Bruno Aleixo à escola

January 8th, 2009 § 1

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Potência e decisão

November 11th, 2007 § 4

publicado na Tribuna da Imprensa

Fui ao cinema. Tudo bem, não há novidade ou nada excepcional nisso. Costumo ir ao cinema umas três, quatro vezes ao mês. Assisto a filmes infantis com a filhota, a filmes de violência descerebrada com os amigos, e comédias românticas com as demais companhias.

De fato estou indo menos ao cinema que fui dos 15 aos 18 anos. Em parte o preço dos ingressos não estimula a minha ida – me recuso a falsificar a carteirinha de estudante e compactuar com mais uma infração generalizada – e o advento do DVD me mantinham longe das salas escuras e da tela gigante.

Desde que vim para Sampa, eu retomei o hábito de “cinemar” ao menos umas duas vezes ao mês. O fato de eu morar a poucas quadras da maior concentração de salas de cinema do país ajuda um bocado e tenho diversos amigos cinéfilos. Desses que acham um absurdo eu não ir a todas as sessões do festival de cinema de SP ou à mostra de curtas do cinema francês no SESC.

Fato é que, mesmo com hábito que ressuscita, ontem assisti a um filme quase que por acaso. Tinha saído de casa sem pretensão maior de ver um filme leve, comer pipoca e ficar de carinhos no cinema. Um programa quase adolescente, confesso, que me agrada muito quando a companhia é divertida, bonita, carinhosa e inteligente. No caso, sim, sim, sim e muito sim.

Acabamos indo ver Leões e Cordeiros mais por conta do horário que pela escolha do filme em si. No filme, o personagem de Robert Redford é um professor que tenta retirar um aluno do marasmo que ele se encontrava, da vida fácil e rasa que a nossa sociedade do espetáculo tanto oferece, seduzindo, quando nos draga, suga e drena para se manter eternamente rasa. Uma nata fina, tenra e desejada por todos. Não era o mote principal do filme, ele passa por questões mais amplas como o equilíbrio entre audiência e notícia – questões importantes do infotainment moderno – e pelo equilíbrio de forças geopolíticas atual.

Mas o que me moveu de fato foi uma cena rápida. O professor vira-se pro aluno que é brilhante, mas está desestimulado com o que tem pela frente e ele solta a seguinte pérola: O que você é, essa potencialidade tua, essa tua capacidade de realizar agora, nunca mais acontecerá. Você será uma pessoa diferente daqui para a frente e verá que desperdiçou a sua própria capacidade de realizar, de mudar as coisas. Não foi bem com essas palavras, mas foi nesse tom. O menino retruca que de que adianta tentar? Se fizer direito, mudaremos pouco. Se errar, não mudará. Se não tentar, nem um nem outro darão errado.

Nunca fui senhor de meu destino. Minha vida é como uma biruta que vai de acordo com o vagar do vento e, até ontem, isso nunca havia me incomodado. Não pretendo usar esse espaço como depósito de confissões e frustrações, pois elas já ocupam boa parte do tempo dos meus amigos que ainda teimam em me escutar lamuriando e reclamando, mas ontem, definitivamente fiquei abalado.

Não sei mais como encarar a minha filha sem pensar: “o que fiz para tentar melhorar o meu mundo, justamente quando o mundo esperava que eu mudasse?” Que tipo de exemplo ou conselho eu darei para ela? Será que ela sequer vai ter esse tipo de dúvida alguma vez na vida?

Por favor, quem se pegou pensando nisso ou se moveu para mudar as coisas, levante a mão. Já que a minha ficará abaixada.

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Primeiras lições de tolerância

March 15th, 2007 § 3

publicado na Tribuna da Imprensa

Catarina estava brigando com o sono, lagartando no sofá da sala enquanto fingia ver todas a programação proibida para menores de 14 anos na tevê – leia-se a novela das nove e o filme que passa às segundas-feiras logo depois – e ficou entretida com um filme que me causou um tanto de desconforto.

O filme tratava de uma dupla de amigos que entraram num cruzeiro só para gays e havia de tudo: de travestis a barbies, passando por ursos e empresários ibemezados que embarcavam para soltar a franga. Os dois protagonistas estavam num mato sem cachorro, já que eram hetero e homofóbicos.

Se não fosse o fato de uma criança de oito anos, teimosa como o pai, a insistir em assistir a algo que eu não estava disposto a explicar, não haveria problemas. Mas Catarina tem essa tenaz que dobra qualquer um, né? Então estava lá eu, do lado dela, tentando explicar que era uma comédia ruim, que os atores são ruins, que a história é boba, etc.

“Pai. Como assim eles são gays?” “Catarina, gay é quem – grosso modo – gosta de namorar alguém do mesmo sexo. Tipo menino com menino e menina com menina. E alguns deles têm esse jeito aí que você está vendo. Outros não. Mas isso é um filme, sabe? Não é bem assim assado.”

Ela me olhou intrigada quando, súbito, um travesti de cinqüenta metros dava um beijo no protagonista. Ela me olhou mais intrigada não entendendo mais nada.

“Aquela moça é um homem vestido de mulher, Cacá.” “Por que ele faz isso? Que bobo?”

Encasquetei um pouco. Como dizer para ela que isso tudo não faz diferença, que o fato deles se divertirem assim é o que importa? Ah! Já sei!

“Catarina, você gosta de Sandy e Júnior, né?” “Gosto, pai.” “E eu gosto disso?” “Não.” “Mas você fica feliz ouvindo os dois até o CD furar, né?” “CD não fura, pai.” “Eu sei, meu amor, é só uma metáfora.” “O que é metáfora? Tem no filme também?” “Não. É uma alegoria.” “…” “Ok. Você gosta e eu não. Mas o que importa aí é que somos os dois felizes, né?” “Sei. Então eu posso comer doces agora?” “Não. Você já escovou os dentes.” “Mas eu iria ficar feliz se comesse um doce.” “Ai Catarina…”

Olhei meio impaciente, como de costume, mas resolvi tentar de novo.

“Sabe o seu tio, o Marcelo?” “Sei.” “Você gosta dele, né?” “Gosto.” “Mas ele é chato, né?” “É.” “E faz piadas bobas, né?” “É.” “E você gosta disso?” “Não.” “Então.”

Ela encasquetou mais um bocado, comeu um doce – sim, não consegui negar o doce ante a argumentação veemente anterior da menina – e me sacou a seguinte: “O que importa é que gostamos dele, né?”

E eu sou tão orgulhoso dessa baixinha.

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