January 27th, 2009 §
Eu já disse que me acho muito velho pro rock e muito novo pro jazz, mas há um quê de imprecisão aí.
Quando ouço a palavra “roque”, saco logo o meu Centrium Silver e fico esperando a legião de barrigudos-pós-cabeludos-quarentões que ainda acham legal se embriagar de cerveja de péssima qualidade, subir em motos esporrentas e que berram “Jim Morrison não morreu!”.
Morreu sim, porra.
Há algo de lamentável nessa busca da adolescência perdida. Não falo isso isento de culpa, mea culpa, mas o limite do ridículo fica ali à beira avisando: “Ó, você tá ridículo com essa camisa do sex pistols. Você não está em 1979. Camisa rasgada com o A de anarquia também não! Tome tento!” Ia falar de géz e acabo falando de roque, né? Pois é.
Da mesma forma, é tão ridículo alguém mandar do nada “vamos ouvir Coltrane e fumar umzinho?” Ou sacar de um cubano no meio do boteco dizendo “essa porra custou mais que teu salário” pro garçom.
Pra mim é coisa de quem precisa mijar em torno de si pro ego dormir mais tranquilo.
Tenho birra com jazz desde que me entendo. Gostava, quando era punk-rocker na idade certa, do Miles Davis e da versão que eu tinha de Stella by Starlight e adorava viajar ouvindo a gravação em K7 do LP da coleção Abril de Jazz.
Coisas do milênio passado.
Já do Blues eu nunca me encantei. Gosto, ouço, curto, mas não me encanta. E blues é muito isso, né? é encanto triste, é o escravo dizendo que sofre para caralho e que a mulher que lhe botou um chifre não merece o homem que tem mas se ela quiser voltar ele tá ali de portas abertas. Ou isso seria o country? Não sei. Para mim é tudo coisa de dor de corno e para isso temos o Chico Buarque que canta tudo isso em “brasileiro” mesmo.
Fico me lembrando do Jim Morrison boiando, azul, em Paris. Tem coisa mais blues que isso?
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November 21st, 2007 §
Composição: Tom Jobim / Vinícius de Moraes
Sem você
Sem amor
É tudo sofrimento
Pois você
É o amor
Que eu sempre procurei em vão
Você é o que resiste
Ao desespero
E à solidão
Nada existe
E o tempo é triste
Sem você
Meu amor
Meu amor
Nunca te ausentes de mim
Para que eu viva em paz
Para que eu não sofra mais
Tanta mágoa assim
No mundo sem você
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October 19th, 2007 §
Chico Buarque – Olê, Olá
Chico Buarque
Não chore ainda não
Que eu tenho um violão
E nós vamos cantar
Felicidade aqui
Pode passar e ouvir
E se ela for de samba
Há de querer ficar
Seu padre, toca o sino
Que é pra todo mundo saber
Que a noite é criança
Que o samba é menino
Que a dor é tão velha
Que pode morrer
Olê olê olê olá
Tem samba de sobra
Quem sabe sambar
Que entre na roda
Que mostre o gingado
Mas muito cuidado
Não vale chorar
Não chore ainda não
Que eu tenho uma razão
Pra você não chorar
Amiga me perdoa
Se eu insisto à toa
Mas a vida é boa
Para quem cantar
Meu pinho, toca forte
Que é pra todo mundo acordar
Não fale da vida
Nem fale da morte
Tem dó da menina
Não deixa chorar
Olê olê olê olá
Tem samba de sobra
Quem sabe sambar
Que entre na roda
Que mostre o gingado
Mas muito cuidado
Não vale chorar
Não chore ainda não
Que eu tenho a impressão
Que o samba vem aí
E um samba tão imenso
Que eu às vezes penso
Que o próprio tempo
Vai parar pra ouvir
Luar, espere um pouco
Que é pro meu samba poder chegar
Eu sei que o violão
Está fraco, está rouco
Mas a minha voz
Não cansou de chamar
Olê olê olê olá
Tem samba de sobra
Ninguém quer sambar
Não há mais quem cante
Nem há mais lugar
O sol chegou antes
Do samba chegar
Quem passa nem liga
Já vai trabalhar
E você, minha amiga
Já pode chorar
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September 29th, 2007 §
Carlos Lyra – Chico Buarque
Foi ela que me convidou
Fui eu que não soube chegar
Foi ela que me maltratou
Fui eu que não soube chorar
Andei sete léguas de amor
Chorei sete litros de mar
Mas ela não se saciou
Mas ela não soube esperar
Foi ela que me condenou
Sou eu que vou lhe perdoar
Foi ela que tanto pecou
Sou eu que vou me confessar
Foi ela que se ajoelhou
Sou eu que vou ter que rezar
Foi ela que me arruinou
Sou eu que vou ter que pagar
Foi ela que me incendiou
É fogo na roupa contar
É mais uma história de amor
Que outro me tome o lugar
Não está mais aqui quem chorou
Um outro que venha chorar
É mais uma história vulgar
Mas se ela bater faz entrar
É mais uma história de amor
Mas se ela chamar diz que eu vou
Correr sete léguas de amor
Beber sete litros de mar
Pra ela dizer que acabou
Pra ela dizer que acabou
Pra ela dizer que não está
Pra ela dizer que não está
ouça aqui
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July 16th, 2007 §
Pois é
Fica o dito e o redito por não dito
E é difícil dizer que foi bonito
É inútil cantar o que perdi
Taí
Nosso mais-que-perfeito está desfeito
E o que me parecia tão direito
Caiu desse jeito sem perdão
Então
Disfarçar minha dor eu não consigo
Dizer: somos sempre bons amigos
É muita mentira para mim
Enfim
Hoje na solidão ainda custo
A entender como o amor foi tão injusto
Pra quem só lhe foi dedicação
Pois é, e então…
—
ouça aqui
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November 1st, 2005 §
- pós The Beatles
Saíram do cinema abraçados, como se fossem dois namorados. Deram vexame durante a exibição da fita, quando pararam para tomar um café, antes de entrar no carro, dentro do carro, nos sinais, até mesmo quando ela estacionou para deixá-lo em casa.
“Sobe?” Diz ele ao se prepara para saltar do carro. “Não posso.” Ela responde sem muita convicção. “Porquê?” “Você sabe.” “Você pode sim. Não quer.” “Não posso. Ele pode chegar a qualquer momento.” “Dane-se ele! Aliás, dane-se tudo! Você sabe que ele tá comendo meio mundo agora! E a outra metade comeu pela manhã! E você não o ama mais!” “Para com isso! Aqui no meio da rua! E se um vizinho passa por aqui?” “Melhor! Assim você tem de assumir tudo logo de uma vez e paramos com essa palhaçada. Porra! Faz cinco anos que saímos quase todo fim de semana. O cara viaja na quinta, sobe pra Petrópolis, Teresópolis, Patópolis, sei lá, e te deixa aqui para eu tomar conta.” “Pára! Você sabe que não é assim! Eu te amo, mas eu o amo também!” “Ama? Como se ama um cara com quem você não transa faz dois anos e meio?” “Porra. Vamos ter essa conversa aqui, no meio da rua?” “Não. Podemos subir e ter essa conversa lá em cima, se quiser. E eu sei que você quer.”
Subiram tensos os lances de escada até o terceiro andar. Era uma apartamento antigo em Botafogo. Daqueles com varanda ampla e salas enormes e cozinhas monumentais. Tinha apenas o inconveniente de não ter elevador mas, melhor, o condomínio ficava mais em conta. Ele tinha alugado-o numa distração do proprietário. Era um esquema de aluguel para conhecidos de conhecidos e ele quase que conhecia alguém que estava deixando o apê. Deu uma de João-sem-braço e se ofereceu como candidato à vaga. Sorte que foram com a cara dele e conseguiu alugar sem que pensassem duas vezes ou pedissem suas referências. Estava lá há três anos e não pretendia se mudar tão cedo dali.
Abriram a porta do apê. Ela se sentia em casa, mas essa era uma sensação que lhe incomodava tremendamente. Estava tudo errado. Ela era casada, tinha três filhos lindos e saudáveis. O marido sempre lhe fora carinhoso e atencioso. Até ela o conhecer de verdade. Antes de descobrir que ele pulava mais a cerca que carneiro rebelde. Daí para ela encontrar um amante foi um passo fácil. No início se sentia suja, mas aprendeu a gostar da sujeira, de se emporcalhar com o corpo do outro, a se sentir desejada, cortejada, a fazer com que gozassem com o seu gozo e a tomar o suor do outro como quem toma um copo de alma alheia. Comia os amantes como quem faz desejum em hotel. Dava na pinta. Deixava dicas. E ele parecia gostar disso. Devia gostar mesmo, o puto. Não lhe amava. Não sabia lhe dar valor. Não mais lhe beijava em público, tampouco lhe roçava as mãos nas ancas ou nas coxas quando se aproximava por trás. A sua nuca já lhe era território virgem novamente. Aliás, virgem nada. Ele que se fiava por mapas velhos enquanto outros aventureiros abriam bandeiras por ali. Ela era a fêmea-alfa agora. E ele apenas o provedor dos filhos.
“São cinco anos que estamos juntos e você nunca mais falou em largar aquele cara. Você já não o ama! E sei que não sou o teu primeiro amante. Você mesma disse isso para mim.”
Ele falava como quem implora e isso era o quem mais a irritava. De início era bonitinho ter um macho que falava fino quando ela mostrava a que veio, quando se mostrava dona da situação e colocava-os no seu lugar, de consolo que beija e anda. Esse nem era especialmente bonito, forte ou viril. Como dizia, era exatamente isso que ela achava interessante de início. E ele era do tipo medroso, um lucky bastard na escala evolutiva. Fugiu do leão ao invés de enfrentá-lo e sobreviveu para dar cria. Gerou toda uma linhagem de covardes, cagões que não honravam as bolas por conta dessa cepa ruim, desprovida de brios e amor-próprio.
Com ela não era diferente. Se dissesse para ele passear de mãos dadas em pleno Centro Comercial de Copacabana ele se derretia como criança no dia doze de outubro. Se ela mandasse ele não olhar na cara dela enquanto andavam pelo Fashion Mall, ele se portava como empregadinho subjugado. Talvez por isso tenha durado tanto. Cinco anos nessa mesma merda e ele só começou a reclamar agora. Deve ter mulher nova nessa história.
“Eu tô vendo uma outra pessoa. Estou saindo com a Ângela.” “Com quem? Aquela criança? Hahahahahahahaahaha!” “Não fala assim dela. Ela me ama!” “Ama porra nenhuma. É uma mal-comida que tá doida para amarrar o primeiro mané.” “Porra! Ela quer ficar comigo. Será que você não sacou que tô de saco cheio dessa vida de piroca de gaveta? Quero acordar do seu lado uma vez na vida. Ou melhor, quero acordar do lado de qualquer mulher que me queira.” “Mas, bicho, a Ângela? Ela é pagodeira. E vai em micareta. Não tem nada a ver contigo!” “Foda-se! Ela quer dormir comigo, me apresentar aos amigos dela e eu a apresentarei aos meus.” “Que amigos, cara? Os coleguinhas de vinte anos dela? PORRA, você é dezesseis anos mais velho que ela.” “Pois é. Dezenove anos e na flor da idade e me quer.”
Isso era o que mais lhe incomodava. Por mais que dividissem os prazeres e as confissões mútuas, ela nunca queria saber de sua vida offline e ele era barrado ao tentar saber mais da dela. A sua defesa era tão adaptada ao seu modo de agir que ele nem mais tentava forçar uma situação. Não mais se convidava para eventos ou tentava descobrir onde ela iria e com quem. Aceitara que seria chamado quando fosse conveniente e pronto. De início, isso bastava. Ela era linda, poderosa e se portava como uma deusa do sexo. Uma devota de Istar que se erguia gigante nos seus quase metro e meio. Um olhar bastava para trazer da inação o mais desanimado dos seres. Mas Ângela não ficava atrás e ela sabia disso. Sabia que dali pra frente ela não seria mais quem guiaria a relação. Ela teria os seus homens e ele as suas fêmeas. “Mais e melhores que você.” Pensou baixinho no verso do Chico Buarque.
“Você não vai aturá-la mais de dois meses.” “Que seja! Mas serão dois meses sensacionais.” “Cara. Você não dirige e ela só pensa em carro, cachorro e samba.” “Eu ensinarei coisas novas a ela. Mostrarei o que a vida tem de bom.” “Vai ensinar o quê? As novas vertentes do Rock Inglês? As composições atonais do Arrigo Barnabé? Filosofia Moderna? A teoria do Inifinitesimal de Hegel?” “Leibnitz. É do Leibnitz. Definição do limite. ‘Deus está no limite.’” “Ha! Duvido até que ela leia qualquer coisa que você dê a ela.” “Na boa? Prefiro viver um amor furtado que isso que temos hoje. Não dá mais.” Ela levantou-se, pegou a bolsa, dirigiu-se à porta. “Babaca.”
Desceu calmamente a escada. Entrou no carro. Mal conseguiu colocar a chave na ignição de tanto que as mãos tremiam.
“PORRA! Não posso chorar por esse babaca.”
Lentamente o céu se solidarizou com a dor da segunda rejeição de sua vida.
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July 25th, 2005 §
Dez da noite. “Moçomedáumtroco?” “Vai trabalhar, vagabundo!” “Moçamedáumtrocopelamordideus?” “Tenho não, menino! Me deixa” “Mossumtroquinhosópreucompráumpão?” “Tenho aqui, menino, toma esse vale-bóia!” “Brigadumossu!” “Nada. Toma juízo e não cheira cola”
Compra um pão na graxa, coca-cola. Sobra um troco. Compra bala. Na padaria fazem uma quentinha com o frango que tava sobrando no forno e com um pouco de farofa. Vai até a calçada, perto da igreja e escuta uma música que sai, quase calada, de um apartamento do segundo andar do prédio.
“Oh, pedaço de mim/Oh, metade arrancada de mim/Leva o vulto teu/Que a saudade é o revés de um parto/A saudade é arrumar o quarto/Do filho que já morreu”
Sem entender bem, o menino se encosta na parede, não briga mais pela comida que os outros moradores de rua teimam em comer. Passa por ele o carinha que lhe deu o tíquete para comer. Ele passa olhando o chão, desviando do olhar daquele menino magro que não reconhecia mais. O menino não mais tinha fome de bala, pão e cola, mas tinha um vazio dentro de si que não cabia mais em alma alguma.
Entra na portaria com pressa, preocupado com a segurança, cumprimenta automaticamente o porteiro que mal o nota, chama o elevador, aperta o quarto andar, depara-se frente ao 403. Respira fundo. Abre a porta. A casa, vazia, cheirava a ar fechado. Fazia um ano desde que os planos ficaram sem pé nem cabeça, que o sentido das coisas perdera-se num arroubo, num desejo desenfreado. Num querer mais que um poder fazer. Olhou para tudo aquilo que planejara para dois e olhava para si só no espelho do corredor.
Abriu as janelas, e escutou a música que vinha do vizinho de baixo. Chorou baixinho, humilhado pela vida que o atropelara.
Levantou-se, verificou se o gás estava ainda desligado, se o telefone, a luz não. Abriu o chuveiro, tomou banho frio após da água turva de cano parado cair por dois minutos. “Que filho da puta tá ouvindo Chico a essa hora?” pensou um tanto quanto alto. Mas não tinha importância.
A cama estava lá, os lençóis, os travesseiros. Empoeirados, mas arrumados. “Ela vem aqui uma ou duas vezes por mês” falou para si. Sentou à beira da cama, levou as mãos à face e anoiteceu. Antes, porém, ligou para ela do seu celular e desligou antes que ouvisse a sua voz.
“Idiota! Ele não sabe que existe bina?” falou para o atual namorado. Era o oitavo desde que saíra do apartamento. “Esse babaca ainda te procura? Já disse que eu cuido disso para você! Eu dou uma coça nele que nunca mais ele vai pensar no teu nome!” “Não precisa.” “Precisa sim.” “Deixa. É passado para mim. Ele que quer que vire presente de novo.” “Não te entendo.” “Nem precisa. Deixa.” “Tá bem. Vamos na Bunker hoje?” “Não. Tem hip-hop hoje e tô fora dessa.” “Ok. Pra onde então?” “Sua casa.” “Ok.”
“Esse não dura nem mais uma hora! Cara chato!” Pensou calada e subiram devagar a República do Peru no Omega Preto com vidro fumê e neon nos faróis. “Odisséia? Que tal?” “Olha, se você não me quer hoje, ok, pode falar!” “Que isso, amor, e eu sou de negar fogo?” “Não tô falando disso.” “Tá falando do quê?” “Nada, deixa.” “Se você não falar, não vou saber o que fazer, né? Não tenho como adivinhar.” “Não é você, sou eu. É comigo.” “Ok. Quer que eu te deixe em casa?” “Não. Me deixa aqui na esquina com a Barata Ribeiro.” “Uai. Você não mora no Leme?” “Me deixa aqui, Anda!” “Tá bom. Se cuida. Juízo!” “Tchau! Te ligo, tá? Não me liga!” “Ok. Você é quem sabe.” Ela saiu andando em direção ao prédio quando o menino virou-se para ela. “Moçaquimúsicaéessaaíassim?” “Música? Acho que é o Chico. Chico Buarque.” “bunitaamúsicanuncaouvisabia?” Ela sorriu e caçou um dinheiro na bolsa. Quando viu, ele tinha partido.
Abriu a porta da portaria, cumprimentou o porteiro que acenou enquanto resmungava alguma coisa e cruzou com o casal do 201. Apaixonados, via-se de longe. Não desgrudavam um segundo e faziam cena o tempo inteiro. Uma vez, surpreendeu os dois no elevador num amasso só. Vira e mexe, tinham marcas nos pescoços, braços e sabe-se-lá-mais-onde. Isso ela, que só ia no apartamento duas ou três vezes ao mês.
Saltou no quarto andar. Andou até o 403. Viu a luz por debaixo da porta. Tremeu de cima a baixo. Ouvia uma música que vinha de dentro do apê. “Ai meu Deus. Ele tá tocando o Chico…” pensou.
Lentamente colocou a chave na porta. Abriu-a. E o viu com o violão no colo. Desabou ali mesmo. Já não era mais dona de si.
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March 18th, 2003 §
Chico Buarque – Ruy Guerra/1972-1973
Para a peça Calabar de Chico Buarque e Ruy Guerra
Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro abril
Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
“Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dose de lirismo…(além da sífilis, é claro)*
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora…”
Com avencas na caatinga
Alecrins no canavial
Licores na moringa
Um vinho tropical
E a linda mulata
Com rendas do Alentejo
De quem numa bravata
Arrebato um beijo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
“Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto
Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto
Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas o meu peito se desabotoa
E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa…”
Guitarras e sanfonas
Jasmins, coqueiros, fontes
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre Trás-os-Montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial
* trecho original, vetado pela censura
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