September 26th, 2009 §
Não consigo mais escrever histórias infantis. Parece que algo da magia das crianças se perdeu para mim no processo de envelhecer ou eu perdi a mão. Não me encanto mais com os contos puros que me faziam lacrimejar antes ou com os personagens bidimensionais pelos quais torcia. Se bem que esses últimos eram (são) mais frequentes nas bobagens adolescentes/adultas que leio ultimamente.
Ainda tenho um livro para terminar, mas as histórias que conto ali são bem adultas, metafóricamente adultas. E, depois de umas revisões, me pergunto: as histórias para crianças seriam – por fim – uma espécie de adultez preguiçosa? uma linguagem tatibitati de algo maior e mais complexo. É assim que tem de ser? mesmo?
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September 24th, 2009 §
A chuva fina nao apagava a alegria da menina. Saiu da boate com cheiro de cigarro até na calcinha e aproveitou o chuveiro natural para tirar a nhaca da noite boêmia com o ácido que caia na cidade. Apagou o último gole da bebida sem nome e sem categoria na goela que clamava por um almoço. Há três dias não colocava nada de saudável no estômago nem na cabeça. Estava no automático.
Mas é assim quando se tem vinte e bem poucos anos. Uma adultez que não condiz com a falta de grana na carteira e a bem pouca responsabilidade no dia seguinte. É estágio ou emprego júnior em alguma empresa, uma faculdade levada nas coxas, um trabalho tranquilo de loja. Tudo que a pós adolescência classe mediana pede. Mil e quinhentos dinheiros – menos impostos e descontos vis – na conta corrente todo mês e o mundo abre as pernas para você.
A menina chapinhava feliz na chuva que caia em Botafogo. Tinha todo o tempo do mundo nos sessenta anos que separavam aquele dia do derradeiro. Em sessenta anos faz-se muita coisa, até as coisas certas, por incrível que pareça.
Chapinhava feliz, com a boca inchada de tanto beijar outras bocas na festa que tinha nome brega e era mais velha que a própria moça. Chapinhava como no filme que tinha a idade de sua mãe e cujas canções ela desafinava ao caminhar para casa. Tinha vinte e poucos anos, a menina, vinte e poucos anos e achava que a vida se resumiria numa sucessão de festas, boates fedidas a cigarro e bocas beijadas. Vinte e poucos anos.
Que pena dessa juventude. Que inveja dessa juventude.
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August 13th, 2009 §
Há dias que não escrevo nada que preste. Só emails, apresentações e mais emails de outra natureza que não a para sustentar o meu vício no vil metal. Tenho um livro iniciado (bem iniciado, diga-se de passagem), uma peça mal terminada, um projeto de livreto de contos interligados e uma vontade enorme de terminar essa fase da vida e começar outra, em outra terra, em outro contexto.
Deixo o blog largado, as fotos desatualizadas, minha organização digital de lado.
Só o futuro me alenta agora.
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February 23rd, 2009 §
Acabei de ler o último livro de contas do Luis Nassif, A casa da minha infância (Ed. Agir, 264 pág.), e a impressão que eu tive foi parecida com a de muitos outros livros de contos e crônicas que eu tenho lido nos últimos anos.
Não sei se, dado o evento dos blogues, os textos produzidos e lançados na ionosfera – me recuso a chamar esse agrupamento de textos eletrônicos de blogosfera – tendem paulatinamente a serem rasos, fracos, curtos na personalidade e na memória. Não me excluo disso, absolutamente, mas conto nos dedos de um maneta os blogues que me deixam boas impressões ditas literárias.
Até porque literatura não é blogue nem vice-versa. Ou não.
Reconheço a importância da mídia em si. O do it yourself literário é uma revolução que meus netos conseguirão avaliar, assim como o jazz para os da minha geração. No caso do proto-jornalismo, ou o jornalismo autônomo, eu nem entro em discussão. Até porque os blogueiros ditos jornalistas mantém a tradição do texto pobre, raso e insípido que é norma vigente desde que as fotos dos famosos passaram a valer mais que as “letrinhas” que as acompanhavam.
Mas tergiverso do tema. Li o livro do jornalista e blogueiro Luis Nassif mas acho que ele padece – ao mesmo tempo – do mesmo problema que os colegas de publicação digital e do de coletânea de crônicas/contos. No primeiro caso, ele apresenta seguidamente boas idéias que se perdem com a urgência do texto. Dá sinal que o send ou o publish falaram mais alto que o carinho com as palavras, com as sentenças. Há até erros crassos, como um parágrafo inteiro sem um verbo na crônica que trata do Sivuca. E não se tratava de recurso lingüístico, mas de urgência em contar uma história de que – acima de tudo – merecia um pouco mais de esmero. No segundo caso, apresenta-se a papa-fina logo no início, para cativar o leitor de pé de livraria e fazê-lo correr para o caixa. Não é coisa incomum, apresentar os textos que bambeiam as pernas nas vinte primeiras páginas e “A casa da minha infância” não faz diferente.

A casa da minha infância – Luis Nassif
Óbvio que isso é preciosismo da minha parte e é óbvio que o livro não é despido de emoção ou profundidade. Por exemplo, quando li da morte do seu Oscar ou da transcrição da entrevista de Natalício Moreira Lima bate aquela vontade de ler mais e de carregar consigo os personagens da história. De fazer parte daquela família, de querer ter sido testemunha das desventuras do índio. Mas é onde a emoção e jeito gostoso de contar história falam mais alto, é que se esconde a decepção do ponto final.
E isso é mais porque o todo não acompanha os pedaços que falta de talento ou técnica. Uma pena.
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August 29th, 2007 §
publicado na Tribuna da Imprensa
Diz-se que o corpo do homem é um templo. Mineiramente, nunca discordei nem concordei, muito pelo contrário. O que me irrita nesse lugar-comum inocente é a quantidade de baboseiras que se acrescenta, como se fosse glacê de segunda num bolo de festa de massa sincera, competente e bem razoável. Pior, minha senhora e meu senhor, pior! Usam isso para deixá-lo imaculado, virginal e intocável.
Ora vejam só! O que seria de um templo se a comunidade não o penetrasse para realizar os seus cultos? O que seria do Pantheon se os romanos antigos não celebrassem sua civilização em seu centro, sob a maior abóbada do mundo antigo? O que seria das cidades pequeninas se não cuidassem de suas capelas, de suas pequenas igrejas? Ouro Preto, Sabará, Diamantina são famosas pelas pequenas igrejas tão magnificamente decoradas, pintadas e adornadas.
Daí, cometo mais um desses textos bobos sobre o corpo e as igrejas: afirmo que creio piamente no corpo como templo e creio que toda forma de cultuá-lo é válida, divina e vou além! Creio piamente na Igreja Hedonista, nessa que diz que toda forma de prazer é válida e deve ser o objetivo fim da humanidade. E mais! Ouso afirmar que a maior oração é ser consciente, crítico e racional!
Aparentemente pode ter uma contradição de termos aí, mas explico: apenas mantendo-se são e racional, podemos nos deixar guiar pelos nossos instintos numa relação que não difere muito da de um cego e o seu cão. Então essa oração, essa racionalidade santa, esta consciência transcendental carnal pode se tornar a mais bela de todos os tempos.
Falo isso para provocar, obviamente. Não me interesso pelas igrejas e fés – exceto pelos elementos metafóricos e arquetípicos que brotam de ambas – mas seria interessante ver pastores da carne, freis do ócio, abades do deleite a pregarem as delícias que é estar vivo, consciente e são.
Continuando o exercício, precisaríamos de novas disciplinas para cultuar esse novo deus-homem, que prometeria o alívio após as infinitas jornadas de trabalho, que nos ofertaria o descanso merecido nos fins de semana, ou as férias justas e remuneradas a cada ano – como eu preciso de um deus assim! – ou dos salários justos a cada mês, dos juros justos e dos amores que fizermos por merecer. Quão interessante seria essa igreja da carne.
Diz-se que o corpo de um homem é um templo a ser louvado. Já o meu corpo, tenho certeza, não é um templo, tampouco um local, mas um rosário de carne que é desfiado a cada minuto. As contas desse rosário são as histórias que carrego, as lembranças que me assombram e os rostos que entreguei ao oblívio. O peso deles é a minha cruz diária que tento amenizar com os pequenos contos que escrevo, com os sonhos que macero nas manhãs remelentas ou nas madrugadas insones. Gosto de imaginar que cada conta desse rosário de carne – ou melhor: de sua terça parte – é feita de partes de mim. Esse terço é feito de veias, artérias, sangue e coração que hoje estão frios e gelados.
Meu corpo é um rosário. E eu não rezo suas contas.
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March 1st, 2007 §
publicado na Tribuna da Imprensa
“Andar à toa ajuda a compreender o outro de uma forma melhor. Assim, nos expomos às diversas paisagens humanas sem censura prévia. Deixamos que o acaso julgue quem devemos encontrar nas ruas: amigos, conhecidos, criaturas inconvenientes, paixões arrebatadoras. É assim que o profissional de pesquisa de marketing tem de se comportar quando tem de prospectar novos produtos para o seu portifólio. O caminhar a esmo é a chave para as novas descobertas.”
Mal terminou de ouvir isso e já sabia que tinha perdido dinheiro. Pagara dois mil reais para assistir a dez palestras com “profissionais de renome” no Hotel Sheraton e já nos primeiros vinte minutos sentiu que dera a descarga em duzentos mangos.
“Que besta! Caminhar a esmo o escambau! Esse cara tá querendo é me fo…” olhou para o lado e completou para si a frase. Deu mais cinco minutos e fingiu que precisava ir ao banheiro. No caminho deu uma boa olhada nos colegas que suportavam o mesmo martírio. Não sabia se sentia pena dos que tinham noção do dinheiro jogado fora ou se desesperava pelos incautos que achavam realmente interessante e pertinente a palestra. Por via das dúvidas iria tomar registro desses para evitá-los futuramente.
Do lado de fora do salão, um deserto humano. Algumas promotoras cadastravam os desinfelizes retardatários, outras arrumavam a mesa de café, ciscando as migalhas de pão que caiam das bandejas. Para a pausa do “coffee break” como gostava de falar ironicamente. A ironia aí é que poucos entendiam a redundância desnecessária.
De relance, sacou a loira exuberante que conferia a programação da sala ao lado. Olhou, olhou e entrou na sala dois. Ele dirigiu-se à moça da recepção e com o sorriso mais canalha que consegui tirar do bolso, trocou a sua inscrição.
“Então, doutor Alan, estarei trocando a sua inscrição da palestra Novos Caminhos Para o Marketing Moderno para o Workshop de Sistemas Lúdicos Funcionais e o Mercado Digital. O senhor pode estar me confirmando a transferência?”
Alan olhou para a morena de olhos verdes e o seu delicioso sotaque do interior de São Paulo. Conteve o ímpeto de corrigi-la no gerundismo e confirmou. Já tinha perdido duzentos contos com aquela palestra inútil, pelo menos ia tentar algo na outra.
Entenda-se por tentar algo como tentar um intercurso com a loira que adentrara na sala dois.
Mal teve tempo de pegar o crachá quando as portas se abriram não resistindo ao estouro da manada para o café. Ele não se deu conta do tempo que a mocinha perdeu tentando entrar novamente os seus dados no sistema de inscrições.
Pegou um suco de laranja e um croissant. Automaticamente pediu uma vódica ao garçom e emendou um sorriso amarelo ao receber a negativa sibilada entre os dentes. Desviou-se de seis chatos que, como sempre, estavam em revoada e alojou-se próximo do monumento que, além de linda, cheirava a dinheiro farto dado o corpo moldado a sessões sub-reptícias de musculação e aeróbica e coberto por um Armani para lá de caro. Prestou atenção na voz da moça e encantou-se pelo sotaque francês. Soltou uma piada corporativa qualquer e ganhou a atenção dos olhos azuis. Em vinte minutos já arfavam no banheiro do hotel.
“Dois mil reais.” Pensou enquanto reservava o quarto de hotel para o fim de semana. “E na conta da empresa.”
Sorriu como um tubarão.
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April 22nd, 2006 §
publicado na Tribuna da Imprensa
Os chopes não vinham na velocidade habitual. Parecia que os garçons conspiravam contra os dois. Já fora difícil arrumar um lugar bom para sentarem-se e curtir a chuva fina que caía no fim da tarde. Sem as mesas ilegais da calçada, os bares da orla lotam com uma velocidade mercurial. Ali, do lado do banheiro feminino, podiam ao menos avaliar a formação estrutural das moças de vida difícil que transitavam na área buscando refúgio da água que destruía os cabelos armados e alisados com esforço e aproveitavam para sondar um eventual cliente distraído que poderia ter saído de um dos hotéis próximos.
Poeta foi o primeiro a se manifestar.
“Sabe cara, tá difícil voltar a escrever. Eu não consigo mais me inspirar para porra nenhuma. Acho que perdi o dom da coisa.” “É que você fazia o gênero de ‘poeta tuberculoso’, cara. Agora tá feliz e não encontra o caminho antigo das palavras.” “Pode ser isso. Ou então é que as musas, os temas, me fogem. Eu perco as noites e não acho em mim vontade de mais nada.” “Porra, que merda.” “Nem é. Não me lembro de ter estado tão feliz antes. Eu me remexo na cama, coloco uma música no sonzinho da cabeceira e não encontro a angústia que me fazia escrever.”
Veio o chope de um e a caipirinha do outro. Romancista comentou seguindo o serviço.
“Eu também tô com ‘bloqueio de escritor’. Ouço as vozes que me contam os contos, que me os sussurram na calada, mas não consigo mais sentar ao computador e escrever palavra. As músicas continuam me prendendo num loop eterno.” “Cinta de Möebius.” “É. Entra a música – a danada da Carla Bruni – e não faço mais nada. Tô perdido.” “Tá nada. Tá é apaixonado.” “Pode ser. Mas escrever é paixão e paixão é desequilíbrio. É como andar, um exercício de corte com a queda. Um ensaia o tombo e o pé segura na razão. E assim andamos passo a passo. Palavra a palavra.” “Os versos medidos e desmontados.” “Os parágrafos pensados e encadeados. É isso aí. Mas ela me dá paz e na paz fico amarrado.” “Enforcado.” “É.”
Tinham feito o mesmo curso de tarô vinte anos atrás. Brincavam de “carta favorita” a cada evento de chope. Era como se tirassem as cartas para si mesmos sem precisar do baralho. Poeta retomou o papo depois do silêncio.
“Te contei quem divide a minha cama agora? É a Aline.” “Não brinca? Sério. Porra, cara! Tu não é homem bastante para ela! Tem esse jeito bobo, desengonçado, sem graça!”
Riu da própria piada. O outro não.
“Eu sei. Também acho isso. Eu acordo de noite e fico olhando para ela meio embasbacado. Ela ali, nua. E eu fico medindo a minha sorte. A sorte de um merda de um poeta frustrado e funcionariozinho de uma porra de empresa de webdesign. Webwriter de cú – com acento! – é rôla! Mas é isso que tá me fazendo levantar cada dia e encarar mais um dia de FGTS. É essa a vontade de ser um homem mais merecedor daquela deusa que divide o suor e o gozo comigo. Essa mulher maravilhosa que me dá o prazer de dividir a sua intimidade.”
Romancista riu baixinho, como se entendesse tudo agora.
“Cara, você quebrou a regra número um do artista: não se come a musa.” “Porra cara!” “É sério. Teu motor de inspiração era o amor não resolvido desfiado em tinta e papel. Teus melhores textos eram aqueles que ficavam ali no fio da navalha entre a corte para a conquista, essa dança de acasalamento moderna, e a punheta da paixão platônica. Era ali, na penumbra, que você se encontrava.”
Poeta ficou meio puto, meio divertido com o comentário.
“Você queria que eu fizesse o quê? Nunca fui bom nessa merda de cantada, de cortejar. Sempre me perdi nesses dois lados do muro. Nunca sabia se pedia o telefone ou email.” “Como é que é?” “Se eu pedisse o telefone, significava que eu já ia para a abordagem, apontava a proa do navio e abalroava a menina. Se eu pedisse o email, era para ficar na cantada insossa, no cerca-lourenço que se convencionou chamar ‘a corte’ hoje em dia.” “Cara, e o meio-termo?” “Te disse, nunca fui bom nisso. Eu acabo que me atiro antes dos sinais de permissão e invado o espaço alheio me fazendo querer. Só que nem sempre o outro lado tá sabendo das regras do jogo e nunca combina resultado, né?” “Acho que entendo.” “Então. Ela veio, entendeu o jogo antes de eu colocar as regras. Me desarmou, se instalou, tornou-se parte da decoração do meu quarto.” “Que merda de metáfora.” “Tô falando que perdi a mão!”
Ambos riram, pediram um jiló em conserva, saideira e a conta. Chovia menos. Andaram até a Nossa Senhora de Copacabana e fizeram sinal para um táxi. Partiram para a Tijuca. Um atrás de quem já lhe esperava, outro atrás de algo que havia perdido.
Quando Poeta desceu do carro, virou-se para o amigo.
“Quem tem medo do fim, não deve nem começar.” “Tu tá bêbado.” “E feliz!”
Fechou a porta, mesclou-se com a paisagem da Praça Vanhargen. Súbito, o que ficou tinha uma história para contar.
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October 16th, 2005 §
publicado na Tribuna da Imprensa
Você sabe o quão patético é qualquer carta de amor. Especialmente nos nossos dias. Então deixe-me aproveitar o momento em que tenho uma desculpa venal, que o álcool que me corre às veias deixa turvo o meu senso de ridículo e me permite escrever essas linhas digitais, ainda que mal-traçadas na minha cabeça mas indeléveis na minha alma.
Você apareceu na minha vida como um trem sem apito, me abalroando para fora de um curso que eu tinha traçado para mim. Assim como um personagem dos meus contos, eu tinha o meu futuro nas mãos. Fora confirmado pelos astros, pelas cartas, pelas videntes e pelo sangue das aves sacrificadas ante o nome dos que vieram antes de nós. Defronte dessas autoridades inegáveis me foi revelado o destino e você não estava nele.
Ainda assim você me apareceu bela, jovem, inteligente, astuta e inegavelmente sedutora. E meu desejo não coube mais em minhas calças, subiu à mente e tomou conta de minha razão.
Contra tudo em que eu acreditara, larguei mão dos meus valores, das minhas certezas e me entreguei a você. Ok, ok. É certo que você sabia que eu tinha um vínculo emocional que não estava totalmente desfeito, havia um risco, é fato, e você sabia disso. Mas a sua presença, não a de outra mulher, é a que me fez repensar a vida, olhar o futuro e renegar o Império. É sua a parte do desejo que a minha inação fez fazer água no projeto de singrar os mares.
Sim, o álcool e os seus primos me tiram a coordenação e o foco nesse instante, mas quero que saiba: eu não falo nada que não afirme ante o sol a pino ou com o sacro livro ante minha mão. Tudo que relato é de coração aberto. Sempre foi assim. Se te reneguei no passado foi porque eu não me enxergava ante a dor da mudança. Pois é. Toda mudança dói e aquela que é inesperada, marca mais fundo e come a base que sustenta o argumento consciente. A consciência é moldada ante as cascas das feridas que a experiência nos dá. O que é a gravidade senão a consciência do hematoma da queda?
Mas perco o foco e razão. Carta tem de ter relato, início, meio e fim.
Eu acreditei que poderia mudar as pessoas. N’O Filme dizia que o grande erro do homem é exatamente esse: crer que pode mudar as pessoas. As pessoas, em verdade, se deixam ser mudadas e apenas naquilo que acham que lhes é conveniente. Errei. E esse não foi o meu único erro.
Quis dar a distância entre nós para que pudesse te preservar. Mas você não me entendeu o tempo e eu tampouco o te dei para que pudesse me entender. Me negas agora e é justo o teu negar. Não imploro mais o teu querer. Não. Nunca mais. Não mesmo. Nem quero. Como eu te quero. Por favor.
Tem uma cena que imaginei entre nós. É improvável dada os personagens e os fatos, mas é uma cena que me acalanta quando repenso quão imbecil, tolo, fútil, inseguro, insensato, arrogante eu fui para conosco. Matando toda e qualquer chance de que pudéssemos ao menos acordar juntos e dividir uma manhã.
Divago e não falo da cena. Me é cara falar sobre ela.
Sonhei com essa cena na última vez que deixei tua casa, antes dos contos que não falavam sobre nós mas falavam de quem já era passado.
Ei-la:
Imaginei um homem. Talvez eu mesmo, talvez um futuro amante. Ele era incerto e inexato. Exatamente do jeito que eu gosto de pensar as minhas personagens. E sobre ele eu contava a história de um jeito bizantino, como uma trama, dentro da trama, dentro da trama.
Ele tinha um hábito irritante de freqüentar vernissages, noites de autógrafo e outros desses eventos semi-abertos onde se serve o péssimo vinho que importadoras de bebidas que desovam como “patrocínio” ou “apoio cultural”. Chegava a ser uma compulsão, na verdade. Tinha alguns contatos de quarta categoria que se divertiam em enviá-lo para os eventos mais esdrúxulos como a reinauguração da placa do centenário do canhão inaugural do forte de Copacabana ou a noite de autógrafos de um blogueiro qualquer que conseguiu publicar suas crônicas semanais.
O que ele não revelava às pessoas é que a diversão não era o evento em si, mas ficar nos cantos fingindo que conhecia os proto-famosos, dando um acenos com cabeça e com um ar blasé treinado a anos a fio. Outro hobby era ficar ouvindo fragmentos de conversas e tentar ficar adivinhando o papo como um todo. Anotava os fragmentos em guardanapos sujos ou em cadernos-brinde para usar em algum momento importante da sua vida.
Numa estréia teatral, ele pega o papo de um autor de peças de teatro com um engravatado aleatório.
“E, recitando um poema de Florbela Espanca, ele a pega como se fosse beijá-la. Ela se desmonta em suas mãos. Ao terminar o poema, ele se vira para os outros no churrasco e pede uma cerveja. Ela olha meio puta meio pidona para ele e, antes que ela pergunte qualquer coisa ele responde: ‘Beijo não é para ser esperado. É para ser tomado com o consentimento do outro. Beijo é a porta do prazer e se você não tem ciência disso e espera que o prazer lhe seja entregue em bandeja de prata, não merece o gozo’.” “É uma boa cena, mas acho que temos de cortar a parte do poema. Não dá Ibope.” “Mas aí perde todo o sentido. Deixa eu te mostrar o poema.” “Não. Sem poema.”
Ele se dirigiu para o bar para tentar caçar um salgadinho ou mais uma taça de vinho. Quem sabe até teria sorte e coletaria mais alguma história interessante.
A imagem acabava aí. Mas o pranto só começaria depois.
Já tenho o poema em mãos. Já tenho a dor do passado seco e curado. Tenho um vazio que era para você e hoje não quer, com toda a razão.
Mas não sou feito de razões. Estas eu deixo para pagar as minhas contas. O que tenho para o mundo é minha veia aberta, o meu core sangrado e exposto.
Cansei de passar os meus trinta e poucos anos brincando de homem sério e responsável. Ok ok. Nunca fui bom nesse papel. Quero agora chorar em público, brincar de Drama Queen, como bem batizastes, de não ter vergonha dos meus quereres e de olhar para o espelho e me reconhecer, íntegro e paradoxal.
Não quero mais ter as razões do mundo. Quero apenas que o mundo me tenha.
Se isso afeta a tua concha, querida, eu peço desculpas. Me retiro e deixo que as sombras da ribalta guardem o teu descanso. E torço, pouco, para que aches quem te acompanhe nesse teu hibernar. Ele é justo e de teu direito.
Enquanto isso te espero. Meu amar é incondicional.
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October 8th, 2005 §
Caio Fernando Abreu, em carta ao amigo Zézim, em 22 de dezembro de 1979 (roubado do blog Pentimento)
“(…) Você quer escrever. Certo, mas você quer escrever? Ou todo mundo te cobra e você acha que tem que escrever? Sei que não é simplório assim, e tem mil coisas outras envolvidas nisso. Mas de repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é, e a sua obra? Cadê o romance, quedê a novela, quedê a peça teatral? DANEM-SE, demônios. Zézim, você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar, eu tenho certeza, você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, “apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo”. Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a “função social”, nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida.
Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de “meio doida”. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud.
É esse tipo de criador que você quer ser? Então entregue-se e pague o preço do pato. Que, freqüentemente, é muito caro. Ou você quer fazer uma coisa bem-feitinha pra ser lançada com salgadinhos e uísque suspeito numa tarde amena na Cultura, com todo mundo conhecido fazendo a maior festa? Eu acho que não. Eu conheci / conheço muita gente assim. E não dou um tostão por eles todos. A você eu amo. Raramente me engano.
Zézim, remexa na memória, na infância, nos sonhos, nos tesões, nos fracassos, nas mágoas, nos delírios mais alucinados, nas esperanças mais descabidas, na fantasia mais desgalopada, nas vontades mais homicidas, no mais aparentemente inconfessável, nas culpas mais terríveis, nos lirismos mais idiotas, na confusão mais generalizada, no fundo do poço sem fundo do inconsciente: é lá que está o seu texto. Sobretudo, não se angustie procurando-o: ele vem até você, quando você e ele estiverem prontos. Cada um tem seus processos, você precisa entender os seus. De repente, isso que parece ser uma dificuldade enorme pode estar sendo simplesmente o processo de gestação do sub ou do inconsciente.
E ler, ler é alimento de quem escreve. Várias vezes você me disse que não conseguia mais ler. Que não gostava mais de ler. Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. E eu acho — e posso estar enganado — que é isso que você não tá conseguindo fazer. Como é que é? Vai ficar com essa náusea seca a vida toda? E não fique esperando que alguém faça isso por você. Ocê sabe, na hora do porre brabo, não há nenhum dedo alheio disposto a entrar na garganta da gente. (…)”
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March 6th, 2005 §
para Andrea Capella
Numa noite de insônia, como tantas outras, ele resolveu dar uma volta na praia. Não morava muito longe, uma quadra e meia da praia que, mesmo às 4h da manhã, estava bem freqüentada pela população marginal de uma cidade turística. E, entre putas, pivetes, traficantes, pedintes, população de rua, turistas em busca de sexo barato e bêbados, ele teve uma idéia genial. Aquilo que iria mudar o mundo.
Seriam Vinte Histórias Universais. Daquelas que todos escutam e repetem, verdadeiros Memes Literários, como Branca de Neve, Sete Samurais e O Herói Que Sai De Casa E Volta Maior Que O Mundo.
Apesar disso já ter sido feito várias e várias vezes, o grande diferencial seria a magnitude da obra. Em cada país, ele escolheria um escritor famoso e um ilustrador cujos estilos combinassem e ambos recriariam a história. Então não seriam vinte histórias mas trezentas versões de cada história, recontadas de forma original e ilustradas de maneiras nunca dantes vistas. Haveria espaço para o pesquisador, para o neo-beatnik, para o gótico, para o neo-urbanista, enfim, cada um uma meta-obra em si.
Mas isso não era bastante. Em cada país ele encontraria parceiros que, junto com a Unicef, ajudariam a bancar a produção dos livros que seriam vendidos a uma unidade monetária de cada país, a título de ajuda de custo. As tiragens seriam sempre na casa dos milhões e, em pouco tempo, seria o maior projeto literário do mundo inteiro, desde Gutemberg. Depois, edições encadernadas em aço, uma para cada país participante, guardariam um exemplar de cada obra em cada idoma, preservando a arte e as histórias por si só, seriam distribuidas, juntando-se aos tesouros nacionais. Vinte histórias contadas por todos os povos de várias maneiras possíveis, seria uma obra digna de lembrança por gerações a fio.
Depois viriam os louros, a primeira obra global haveria de ser um sucesso, de certo! quem não gosta de Branca de Neve, dos Irmãos Grimm? Seriam 150 línguas diferentes, já que era um embrião de projeto. Alguns países não botariam fé mas, até no Irã seria publicado. E lá iria ele, receber prêmios e mais prêmios até passar mais tempo nos aviões e aeroportos que em casa, trabalhando.
Mas haveria uma equipe que selecionaria os textos e as artes, espalhada por todo o mundo. E ele coordenaria os prazos de produção e de entrega e os faturamentos. Mas isso não era o que ele quereria para si então ele delegaria a parte burocrática para a própria ONU e seria um embaixador dos contos e rodaria o mundo (185 países) na segunda edição, O Rouxinol do Imperador.
Alguém lhe alertaria que não haveriam tantas histórias assim, então ele pediriria de antemão uma pesquisa sobre as histórias infantis mais difundidas no mundo e ele descobriria que não eram vinte, mas cem, na sexta edição, A Morte de Arthur. Ainda assim, preferiria ficar nas vinte iniciais e desistiria de rodar o mundo todo, apenas indo nos países que recém ingressariam no projeto. Entraria em países em zonas de conflito, mas teria a certeza que estava caminhando com passos que não eram seus, mas da humanidade encarnada, sonhando a vida de alguém.
Nessas viagens, se esqueceria das pessoas que estiveram com ele durante toda a sua vida, da família e da filha que lhe inspirara esse projeto global e, dessa saudade de se lembrar dos que amava, ele sentaria numa cadeira de um aeroporto, viraria para a criança que estaria sentada a seu lado e contaria a única história que ele queria todos conhecessem.
“Havia um cavalo azul que pastava nos sonhos das crianças e, quando uma acordava, ele corria e pulava para o sonho de outra para pastar mais sonhos de sorvetes, pés sujos no chão, sorrisos desgovernados, dentes moles e camisas meladas de chocolate.”
Mas ele descobriria que estava apenas tentando contar os seus sonhos. E eles não interessavam às crianças que agora leiriam e veriam as maiores histórias da humanidade. Afinal de contas, o que era ele, senão instrumento. Títere de uma força maior que é o legado da humanidade naquilo que ela tem de melhor.
Daí, da praia, ele resolveu comer um cachorro quente, tomar uma coca-cola e voltou para casa, tinha de acordar cedo no dia seguinte e muito trabalho a fazer daí por diante.
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