagens me vêem aos poucos, sendo construídas no meio da minha falta de foco. Primeiro, um engravatado carregando algo pesado. Depois, consegui ver o portador de terno completo e gravata com mais nitidez. Ele carregava um monitor velho de computador, daqueles de tubo, de umas quinze polegadas, com algum esforço, mas andava com energia e determinação. Mais uns cinco metros consegui ver a face. Barba por fazer, cabelos desgrenhados e loiros, olhar injetado de fúria e os braços de terno sem camisa.

Passou por mim como se não existisse chuva ou destino. Na paulista.

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Sobre a ditadura da paisagem

January 7th, 2008 § 20

O carioca, além das mazelas normais dos nativos de qualquer metrópole moderna e das agruras dos brasileiros em geral, vive uma sina cruel e ímpar às demais cidades do mundo: é condenado a viver com um cenário tão maravilhoso que o torna insensível às diversas nuances da beleza.

É como se nos alimentássemos dos mais maravilhosos pratos de restaurantes da mais alta gastronomia e não conseguíssemos mais encarar o prazer de um misto quente no pão francês.

Ou algo assim.

É uma sina porque cada cidadão fica insensível ao mediano, ao mundano, ao medíocre e subitamente este se torna intolerável. Como aceitar que o máximo que teremos é uma vida mediana, uma posição mediana, um desempenho mediano? Outras cidades também impelem seus habitantes a uma frustração prévia, mas o Rio de Janeiro tem uma característica à parte.

Mais que sucesso, o carioca quer ser belo, belíssimo.

Como conseqüência, temos as legiões de barrigas de tanques e braços hipertrofiados saídos das academias que deveriam primar pela saúde e integridade física de seus associados e suas peles galvanizadas em bronze, dada a contínua exposição da cútis nas praias.

Mas até aí, os únicos que correm o risco de se ferrar nessa busca da perfeição física é o próprio estagiário de Apolo ou Afrodite. Porém a coisa é pior e mais sutil que isso.

Ante essa busca da beleza, as opções ficam limitadas. Excluindo-se o mediano, não é mais possível ter uma pele alva, ainda que saudável, e ser belo ou uma barriga expoente, ainda que feliz, e ser saudável. E torna-se heresia maior ostentar ambas em pleno verão.

O leitor pode até achar que isso é ranhetice do cronista nerd e branquelo. Mas entenda que não me magoa mais, do alto da minha meia-vida, que os meus concidadãos ainda tenham esse desejo de serem Apolos ou Afrodites e não entenderem atavicamente quem não compartilha dos mesmos princípios. Já me acostumei.

Para falar a verdade, acho até bem louvável que cada indivíduo desenvolva uma vaidade no prazer de se olhar no espelho e refletir a sua força de vontade expressa em formas que decidira conscientemente. Como um atleta que sabe que precisa de pouquíssima gordura no corpo para agüentar uma maratona ou nenhum pelo para nadar mais rapidamente.

Porém, a questão aí é a da consciência.

Novamente não culpo os demiurgos que se apresentam pontualmente às academias para as sessões de modelagem corporal. Eles são vítimas do seu meio.

Uma cidade que apresenta ao seu morador um horizonte na natureza do espelho d’água da Lagoa Rodrigo de Freitas, da enseada de Botafogo, do pôr-do-sol do Posto Nove, massacra o seu cidadão a ponto de entender que a única possibilidade de se tornar digno da – ou suportável à – beleza acachapante diária a que é submetido é se tornando espelho dela mesma.

Ou seja, o Rio transforma o seu cidadão à sua imagem e semelhança.

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E você bem que me poderia contar uma história romântica…

November 7th, 2007 § 10

publicado na Tribuna da Imprensa

Toda história de amor termina.

Não tem jeito. Por mais que tentemos prolongá-la para além de seu curso, como se amarrássemos balões de gás que a impulsionassem mais alto e além de sua própria capacidade de vôo, ele fatalmente perderá o seu viço, a sua força e o seu encanto e se tornará uma rotina cinza e modorrenta. Ou, com sorte, se transformará numa história diferente onde os projetos dos dois se somarão e os votos antigos, já obsoletos, serão queimados diariamente, sendo substituídos por filhos, emprego, a compra da casa, num “não sei o que fazer, eu só me reconheço como parte desse relacionamento” ou qualquer outra hipocrisia que se resolva inventar para manter o que já estava morto.

Obviamente que cada história de amor tem um tempo diferente de vida. Eu costumo dizer que o tempo médio de todo o ciclo de relacionamento (flerte ou paquera, declaração, beijo, cópula, apresentação social, divisão de teto, planos a dois, estranhamento do outro, estresse, separação, ódio e desprezo – não necessariamente nessa ordem) é de dois anos com diversos fatores que aumentam ou diminuem esse prazo. Planos em comum aumentam de seis a doze meses; gostos em comum: quatro; senso critico apurado de um dos membros do casal: menos dezoito meses; um dos membros do casal é um carioca desterrado em São Paulo e se chama Zander: menos vinte e três meses e três semanas.

O que permanece é a lembrança, esse fantasma que faz a humanidade ser o que é. O ser humano vive no fio da navalha entre ser uma criatura de passado e morar num universo onde nem o passado nem o futuro existem de fato. Se, por um lado a lembrança dos fatos passados é o que nos permite erigir prédios e desafiar a natureza com as invenções do banheiro e do ar condicionado – os dois símbolos mais-que-perfeitos da civilização – essa mesma capacidade de lembrar nos atira ao esgoto emocional, à nostalgia improdutiva e à auto-comiseração. Nunca conheci um amnésico que tivesse pena de si mesmo. Também nunca conheci um amnésico, verdade, mas conheci muita gente com memória ruim e esses tendiam a ser mais felizes com a vida que vinha.

Desviei-me um pouco do tema.

O que importa é a lembrança e, principalmente, o que fazemos com ela. Sabe-se que nem tudo pode ser apreendido pelo homem. Muitos detalhes ficam para trás. E a arte do querer bem a quem se ama ou amou é a de reter os detalhes que, recontados centenas e centenas de vezes, ganham um glamour, um encanto que nunca tiveram. A arte de terminar uma história de amor é guardar para si os momentos mundanos e transformá-los em gloriosos. Assim, podemos ter renovada a esperança do romance para os que virão e nos tornarmos repletos de querer bem a quem nos quis bem um dia.

O grande amor é sempre o próximo.

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’bout me

July 10th, 2007 § 1

publicado na Tribuna da Imprensa

Roubaram o meu coração.

Não sei onde deixaram.

Coloquei aviso em todos os postes da vizinhança. Dizia assim: “Roubaram um coração. Dono único. É de estimação. Meio louquinho, eu sei, meio vesgo e meio atordoado. De tanto meio me colocava em encrenca a três por dois. Sei que é coração miúdo e bobo, mas é meu e quero de volta. Tá fazendo falta aqui em casa. Pago bem a quem encontrar.”

Não me trouxeram ainda, mas tenho fé que um dia encontrarei.

Acho.

Sou Zander Catta Preta.

Tenho 36 anos, carioca, desterrado em São Paulo. Conto as histórias que vivi como se fosse de outrem. E as histórias dos outros como se fossem minhas. Revelo o patético, o humano, o carnal das relações mais inocentes.

Não há inocência.

Sou um sátiro. Fato, não consigo me conter nas minhas próprias palavras, tenho de vivê-las. Ainda que me esquive das armadilhas, de ser capturado pela luxúria e lascívia e deixar ser levado pelas torrentes de prazer.

Eu era alguém até ontem. Desde o nascimento fui diveresas pessoas, personagens, criaturas. Fato é que não quero ser coisa alguma. Estou sendo. Sou transitório, imperene, diáfano e efêmero.

Quem eu sou? Um mistério em um livro aberto. Uma farsa, cobro em euros e dizem que beijo bem.


meu blog: http://www.z-cp.com/
meu livro: http://www.z-cp.com/urbanoides
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Papo de bar

June 13th, 2007 § 5

publicado na Tribuna da Imprensa 

“Não entendo a tua relação com Paula, cara. Você diz que é apaixonado pela garota mas deixa ela correr solta.” “É complicado mesmo. Não sei se vale a pena explicar.” “Também não acho que valha a pena. Mas não quero entender o teu querer nela, mas o porquê de você não colocar essa fila para andar.” “Mas a fila anda, o caixa é rápido e eu ainda a quero.” “Só pode ser fissura.” “É isso. É uma fissura. Fissura aqui dentro, ó. Fissura chamada ciúmes.”

Enquanto Marquinhos apontava para a cabeça, Júlio pedia mais dois chopes. Colarinho curto, por favor. Isso. Dois dedos.

“Por que você pede ‘por favor’ pros garçons? Eles não estão fazendo favor algum a ti. É o trabalho deles.” “Mania de carioca. Lá podemos não fazer uso de ‘muito obrigado’, ‘com licença’ ou ‘por favor’. A não ser com os garçons.” “Juro que não entendo.” “É simples: temos de ficar amigos dos garçons para conseguirmos ser atendidos. Nos bares ‘clássicos’ é assim ao menos.” “Ainda não entendo.” “É porque você não é carioca. Não vai entender a referência de banheiro sujo e atendimento ruim para boteco bom.”

Os chopes chegam, Júlio agradece mais uma vez e elogia o excelente serviço. Muito obrigado, doutor. Estamos aqui para isso mesmo.

“Mas conta aí. Quando começou essa tua fissura na menina.” “Não é uma fissura nela. É uma fissura por conta dela. Um ciúme que foge aos padrões, meu.” “Que seja. Conta.” “Então. Eu a conheci nessas idas e vindas da USP. Numa vernissage estávamos falando de Sartre e Heiddeger. Eu, o Carlos – que você conheceu ontem – e o nosso professor de Lógica.” “O coroa tem pinta de curtir uma caninha mesmo.” “Não perde um evento de ácool gratuito, o puto. Mas estávamos lá vomitando filosofia de quinta movida a vinho de sexta quando surge do meio do nada a menina linda. Cabelos negros, um olhar de desesperada, uma tatuagem sensacional no ombro e um cheiro de quem havia dado há pouco. O professor catou a menina num canto e faturou a noite. Nunca mais esqueci dela.”

Júlio virou o que restava do chope e pediu um jiló assado. Com alho, por favor. Ah! Manda uma porção de pastéis de carne e queijo. Valeu! Olhou pro amigo e começou a entender a questão.

“Fala mais.” “Nem tem o que falar. Ela fez contato via Orkut com uma galera do evento e ficamos ‘amiguinhos’. Daí messenger, telefone, cafés e sopas e eu me vi confidente das aventuras sexuais dela.” “Dançou, negão. Mesmo. Essa daí você nunca vai ver pelada na vida.” “Eu sei. Mas não sei o que fazer.”

Marquinhos virou o chope quente e comeu um pastel. Fez careta quando viu que era de queijo e sinal pro garçom quando capturou sua atenção. Me vê mais um. Chope. Olhou pro amigo e respirou fundo antes de falar.

“Meu, o lance não é ela ter alguém. Tô pouco me lixando para isso. Será que é tão difícil de entender? Não quero saber de amor, traição, adultério, essas merdas todas que rodeiam os relacionamentos. O meu lance é o desejo e até onde chega a tolerância de um homem frente a esse desejo. Ela tirou umas fotos peladas com o carinha atual, sabe? E eu estou pouco me lixando se o mundo vai ver ela pelada ou se o cara vai transar com ela centenas de vezes. Ou com centenas de homens. Ou mulheres, tamanduás, anões de jardim. Não me importa. A questão é entre mim e ela: eu quero vê-la gozando e eu sendo o responsável por esse gozo. E eu não consigo viver com ela me negando a chance de fazê-la feliz uma vez ao menos.”

Pediram a conta.

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Silêncios

June 11th, 2007 § 0

publicado na Tribuna da Imprensa

Novamente era uma mesa de bar. Botecão mesmo, na Augusta. Acho que era o Ibotirama. Já estava bêbado demais para ter certeza dos lugares. À minha frente dois amigos que atravessaram mais de quatrocentos quilômetros para me visitar. Eu estava feliz com aquelas faces tão amigas ali reunidas.

Já tínhamos rodado uma série de lugares de baixo renome atrás de uma Serramalte digna e o sucesso fora marginal, no mínimo. Até o fim de semana terminar, apenas desventuras e programas furados por conta do desconhecimento do terreno de um carioca desterrado em Sampa. Teoricamente eu já deveria ter mapeado todo o submundo da cidade e saber de cor os points de álcool de qualidade. Não o fizera. Como eu iria descobrir mais tarde, a idade tava cobrando uma taxa maior que eu esperava.

Sentamos nas cadeiras de plástico e na mesma hora nos arrependemos de ter abandonado os bancos quentes da Bela Paulista. Tentamos engatar alguns papos sem nexo e parecia que nada rendia. Ou não rendia da mesma maneira que quinze anos atrás. Não era esgotamento do carinho mútuo, pois esse era aparente, mas era mais uma distância que fora construída vida afora.

O que mais se ouvia era o nosso silêncio. Olhei os rostos dos meus amigos como se os encontrasse pela primeira vez. Me surpreendi com as rugas de um e os quilos ganhos de outro. Imaginei que o mesmo acontecia comigo, o tempo não perdoa ninguém. O cansaço da viagem e do dia de trabalho ajudavam a tornar esse silêncio em algo mais imperativo que a vontade de beber e acordar acabado numa sarjeta paulistana.

Na verdade, não havia a vontade de repetir aqueles programas de adolescente desesperado por acabar consigo mesmo ante o mundo adulto que se apresenta para ele. Já temos a certeza de nossos papéis na sociedade e o que temos de desempenhar diariamente para nos afirmarmos como cidadãos produtivos e eficientes. Temos uma história de quarto de século após a fralda cada um. Temos responsabilidades e deveres e somos lembrados deles diariamente. E é isso que nos faz adultos, não é? A ausência de indulgências perante nossas responsabilidades.

Tentamos lembrar de alguns casos do passado ou de pessoas que perdemos o contato. A cerveja – Brahma, nevada, gelada – calava as intenções de continuarmos os assuntos inócuos. Ficamos com o planejamento do sábado e do domingo.

Ainda que eu tentasse amealhar alguma lembrança boa dos três na mesa de bar varando aquela madrugada, era indelével a sensação de derrota perante as minhas mais caras lembranças da vida. Queria que tivesse sido um fim de semana de abraços, gargalhadas, lugares legais a se ver em Sampa e um revival do que era a maior amizade de todo o mundo.

Mas éramos apenas três bêbados a silenciar ante as nossas histórias do passado e anunciando um fim de semana que acabara já na madrugada de sexta-feira.

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Rio Body Count

February 1st, 2007 § 8

André Dahmer escreveu no seu blog, e dou o meu modesto apoio daqui.

RIO BODY COUNT
Inspirado no Iraqbodycount, estou abrindo com meu amigo de fé Vinicius Costa um portal para reportar incidentes violentos no Rio de Janeiro. Como devem imaginar, não terei condições de noticiar toda a violência com apenas dois caras trabalhando no projeto. Por isto, estamos recrutando voluntários cariocas que saibam escrever e estejam boa parte do dia conectados na internet. Conheçam então o Riobodycount, este projeto feito por pessoas que amam o Rio. Cariocas que acharem a tarefa importante, que participem conosco deste esforço, deste grito de alerta. Amigos de internet e blogueiros, divulguem este nobre projeto em seus sites.

ANDRE DAHMER – Quinta-feira, Fevereiro 01, 2007

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Memórias do desterrro

February 1st, 2007 § 3

publicado na Tribuna da Imprensa.

Cada cidade tem o seu código, a sua cara e a sua linguagem. Isso parece óbvio à primeira vista, mas a prática é bem mais complexa. Essa é uma essência difícil de captar e pior de se explicar. Não é apenas a arquitetura, a topologia, o nome das ruas e praças que dão a personalidade às cidades, mas também a sua gente expressando as diversas partes da alma coletiva que são como rugas de expressão do rosto de cada lugar. Impossível pensar naquela cidade do interior de Minas Gerais sem se fiar na turma que se reunia à praça na hora do pôr do sol para tomar uma cachaça vagabunda, destilada no alambique detrás do boteco. Ou dos bêbados e junkies largados na rua que compôem a cena com as madames, os militares da reserva e os travestis de Copacabana. Mesmo os turistas dão a sua cor, cheiro e som àquela tira de areia, sol e concreto do Rio de Janeiro.

Falo disso por meu próprio exemplo, obviamente. Em determinado momento de minha vida, troquei as ruas que têm o meu cheiro e minhas memórias por um lugar onde cada esquina é uma novidade e cujos nomes e ordem não foram ainda mapeadas na minha mente. Dobrar a Paulista em direção à Augusta não tem o mesmo impacto em mim que adentrar pela Prado Júnior vindo da Nossa Senhora de Copacabana, por exemplo. Não ainda, ao menos.

A sensação em si é boa, mas um tanto quanto desconcertante. É esquisito dobrar uma esquina e não saber a direção de casa ou achar que uma padaria que estaria em determinado canto está do outro lado da avenida, apenas esperando ser descoberta.
É meio que um pique-esconde da cidade na mente com as ruas reais.

Lembro de quando achei uma livraria por um acaso. Não era uma das famosas, como a Cultura, mas um sebo pequeno, com quadrinhos na vitrine. Lá tinha um exemplar do Os Olhos do Gato, do Jean “Moebius” Giraud que valia a pena, mas nunca mais a encontrei. Refiz o caminho novamente e simplesmente não encontrava-a. Parecia que tinha mudado de lugar.

Obviamente, eu é que sou um desorientado e mal consigo ir na lanchonete da esquina da minha casa sem errar o caminho umas duas vezes. Mas é divertido saber que as cidades não se encaixam assim de primeira. Que tenho de construir um mapa mental do mundo que me cerca para fazer parte da cara da cidade que me acolhe hoje.

Outra coisa é falar a língua dos locais. Sei que dominar as gírias ou o cantar próprio de cada povo – no caso de São Paulo, de cada bairro – é importante, mas ter em mente os códigos semi-ocultos que são moídos em gerações de interrelacionamento a fio é fundamental. Saber chegar numa mesa de bar e puxar os assuntos certos, a marca precisa de cerveja ou os salgadinhos tradicionais. Ou então saber entender que aquele olhar é de flerte ou de apenas reconhecimento de tribo. Aquelas coisas simples que praticamos inconscientemente na nossa casa ou na nossa vizinhança.

Pode parecer simples, mas um carioca falar a língua – as diversas línguas – de São Paulo é bem complicado.

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Where Am I?

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