Esse é um texto-mulher

November 24th, 2009 § 3

Escrevi hoje cedo que é difícil “levantar é difícil não pelo esforço das pernas, que essas já estão acostumadas ao esforço de carregar o corpo, mas pela vergonha da queda”. Especialmente quando essa dor vem da maior humilhação, daquela que é perpretada diariamente por nós e não nos damos conta até o momento em que deixamos de ser sujeito e passamos a ser o objeto direto.

Tenho amigas que não sabem quando parar de doer uma ferida. Principalmente aquelas que já passaram do prazo. Ser preterido é uma merda, fato. Mas quantas e quantas vezes não fizemos isso com quem passou por nós? pelo carinha que era legal, beijava bem mas era meio mala, meio gosmento. Pelo gordinho que até tinha pegada, mas era flamenguista (ou corinthiano, ou cruzeirense) e ela tinha meio vergonha de ficar com ele na frente dos amigos.

Foda adiada, meu amor, é foda perdida, como diriam os amigos do bas-fond. Aquele amor passado é amor perdido, não tem mais volta. Não com a mesma cara, não com o mesmo fulgor. E quando o rapaz não te quer mais, não adianta ficar cutucando a chaga com cigarro aceso. Não adianta ficar remoendo os momentos ruins, as palavras meio ditas, o “o-que-fiz-de-errado” vivido. É passado já, beibi. Já era.

O lance é chorar a dor do amor verdadeiro, chorar a morte do que foi bom e nunca mais será. Daí é colocar a melhor roupa, chamar as amigas mais periguetes, cair na noite e deixar a vida acontecer.

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Botafogo’s nights

September 24th, 2009 § 1

A chuva fina nao apagava a alegria da menina. Saiu da boate com cheiro de cigarro até na calcinha e aproveitou o chuveiro natural para tirar a nhaca da noite boêmia com o ácido que caia na cidade. Apagou o último gole da bebida sem nome e sem categoria na goela que clamava por um almoço. Há três dias não colocava nada de saudável no estômago nem na cabeça. Estava no automático.

Mas é assim quando se tem vinte e bem poucos anos. Uma adultez que não condiz com a falta de grana na carteira e a bem pouca responsabilidade no dia seguinte. É estágio ou emprego júnior em alguma empresa, uma faculdade levada nas coxas, um trabalho tranquilo de loja. Tudo que a pós adolescência classe mediana pede. Mil e quinhentos dinheiros – menos impostos e descontos vis – na conta corrente todo mês e o mundo abre as pernas para você.

A menina chapinhava feliz na chuva que caia em Botafogo. Tinha todo o tempo do mundo nos sessenta anos que separavam aquele dia do derradeiro. Em sessenta anos faz-se muita coisa, até as coisas certas, por incrível que pareça.

Chapinhava feliz, com a boca inchada de tanto beijar outras bocas na festa que tinha nome brega e era mais velha que a própria moça. Chapinhava como no filme que tinha a idade de sua mãe e cujas canções ela desafinava ao caminhar para casa. Tinha vinte e poucos anos, a menina, vinte e poucos anos e achava que a vida se resumiria numa sucessão de festas, boates fedidas a cigarro e bocas beijadas. Vinte e poucos anos.

Que pena dessa juventude. Que inveja dessa juventude.

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Na paulista…

June 1st, 2008 § 2

publicado na Tribuna da Imprensa

…costumava ser uma expressão usada na faculdade para o ato de passar a brenfa, marofa, canha, baseado, doizinho, pega, a maconha – enfim – com velocidade que, a priori, não deveria ser própria de quem está consumindo um entorpecente relaxador. Ou seja, o cara pega, puxa, traga, e passa sem ter tempo de contemplar o ato, de curtir o momento, e só espera que a onda bata logo. Obviamente pegar a bagana, a vela, a maria-joana, o fumo, o cigarro e ficar contemplando o mundo enquanto ficava olhando a parada queimar lentamente para o nada era chamado de “na carioca”.

Hoje fico pensando se não existe algo mais nessa comparação que a falsa calma do carioca e da pressa inequívoca do paulistano.

Antes que me processem por apologia ao narcotráfico, aviso: nunca fui adepto do uso da cannabis sativa – jamais consegui dar mais que dois tapas e não desmaiar em seqüência – mas curtia ficar com o pessoal na vila dos diretórios acadêmicos da PUC-RJ, na chamada esquina da esquadrilha da fumaça, a quina formada pelas casinhas do povo de desenho industrial, de filosofia e geografia e era completada pela casa do CA de Direito que, diga-se de passagem, o único que tentava fazer algo que lembrava remotamente um movimento estudantil naquela época pós-caras pintadas, pós-reabertura política, pós-ideologias, pós-juventude.

Gostava porque a maioria ouvia o bom e velho rock’n’roll – apesar de um reggae ocasional me torturar a paciência – e todos gostavam de quadrinhos e de alguma literatura. Além disso era o pit-stop obrigatório no caminho do boteco. Esse sim, fornecedor do meu elemento de entorpecimento favorito.

Desculpem se tergiverso um bocado, mas é que me lembrei disso hoje ao andar na Avenida Paulista.

Chovia de um jeito que é cada vez mais raro em São Paulo – chuva fina, tempo frio, vento cortante – e eu ia da Consolação ao Paraíso. Da rua Augusta à rua Brigadeiro Luiz Antônio. Na calçada, a fauna de costume: casais gays na altura do Conjunto Nacional – e da Frei Caneca – jovens executivos entre a Freica e o Trianon, alguns rapazes perdidos no parque, estudantes nos botecos até a Joaquim Eugênio de Lima, mais jovens executivos que foram estudantes há pouco nos mesmos botecos com mesas e cadeiras em plena calçada, hippies/mendigos na altura daquela casa branca que estava abandonada e que fora um MacDonalds até um tempo atrás.

No passar da turba, uma cena insólita. Como sou muito míope, as imagens me vêem aos poucos, sendo construídas no meio da minha falta de foco. Primeiro, um engravatado carregando algo pesado. Depois, consegui ver o portador de terno completo e gravata com mais nitidez. Ele carregava um monitor velho de computador, daqueles de tubo, de umas quinze polegadas, com algum esforço, mas andava com energia e determinação. Mais uns cinco metros consegui ver a face. Barba por fazer, cabelos desgrenhados e loiros, olhar injetado de fúria e os braços de terno sem camisa.

Passou por mim como se não existisse chuva ou destino. Na paulista.

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Amanda

June 27th, 2007 § 0

publicado na Tribuna da Imprensa

Ela subia a escada rolante distraída, conversando com Carol. Ele notou o corte moicano, a pintura pesada do rosto, os piercings labial e nasal e a tatuagem no meio do externo que estava exposto pelo corselete de pano enquanto descia. Ela não se constrangeu com o olhar fixo dele e encarou-o entremeios da conversa com a amiga que, mal disfarçadamente conferia os atributos do rapaz. Aliás, nada de rapaz, rapazola ou moço. Era um típico adultescente que já beirava os quarenta dentro da roupagem de roqueiro modernoso.

Antes das escadas sumirem por dentro do mecanismo, ele se adianta, sai da área de vaza e fica à direita, ainda encarando a menina. Nada diz. Ela sai do shopping enlaçada com a amiga e dispara um último olhar divertido para o rapaz. Guardou-o para referência.

Ele encontrou o colega de trabalho pouco depois de perder o foco no balançar das cadeiras da sua goth chick de estimação.

“Que olhar perdido é esse, Jaime? Apaixonou pela loirinha?” “Nem. A outra.” “Você sempre gostou de mulheres estranhas, né?” “Estranha nada. Diferentes. Exóticas. Inéditas.” “Porra nenhuma! Toda mulher é igual, cara, só muda a casca.” “Verdade. Só que umas são mais iguais que as outras. Dessas eu fujo.” “Você tem cada uma, vamos que o chefe já deve estar puto porque resolvemos almoçar na hora certa, para variar. Pode isso? O cara acha que três da tarde é que é horário de almoço.” “É porque ele chega às onze. Cara, lembrei que deixei o cartão do vale-rango no restaurante. Te encontro lá no escritório.”

Deu o perdido no Gláucio para procurar a menina na praça aberta. Ela fumava um cigarro com a direita. A outra falava com a esquerda. Pareciam que estavam equilibrando os sorvetes de rua com as palavras.

“Oi. Sei que é escroto te abordar assim, no meio do papo com sua amiga e que vocês devem estar dando um tempo para voltar pro trabalho, mas não poderia me perdoar se eu não falasse contigo.” “…” “Bom. Para não atrapalhar mais, meu nome é Jaime e meus email e telefone estão aqui nesse cartão. Não sei se você curte, mas tem o show do Sisters no sábado.”

“Tô sabendo.” Loira Carol respondeu, dando um mole básico visto o desinteresse da amiga. “Eu já comprei os ingressos e tudo o mais. Essa aí é que está fazendo doce.” “…” “Vá sim. Vai ser legal ver vocês duas lá.” Obviamente pensou diversas variações sexuais dada a nova situação, mas voltou a focar na primeira. “Desculpe, você não me disse o seu nome.” “…” “É Amanda. Amanda Mathilde.” “…” “Bom, Ana e…” “Carol. CarolÁine, segundo a mãe dela.”

‘Puta merda!’ – pensou. A face quase traindo os pensamentos indecentes.

“Bom. Tenho de ir. Espero as duas no show sábado.” Correu pro esporro no escritório e a semana se arrastou como cágado manco.

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Matmatah – L’Apologie

May 2nd, 2007 § 0

Matmatah – L’apologie

Cette étrange cigarette ne nous rend pas hagard
L’an 2000 approchant rattraper le retard
Vivons à notre époque et dédramatisons
Non bien sûr le pétard n’élève pas la raison
Je le conseille tout de même avec modération
Comme cet alcool qu’on prend jusqu’à la déraison
Et pour quelques noyés est devenu passion
Mais l’église ne dit rien la cirrhose a raison
Voir un homme tituber ne choque pas la morale
Mais l’alcool tant loué vous est parfois fatal
Et le joint si léger dans mon pays natal
Des libertés de l’homme devrait être banal
Malheureusement chez nous il se vent en sous-main
Si peu dangereux qu’il soit l’état lui fait la guerre
Pour une fausse morale parce qu’il n’en touche rien
Voilà la vérité dans cette triste affaire

{Refrain}

Un pétard ou un Ricard , si t’as vraiment le cafard
A choisir y a pas photo , moi je choisis le maroco
Les alcools ont leurs soulards , le cana c’est le panard
Y’en a qui le mystifient , moi je fais son apologie
Ce serait pourtant si simple de le légaliser
Deux petits joints par jour c’est anti-dépresseur
Si l’état dans ce cas n’était pas l’agresseur
Le peuple tout entier pourrait mieux respirer
C’est encore cette fois par l’argent que le bas blesse
Si au moins le haschisch pouvait emplir les caisses
Nos dirigeants affables fermeraient bien les yeux
Et parfois avec nous s’envoleraient aux cieux

{Refrain}

L’alcool et le tabac ont le droit de tuer
Car aux comptes de l’état apportent leurs deniers
Messieurs dames mourrez donc d’alcool et de fumée
La patente est payée, la mort autorisée

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Let the sun shine in

September 12th, 2006 § 2

publicado na Tribuna da Imprensa

- pós Hair, the original soundtrack

É ali, antes de dobrar a esquina, o senhor dá uma paradinha logo após o sinal que a portaria é ali mesmo.” “O senhor não quer que eu manobro?” “Não, obrigado. É melhor o senhor continuar na Nossa Senhora mesmo. A volta é grande.” Na verdade ele queria sair logo dali e se refugiar em casa. Não se continha nem dentro das calças nem no sorriso que explodia em um sorriso bobo, de amarelar os dentes.

Pegou a carteira. Pagou. Ouviu mas são dez reais e cinqüenta. Disse pode ficar com o troco. Guardou a carteira. Arrumou-se para saltar. Saltou. Deu tchau e boa viagem e bom trabalho e boa segunda feira pro motorista. Atravessou os cinco metros e trinta e dois centímetros do meio-fio até a portaria. Entrou. Disse bom dia e que dia lindo vai ser hoje. Ouviu um muxoxo. Não importava. Correu como criança chegando da escola até o fim do corredor e abriu a porta de casa. Fechou-a atrás de si.

Resfolegava como uma chaleira apressada enquanto descia pela porta. Sentou-se no chão despreocupado com a luz apagada da sala. O sol iria iluminar tudo rapidamente. Aliás, ele contava com isso. Estava um pouco atrasado, sabia, mas daria tempo para tudo. Sempre dava.

Guardou as chaves na mesa, no mesmo local de sempre. As chaves, a carteira, o relógio de pulso, o celular que raramente tocava, a câmera digital ultrafina, o que restava das camisinhas. Chutou os sapatos num canto a esmo. Tinha isso como esporte pessoal: arremesso de calçados aleatórios. Por vezes até vibrava quando caiam com a sola para baixo (os dois, sempre, valiam 30 pontos) ou acertava uma lixeira. Ou quando caiam juntinhos de outros calçados. Uma vez pensou em fazer uma tabelinha de pontos pra isso. Desistiu no momento seguinte. Iria tirar a graça de inventar a pontuação.

Massageou primeiro o pé esquerdo, depois o direito. Cheirou-os. Cortou uma unha que encravava displicentemente. Espreguiçou-se e gargalhou rapidamente.

Puta merda, que noite!” Abriu o laptop e colocou uma música para tocar.

Ih! Hair! Não podia ser mais perfeito.” Tirou a camisa num solavanco. Cheirou-a. Lembrou-se do cheiro dela misturado ao seu perfume. Madeira. O dela era doce.

Azzaro? Azzaro não é doce.” Faltavam cinco para as seis. No relógio que já não carregava no pulso.

Dobrou a camisa com carinho e colocou em cima da cadeira da sala. Casa pequena tem disso, cadeira vira cabide com uma facilidade instantânea. Cabide. Criado-mudo. Apoio para a foda. Existe móvel mais versátil que uma cadeira? Tirou as calças, dobrou-as e colocou em cima da camisa. A cueca foi arremessada junto com as meias (sempre as últimas peças a serem despidas). Nu, deixou-se largar no sofá e enrolou mais dois minutos. Dava tempo, sempre dava. Abriu a janela da sala.

O pátio interno era o seu cantinho. Ninguém a essa hora olhava para baixo. Na verdade, ninguém olhava para aquele canto desde que o síndico proibira que pendurassem roupas para secar na parte de dentro do prédio. Não fazia muito sentido, dizia. Não bate sol ali. Mas as donas de casa teimavam. E as roupas secavam direitinho. O macete era pendurar à noitinha e esperar o amanhecer. Não sabiam o porquê. Mas funcionava. Quem nem homeopatia.

Pulou a janela e, debruçado de volta para dentro do quarto, pegou o cigarro. Acendeu-o na mão e sorriu pro céu.

Ana.” Disse baixinho.

E doze de setembro amanhecia.

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Noite e dia

July 15th, 2006 § 0

Ela virou-se para o lado esquerdo da cama e catou no criado mudo isqueiro e maço de cigarros. Preparou o penúltimo deles displicentemente. Caiu da boca duas vezes antes de casar a chama com o fumo para a brasa. Ficou deitada, nua, de bunda para cima enquanto baforejava o hálito para o espaço entre os braços. Era uma esfinge perfeita: indecifrável em pose e face.

“Posso fumar?” Pediu permissão apenas na terceira tragada. “Pode sim. Não me incomoda o cigarro.” “Você fuma?” “Não fumo, mas não me incomoda. Fique à vontade.”

Ele levantou-se com dificuldade do lado esquerdo da cama e moveu as suas toneladas até uma cadeira perto da mesinha da televisão. Ficou passeando o olhar na cena formada pelos pacotes de camisinhas desperdiçadas, as roupas amarrotadas no chão e ela deitada com a pele ainda brilhando por conta do suor da atividade. Resolveu pedir uma água e um uísque para o serviço de quarto.

“Caramba!” “Que foi, lindão?” “Vinte pratas por uma água e um uisquinho de quinta!” “Nossa! Caro mesmo! Por que você não me levou para um hotel mais em conta, gato?” “…” “Você sabe que não faz diferença para mim.”

Ela desatou o rosário, dizendo que o amava, que ele era lindo daquele jeito mesmo, que era o homem mais interessante que ela tinha conhecido em toda a sua vida. Ele querendo que ela calasse a boca e o chupasse. Só isso.

“O que acontece, amor? Você está avoado… parece que está pensando na vida, na morte da bezerra.” “E tô mesmo.” “Mas qual o porquê disso?” Ele abriu um sorriso canalha disfarçado de gentileza e começou a ensaiar uma ida pro banheiro. “Vou tomar uma ducha. Quer vir?”

Existem diversos tipos de sorrisos: os amarelos, que vêm por falta de opção; os de satisfação por um trabalho bem feito; os cínicos, que saúdam quem você quer ver morto ou vice-versa; os que nascem depois de um gozo com a pessoa que você ama; os que brotam quando você vê que sobrou salário no fim do mês – e não o contrário – e aqueles pelos quais alguém pagou para você dar.

Ela fez um mix dos piores sorrisos e transformou a cara de enfado num expor de dentes instantâneo. De alguma forma irracional aquilo o enjoou de tal maneira que matou qualquer possibilidade de intimidade real com aquela mulher. Sabia que esse era um tipo extremo de perversão, mas gostava da sensação de descontração que algumas conseguiam lhe proporcionar. Não era esse o caso.

Ele desistiu do banho quando pegou a toalha. Ela não: tomou um banho quente, demorado, barulhento e de portas fechadas.

Ele recebeu o garçom à porta e bebeu o uísque em dois goles. Ela apenas se serviu de água. Não bebeu.

Ele voltou a se sentar na mesma cadeira desconfortável. Ela deitou-se de bruços, agora expondo-se para ele. Do seu canto ele podia contar os pêlos do fim das costas, todos dourados pelo sol; a marca de biquíni; a mancha escura de vacina na nádega esquerda; os cravos mal espremidos. Se ela fosse um terreno, daria para fazer um mapeamento topológico completo sem mexer um músculo sequer.

Ele ficou olhando uns bons dez minutos enquanto brincava com o que deveria estar desperto e pronto.

“Benhê. Posso te chupar?”

Ele abriu um sorriso.

A humanidade tinha esperança, afinal de contas.

publicado em Geh – Arte, Seuxalidade, Corporalidade em 15/07/2006

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Das sete da noite à uma da manhã

April 26th, 2006 § 1

publicado na Tribuna da Imprensa

Entrou no segundo lar às sete horas da noite, como era de costume. Procurou a mesinha cativa perto da janela dos fundos. Era quase como uma reserva informal. Os garçons olhavam torto para quem escolhia aquele ponto. Sentou-se e abriu o livro da semana. Não precisava fazer o pedido, não inventava. Era sempre um chope, uma coca-cola e três pastéis de camarão. O melhor pastel de camarão de Copacabana.

Tinha uma rotina meio hermética. Lia algumas páginas de um livro (um diferente por semana) enquanto anotava alguma coisa em um caderno, comia os pastéis, bebia o chope e o seu refil, a coca, daí a conta e de volta para a rua.. Estava perdendo um tempo olhando as pinturas do teto quando o amigo chegou.

“Fala, vim o mais rápido que pude.” “Valeu. Sentaí” “O que tem feito?” “O de sempre, nada.” “Tá foda, né?” “Nem é isso. O dinheiro vem regularmente e há serviço, mas não queria estar aqui, nessa fase da vida, com um emprego. Queria é ter um trabalho.” “Eu sei, já falamos disso.” “Não tenho mais saco para ficar nessa de um dia de FGTS por vez. Porra, tenho experiência, criatividade e acredito que posso fazer diferença.” “Não acredita não.” “Como assim, cara?” “Se acreditasse tinha feito alguma coisa há um ano atrás quando tinha mais tempo e menos compromisso.” “Eu sei, mas tava muito pra baixo e…” “…e nada! Tava com a oportunidade na mão e deixou passar. E não foi a primeira vez.”

Parou, olhou o amigo como se não acreditasse no esporro que estava levando.

“Porra cara, te chamei aqui para ver se você me dava uma força. Tô precisando de um ombro amigo. Não de alguém que fique me tacando as merdas que eu faço na vida na minha cara.” “Mas se não for eu, teu amigo, que te quer bem, quem vai fazer isso? Um filho da puta qualquer? Uma pessoa que não tem o teu histórico? Cara, o afago consola, mas o cascudo educa!”
Respirou um pouco, pediu mais dois chopes e uma coca.

“Mas não era isso que eu vim me queixar. Não tô com grilo do trabalho. As coisas são assim mesmo e vou agüentando um dia por vez. Tô colhendo o que plantei e sei que tem gente em pior situação que eu.” “Bom. Bom saber que você tá encarando a coisa da maneira correta.” “Mas a merda é que eu não aprendo com os meus erros. Você mesmo disse que eu disperdiço as oportunidades.” “Que foi dessa vez?” “Pisei na bola.” “De novo?” “Pois é?” “Porra, que foi dessa vez?” “Não sei não ser sincero. Me perguntam, eu respondo. Você sabe como é.” “Caralho! Que você falou dessa vez?” “Besteira.” “Sempre é.” “Mas o que interessa é que quebrei o encanto dela. Tô bolado.”

Mais dois chopes. Sem a coca. Seguidos de mais dois e pastéis.

“Eu só queria que ela soubesse que cada mulher é especial de seu jeito. Eu as amo do jeito que elas se apresentam e não consigo negar que o encanto feminino é como se fosse uma chama para mim…” “… e você, como boa mariposa, se queima no fogo e se fode no processo.” “Pois é.” “Do que você tá reclamando, meu irmão? Tá certo que essa menina aí é especial, mas a anterior também era e a que veio antes dessa também e a que veio antes e antes e antes. E você sempre se apaixonou perdidamente e sempre meteu os pés pelas mãos e sempre repetiu o mesmo erro. Caraca! Parece que fugiu do ‘Brilho eterno de uma mente sem lembranças’ e tá vivendo a porra toda de novo.” “É mais ou menos isso mesmo.” “Então você sabe que vai ter uma outra à frente que você vai se encantar e vai encantá-la e vai tocar o barco. A vida continua.”

Doze chopes contados para cada lado da mesa. Duas cocas. Alguns pastéis. Cigarros e papo sobre cinema, televisão e livros.

“Sabe que não tem lugar mais solitário que uma multidão, né? Uma multidão de desconhecidos que não te entende nem sabe o que se passa no teu core.” “Sei desse lugar-comum sim.” “Então. Eu tive que passar por cem paixões e mil e uma noites até chegar nessa mulher. Saber que errei mais uma vez ao me expor, ao não querer fazer o jogo de ‘eu banco um tipinho para você e você banca uma tipinha para mim’. Saber que errei sendo correto, o mais correto que eu poderia ser, me desmonta sabe. E no final da história eu apenas estou cansado. Enfadado de ter de procurar uma face amiga.” “…” “Não sou mais freqüentador de Baixo Gávea que encontra todo o seu universo de amigos instantâneos ali. Não tenho mais lugar para chamar de minha casa. Não tenho mais onde receber os que quero bem. Subloco um espaço no coração de um ou dois. Pior. Não sei mais dar abrigo a quem precisa ou quem possa me querer. Ao primeiro sinal de locação, expulso.”

O amigo parou. Pediu a conta. Viu a hora que marcava no relógio de ponteiros do botequim.

“Irmão, são uma e quinze da manhã. Tá na minha hora.” “Tô sabendo. Vou puxar o carro também.” “Sabe… não sei o que é pior. A solidão do múltiplo ou a dependência do único.” “Cada qual com o seu inferno, né?” “Ainda bem que é um só.”

Saiu um pouco depois do amigo, atravessou a Atlântica e tinha a idéia de esperar o sol nascer no banco de cimento perto da praia. Viu um casal saindo do Sand’s Motel e tentando limpar a areia dos locais impróprios. Neles havia um sorriso, um brilho no olhar, que só quem acabou de se descobrir amando terrivelmente tem.

Tirou os sapatos. Atravessou a areia. Sussurrou o nome da amada para a espuma das ondas.

Ela atendeu ao chamado.

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Des armes – Noir Désir

April 11th, 2006 § 1

Des armes, des chouettes, des brillantes
Des qu’il faut nettoyer souvent pour le plaisir
Et qu’il faut caresser comme pour le plaisir
L’autre, celui qui fait rêver les communiantes

Des armes bleues comme la terre
Des qu’il faut se garder au chaud au fond de l’âme
Dans les yeux, dans le cœur, dans les bras d’une femme
Qu’on garde au fond de soi comme on garde un mystère

Des armes, au secret des jours
Sous l’herbe, dans le ciel et puis dans l’écriture
Des qui vous font rêver très tard dans les lectures
Et qui mettent la poésie dans les discours

Des armes, des armes, des armes
Et des poètes de service à la gâchette
Pour mettre le feu aux dernières cigarettes
Au bout d’un vers français brillant comme une larme

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TABACARIA – Fernando Pessoa

March 26th, 2006 § 2

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos, 15-1-1928

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