March 11th, 2010 §
Eu estava há tempos para contar essa.
Um amigo me conta da moça que fez a corte e o arrebatou. Arrebatou naquelas, né? Ela é bonita, inteligente, culta, divertida. Tinha lá os seus quês e senões que toda mulher quando passa dos trinta e cinco amealha pelos homens da vida. Tinha-os e não escondia. Sinal de que sabia onde pisava e que já havia pisado por esse caminho várias e várias vezes. Aí gostou do cara e partiu para a decisão: “bora se querer!“
Obviamente, um homem, do sexo masculino, heterossexual praticante, convicto e disponível não teria como resistir a tal oferta. Foi surpreendido, logo de cara, com a iniciativa da moça. Ela sabia o que queria e – aparentemente – era o mesmo que ele. Daí não teve dúvida, só havia a tecnicidade da coisa. Tinham encaixe, tesão, afinidade, papo mas algo pintava e não havia finalização. Na quinta vez que se pegaram loucamente, uma surpreendente, prematura e indesejável visita de Francisco interrompeu o desejo da moça que não fazia uso de lazer na maré vermelha. Fato, sempre tinha algo para atrapalhar.
A moça começou a achar que era com ela o problema, que era desencanada demais, que ”quem mandou querer dar uma de homem e cantar o moço“ e tal. Ele, que era um azarado, que fazia tempo que a horta dele não chovia tanto e ele ali, amarrado com a moça que não queria descer, mas não dava de jeito e maneira. Aí foram esfriando, esfriando e deixaram a coisa ali de lado.
Mas o moço virava as noites pensando na história que não tinha terminado, nas possibilidades, nos ”e se…“. Certa feita, eles se esbarram nos bares para solteiros com mais de trinta e a tensão era visível. Inadvertidamente, ele pergunta se ela ainda pensava nele. Obviamente, não. A fila anda e o caixa é rápido, né?
E ele foi para casa remoendo mais que antes.
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January 18th, 2010 §
Aprendi hoje que, na tradição judaica, a mulher é quem materializa os sonhos do homem. É uma capacidade feminina fazer do ideal, do imaginado, algo palpável, material e real. Tem algo a ver com malkuth (ou algo parecido) e com as naturezas diferentes entre o homem e a mulher.
Não sou do tipo de pessoa que acredita em mandingas e patuás, mas jogo o sal por cima do ombro esquerdo, quando cai acidentalmente na mesa, não pego o saleiro na mão e tampouco coloco tranquilamente a bolsa de comida no chão. Bom, talvez isso eu faça, mas a contragosto.
É uma questão mais de respeitar a tradição por detrás do ato que o ato em si. Não acho que dê azar ou mal agouro pegar o sal na mão do outro ou deixá-lo esparramar na mesa. Mas sei o que isso significa no decurso de alguns milênios de escassez. O sal, pasmem meninos e meninas, não era tão fácil de se ter em casa, dois mil anos atrás. Tampouco o sorvete, mas isso é outra história.
Pois bem, gosto de conhecer a história das coisas, mesmo das coisas inventadas, e respeito a tradição que elas carregam. Podem até ser besteira – leite com manga, espelho quebrado, passar debaixo de escada, deixar o chinelo virado, etc. – mas tudo tem um porquê escondido. Uma história passada de mãe para filha e repetida ad nauseum anos e anos e anos.
Daí, quando esposa me conta isso, tento entender o que está por detrás da história. Entendo um pouquinho mais como os judeus antigos pensavam (ou ainda pensam, sei lá!) e deixo-me levar pelas metáforas das sephiroth, dos trinta e dois caminhos e das energias. Mas não era isso que eu queria contar.
Ela me perguntou quais sonhos eu tenho comigo, guardados no meu core. Não são muitos, conto-lhe. Terminar os estudos é um deles. Meus dois livros e a peça, outro. Engajar num estudo mais aprofundado sobre um assunto que tenho perseguido há alguns anos, mais um. Sonho também com o futuro da minha filha, mas isso não é um projeto “meu”, pelo contrário, é um projeto nosso: eu e ela, tanto mais ela que meu. E só. Ela me olhou um pouco decepcionada, acho, e eu emendei: nunca pensei em durar muito nesse mundo. Sou efêmero, diáfano, transitório. Não quero deixar outras marcas que um filho, umas histórias, umas lembranças. Nada que dure mais que uma, duas gerações para depois que eu partir.
Não tenho esse afã de mudar o mundo mais que cada um de nós já faz quietinho, no dia-a-dia. Não tenho afã de amealhar bens, títulos, glórias, deixar heranças, ruas, parques ou edifícios.
Estou contente em ser um anônimo. Um anônimo com poucos projetos, pouca ambição e vontade infinita de ser nada. E isso dá um trabalho…
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November 26th, 2009 §

“Dois conhecidos se reencontram trinta anos depois. Brincavam juntos nas areias de Copacabana, quando tinhams menos de dois dígitos de idade. Um deles, filho de um médico, tornou-se um famoso economista, conselheiro de nações, gênio mundial, outro escolheu a felicidade do dia-a-dia. Almas gêmeas.”
Eu ia escrever uma crônica, talvez extensa, sobre esse encontro e iria derramar tinta por conta de um diálogo que imaginei no caminho para o trabalho. Mas alguém vem e faz o trabalho por mim.
A genialidade não está pensar, imaginar, bolar. Tampouco em fazer acontecer. A genialidade está no in between, é desapercebida para quem é, óbvia apenas para quem admira.
Como um quadro. Como uma frase. Uma tagline.
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October 26th, 2009 §
Ele: Você se arrepende de algo? já pensou em desistir?
Ela: Não. Nunca!
Ela olha pros olhos tristes e desanimados dele. Ele está caçando algo entre os pés. Brinca com os dedos na mesa e encara o café como se alguma resposta estivesse misturada entre o açúcar e o creme. Talvez a borra… talvez a fumaça lhe trouxesse uma resposta.
Ela: E você? pensa?
Ele: Sempre. Todo o tempo. Todos os dias. O tempo todo.
Ela: Por quê?
Ele: Porque eu sou eternamente insatisfeito. O que tenho hoje não me contenta. Não me basta. Não acho que tenha nascido para ser realizado de qualquer forma. Fico comparando o agora com o que poderia ser, com o que jamais será.
Ela: E daí?
Ele: Não me arrependo. Nem desisto. Só não sei se as coisas são para sempre. Ou se deveriam ser assim. Para sempre.
Ela: E o que eu faço com isso?
Ele: Não sei. Não é justo, fato. Algumas coisas não deveriam ser ditas ou insinuadas.
Ela: E por que você veio com o assunto à tona?
Ele: Porque isso tem de ser dito.
Ela: Você me ama?
Ele: Amo.
Ela: Você ainda me quer.
Ele: Sempre.
Ela: Então, qual o problema?
Ele: Isso aí, o que temos. Tenho medo de que seja felicidade.
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October 18th, 2009 §
Era uma vez um mercador que vivia entre as cidades impossíveis levando e trazendo o que não era seu para pessoas que pouco tinham a ver consigo. Ia de Calicute, a cidade dos deuses-elefantes, a Madripor, dos prédios de jade; de Bagdá, dos tapetes voadores, a Mu, a cidade afundada. Pasava por Atlântida, por Eldorado, Zion, Ur e Tiges e carregava suas montarias com âmbar, sílex, bronze, ferrro, linho, seda, mirra, ouro, prata, açúcar, pimenta, cravo, canela e arquivos de emipetrês de bandas dos anos 50.
TInha ciência das rotas pelas estrelas, conhecia os povos pelo seu olhar, as comindas pelas cores, os animais pelos grunhidos e cantares, as pedras preciosas por sua sombra e gosto. Era um homem do mundo, enfim.
Numa dessas viagens, após uma semana de caminhada no deserto, olhou o céu para conferir suas anotações e fazer o horóscopo do mês. Depositou a pena e o pergaminho do lado do saco de dormir e se deixou hipnotizar pela fogueira que morria lentamente. Entre as brasas, encontrou seu teto e entendeu que o seu lar era o caminho entre, o meio. Não possuía nada além de si mesmo, entretanto era amarrado por um destino de horizontes abertos e línguas diferentes, cheiro de cavalos, bois e camelos.
Era essa sua nação.
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September 29th, 2009 §

tirei daqui.
Outra coisa que não entendo é esse medo bobo de perder alguém antes mesmo de começar alguma coisa com ela. Algumas amigas se queixam que não entram em um relacionamento porque têm medo de se machucar, que podem se ferir muito no processo e preferem abrir mão disso. E quem disse que relacionar-se tem algo a ver com cintos de segurança, air-bags e limites de velocidade? quem quer segurança, que fique comendo pipoca na frente da TV enquanto sonha com os romances pré-fabricados de Hollywood.
A vida, querida, queridas, é feita de cuspe, sangue, porra, suor e dor. Quem quer se apaixonar tem de ter coragem para levar porrada na cara de quem mais ama. Pior, de quem não ama, mas deseja com um tesão de largar a família e morar no mato. Tesão de abrir mão de emprego, comida na mesa e roupa lavada. De querer morar na rua com esse indigente sentimental por quem você – tadinha, tão princesinha – se apaixonou e se entesou.
A vida, minha amiga, é foda.
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September 24th, 2009 §
A chuva fina nao apagava a alegria da menina. Saiu da boate com cheiro de cigarro até na calcinha e aproveitou o chuveiro natural para tirar a nhaca da noite boêmia com o ácido que caia na cidade. Apagou o último gole da bebida sem nome e sem categoria na goela que clamava por um almoço. Há três dias não colocava nada de saudável no estômago nem na cabeça. Estava no automático.
Mas é assim quando se tem vinte e bem poucos anos. Uma adultez que não condiz com a falta de grana na carteira e a bem pouca responsabilidade no dia seguinte. É estágio ou emprego júnior em alguma empresa, uma faculdade levada nas coxas, um trabalho tranquilo de loja. Tudo que a pós adolescência classe mediana pede. Mil e quinhentos dinheiros – menos impostos e descontos vis – na conta corrente todo mês e o mundo abre as pernas para você.
A menina chapinhava feliz na chuva que caia em Botafogo. Tinha todo o tempo do mundo nos sessenta anos que separavam aquele dia do derradeiro. Em sessenta anos faz-se muita coisa, até as coisas certas, por incrível que pareça.
Chapinhava feliz, com a boca inchada de tanto beijar outras bocas na festa que tinha nome brega e era mais velha que a própria moça. Chapinhava como no filme que tinha a idade de sua mãe e cujas canções ela desafinava ao caminhar para casa. Tinha vinte e poucos anos, a menina, vinte e poucos anos e achava que a vida se resumiria numa sucessão de festas, boates fedidas a cigarro e bocas beijadas. Vinte e poucos anos.
Que pena dessa juventude. Que inveja dessa juventude.
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September 23rd, 2009 §
O velhinho tinha a mania de procrastinar as tarefas. Achava que assim trapaceava a morte. Certa feita, resolveu colocar algumas metas para si. Escolheu setembro porque era um bom mês, segundo a cabala.
Decidiu ler dois livros difíceis, mas trapaceeou na tarefa. O primeiro era um livro de capa preta e letras miúdas e texto fácil, apesar da complexidade da matéria. Ali, ele aprendeu a entender a natureza humana, que de fantástica tem muito pouco. Que diferimos bem pouco dos macacos, das lesmas e das ferramentas programáveis. Que não somos “fantasmas na máquina”, “tábulas rasas” ou “bons selvagens”. Que somos o que somos e só podemos ser os melhores seres humanos possíveis. E nada mais.
Isso o fez pensar um pouco, sobre o que fizera de sua vida, do que quisera para si e dos momentos de felicidade que tivera até então, no alto de sua velhice matusalênica. Lembrou-se das palavras de uma ex-amiga que disse “só você pode ser você e ninguém pode percorrer o seu caminho”. Isso o fez lembrar de que até no inferno você pode ouvir uma verdade. Até os demônios podem ser sinceros. Aliás, só os demônios o são até as últimas consequências.
O outro era um livro vermelho que dizia como as pessoas pensam e porque pensam assim. Mas esse ele deixou para trás na estrada. Era uma outra forma de desafiar a morte.
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September 21st, 2009 §
São Paulo é mais ela mesma quando chove. Talvez porque seja uma cidade feminina no tratar (nunca vi alguém se referindo a ela como “o” São Paulo), eficiente como só as mulheres são, caótica e confusa como uma TPM, tensa como uma mãe que não vê o filho dar as caras à noite, seca como a amante que não te quer mais.
Quando chove, respira-se melhor. E não tem nada a ver com o ar que fica limpo, mas com o trânsito que vira um mafuá. As pessoas entrincheiradas em casa ou nos escritórios dão mais tempo para o tempo já que esperarão o trânsito melhorar, desistem da “balada” compulsória, da necessidade de “curtir o seu tempo” de aproveitar cada segundo. E respiram.
Fico imaginando as pessoas no século XII, “curtindo o tempo” enquanto esperam a plantação crescer ou cuidavam de sua vida nas cidades que renasciam. O engraçado que curtir é deixar o tempo endurecer algo, no caso, o couro das pessoas.
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September 17th, 2009 §
Nunca mais houve um verão como aquele. As chuvas alagaram o inalagável, transformando a Avenida Atlântica num rio caudaloso e poluído. E foram dias e carnaval de chuva torrencial onde gente morria a balde (desculpem o trocadilho) e chorava os desabamentos em plena Zona Sul da Maravilhosa Cidade de São Sebastião.
Era no governo Brizola, amado e odiado por legiões, e serviu de desculpas para campanhas difamatórias e uma ação de solidariedade da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Eu estudava num colégio católico em Ipanema e me lembro vagamente das pessoas se mobilizando para arrecadar alimento e roupas, tudo sob as bênçãos de João de Deus, o Paulo II.
Da minha parte, eu me divertia era em ver as pessoas procurando abrigo nos cantos de calçada secos, como se a chuva carregasse algo mais que os restos de vida civilizada maré afora. “Essa água tem doença”, minha avó dizia, “não vai na rua que tá tudo alagado”. Eu descia para o play – sim, sou moleque de prédio, criado em pleigraundi – para andar de bicicleta, fazer guerra com garrafas e pistolas d’água e jogar Super Trunfo com as outras crianças.
Quando chove forte no verão (ou no inverno, tanto faz) me voltam as boas e felizes memórias de um refresco no calor louco do Rio, de um tempo em que as coisas pareciam ser mais simples e resolvíveis num par ou ímpar, num zero-ou-um. Que o meu anseio maior era ter uma bicicleta Brandaine e saber se o UltraSeven era melhor que o Spectreman.
Apesar das mortes e das varejeiras que vinham do morro atrás do meu prédio. As vidas que iam, as tragédias, vindas da mesma fonte da minha alegria. Da mesma fonte, alegria e tragédia, ventura e desgraça.
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