Dos Homens

November 27th, 2007 § 10

publicado na Tribuna da Imprensa

Todo homem trai.

Se não está traindo de fato, trai em vontade, desejo e projeção. Não conheço homem que nunca cobiçou mulher alheia ou a mais gostosa do mundo da semana da revista do mês. E nem é culpa deles. Há teses sobre a poligamia natural dos grandes primatas, sobre o custo de geração de gametas para o homem e a mulher, da compensação logística de distribuição de genes e tal, mas o que importa mesmo é que somos compelidos à traição.

E falo não apenas da traição do homem versus mulher, marido versus esposa, mas da traição de conceitos, de crenças, de princípios e idéias. (Digressiono um pouco aqui. É engraçado saber que, em inglês, a traição de um casal é chamada de cheating – trapaça – enquanto o termo traição – treason – é usada para crimes de estado. Nós, ibéricos, é que consideramos a quebra do contrato nupcial, um crime de estado.)

Lembro agora de Giordano Bruno – ex-padre, queimado na fogueira da inquisição – que foi fiel aos seus princípios hereges até o fim: a terra girava em torno do Sol, o nosso sistema era um dentre milhares, os padres deveriam se casar, sexo não era pecado, mas algo divino, etc. Poucos hoje sabem quem foi esse italiano libertino. Mas de outro, todos se lembram. Galileu Galilei ainda é lembrado por suas observações astronômicas porque soube trair seus ideais na hora certa. Traiu para poder publicar seus estudos com a anuência do papa e deixar um legado que seria lembrado até hoje.

De certo a figura do mártir que não abre mão de sua fé ou de seus princípios é impressionante e comovente, mas aposto qualquer valor que a tolerância e a “flexibilidade teológica” foram mais importantes para converter a Irlanda Celta e os nativos no Brasil que o ferro e fogo lançados nos gregos, palestinos e itálicos cristianizados nos primeiros séculos da era cristã.

Novamente saí do assunto, mas retorno agora. O homem trai porque tem de estar mudando o tempo todo. Não é de sua natureza ser uma rocha, um objeto inamovível à toa. O homem é flexível moral e eticamente e é assim que tem de ser, pois, cada outro homem que ele encontra na vida é um universo alienígena que tem de ser traduzido, entendido e decodificado para que ambos possam se relacionar. Por vezes tem de assumir que as verdades do outro não são as suas e ou ele trai o seu pré-conceito de mundo ou passa a rotular o próximo. Ou ambas as coisas.

Homem trai porque precisa sobreviver e os intolerantes tendem a ser exterminados por sua própria cria.

Outra coisa que me vem em mente é a falácia que do “jovem tolerante” ou “jovem flexível”. Exceto na parte física – saudades dos meus joelhos e costas – nunca vi um jovem flexível, tolerante ou compreensivo. Muito pelo contrário, normalmente são os primeiros a criarem rótulos, a se tribalizarem ou se engajarem feericamente em alguma causa ou objetivo – nem que seja comer todas as mulheres do bairro, ganhar milhões de reais antes dos trinta anos ou beber toda a cerveja existente na Lapa, quiçá, do mundo – por mais absurdo e utópico que seja.

Especialmente os adolescentes.

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A distância da diferença

April 20th, 2007 § 4

publicado na Tribuna da Imprensa

“Você vem hoje?”

O convite nasceu como se tivesse vontade própria. Era óbvio o meu interesse na menina, mas estávamos naquela fase ridícula de disfarçarmos as intenções. Ainda assim, dado o meu papel predeterminado de alfa da relação, o convite teria de partir de mim. Sempre. Saco.

“Me liga quando você chegar no bar. Acho que consigo ir sim.”

Era a quarta vez que eu a chamava. Quarta depois de três desistências em cima da hora. As desculpas variavam do almoço inesperado com a mãe ao abacaxi que teria que, inevitavelmente, ser descascado à meia-noite, impedindo-a de partir ao meu encontro. Algo me dizia que o cerca-lourenço não estava funcionando a contento.

Parti incauto para o evento e mandei um torpedo para a criatura em questão ao chegar ao boteco. Lá, diversos amigos se encontravam em estado de embriaguez adiantado e logo me dediquei a acompanhá-los no tradicional esporte bretão de encher socialmente a cara com chope de primeiríssima qualidade. Dado o advento do primeiro prato de carboidratos à mesa, o celular vibra com uma mensagem de texto.

“Não vou.”

O resto da mensagem pouco importava e, para ser sincero, já era esperado. Quando se chega às raias dos quarenta anos, sabe-se que o não das meninas pré-balzaquianas é mais freqüente que o seu sim. Levanto a questão na mesa e sou repreendido imediatamente pela ala feminina. Diversas amigas dentre vinte e muitos e trinta e poucos discordam do meu questionamento. Outras apenas calaram-se e me lembraram de aventuras (e desventuras) anteriores que comprometiam a minha isenção de julgamento. Súbito, uma voz da razão.

“Se fosse mentira, o tio Sukita não existiria.”

Fato! Sabemos que as propagandas não são exatamente fontes de inovação cultural e, muito pelo contrário, tendem a reforçar opiniões, gostos e preconceitos já estabelecidos para poder agregar ou contrapor elementos dos produtos a serem vendidos. E se uma propaganda mostra um quarentão cantando uma menina de vinte e poucos como um ridículo, há de ter algo de senso comum aí. Ou estarei completamente errado?

Mas me pego perguntando novamente: quinze anos fazem tanta diferença assim? Não no sentido de maturidade e vivência, mas no sentido de distância etária aceitável. Será que um quarentão que sai com uma menina de vinte e cinco anos é realmente ridículo? Será que ele está realmente querendo encontrar uma vitalidade que sente que começa a se esvair de dentro de si ou apenas foram as contingências da vida que os colocaram nessa situação?

Pessoalmente, sempre achei as mulheres com mais de trinta bem mais interessantes que as novinhas. Conteúdo é tudo quando se trata de relacionamento. Há de ter troca sempre entre as partes. E elas tendem a ter um pique mais próximo do que estamos acostumados a levar: cinema, jantar, teatro, cama. Boates e dança só até as duas por conta do trabalho na segunda ou dos filhos que acordam cedo. Eu acho ótimo e certo isso tudo. Ou sou eu que tenho 150 anos morando dentro de mim? E Balzac, o que ele tem a dizer disso tudo?

Independente do querer das pessoas, a noite termina e quinze anos de distância parecem pesar mais que nunca.

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Retrato de um ENTP – Extraverted iNtuitive Thinking Perceiving

March 13th, 2007 § 0

Personalidade ENTP

Como sua intuição extrovertida domina sua personalidade, o que mais lhe interessa na vida é compreender o mundo no qual você vive. Você está constantemente absorvendo idéias e imagens relacionadas a situações com o qual você se depara no dia a dia da sua vida. Fazendo uso de sua intuição para processar essas informações, você é quase sempre extremamente rápido e preciso em sua capacidade de avaliar uma situação. Você é um tipo de pessoa dos que melhor compreendem a realidade à sua volta.

Essa capacidade de compreender pessoas e as situações de uma maneira intuitiva proporciona a você uma distinta vantagem com relação às outras pessoas. Você geralmente compreende as coisas com rapidez e em grande profundidade. De maneira similar, você é flexível e se adapta bem a uma grande variedade de tarefas. Você é bom em praticamente qualquer coisa que lhe interessar. À medida que você crescer e desenvolver mais ainda sua capacidade intuitiva e suas compreensões das coisas (insights), você desenvolverá uma ótima noção quanto às mais variadas possibilidades existentes, e isso lhe fará uma pessoa extremamente criativa e engenhosa na hora de solucionar problemas.

Você é uma pessoa de idéias. Sua capacidade perceptiva faz com que você enxergue possibilidades em todo lugar e em tudo. Você se anima e se empolga com suas idéias, e consegue compartilhar esse entusiasmo com outras pessoas. Dessa maneira, você consegue o apoio do qual você necessita para atingir suas visões do futuro.

Você se interessa menos por desenvolver planos de ação ou por tomar decisões do que por gerar idéias e possibilidades. Acompanhar a fase de implementação de uma idéia até o final geralmente é uma tarefa desagradável para você, mas muitas vezes necessária. Isso pode resultar num hábito de nunca acabar o que você começa. Se você não desenvolver seu lado racional e lógico, você poderá encarar problemas, pois ficará pulando de idéia em idéia sem dar prosseguimento a nenhuma delas. Você precisa tomar o cuidado de avaliar completamente suas idéias, para conseguir tirar vantagem delas.

Seu processo auxiliar, que é a lógica introvertida, guia suas tomadas de decisão. Apesar de você se interessar mais por absorver informações do que por tomar decisões, você é um tanto racional e lógico ao chegar às suas conclusões. Quando você aplica a lógica às suas percepções intuitivas, o resultado pode ser realmente muito forte. Se você conseguir se desenvolver bem, você poderá se tornar uma pessoa extremamente visionária, inventiva, e empreendedora.

Você é uma pessoa que conversa com fluência, que pensa com rapidez, e que gosta de debater tópicos com outras pessoas. Aliás, você gosta tanto de discutir questões que pode até trocar de lado de quando em vez, simplesmente por amor ao debate. Quando você expressa seus princípios básicos, porém, você pode se sentir um pouco esquisito e acabar falando de maneira abrupta e intensa.

Você poderia até ser conhecido como o “advogado”, pois você consegue compreender uma situação com rapidez e precisão, e é objetivo e lógico ao tomar atitudes necessárias. Seu lado racional faz com que suas ações e decisões sejam baseadas numa lista de regras e leis objetivas. Se você defendesse alguém que tivesse cometido um crime, você provavelmente tiraria vantagem das pequenas falhas na lei que poderiam libertar seu cliente. Se você ganhasse o caso, você veria sua ação como totalmente justa e apropriada para a situação, pois suas ações estavam dentro da lei. A verdadeira culpa ou inocência do seu cliente não seria tão relevante. Porém, se esse tipo de pensamento racional passar despercebido por você, isso poderá causar que outras pessoas o vejam como uma pessoa de caráter antiético e até desonesto. Como não é de sua natureza considerar o elemento humano ou pessoal nas suas tomadas de decisão, você deveria se preocupar em notar esse lado mais pessoal e subjetivo das situações. Esta é uma área particularmente problemática para você. Apesar de suas capacidades lógicas lhe darem força e propósito, elas podem acabar lhe isolando das outras pessoas e dos seus próprios sentimentos.

As áreas menos desenvolvidas para você são a da sensação e do sentimento. Se você negligenciar a área da sensação – que é relacionada à sua ciência dos seus cinco sentidos, do “aqui e do agora”, você poderá tender a não cuidar dos detalhes mais mundanos de sua vida. Se sua área sentimental for negligenciada, você poderá não valorizar as idéias das outras pessoas o suficiente, ou se tornar uma pessoa demasiadamente dura e agressiva.

Sob estresse, você poderá perder sua capacidade de gerar possibilidades e se obcecar com pequenos detalhes que poderão parecer extremamente importantes para você, apesar de na realidade não serem tão importantes assim, na visão maior da coisa.

Em geral, você é um visionário animado. Você valoriza muito o conhecimento, e passa muito tempo de sua vida buscando uma compreensão maior das coisas. Você vive num mundo de possibilidades, e se empolga com conceitos, desafios e dificuldades. Quando encontra um problema pelo caminho, você improvisa bem, preparando uma solução criativa com rapidez. Criativo, inteligente, curioso e teórico, você possui uma gama abrangente de possibilidades para sua vida.

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O passeio

November 30th, 2006 § 3

postado em LIVinRooom

Andava sem rumo em plena Visconde de Pirajá. Tomava norte para a Farme, em busca dos bares dúbios e fartos de sexo fácil. Estava acostumado com aquelas esquinas, mas uma sensação de despertencimento lhe vestia dos pés à cabeça. Não reconhecia os rostos dos conhecidos e não se encantava com os olhares lânguidos das meninas perdidas que se amontoavam ali, no baixo Ipanema.

Ao chegar, resolveu subir a rua e tentar um chope no Bofetada. Ali teria uma chance de ficar quieto, mesmo podendo ser assediado pelos estrangeiros que vinham em busca de amores sem preconceitos com os rapazes da área.

Encarou duas geladas e declarou-se derrotado quando pediu uma água sem gás.

Desceu a Vinícius até à Prudente de Moraes e foi seguindo até o Empório. Última chance de diversão descompromissada da noite. À porta, aqueles três manés o desconvidavam a entrar. Ignorou o fato e conseguiu uma mesa perto do DJ.

Para não dar chance à consciência, pediu logo uma água e uma tequila. Na quarta dose já estava amigo íntimo de pessoas que nunca mais veria. Um rosto amável lhe convidou para passar a noite entre lençóis. Ele topou, mas tinha de fazer a dança do acasalamento antes.

Era uma rotina tediosa, essa da corte. Normalmente encarava isso como um esporte, mas o estado etílico presente desaconselhava qualquer tipo de interação que não fosse objetiva. E, batata, a menina pulou fora antes que ele pudesse dar o bote certeiro.

“Cretina!” Soltou sem pensar muito no efeito nas outras fêmeas presentes. “Mulher é assim mesmo. Basta uma não querer que as outras acham que o macho tá podre! Cretinas!”

Ele olhou para os rostos do boteco em busca de simpatia e viu um dos cornos da entrada a lhe chamar. Era o Grande. “Que nome babaca! Quem se dá o desplante de se autodenominar Grande? E Burro? E Gordo? Só faltava ter um Pudim ou um Gambá ali.” Pensou, se controlando para não abrir a boca.

Claudinho não tinha as manias dos outros bêbados de se tornar milionário, poderoso e com carisma infinito. Mas tinha de manter controle cerrado do que costumava falar. A língua lhe crescia em metros quando bebia.

Sentou-se no canto indicado pelo grande e pediu uma água sem gás. Nenhum dos três ostentava a galhofa e a pompa usuais. Pareciam tão ou mais desgraçados que ele. Num segundo se irmanou e viraram amigos de infância.

“Tá perdido na noite, né cara?” “É, Grande, to solto feito pipa voada. Mas tem nada não que daqui a pouco encontro um travesseiro repartido.” “Tu precisa é de uma boceta, Cláudio.” “E tu sabe o que é isso, Gordo? Tá com cara que faz tempo que não vê uma!” “Hahahahaha. Pior, Cláudio. Faz tempo que não vê uma que se ofereça para ele. Tem de apelar para o sexo das primas.” “Cala a boca, Burro! Até parece que tu come alguém sem oferecer emprego ou promoção.”

Grande, como sempre, ficava quieto no canto observando o papo como se colocasse uma distância regulamentar entre os amigos e a si mesmo. Era o que evitava ser dragado pela lama e o abismo moral onde habitavam os companheiros. Ele gostava de se sentir como um turista eventual na putaria. Não o seu habitué.

Claudinho já estava melhorando do porre, mas ainda alto demais para conseguir alguma coisa com alguma mulher no recinto. Pagou a conta da mesa e ensaiou uma saída. Gordo o impediu.

“Vamos pro Devassa. Te pago umas e aproveitamos pra comer algum animal morto gorduroso.” O resto do povo foi no vácuo.

Pela manhã só se lembrava de umas morenas na entrada e de ter pedido umas cachaças especiais do menu. Daí eram flashes de ele entrando no táxi e de ter vomitado num banheiro.

Quando recobrou a consciência, descobriu uma loira oxigenada a seu lado e umas camisinhas abertas. Torceu para a menina não ser conhecida, daí poderia usar o seu script “A noite foi ótima, Princesa” com ela e despachá-la sem mais delongas.

Foi ao banheiro verificar o estado das louças e, aparentemente, tudo em ordem. Só umas lingeries que deveriam pertencer ao projeto de Marilyn Monroe que roncava solenemente.

Ao voltar, reconheceu a figura distinta.

“Ana?” Ela, ainda sonada, apertou os olhos e abriu um sorriso sacana. “Você é mesmo tudo aquilo que falam. Mesmo bêbado.”

Ele desceu a parede com as costas. Sentou-se no chão desolado.

“Merda de vida.”

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As saudades

July 23rd, 2006 § 2

Aos associados da AMAZANDER (Associação de Moradores e Amigos de Zander Catta Preta), presentes ou não, os meus sinceros agradecimentos pela atenção dispendida a essa mensagem não-solicitada.

Decidi, após deliberar exaustivamente por doze minutos, que esta mensagem eletrônica seria ideal para atualizar os que se interessam, ainda que de uma forma tangencial, pelos fatos mais relevantes deste que vos escreve.

Sabemos que a vida não é linear, que as oportunidades e planejamentos que porventura alinhamos para nós mesmos não se manifestam da forma exata que sonhamos e que os nossos mais sinceros desejos se realizam sempre, ainda que ligeiramente distorcidos pelo prisma da realidade. Ou é a lente dos nossos olhos da mente é que usam um grau errado?

Nesta torrente de eventos que se sucedeu no último ano – os que me acompanham de perto foram testemunhas de toda lágrima, bile e mel que destilei nos últimos doze meses –, revi diversos de meus conceitos e decidi que as minhas várias mesas seriam viradas. A mesa pessoal, a profissional e a emocional. Se virei-as certo ou não, saberei em breve. Alea jacta est.

Como conseqüência dessas decisões, mudo-me de cidade.

Abandono, a partir de agosto, as praias, as montanhas, o espírito jocoso e descompromissado, os semideuses e semideusas esculpidos em bronze, as intolerâncias, o único idioma, a teocracia instalada, o relacionar-se leviano e raso, o achar e não saber, o ver e não assistir e todas as demais maravilhas de paisagens humanas e físicas que constróem a cidade que me criou e me erigiu.

Sentirei falta da família, dos chopes ad hoc, do direito de andar de chinelos na rua, dos poentes e do rising sun em Copacabana depois das madrugadas regadas a risos e conversas com amigos de dezenas de anos.

Sentirei falta das ruas que, se minha dislexia não me permite lembrar dos nomes, me acompanham no mapa de minha infância e adolescência, das lojas que cerraram para se transformar em outras lojas, dos cinemas que se transformaram, das bancas de jornais, das faces de quase conhecidos da noite, e dos poucos que carrego e chamo-os de amigos.

Sentirei falta sobretudo de poder estar só e sentir-me pertencendo.

Talvez por tudo isso eu decidi fazer algo banal, que acontece todos os dias, mas que, do alto dos meus trinta e cinco anos, nunca tive bagos e estômago para fazê-lo. Vou para um lugar que é a antítese da cidade que amo de uma forma masoquista, que me maltrata e me acalenta.

Mudo-me para quinhentos quilômetros e uma hora de vôo de distância.

Mudo para um local onde os Grajaús e as Madureiras se sucedem com nomes indígenas, mas onde as ruas ainda têm nomes de flores, pássaros e animais. Mudo-me para terra do dinheiro e da oportunidade, pro coração do Brasil, onde se ouve seis idiomas diferentes em doze quadras, onde carteira é carta e sinal é semáforo, onde os amigos são raros mas bons e a comida é excepcional.

Obviamente a oportunidade de trabalho é maravilhosa, a que sonhei boa parte da minha vida recente. Trabalharei com que gosto e com quem aprenderei a gostar. Obviamente isso não é tudo nem é o motivo principal, apenas é o viabilizador do que me ocorre. Mas é bom sinal. O melhor deles.

Vou amparado, não temam, mas vou com o mais português sentimento de todos.

Eu brincava, quando trabalhava no bureau, nos momentos de maior estresse, que queria ir para casa. De uns anos para cá, tudo que eu sempre quis era ir para casa. Dessperadoramente ir para casa. E minha casa nunca estava lá. Mesmo quando o teto era dividido por aqueles que amo, aqueles que sempre me deram apoio, carinho, amor.

Agora eu posso voltar para casa. Repetidamente. E voltar é sempre bom.

Desejem-me sorte, meus amigos, conhecidos, atuais e antigos colegas, familiares, amantes e ex-amantes. Peço que guardem em seus corações as boas histórias que contei ou fui protagonista. Podem guardar umas duas ou três más também. Afinal falar mal também faz parte do processo.

Eu vou precisar dessa sorte.

Um abraço para quem é de abraço, um beijo para quem é de beijo.

Zander Catta Preta

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Linhas tortas

December 15th, 2005 § 0

Não era afeito a comemorações anuais. Detestava o próprio aniversário, mas não revelava os motivos para isso. Alguns amigos mais chegados se lembravam de um ou outro caso que ele não comemorara por conta de um acidente, de uma doença em casa ou por um desamor. Mas o que importava é que o dia dos seus anos não era motivo de festas fazia várias décadas. Normalmente chamava os amigos para um boteco, bebia até ficar pronto para ser internado e ia carregado para a emergência de algum hospital.

Era essa a sua “tradição” e os amigos a respeitavam.

Então era assim, chegava em meados do mês do início do ano e ele começava a se coçar pensando em o que aconteceria. No que a Roda da Fortuna estaria reservando para essa data, desta vez, neste ano. Pensava: “Ano passado foi bom. Veio a restituição atrasada e deu para pagar as dívidas. Comprei um DVD com o troco. Ainda rolou um bom dinheiro das aplicações e teve aquele bônus inesperado. No anterior foi ruim mas não foi horrível. O caçula quebrou a perna nas vésperas e tivemos de ficar no hospital revezando. Ao menos comemos bolo no hospital e foi engraçado vê-lo se lambuzar na cama. Passamos uma boa semana juntos. No anterior sim, foi horroroso. Desemprego, divórcio, ermitão social.”

Súbito, uma idéia! Preparou um textinho para anexar a um email e disparou na sua lista de contatos. Depois pegou os endereços de verdade de todos que confirmaram a ida e enviou um convite pessoal e intransferível. Chamou a todos: os amigos, os conhecidos, os colegas, os contatos de trabalho, os inimigos, os desafetos, aqueles e aquelas que amou e todos os que o odiavam. Conseguiu alugar um salão no clube e fechou com um buffet a organização das comidas e bebidas. Aliás, muitas bebidas. Um horror de bebidas.

Ao chegar, os convidados eram conduzidos a locais marcados em amplas mesas elegantemente decoradas. Alguns acharam divertido já que ele era famoso por preferir botequins a restaurantes, puteiros a boates. Normalmente ele mesmo desdenharia de festas tão bem organizadas ou tão requintadas.

Mas lá estavam garçons, maitres, convidados, disk-jóqueis e todo o tipo de fauna que é esperada numa festa deste porte. Menos o personagem principal.

Em off, numa voz metálica, abafada pelas caixas de som, ouviu-se à meia noite:

“Estamos aqui para comemorar o término do meu quadragésimo quinto ano. E para isso convido a todos a expor o que há de pior em cada um. Pois o bem próprio já é público e notório. Deixemos fora desse bar todas as convenções sociais e as boas qualidades e maneiras.

Já as temos de carregar em todas as nossas relações no dia-a-dia. Nesse evento onde comemoro a morte do ano que se finda, enterremos também todas as nossas máscaras, todas as nossas apatias, as nossas pequenenezes, falsidades, dissimulações. Dispamo-nos de nossos preconceitos, medos e ansiedades. Aguardemos a liberdade que o álcool nos proporciona para deixarmos toda e qualquer inibição ir-se com os espíritos que libertamos de suas garrafas. Deixemos Baco falar por nossas bocas e que inspirações dionísicas nos guiem noite adentro. Que a bile seja o nosso juiz, júri e executor nessa madrugada!”

Discretamente o staff retirou-se e as portas foram lacradas. De início, algumas pessoas surtaram, ficaram nervosas, exigiram sair. Até alguém notar que no convite impresso estava lá escrito: “Entrada: 21h00. Término: 6h00. Inexoravelmente.” Uns ameaçaram processo, outros de morte. Já os mais conformados abriram as champanhes.

Foi o bacanal do século. Pena que ninguém tirou foto ou fez gravação em fita. Não houve quem não ficasse nú em algum momento da folia.

Ele, de uma sala discreta, com vista privilegiada da orgia, concluiu: “Acho que vai ser um ano bom, no final das contas.”

A gente recebe aquilo que dá.

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O monstro

December 4th, 2005 § 1

Há muito não interagia com pessoa alguma. Nunca fora do tipo social, do que procurava companhia a todo custo quando a noite de quinta-feira se anunciava, e se entediava em conversas sem eira nem beira que os cariocas adoram ter nos bares, quiosques e boates. Não tinha mais paciência para as abobrinhas, para a as fofocas, a vida dos outros, os seus problemas, as suas felicidades, as suas fortunas e os revezes. O simples mencionar de um evento, onde mais de uma pessoa estaria sentada sem função aparente além de simplesmente estar ali, lhe causava náuseas instantâneas.

Todavia, se formara em psicologia e tinha vários tratados sobre a natureza humana, sobre a capacidade comunicativa do homem moderno. Era um expert em gente.

Tampouco gostava de dançar. Achava um desperdício de energia aquele bando de gente desajeitada se sacudindo sob a influência das músicas que a indústria cultural nos manda gostar, acima do bom gosto. Mas ele tinha a estranha mania de assistir às apresentações de balé do Municipal. Fosse o clássico ballet ou um espetáculo de dança contemporânea ou ainda dança de salão. Aquilo fazia sentido. Era arte.

Por motivos semelhantes não ia a shows ou bares de música ao vivo. Normalmente eram pessoas que se arremedavam a executar canções ruins que eram pedidas por um público que nada entendia de música. Esse mesmo público que não sabe dançar e gosta de se ver não-dançando em espetáculos coletivos de não-dança, de descoordenação coletiva estimulada por pessoas que não tocam, ou tocam mal, ou estão executando mal dado o assombro da massa desajeitada defronte de ti. Nunca entendera o Rock Arena. Porque se chamava de Arena se não tinha gladiadores?

Na adolescência era um dos tipinhos que todos adoravam espezinhar. Infelizmente nascera com uma inteligência fora do comum e entendia cada coleguinha da sala de aula como a mãe dos próprios. Sabia exatamente o que falar para causar o máximo efeito de humilhação e dor. Não aquela humilhação típica dos adolescentes, mas aquele tipo que revela um pouco do ser que escondemos de todos. Do “comedor de meleca” ali para o “você gosta de enfiar coisas no reto” aqui. E o timming! Nossa! Tinha um senso de oportunidade único. Obviamente foi burilado anos a fio a ponto de não precisar nada nas discussões na universidade. Bastava olhar pro debatedor e citar o livro certo. Pimba! Discussão vencida.

Passou a sua juventude entre temido e ignorado. Na faculdade era admirado pelo poder de síntese e objetividade, qualidades que normalmente faltam nos acadêmicos em geral. Depois de formado, tentou dar aulas mas a sua empatia negativa não o estimulava a ficar horas em frente de uma turma, respirando pó de giz e gastando saliva com conceitos que, por vezes, ele mesmo contestava.

Por sorte nunca precisou trabalhar. Tinha o seu apartamento de sala e quarto na Domingos Ferreira e uma renda que permitia que pagasse as suas contas, comer, se vestir, ler e sair uma vez por semana.

Assim, foi cerrando os seus contatos e se fechando no mundo que criava para si em casa. Colecionava DVDs de dança, música e filmes; CDs de música de câmara e Jazz; livros de arte e biografias de grandes músicos. Chegou ao ponto que os únicos contatos que tinha com o mundo exterior eram a faxineira de sessenta anos – “Dona Gerbásia! Como eu gosto de falar o seu nome!” – e o computador por onde fazia as suas compras.

Um dia, enquanto ouvia Raphisody in Blue…

“Oh não! Um monstro!AAAAAAAARGH!”

[Nota do Editor]: O arquivo digital acima foi encontrado entre os alfarrábios do autor. Ainda não temos notícia do seu paradeiro ou de quando pretende largar o monstro de preguiça que o seqüestrou. Aguardamos ansiosamente, já que o f*lh* d* p*t* largou uma pá de serviço a ser feito em cima da mesa.

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Vernissage

October 23rd, 2005 § 3

Ele tinha um hábito irritante de freqüentar vernissages, noites de autógrafo e outros desses eventos semi-abertos onde se serve o péssimo vinho que importadoras de bebidas que desovam como “patrocínio” ou “apoio cultural”. Chegava a ser uma compulsão, na verdade. Tinha alguns contatos de quarta categoria que se divertiam em enviá-lo para os eventos mais esdrúxulos como a reinauguração da placa do centenário do canhão inaugural do forte de Copacabana ou a noite de autógrafos de um blogueiro qualquer que conseguiou publicar suas crônicas semanais.

O que ele não revelava às pessoas é que a diversão não era o evento em si, mas ficar nos cantos fingindo que conhecia os proto-famosos, dando um acenos com cabeça e com um ar blasè treinado a anos a fio. Outro hobby era ficar ouvindo fragmentos de conversas e tentar ficar advinhando o papo como um todo. Anotava os fragmentos em guardanapos sujos ou em cadernos-brinde para usar em algum momento importante da sua vida.

Numa estréia teatral, ele pega o papo de um autor de peças de teatro com um engravatado aleatório.

“E, recitando um poema de Florbela Espanca, ele a pega como se fosse beijá-la. Ela se desmonta em suas mãos. Ao terminar o poema, ele se vira para os outros no churrasco e pede uma cerveja. Ela olha meio puta meio pidona para ele e, antes que ela pergunte qualquer coisa ele responde: ‘Beijo não é para ser esperado. É para ser tomado com o consentimento do outro. Beijo é a porta do prazer e se você não tem ciência disso e espera que o prazer lhe seja entregue em bandeja de prata, não merece o gozo’.” “É uma boa cena, mas acho que temos de cortar a parte do poema. Não dá Ibope.” “Mas aí perde todo o sentido. Deixa eu te mostrar o poema.” “Não. Sem poema.”

Ele se dirigiu para o bar para tentar caçar um salgadinho ou mais uma taça de vinho. Quem sabe até teria sorte e coletaria mais alguma história interessante. Achou um casal que debatia sobre o sexo e os homens.

“Ainda acho essa uma posição muito machista, a sua.” “Nem é. É apenas factual.” “Ah! Que isso? Essa história de três mulheres… para mim isso é putaria. Safadeza pura.” “Não é bem assim nem bem isso, você trocou as bolas.” “Explica então.” “Ok. Como eu dizia, toda mulher merece uma noite de amor. Todas. Mesmo as mais feias. Mesmo as aleijadas, sem dentes, com mau hálito, as que fedem, as que têm corrimento. Todas mesmo. Todas merecem uma noite de paixão, sexo e amor.” “Que coisa mais promíscua!” “Não se trata de promiscuidade, mas de humanidade. Amar uma bela, é fácil e até mesmo simples. Mas amar quem merece, quem precisa do amor do próximo. É o que chamo de abnegação.” “Tá. Acho que entendo esse conceito. Não concordo, mas entendo.” “Algumas mulheres merecem uma segunda noite. São aquelas que despertam algo no homem que ele não compreende de imediato. Algo que desperta o seu limiar.” “Hein? Como assim?” “No sexo, o homem que realmente ama, se encontra perto da pequena morte, do início e do fim de tudo. Ali ele pode ter uma revelação sublime, um momento de epifania, de adoração. Mas isso apenas quando ele encontra a mulher com quem se deitará pela terceira e derradeira vez.” “Pára tudo. Me perdi agora.” “Pois bem, essa mulher com quem ele se deita pela segunda vez, o faz por dúvida. Lembra-se? A primeira é por abnegação, a segunda pela dúvida, a terceira, para sempre.” “Acho que entendo e começo a concordar.”

Não entendendo bem do riscado, retirou-se anotando no seu caderninho as anedotas coletadas. Ainda conseguiu relatar mais um papo interessante aquela noite.

Eram dois estudantes, pela pinta. E um senhor bem mais velho, beirando os setenta. Todos falavam sobre filosofia, Sartre, Heidegger, conceitos, conceituaçao. E o senhorzinho ficava em silêncio, assentindo ou rejeitando com o olhar. E “processava” várias taças de vinho, não deixando pedra de gelo sobre pedra no debate entre a noite e o seu estado etílico.

“Ninguém é livre. A liberdade é uma falácia.” “Não seja bobo. Você parece aquele matemático que dizia que os números reais são uma ilusão inventada pelo homem. Que o universo não fala com os números reais.” “Mas é isso mesmo. Falando da Liberdade: ela não existe. Você não escolhe as suas opções de vida. Elas se apenas se apresentam e, na maioria das vezes, você apenas opta sem se dar conta disso. Assim como um outro animal qualquer que não tem como saber se ao virar à esquerda vai gerar a extinção de sua espécie.” “A liberdade, cara, tem suas limitações. Assim como a consciência humana, a percepção de realidade e os números reais. O que interessa é que são instrumentos…” “Instrumentos imprecisos!” “…para entender o que nos cerca. Para mim é claro que somos apenas um degrau para o além do homem…” “Ah não. Citar Nietzsche é apelação.” “…e que, nesse processo, inventamos modelos cognitivos para entender a realidade ao nosso redor.” “Fato, cara é que temos de entender as coisas como elas são. Senão ficamos tentando estudar as sombras, não a realidade.” “As as coisas são da maneira que se apresentam. Não existe um Deus por detrás delas. Elas são e se aparentam como são.”

O senhor finalimente se manifestou. Com voz embargada, com o olhar trôpego e desfocado, meio cambaleante, disse: “Pessoa era foda.” Pegou mais uma taça de vinho, aproximou-se de uma menina de um grupo anexo, enlaçou-a na altura da cintura, falou uma ou duas obscenidades na sua orelha e levou-a consigo para o resto da noite.

Anotou, aparvalhado, a reação dos dois proto-filósofos que não conseguiram manter a compostura ante o velho mestre. Tomou coragem. Se aproximou dos dois e falou uma verdade universal.

“O mais sortudo é sempre o mais apto. É ele quem consegue deixar a semente para a próxima geração.”

Saiu à francesa.

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Trilhas infantis

March 11th, 2002 § 0

Um amigo, ao reescutar a trilha sonora do Sitio do Picapau Amarelo (a da decada de setenta, nao a de hoje) me chamou a atencao de como eram politizadas algumas das letras. Uma delas, em especial, a do tema do Arraial dos Tucanos dizia assim: “Até quando o homem que da terra vive/e que da terra tira o pão diário/vai ter sua paz?/paz, aparente paz./Paz, aparentemente paz”. Eu sei que os conflitos no campo não são (nem eram) nenhuma novidade, mas expressar isso numa música de um programa infantil e em plenos anos 70 era (e ainda o é) um tanto ousado, principalmente nos padrões bundalizantes dos dias de hoje.

E isso me faz pensar um pouco. Paremos. Respiremos. Pensemos.

Nos anos 70 tínhamos um regime ditatorial, cerceador da liberdade. Hoje, temos uma liberdade e uma defesa do direito de expressão exemplar no mundo inteiro. Somos um povo tolerante, sem tantos preconceitos explícitos. Então me respondam, por que não conseguimos produzir cultura decente com essa liberdade? Digo, porque é tão difícil fazer minha filha ouvir música decente aos sábados ou nas manhãs? porque eu não consigo ver artistas fazendo arte de fato nos sábados à tarde ou no domingo à noite? por que?

É que sucumbimos ao tirano definitivo, ao déspota etéreo, ao senhor de todo o suor, de todo o sangue, de todo o gozo, ao deus Mammon.

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