November 26th, 2009 §

“Dois conhecidos se reencontram trinta anos depois. Brincavam juntos nas areias de Copacabana, quando tinhams menos de dois dígitos de idade. Um deles, filho de um médico, tornou-se um famoso economista, conselheiro de nações, gênio mundial, outro escolheu a felicidade do dia-a-dia. Almas gêmeas.”
Eu ia escrever uma crônica, talvez extensa, sobre esse encontro e iria derramar tinta por conta de um diálogo que imaginei no caminho para o trabalho. Mas alguém vem e faz o trabalho por mim.
A genialidade não está pensar, imaginar, bolar. Tampouco em fazer acontecer. A genialidade está no in between, é desapercebida para quem é, óbvia apenas para quem admira.
Como um quadro. Como uma frase. Uma tagline.
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April 28th, 2009 §
Confesso, a quem interessar possa, o meu vício no que é novo, fresco e sem história. Gosto de inícios, gosto do frisson que dá um projeto, uma idéia, uma paixão, um livro ao sair da bolsa, uma premiére. Gosto do cheiro da tinta no papel quando abro a revista, da roupa desvelada do pacote de presente, do gosto do primeiro beijo do dia, do toque do lençol antes do início do sono.
Adoro começar e teimo em não aprender que o início é a cada dia, a cada nova conversa. Ainda que com as mesmas pessoas, as mesmas caras, os mesmos ares, os mesmos assuntos.
Omnia mutantur, nos et mutamur in illis.
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February 23rd, 2009 §
Acabei de ler o último livro de contas do Luis Nassif, A casa da minha infância (Ed. Agir, 264 pág.), e a impressão que eu tive foi parecida com a de muitos outros livros de contos e crônicas que eu tenho lido nos últimos anos.
Não sei se, dado o evento dos blogues, os textos produzidos e lançados na ionosfera – me recuso a chamar esse agrupamento de textos eletrônicos de blogosfera – tendem paulatinamente a serem rasos, fracos, curtos na personalidade e na memória. Não me excluo disso, absolutamente, mas conto nos dedos de um maneta os blogues que me deixam boas impressões ditas literárias.
Até porque literatura não é blogue nem vice-versa. Ou não.
Reconheço a importância da mídia em si. O do it yourself literário é uma revolução que meus netos conseguirão avaliar, assim como o jazz para os da minha geração. No caso do proto-jornalismo, ou o jornalismo autônomo, eu nem entro em discussão. Até porque os blogueiros ditos jornalistas mantém a tradição do texto pobre, raso e insípido que é norma vigente desde que as fotos dos famosos passaram a valer mais que as “letrinhas” que as acompanhavam.
Mas tergiverso do tema. Li o livro do jornalista e blogueiro Luis Nassif mas acho que ele padece – ao mesmo tempo – do mesmo problema que os colegas de publicação digital e do de coletânea de crônicas/contos. No primeiro caso, ele apresenta seguidamente boas idéias que se perdem com a urgência do texto. Dá sinal que o send ou o publish falaram mais alto que o carinho com as palavras, com as sentenças. Há até erros crassos, como um parágrafo inteiro sem um verbo na crônica que trata do Sivuca. E não se tratava de recurso lingüístico, mas de urgência em contar uma história de que – acima de tudo – merecia um pouco mais de esmero. No segundo caso, apresenta-se a papa-fina logo no início, para cativar o leitor de pé de livraria e fazê-lo correr para o caixa. Não é coisa incomum, apresentar os textos que bambeiam as pernas nas vinte primeiras páginas e “A casa da minha infância” não faz diferente.

A casa da minha infância – Luis Nassif
Óbvio que isso é preciosismo da minha parte e é óbvio que o livro não é despido de emoção ou profundidade. Por exemplo, quando li da morte do seu Oscar ou da transcrição da entrevista de Natalício Moreira Lima bate aquela vontade de ler mais e de carregar consigo os personagens da história. De fazer parte daquela família, de querer ter sido testemunha das desventuras do índio. Mas é onde a emoção e jeito gostoso de contar história falam mais alto, é que se esconde a decepção do ponto final.
E isso é mais porque o todo não acompanha os pedaços que falta de talento ou técnica. Uma pena.
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February 10th, 2009 §
E então eu embarco no ônibus da viação Itapemirim com uma leve dor de cabeça. É fome, penso. Como o lanche que vem de brinde e a diaba não passa. Coloco uns filmes para ver no lepitópi -Battlestar Galatica está sensacional!- e a dor de cabeça só piora. É o balançar do ônibus, penso. Desligo tudo e tento cochilar. Nada. Só começa a espalhar do lugarzinho detrás do olho onde a cefaléia mora, desce pro ombro e se estica como arame até o dedão do pé. É enxaqueca, decreto.
Daí espero a parada de sempre, compro uma caixa de neosaldina -santa salvadora hosana nas alturas- e tomo quatro. Não passa. Quatro horas de batidas na cabeça no vidro entre as cochiladas da viagem para ver se o crânio rachava ou a dor cedia. Nem um nem outro. Chego em sampa e parece que a coisa melhora um pouco. Tô bom, me iludo. Nada feito: era a endorfina da manhã dando o seu alívio. Oito horas decido tomar Novalgina(tm) para ver se a diaba cede. Nada. Mais um grama do remédio santo -salve salve hosana nas alturas- e parece que começa a ceder. Tomo mais dois gramas só para ver se o negócio anda mais rápido. Anda sim e eu chapo na cama como um bebê.
Acordo às 15h com o dia perdido. Ainda bem que avisei à chefe, penso. Agora, às 2h22 fico fazendo desejos de sono de volta.
Saco.
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August 26th, 2008 §
As ruas me estranharam como se o meu olhar lhes fosse estranho. Era como se o roçar de ambos não fosse mais uma rotina, mas um acaso, como se eu fosse um alienígena na minha própria casa. An Englishmen in New York cantaria o chato do Sting (objeto de amor platônico de dezenas de gordas mal-amadas em São Paulo) e nunca estaria tão certo, nesses vinte anos desde que gravou o álbum Nothing Like the Sun, quanto agora, no encontro do meu dia com a memória dessa música.
E há o sono, o sono e o sono. Há a vontade de chuva caindo. Há as saudades do cheiro do orvalho, do ar carregado de tempestades e da maresia. Saudades da chuva que cai do teu corpo e do rolar na cama sem desespero e sem pressa do horário do ônibus partir. Há o cansaço das doze horas dormidas no frio e das poucas horas dormidas na concha e há o sonho de tudo se acertar no fim das coisas.
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July 27th, 2008 §
publicado na Tribuna da Imprensa
Meu caro Chico,
Estou com duas cartas prontas na minha cabeça, mas relutava e reluto em escrevê-las. Escrevo-lhe essa primeira carta porque lhe devo desculpas prementes e desculpar-me é o que farei antes de tudo.
Há um ano você me telefonou e eu reagi de uma forma tosca. É que não sei ouvir um elogio sincero. Nunca soube ser elogiado. Me desconcerta, me quebra de uma forma que me impede de voltar à minha empáfia e arrogância normais.
Sei que você não me conhece ao vivo – pelo telefone não dá para saber como se olha, como o cara se porta, onde coloca as mãos e tal – ou bem o suficiente para poder reconhecer uma pessoa inteira nesses pedaços de gente que deixo antever nos textos. Por agora, apenas acredite que sou uma criatura pra lá de desinibida e com a língua mais rápida do sudoeste. Obviamente, tudo questão de defesa. Não existe pior tímido que o falastrão.
Pela situação esdrúxula e constrangedora, peço desculpas. Mas deixe-me explicar um pouco mais o que acontece nessa cabeça esquisita.
Você me elogiava com sinceridade e eu não sabia onde meter a cara. Elogio sincero – de quem não tem intimidade com a gente – é coisa muito rara. Acho que só fui elogiado assim por um professor de literatura que invadiu a nossa sala num intervalo apenas para falar de um texto meu que estava exposto num mural da escola. De resto, só aquele papo social dos amigos e tal. E você me elogiava justo quando eu escrevia sobre coisas que são difíceis para eu falar até hoje: basicamente sobre os fins e sobre o meu pai.
Mas deixe estar. Provavelmente, quando desencantar o chope entre nós, eu paro com essa babaquice e tudo volta ao normal.
Só para fechar a coisa toda, aquele texto, “Crônica do amor seco”, foi escrito num momento de epifania, quando dei por mim que tenho muito pouco a ofertar às pessoas. Basicamente um sorriso rápido, uma tirada rasteira e uma profundidade de pires. Sabe?
E quando escrevi aquilo eu estava me sentindo como quando Dorian Gray encontra o seu retrato envelhecido e distorcido. Era uma ficha que não precisava ter caído, mas veio redonda numa caminhada triste pela Avenida Paulista. Chegando em casa, precisava vomitar tudo. Daí nasceu um dos meus textos mais redondos, que nasceu sem cortes, sem emendas, sem ajustes. Quase que nem o do nascimento da minha filha, “E assim se passaram sete anos”. Quando escrevi sobre o meu pai, foi um desafio que impus a mim mesmo e o processo é outro, a ser tratado em outra carta.
Mas, rodeios à parte, eu queria te falar dos fins.
Cada vez que começo alguma coisa sinto lá plantado o finzinho dele, sabe? É como se eu sentisse o cheiro da noite cair antes mesmo do sol nascer. Aquela maresia que vem anunciando o por do sol. Eu só fico me lembrando como era bom chegar da aula e ficar na janela sentindo o cheiro do mar anunciando as seis da tarde. Maresia, reza do Ave-Maria e bolo quente.
Sempre me senti confortável com o fim das coisas. A dor da finalização – que indica que a história havia sido verdadeira, do fundo do coração – e a sensação de uma história bem contada sempre me acompanharam.
Obviamente estou romantizando a coisa. A maresia nem era tão forte assim. E muitas vezes tive de engolir amargo um pé-na-bunda. E eu nunca gostei de romper com quem gosta de mim. Especialmente se gosta de verdade de mim. Mas não existe só esse fim, obviamente. Sair de um trabalho é sempre uma emoção interessante. Entregar um trabalho, nem tanto. Enterrar um ente querido, menos ainda.
Quando moleque, li um livro da Coleção Primeiros Passos: O Que é Morte. O livro dizia que a morte – ou o velório, como seu símbolo primeiro – foi migrando do interior da casa, da mesa da sala de jantar, para o hospital, para um lugar-comum de morte e fim.
Com os relacionamentos, a coisa é parecida. Se antes ficávamos adubando relacionamentos findos – que já fediam de tão mortos dentro do quarto, partilhando a mesma cama – hoje eles começam e terminam em um beijo sem nome. Não faço juízo de valor, até porque sou de pouca moral para julgar alguém, mas me espanta a facilidade que temos (que tenho! que tenho!) em virar uma página, chorar o texto que fora escrito e continuar em frente.
Talvez porque sejamos mesmo fadados a seguir em frente, apesar do que tenhamos feito.
Abraços do teu fã.
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July 11th, 2008 §
publicado na Tribuna da Imprensa
Hoje eu li em um blogue de uma amiga (http://simsenhoras.blogspot.com/2008/07/quero-namorar-o-wall-e.html) que ela não vê mais as pessoas simplesmente dando as mãos por aí. Que no arsenal da conquista não se usa mais o singelo gesto de procurar a mão da menina e segurar os dedos entre os dedos num enlace quase que obsceno, mas mais singelo que os olhares que enrubescem. Que não vê mais o gesto em si mesmo gerando o momento mágico.
Eu sou uma criatura de “grude”. Gosto de tocar, abraçar de dar beijos e tal em quem tenho carinho e afeto. Obviamente já passei da fase adolescente onde os futuros adultos arrumam n desculpas para se jogar uns em cima dos outros ou se amontoarem pelos cantos. Algo a ver com os hormônios em ebulição ou uma desculpa esfarrapada para pré-sexo. Dito isto, acho que poderão entender melhor o caso que tenho para contar.
Pois bem.
Um dia, numa das minhas idas profissionais à cidade do dinheiro e à terra da fortuna, eu saí com uma conhecida para podermos materializar o nosso conhecimento mútuo. (Não me entendam mal! A frase anterior é só uma forma pernóstica de dizer que fui conhecer de fato uma pessoa que conhecia pela Internet. É que às vezes conheço mais de fato quem nunca vi de perto. E às vezes conheço menos de perto quem já vi de fato. Fato.) Fomos a uma pizzaria numa praça que só recentemente voltei – e gravei o nome. E obviamente me esqueci novamente, a ponto de não ter sequer referência para citar nessa crônica de quarenta linhas.
A pizzaria era modernosa, com uma decoração bem interessante. Como bom carioca, sempre achei que pizza boa era a que era servida rapidamente. Ali fui introduzido à grande arte de ser fazer Pizzas em Sampa.
Antes mesmo de fazermos o pedido, senti que havia algo no ar. Uma atração definitiva. Da minha parte, claro, por minha amiga. As pizzas não tinham nada a ver com a história. A moça era bonita, charmosa, interessante mesmo. E tinha bom gosto. Afinal de contas, sabia escolher a companhia para o jantar.
Durante o evento inteiro eu não conseguia desgrudar os olhos dos olhos da moça e “dava um jeito” de fazer as mãos delas encontrarem as minhas. Quando ocorria, parecia que eu estava segurando o braço de uma cadeira ou apenas uma maçaneta. Nada. Nem uma fisgada, nem uma alteração na voz da moça. Nadica de nada. Um suspiro ou uma pausa ao menos? Não.
Obviamente achei que não tinha logrado sucesso e tal. Mas são coisas da vida. Se todas as mulheres desejassem todos os homens (e vice-versa), não haveria agenda que desse jeito para tanta fornicação. Ou romance. Fica no teu critério. Fato é que não funcionaria de forma alguma. Há de se ter a rejeição por bem da humanidade.
Mas, como a vida sempre surpreende e desconstrói as primeiras impressões, na saída, a moça me permite um beijo. Obviamente voltei pro Rio sem entender coisa alguma.
Quando mudei em definitivo para Sampalândia, eu entendi que havia um tipo de gente que não se toca, a não ser na intimidade. Que um abraço pode ser sinal de posse e que um pegar em mãos pode ser ostensivo, declaratório e íntimo demais para duas pessoas que apenas se flertam.
Da pior forma, entendi que esse não era o meu tipo de gente.
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April 5th, 2008 §
publicado na Tribuna da Imprensa
Inicialmente preciso dizer que odeio correntes. Não pelo aspecto social ou de replicação da interconexão dos pontos de propagação desses memes em si, mas por preguiça pura mesmo.
Quando minha mãe recebia aqueles envelopes com cartas abençoadas por Santa Edvigies, Aquerupita ou Efidálzia, ela prontamente sentava-se à máquina de escrever e copiava copiosamente os textos mal-redigidos que prometiam fortuna eterna ou danação em sete dias, caso não fossem enviadas no menor tempo possível para centenas de pessoas. Hoje, cá com os meus botões, eu daria um emprego ao marqueteiro que bolou esse viral para a ECT.
Rabugices à parte, essa corrente dos livros me cativou na hora que recebi. E o que me animou nem foi tanto a corrente em si, mas saber que quem me enviou é uma consumidora voraz de livros. Ou seja, vindo de quem veio, eu não tinha como recusar. Muito obrigado, Giseli. Vai ter troco!
Bom, vamos aos livros bons:

1. Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, de Jonathan Safran Foer, conta a história de Oskar Schell, inventor, entomologista amador, francófono, escritor de cartas, pacifista, percucionista, romântico, explorador, joalheiro, detetive, vegetariano e colecionador de borboletas e um menino de nove anos. É apenas a melhor coisa que li nos últimos anos.

2. Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios, de Marçal Aquino, traz-nos uma aventura de sexo, vingança e violência no interior da Amazônia. Não bastasse ser sensacional, apenas pela história em si, é uma coletânea de citações dignas de Bernard Shaw ou de Ambrose Bierce. Vale nem que seja para aumentar o repertório de cantadas.

3. O Berro Impresso das Manchetes, de Nelson Rodrigues. Me diziam que Deus está morto e sua palavra chegou até nós. Eu não acreditava, mas agora sou o seu maior discípulo, apóstolo e profeta. Deus – em pt_BR – chama-se Nelson Rodrigues e o cabra é simplesmente o ponto mais alto que eu consigo imaginar na narrativa em língua portuguesa. Não que ele seja perfeito, mas quem quer um Deus literário perfeito? Já temos Shakespeare e Camões ocupando esse posto letra-a-letra. Mas essa coletânea de crônicas me faz torcer por uma peleja de futebol como nunca dantes. Aliás, nunca havia gostado de futebol até ler a palavra de Deus.

4. Encyclopedia of Things That Never Were, de Michael Page e Robert R. Ingpen. Não é um livro para se ler de cabo a rabo, mas para se deitar na rede da casa, sentir a brisa do outono trazendo a noite e a chuva fina enquanto se sente o cheiro do bolo de chocolate solado saindo do forno, um leite gelado com café e manteiga derretida em cima de pães de queijo. Depois, arruma-se tudo no centro da sala com a tevê ligada em algum desenho animado o qual você não prestará atenção. E, súbito, você estará em terras distantes, entre pessoas que nunca existiram. É dos livros que mantêm a criança viva dentro de ti. É alimento para a alma.

5. Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach. Li quando criança. Reli quando adolescente. Re-reli quando adulto. Não é um exemplo de texto, de mensagem, de qualquer outra coisa mas tenho uma memória afetiva muito boa com esse livro. Li todos os outros do Richard Bach até ele embarcar numa viagem mística muito chata. Fica a lembrança boa de lágrimas molhando os olhos no balançar do ônibus para a escola.
Agora vem a parte mais desagradável. O livro ruim. Desagradável porque são tantos, mas tantos, que eu geraria uma legião de ogres ensandecidos que viriam à minha casa com archotes me martirizar. Ou não.

6. Urbanóides, de Zander Catta Preta (http://casadozander.com/urbanoides). É uma obra menor, corrida, mas feita com coração. Baixem. É de graça. Ao menos nenhuma árvore precisa morrer para vocês lerem-no.
Passo a corrente para Gabi, Eric, Júlio, Júnior e Lia (que provavelmente não a repassarão para ninguém).
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March 25th, 2008 §
publicado na Tribuna da Imprensa
Lei primeira: Nunca se envolva com o objeto do seu interesse. O distanciamento emocional é fundamental para a sobrevivência do canalha.
Sempre achou que o tempo ideal de uma relação era de três meses. Nem mais nem menos. Desta forma poderia ter uma história inteira – flerte, foda e fim – e virar a página rapidamente sem ter nenhuma seqüela para ambas as partes. Obviamente nunca consultava o outro “time” para ver se este discordava dessa metodologia em que era submetida sem o seu consentimento prévio. Como bom canalha, assumia na cara dura o seu comportamento misógino a guisa de “sinceridade”. Só que nem toda sinceridade é honesta e nem toda honestidade é sincera. Pena que poucos sabem disso.
Eis que o dito fez-se apaixonar por diversas meninas da Tijuca a Bangu, visto que era bem-apessoado, bem-nascido e tinha uma conversa interessante, apesar de se deixar levar pelo som da própria voz. De fato, adorava ouvir-se discorrer por centenas de assuntos que não tinha interesse ou conhecimento, apenas para ver o resultado desse encantamento umbilical se transpor nas meninas incautas e imaturas. Acima de tudo, amava esse poder de fazer descer as calcinhas das meninas.
Era um tipo de narciso bem estranho.
Lei segunda: Nunca, em hipótese alguma, se apaixone pelo objeto do teu interesse. A ausência de paixão é o que garante a sobrevida do canalha.
“Três meses.” Ele dizia. “Três meses e tchau. É assim que funciona comigo e pode funcionar com todos vocês. Em semanas vai chover mulher na cama de cada um. A ponto de ter de colocar uma catraca para os amigos contabilizarem no final da semana.” Os amigos olhavam embevecidos e invejosos. Não acreditavam em metade das aventuras que o canalha à mesa contava, o que, estranha e ilogicamente, fazia a lenda aumentar. “Nem tudo pode ser inventado, gente. Já vi o cara carregando duas para casa.” “Eu lembro do dia que ele catou a loirinha da praia que ninguém com menos de dois metros pegava” “E a menina-blogueira-fox-trot? Eu tava lá, minha gente! Era só gemido e chão batendo no quarto do lado!” “E a escritora da Barra da Tijuca? Essa eu também vi.” “E não se esqueçam do anão! Um anão, gente! Um anão!”
Porém, mais que as histórias das conquistas, ele se deleitava em discorrer sobre as derrotas, sobre as deusas monumentais que nunca sucumbiram aos seus – poucos – encantos , sobre os términos. Podia-se dizer que era um apaixonado em fins de relacionamentos. E se orgulhava de cada biltrice que praticara em dezenas de anos de prática ininterrupta de canalhice crônica.
Lei terceira: Todo canalha irá, inevitavelmente, se apaixonar pelo objeto do seu interesse. Deste ponto em diante, o canalha está morto.
Calhou de cruzar o caminho do nosso personagem preferido, moça prendada que cheirava a jasmim. Ela, da tez macia, do olhar brejeiro, do rebolar cadente, do olhar triste, sucumbiu como mais uma. Apenas mais um número de telefone na sua agenda de celular. Ao levantar-se derradeiramente da cama, deixou ali o velho promíscuo e rabugento e não reconheceu o estranho brilho nos olhos de cafajeste. Ele, ao fitar-se no espelho enquanto calçava as meias, sentiu o peso da vida e a doçura irem porta afora.
Foi-se o último canalha verdadeiro.
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February 28th, 2008 §

Não sou jornalista de verdade, nem jornalista de mentira, mas já sonhei um dia ter uma crônica na revista Veja.
Hoje só queria ver colunistas escrevendo bem e matérias bem apuradas. Só isso.
É pedir muito?
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