reencontro. sete anos depois.

July 20th, 2009 § 8

Sete anos atrás escrevi algo sobre reencontros, sobre a estranha emoção que me tomou quando revi aquele punhado de conhecidos que um dia foram meus amigos de convívio diário, das sete da manhã às cinco da tarde. Hoje entendo um pouco melhor o que me tomou ali, misturado às lágrimas e ao álcool quente, choco e abundante.

Era apenas inveja.

Dentre esses meus amigos de outrora, alguns dividiam as dúvidas adolescentes (as minhas e as deles); outros, as conquistas; pouquíssimos, o exemplo; nenhum, a companhia. Mas isso não é incomum. A escola proporcionava a troca exaustiva entre nós, mas nenhuma escola ensina a pegar a mão quando se quer bem a alguém, a comemorar com alegria legítima quando um amigo consegue um feito desejado, a chorar quando um ente querido se vai ou a dar força quando alguém corteja o abismo.

Isso, a vida é quem ensina, nós nos ensinamos.

Vi alguns conhecidos se perderem pro tráfico, pro crime. Outros, ficaram poderosos ou ricos. Um ou dois desapareceram dos nossos radares ou já terminaram sua história entre nós. E a maioria sobrevive nos empregos de classe média alta conseguidos por conta da excelente formação dada pelo CAp UERJ nos proporcionou. Não creio que tenhamos colegas que passem fome ou estejam em situação de dificuldade extrema. Ao menos isso. Mas era esperado, dada a elite que se formou ali

Sempre me senti uma farsa entre esses meus amigos. Nunca fui espetacularmente bom em nada, nunca fui bom aluno, atlético, simpático ou político. Era bobo, fato, e graças a isso sobrevivi a mim mesmo, por não levar a sério o que me rodeava ou a mim mesmo. Assim, podia fazer graça da minha feiúra, da minha magreza, das minhas sucessivas falhas e derrotas.

Sempre me senti só, isolado ante a turma de semideuses. Cada um de nós era “doutrinado” a ser o melhor dentre os iguais, a ser o mais inteligente, o mais culto, o mais interessante. O mundo estava com as portas abertas para nós e iríamos ser os arautos de um mundo novo que se aventava à frente. Éramos os sonhos e esperanças dos nossos professores. Dos nossos mestres. Ou éramos a escória. Sempre me senti mais confortável entre os derrotados, entre os desqueridos. Talvez porque ali a minha parca chama esquentasse um pouco mais o meu enorme ego. Mas me desvio do que pretendia, que era falar do reencontro em si.

No dito evento estavam pessoas com histórias – centenas, milhares de histórias – para contar e eu com tempo nenhum para sentar com cada uma delas e ouvir o que tinham a me dizer, pessoas que eu queria ter tido mais contato ainda no colégio, mas que flanaram na festa – com razão, éramos muitos – e eu não consegui trazer para a teia da minha vida. Enfim, pessoas que já fizeram parte de mim e eu não consigo deixar de sentir um nó no peito ao saber que deixei-as ir embora. Talvez porque seja custoso, muito custoso, admitir que sou uma farsa. E que eu já estou velho demais para rir das minhas máscaras. As velhas, mal ajambradas e desgastadas máscaras da minha vida.

Saí, pois, à francesa para não desmontar no meio do salão.

190709 – encontro capuerj 20 anos

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Sobre a arte de dar as mãos

July 11th, 2008 § 9

publicado na Tribuna da Imprensa

Hoje eu li em um blogue de uma amiga (http://simsenhoras.blogspot.com/2008/07/quero-namorar-o-wall-e.html) que ela não vê mais as pessoas simplesmente dando as mãos por aí. Que no arsenal da conquista não se usa mais o singelo gesto de procurar a mão da menina e segurar os dedos entre os dedos num enlace quase que obsceno, mas mais singelo que os olhares que enrubescem. Que não vê mais o gesto em si mesmo gerando o momento mágico.

Eu sou uma criatura de “grude”. Gosto de tocar, abraçar de dar beijos e tal em quem tenho carinho e afeto. Obviamente já passei da fase adolescente onde os futuros adultos arrumam n desculpas para se jogar uns em cima dos outros ou se amontoarem pelos cantos. Algo a ver com os hormônios em ebulição ou uma desculpa esfarrapada para pré-sexo. Dito isto, acho que poderão entender melhor o caso que tenho para contar.

Pois bem.

Um dia, numa das minhas idas profissionais à cidade do dinheiro e à terra da fortuna, eu saí com uma conhecida para podermos materializar o nosso conhecimento mútuo. (Não me entendam mal! A frase anterior é só uma forma pernóstica de dizer que fui conhecer de fato uma pessoa que conhecia pela Internet. É que às vezes conheço mais de fato quem nunca vi de perto. E às vezes conheço menos de perto quem já vi de fato. Fato.) Fomos a uma pizzaria numa praça que só recentemente voltei – e gravei o nome. E obviamente me esqueci novamente, a ponto de não ter sequer referência para citar nessa crônica de quarenta linhas.

A pizzaria era modernosa, com uma decoração bem interessante. Como bom carioca, sempre achei que pizza boa era a que era servida rapidamente. Ali fui introduzido à grande arte de ser fazer Pizzas em Sampa.

Antes mesmo de fazermos o pedido, senti que havia algo no ar. Uma atração definitiva. Da minha parte, claro, por minha amiga. As pizzas não tinham nada a ver com a história. A moça era bonita, charmosa, interessante mesmo. E tinha bom gosto. Afinal de contas, sabia escolher a companhia para o jantar.
Durante o evento inteiro eu não conseguia desgrudar os olhos dos olhos da moça e “dava um jeito” de fazer as mãos delas encontrarem as minhas. Quando ocorria, parecia que eu estava segurando o braço de uma cadeira ou apenas uma maçaneta. Nada. Nem uma fisgada, nem uma alteração na voz da moça. Nadica de nada. Um suspiro ou uma pausa ao menos? Não.

Obviamente achei que não tinha logrado sucesso e tal. Mas são coisas da vida. Se todas as mulheres desejassem todos os homens (e vice-versa), não haveria agenda que desse jeito para tanta fornicação. Ou romance. Fica no teu critério. Fato é que não funcionaria de forma alguma. Há de se ter a rejeição por bem da humanidade.

Mas, como a vida sempre surpreende e desconstrói as primeiras impressões, na saída, a moça me permite um beijo. Obviamente voltei pro Rio sem entender coisa alguma.

Quando mudei em definitivo para Sampalândia, eu entendi que havia um tipo de gente que não se toca, a não ser na intimidade. Que um abraço pode ser sinal de posse e que um pegar em mãos pode ser ostensivo, declaratório e íntimo demais para duas pessoas que apenas se flertam.

Da pior forma, entendi que esse não era o meu tipo de gente.

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Do livro dos desvirtuosos: o canalha

March 25th, 2008 § 7

publicado na Tribuna da Imprensa

Lei primeira: Nunca se envolva com o objeto do seu interesse. O distanciamento emocional é fundamental para a sobrevivência do canalha.

Sempre achou que o tempo ideal de uma relação era de três meses. Nem mais nem menos. Desta forma poderia ter uma história inteira – flerte, foda e fim – e virar a página rapidamente sem ter nenhuma seqüela para ambas as partes. Obviamente nunca consultava o outro “time” para ver se este discordava dessa metodologia em que era submetida sem o seu consentimento prévio. Como bom canalha, assumia na cara dura o seu comportamento misógino a guisa de “sinceridade”. Só que nem toda sinceridade é honesta e nem toda honestidade é sincera. Pena que poucos sabem disso.

Eis que o dito fez-se apaixonar por diversas meninas da Tijuca a Bangu, visto que era bem-apessoado, bem-nascido e tinha uma conversa interessante, apesar de se deixar levar pelo som da própria voz. De fato, adorava ouvir-se discorrer por centenas de assuntos que não tinha interesse ou conhecimento, apenas para ver o resultado desse encantamento umbilical se transpor nas meninas incautas e imaturas. Acima de tudo, amava esse poder de fazer descer as calcinhas das meninas.

Era um tipo de narciso bem estranho.

Lei segunda: Nunca, em hipótese alguma, se apaixone pelo objeto do teu interesse. A ausência de paixão é o que garante a sobrevida do canalha.

“Três meses.” Ele dizia. “Três meses e tchau. É assim que funciona comigo e pode funcionar com todos vocês. Em semanas vai chover mulher na cama de cada um. A ponto de ter de colocar uma catraca para os amigos contabilizarem no final da semana.” Os amigos olhavam embevecidos e invejosos. Não acreditavam em metade das aventuras que o canalha à mesa contava, o que, estranha e ilogicamente, fazia a lenda aumentar. “Nem tudo pode ser inventado, gente. Já vi o cara carregando duas para casa.” “Eu lembro do dia que ele catou a loirinha da praia que ninguém com menos de dois metros pegava” “E a menina-blogueira-fox-trot? Eu tava lá, minha gente! Era só gemido e chão batendo no quarto do lado!” “E a escritora da Barra da Tijuca? Essa eu também vi.” “E não se esqueçam do anão! Um anão, gente! Um anão!”

Porém, mais que as histórias das conquistas, ele se deleitava em discorrer sobre as derrotas, sobre as deusas monumentais que nunca sucumbiram aos seus – poucos – encantos , sobre os términos. Podia-se dizer que era um apaixonado em fins de relacionamentos. E se orgulhava de cada biltrice que praticara em dezenas de anos de prática ininterrupta de canalhice crônica.

Lei terceira: Todo canalha irá, inevitavelmente, se apaixonar pelo objeto do seu interesse. Deste ponto em diante, o canalha está morto.

Calhou de cruzar o caminho do nosso personagem preferido, moça prendada que cheirava a jasmim. Ela, da tez macia, do olhar brejeiro, do rebolar cadente, do olhar triste, sucumbiu como mais uma. Apenas mais um número de telefone na sua agenda de celular. Ao levantar-se derradeiramente da cama, deixou ali o velho promíscuo e rabugento e não reconheceu o estranho brilho nos olhos de cafajeste. Ele, ao fitar-se no espelho enquanto calçava as meias, sentiu o peso da vida e a doçura irem porta afora.

Foi-se o último canalha verdadeiro.

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Ó pai

August 13th, 2007 § 7

publicado na Tribuna da Imprensa 

Te agradeço, ó pai, por sua história, repleta do que há de pior num ser humano. Nem tanto pela falta de caráter que lhe é famosa, ou pelo descompromisso que demonstraste em teus mais de sessenta anos ou ainda pelo egoísmo ilustrado pelas diversas cenas de tua vida, mas, sobretudo, pela incapacidade que tiveste em amar sinceramente quem atravessou teu caminho. Tuas mulheres foram tuas conquistas, e não parceiras, e teus inúmeros filhos foram troféus de cópula e fertilidade, não continuação de tua história. Teu desprezo pela emoção alheia, pelo sofrer do outro, pelo sorriso cúmplice são apenas moldura para esse desamor que sempre te norteou.

Por isso e muito mais, tu me és exemplo de tudo que é errado e te agradeço por isso.

Pai, sou grato por me dares a pequena ausência diária, o abandono constante e o oblívio à baia. Nesse espaço que me destes, ainda que inadvertidamente, pude criar pais ideais, famílias perfeitas, e exemplos de humanidade que, com a tua presença, me seriam impossíveis. Sou grato por me dar a chance de sonhar com alguém perfeito e obrigado por nunca destruíres esses meus sonhos com as suas falhas e erros que são tão documentados e por poder adotar os heróis do papel como meus de fato, já que não havia carne para competir com eles.

Obrigado, acima de tudo, por me ensinares desde os primeiros momentos que o mundo não vela por mim, que não existe alguém forte que vai dar uma surra no menino que me ameaça na escola. Aprendi que se eu quisesse bater em alguém, teria de usar os meus próprios punhos, cuspir o meu próprio sangue e destilar o meu próprio ódio. Ou assumir a minha fraqueza e covardia e fugir do embate físico desde garoto. Obrigado por me ensinares que posso sempre fugir, me esquivar, me esconder.

Mesmo quando não é preciso.

Sou agradecido por me mostrares que a mãe também pode ser pai e que família é mais que sangue ou nome no cartório. Que avôs e avós, tios e tias, primos e primas são tão importantes quanto tu, principalmente quando te dão colo, surras, presentes e castigos. Todo carinho e atenção, ainda que mendigados, são importantes para quem tem uma ausência como referência. Desta forma, aprendi que todo amor é válido, raro, sagrado e tem de ser respeitado. Que cada gota de paixão é um ato divino e tem de ser respeitada. Que o respeito, por si mesmo, é algo que tem de ser conquistado a cada dia, a cada ato, a cada palavra. E que posto, ascendência ou hierarquia não significam nada quando não são expressões do ser, manifestações da alma.

Te agradeço, sobretudo, pelo vazio que é a nossa relação, pois nesse vácuo que me criei e moldei o homem que hoje eu sou.

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Noites de Lua

March 26th, 2006 § 3

publicado na Tribuna da Imprensa

“Cara, desencana que do jeito que tá não vai dar certo.” “Mas você não entende? Ela não me ama, eu não me amo, ninguém me ama, ninguém me quer…” “… ninguém te chama de Baudelaire. Eu sei, babaca. Já ouvi essa ladainha centenas de vezes. E tu continua comendo metade do mundo.” “Só a metade desinteressante.” “COMO ASSIM? Você não ficou com a…” “Fiquei, mas ela não quer me ver nem pintado de ouro.” “E com a…” “Também. Mas ela voltou para o babaca que batia na filha dela.” “Mas e aquela menina que parecia que você iria se enrabichar.” “Não rolou.” “Desenvolve.” “Não rolou e pronto. Não subia.” “Putz.” “Pois é. Todas as mulheres interessantes, bonitas e disponíveis se desmancham na primeira noite. Ou manhã. Ou nem isso.” “Não é você que é muito exigente?” “Porra! Até parece que você não me conhece. Não namorei aquela psicopata? Quer que eu faça o rol das mulheres da minha vida?” “Tu é desses caras que anota tudo, né?” “Sou quase uma mulher, cara. Lembro de tudo de cada uma delas. Todos os detalhes. Só o rosto e o nome é que por vezes me escapam.” “Só? E isso é só?” “É sim se você considerar que lembro do cheiro, do jeito que beijavam, do gosto das partes, do que gostavam e principalmente do jeito que gozavam… quando gozavam, né?”

Entraram no boteco já animados após uns minutos de papo desnecessário no caminho de Copacabana até Botafogo. O amigo era um womenizer, um “comedor” em bom português arcaico, mas não do tipo canalhão desses que acham que têm de comer o mundo inteiro para provar pro pai, pros amigos e para as outras mulheres que têm algo entre as pernas. Era do tipo que acreditava que a próxima seria a última, seria a paixão perdida, a manifestação da primeira paixão. Só que a realidade era bem diferente, né? Do jeito que costuma ser quando sai do papel e vai para todos os outros sentidos. Pior, o outro time costuma ser tão enrolado quanto o amigo. Pior ainda, ele tinha como dar conselhos para o amigo. Era do tipo casadoiro e namorara pouco na vida. Três casamentos, é verdade, algumas farras nos intervalos, mas nada comparado ao curriculum do amigo. De certa forma um invejava o outro. Quase que gozavam com pau alheio. Mutuamente alheio.

Fazia seis meses que o amigo estava parado com a namoradinha mas parecia que não estavam mais se entendendo direito. Tinha mudado para a casa dela, reformado tudo e tal e tinha planos para filhos e casamento num futuro bem próximo. Se conheceram de um jeito esdrúxulo e cada vez que ele explicava, piorava. Preferia deixar as coisas do jeito que estavam e apenas aceitava que o amigo tinha finalmente um relacionamento estável. Ou não.

“Cara, parece que as mulheres vivem eternamente a síndrome de Grouxo Marx.” “Como assim, cara?” “’Eu não entro num clube que me aceita como sócio.’ Saca?” “Acho que sim.” “Pois é. Quando eu estava carente, elas fugiam de mim como diabo foge da cruz.” “Não exagera.” “Verdade, cara! E agora que estou meio que namorando…” “Meio? Tu tá morando com a mulher!” “…elas ficam me assediando. Me ligam, chamam para sair e tal. Pô! Parece que querem ouvir um ‘não rola, linda, mas tô com alguém’, sabe.” “Acho que sei. Uma amiga diz que todo mundo é homossexual.” “Hein?” “É engraçada a teoria. É algo assim: a mulher reconhece o cheiro de outra mulher no cara, então se atira para ele. Mesma coisa com os homens. Eles sentem o cheiro de macho na fêmea e isso a valoriza no mercado.” “Hahahahah! Puta merda! É verdade! É isso! É tudo veado mesmo!” “Hahaha!”

Fecharam a conta mas o assunto não acabava.

“Como tá o casamento?” “Na mesma. Morno, morno. E acho que é essa a receita dos meus relacionamentos. Não me apaixono, não me envolvo. Aceito a parceria e a companhia.” “Não te entendo.” “Nem eu mesmo me entendo. Às vezes até acho que rolaria de ficar casado em apês separados. Ou camas diferentes. Ou quartos, sei lá.” “Não entendo mesmo.” “Nem é para entender.” “Cara, eu sufoco as pessoas, sabe? Preciso de atenção, de cafuné, de sexo e de olhares cúmplices trocados no meio da noite.” “Quem não quer isso, cara?” “Mas a merda, a grande merda, é que cansa. Vira tolerância o que deveria ser uma puta experiência.” “O projeto de tua vida vira um expediente burocrático. Bate o cartão pela manhã e dá uma fodinha antes de dormir. Sei disso.” “Mais ou menos isso.”

Estacionou o carro para deixar o amigo em casa, na Almirante Gonçalves, em Copacabana. Saltou e ajudou-a abrir a portaria. Bêbado sempre tem uma dificuldade foda para abrir portas e achar chaves. Ao voltar viu que ele esquecera um livro de bolso do Pessoa dentro do carro.

“Taí um bom motivo para marcarmos outro chope.”

Abriu o livro e viu que tinha um cartão marcando o Tabacaria, do Álvaro de Campos. Sublinhado, lia-se:

“Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?/Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!/E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!/Gênio? Neste momento/Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,/E a história não marcará, quem sabe?, nem um,/Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras./Não, não creio em mim./Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!/Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?”

Súbito, o choro do amigo na escada de casa fazia sentido.

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TABACARIA – Fernando Pessoa

March 26th, 2006 § 2

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos, 15-1-1928

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Fantasias pré-carnavalescas

January 1st, 2006 § 4

Passava por uma fase apática, de conquistas pífias: não se interessava pelo trabalho, achava que tudo era sem importância, sem relevância para si e para A Empresa; as mulheres ou lhe deixavam a esperar ou não causavam espécie, desinteressantes, desimportantes; os porres inócuos, mal lhe davam a dor de cabeça do arrependimento; a casa, largada ao tempo, cresciam fungos às paredes.

Voltou de sua rotina estapafúrdia cansado da vida, esperando encontrar abrigo na frente de um tubo de raios catódicos ou de algo que o levasse para uma condição morna de existência.

Chegou em casa, largou a pasta em cima da cadeira de sempre, ligou a televisão, procurou um devedê na sua coleção de filmes antigos, lascou um “Era uma vez no Oeste” dentro do bicho e foi tirar gelo do congelador. Adicionou água e uísque, sentou-se no sofá, retirando os sapatos com desprezo. Olhou mais uma vez para a infiltração de estimação da cozinha para a sala e se prometeu, mais uma vez, que iria ligar para um arquiteto, um bombeiro, para o exército da salvação, qualquer um que pudesse resolver aquilo. Estava começando a afetar a sua saúde. Aliás, já era efeito do álcool ou tinha um rosto naquela mancha?

Assistiu o filme com indiferença. Desligou a tevê. Largou a garrafa vazia para o lixo, o copo para a pia, as meias para a máquina de lavar e os sapatos para a janela. Voltou para a sala, guardou o disco do filme na sua própria caixa, arrumou-o na sua coleção e foi para a escrivaninha. Pegou o pendrive com o serviço que trouxera do trabalho, ligou o laptop e copiou os arquivos.

Trabalhou dez minutos e conectou-se à internet. Seis horas depois desligou o micro, saciado.

Acordou mais miserável que o dia anterior mas menos que o seguinte. Tomou banho, masturbou-se, enxugou-se e vestiu uma roupa nova que era tão igual quanto as antigas. Saiu de casa pensando na sexta-feira próxima e nas compras da semana. Pensou no cartão de crédito, na conta de luz, de gás, de telefone, aliás, os dois telefones, na conta de tevê a cabo que não assistia e no salário que dava para pagar tudo com folga. Esse último pensamento foi o alento e ânimo necessário para pegar o táxi que o levaria ao trabalho.

Sentou-se à baia executiva, tornou a vida de alguns mais miserável, preencheu mais relatórios, almoçou, fez o meta-trabalho de praxe, retornou à baia, delegou aquilo que não queria resolver ou não achava interessante, esperou pacientemente o horário de saída. Fingiu que tinha mais trabalho a fazer e enrolou mais duas horas para “fazer cena”. Levantou-se às oito e meia e chamando o rádio-táxi no caminho da portaria. Às nove e quinze estava em casa.

Era a vida que planejara anos a fio. Não havia envolvimento, emoção. Mas o engraçado é que um simples sinal pode desmontar uma fantasia.

Quando mais jovem era um rebelde, um irresponsável. Apaixonava-se a torto e direito, era um poeta louco, ator insano mas negou essa parte de si para que pudesse ser um outro alguém. Não se sabe em que momento essa mudança se deu, mas aos poucos a chama passional que ele portava fora apagada. Tinha decidido que viveria um dia por vez, aceitando os favores do tempo da maneira que se apresentavam. Não criaria expectativas ou ilusões.

Só que o destino sempre tem cartas desconhecidas nas mangas.

Tá certo que nada indicava a possibilidade de algo acontecer. Mas a nesga de esperança que teimava em se agarrar ao seu sonho era tão tentadora que ele permitiu que o sol entrasse em áreas que ele tinha jurado que ficariam fechadas. Bastou um sorriso sincero, apesar de inocente, e ele se prostrou novamente aos desmandos dos deuses do acaso.

Estava pagando pela língua no final das contas.

Em seis semanas despediria-se do emprego, do cárcere, da segurança de acordar no dia seguinte. Anunciava-se o Carnaval.

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O sexo é o alento

October 12th, 2005 § 0

Burro chegou com uma novidade: “Comi gente ontem!”

Os dois olharam com a cara de tédio habitual e, antes de fazerem a pergunta default, ele sacou: “E não paguei por isso!”

Com o interesse dos amigos ativado, ele se derramou em longuíssimas narrativas de como conduzira o flerte por meses a fio, como evitara as tradicionais armadilhas de seduções baratas, como envolvera e seduzira a menina até obter “os favores da linda e querida flor.” “Flor? Porra! Você comeu gente ou um brócolis?” Gordo com sua delicadeza habitual cortou o longo, elogioso e enfadonho relato de Burro.

Ofendido, mas não abalado, Burro revelou: “Eu a chamo de Minha Flor!” Explode uma gargalhada entre copos de chope consumidos no Devassa do Leblon. Grande não se conteve. Com dedo em riste, olhos em lágrimas, tenta falar alguma coisa mas só consegue aumentar os soluços de Gordo que quase desmonta a mesa de tanto se contorcer. “Essa é a coisa mais engraçada, ever!” Conseguiu dizer ao domar os risos e as lágrimas. “Cara, você me deu duas semanas terapia agora! Putaquepariu! Que coisa foda! ‘Minha Flor’ é foda, cara!”

Abalado e ofendido, Burro saca do palmtop as fotos que tirara da menina. Linda, linda! Aliás, lindíssima! Morena, olhos negros e fundos, rosto delicado, corpo de vespa. Acintosamente exibe as dos dois se beijando e pára ante o olhar estupefato dos amigos. “Pois é. Mó gata!”

“Qual o preço? É. Quanto você tá pagando para a menina posar de sua namorada.” Pergunta, impromptu, Grande. “Não estamos namorando. Não quero relacionamento sério.” “Ah! Qualé! Mó gatinha e você não vai amarrar com chave de pica?” “Pois é. Você vai ver. Se a minha teoria estiver certa, vou ficar cercado de mulheres maravilhosas em pouco tempo.”

Dali a dois meses, os amigos mal conseguram ver Burro. Ou ele saiu com Sicrana ou com Beltrana ou com ambas ao mesmo tempo. Ou era uma terceira, quarta. Já tinham perdido a conta. Só sabiam do histórico porque Burro informava-os religiosamente das novas conquistas. Foto, dados cadastrais, breve histórico da conquista. Gordo já contava para os seus amigos paulistas o orgulho que tinha do amigo nerd e comedor. Grande se calava e matutava.

Finalmente combinaram de se encontrar no Belmonte para chope e pastel de camarão. Gordo chegara antes e saúda o Burro ao entrar. “Como é que tá essa vida de pica-doce?” “Tá ótima! A merda é que não dá para comer todo mundo. Não dá tempo. Ou como ou trabalho, né?” “E tu vai largar o emprego?” Burro ficou tenso. “Nunca!” “Qual foi cara? Você odiava o emprego…” Soltou Grande, já puxando uma cadeira e pedindo um chope e uma Coca-cola. “Conta aí a teoria que transformou um nerd magrelo, antipático e mal-vestido em um comedor de primeira linha.”Fui promovido a Gerente Sênior de Marketing n’A Empresa.” “Porra cara! Parabéns! Parabéns mesmo, mas o que isso tem a ver com aumentar a densidade de mulher boa ao teu redor.” “Cara, mulher sente o cheiro do poder à distância. Sabe que cara com cargo bom dá segurança e estabilidade.” “É. Quem gosta de pica é veado. Mulher gosta é de dinheiro.” Gordo ri, meio que acabrunhado, dessa afirmativa. “Não vou discordar. Mas qual era o lance da primeira menina?” “…” “Fala negão! Conta aí…” “Prometi uma promoção à ela…” “NÃO ACREDITO! TU É UM FILHO DA PUTA!” Grande realmente ficou preocupado “Pois é. Isso vai dar merda, cara. E se a menina te processar por assédio?” “Ela já tem a promoção. Já tava certo. E foi para Curitiba. Eu só me aproveitei disso.” Gordo explode novamente: “NÃO ACREDITO! TU É UM GRANDISSISSIMO FILHO DA PUTA!” “Nâo nego. Vi a ficha dela aprovada e só precisava de um OK meu. Nunca negaria, claro. Mas ela se insinuou cheia de charme me pedindo a aprovação: ‘Ah, chefinho… eu faria qualquer coisa para ter esse ok.’ Paguei para ver né?” “Tu é um merda mesmo!” Grande ficou puto. “Tu foi é assediado, mané! Gravou a conversa dela ao menos?” Burro apontou pro PDA e tocou um MP3 de lá. E não é que o viadinho não tava mentindo? Ouviu-se com clareza a voz da menina se insinuando. “O que importa é que fiquei com fama de comedor e bom partido. Sei que isso não vai durar, mas vou aproveitar.” “E Vênus, cara?” Soltou Gordo sem pensar duas vezes. “Como é que fica?” “Não fica. Ela não me quer. Se pedir para mim, caio de quatro aos pés dela, mas não vou ficar esperando o tempo passar. E tá divertido para caralho!”

Grande olhou meio de rabo de olho, pediu um caldo verde entre um “suco de pica de Hulk”, “sopa de radiação gama” e outras piadas de cunho nerdístico e comeu em silêncio, ouvindo as peripécias sexuais do Burro. Pra si, matutou: “vai dar merda” e pediu a conta. Foram todos para casa cedo.

Daí a mais duas semanas, foi Burro que chamou os amigos para ir ao Stephanio’s.

“Tô na merda, galera!”

Sempre que o Burro propunha o Stephanio’s, tinha alguma merda para contar. Ou uma dor de corno ou uma desilusão, ou um pé na bunda ou um fora hercúleo. Mas de certo era papo de mulher. Era assim que ele funcionava: Stephanio’s: problema de mulher; Adega da Velha: problema em casa, família; Siri da Barra: problema de trabalho.

Os três se encontraram e de pronto reclamaram entre si da música ao vivo. “Porra! Não sei porque insiste em vir aqui. Samba, cara! Que merda!” “Porra Gordo! O bolinho de bacalhau daqui é simplesmente sensacional.” “Gordo, senta. Burro, abre o bico. Garçom: duas Bohemias e uma Coca-cola. Quatro copos. Uma porção de bolinhos de bacalhau. Não deixa as Bohemias secarem. Fala, Burro. Qual o galho?” “Cansei.” “Como assim? Cansou? Cansou de que?” “Cansei de putaria. De saco cheio de olhar para o lado e não querer acordar junto daquela mulher. Quero alguém para acordar para sempre. Mais ou menos o que o Garcia Marquez dizia: ‘o sexo é o alento de alguém que ainda não encontrou o amor’. Saca?”

Beberam até amanhecer e até cantarolaram um sambinha ou dois.

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