dos vícios

April 28th, 2009 § 5

Confesso, a quem interessar possa, o meu vício no que é novo, fresco e sem história. Gosto de inícios, gosto do frisson que dá um projeto, uma idéia, uma paixão, um livro ao sair da bolsa, uma premiére. Gosto do cheiro da tinta no papel quando abro a revista, da roupa desvelada do pacote de presente, do gosto do primeiro beijo do dia, do toque do lençol antes do início do sono.

Adoro começar e teimo em não aprender que o início é a cada dia, a cada nova conversa. Ainda que com as mesmas pessoas, as mesmas caras, os mesmos ares, os mesmos assuntos.

Omnia mutantur, nos et mutamur in illis.

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A casa da minha infância – Luis Nassif

February 23rd, 2009 § 0

Acabei de ler o último livro de contas do Luis Nassif, A casa da minha infância (Ed. Agir, 264 pág.), e a impressão que eu tive foi parecida com a de muitos outros livros de contos e crônicas que eu tenho lido nos últimos anos.

Não sei se, dado o evento dos blogues, os textos produzidos e lançados na ionosfera – me recuso a chamar esse agrupamento de textos eletrônicos de blogosfera – tendem paulatinamente a serem rasos, fracos, curtos na personalidade e na memória. Não me excluo disso, absolutamente, mas conto nos dedos de um maneta os blogues que me deixam boas impressões ditas literárias.

Até porque literatura não é blogue nem vice-versa. Ou não.

Reconheço a importância da mídia em si. O do it yourself literário é uma revolução que meus netos conseguirão avaliar, assim como o jazz para os da minha geração. No caso do proto-jornalismo, ou o jornalismo autônomo, eu nem entro em discussão. Até porque os blogueiros ditos jornalistas mantém a tradição do texto pobre, raso e insípido que é norma vigente desde que as fotos dos famosos passaram a valer mais que as “letrinhas” que as acompanhavam.

Mas tergiverso do tema. Li o livro do jornalista e blogueiro Luis Nassif mas acho que ele padece – ao mesmo tempo – do mesmo problema que os colegas de publicação digital e do de coletânea de crônicas/contos. No primeiro caso, ele apresenta seguidamente boas idéias que se perdem com a urgência do texto. Dá sinal que o send ou o publish falaram mais alto que o carinho com as palavras, com as sentenças. Há até erros crassos, como um parágrafo inteiro sem um verbo na crônica que trata do Sivuca. E não se tratava de recurso lingüístico, mas de urgência em contar uma história de que – acima de tudo – merecia um pouco mais de esmero. No segundo caso, apresenta-se a papa-fina logo no início, para cativar o leitor de pé de livraria e fazê-lo correr para o caixa. Não é coisa incomum, apresentar os textos que bambeiam as pernas nas vinte primeiras páginas e “A casa da minha infância” não faz diferente.

A casa da minha infância – Luis Nassif

A casa da minha infância – Luis Nassif

Óbvio que isso é preciosismo da minha parte e é óbvio que o livro não é despido de emoção ou profundidade. Por exemplo, quando li da morte do seu Oscar ou da transcrição da entrevista de Natalício Moreira Lima bate aquela vontade de ler mais e de carregar consigo os personagens da história. De fazer parte daquela família, de querer ter sido testemunha das desventuras do índio. Mas é onde a emoção e jeito gostoso de contar história falam mais alto, é que se esconde a decepção do ponto final.

E isso é mais porque o todo não acompanha os pedaços que falta de talento ou técnica. Uma pena.

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cinco livros bons e um nem tanto assim

April 5th, 2008 § 17

publicado na Tribuna da Imprensa

Inicialmente preciso dizer que odeio correntes. Não pelo aspecto social ou de replicação da interconexão dos pontos de propagação desses memes em si, mas por preguiça pura mesmo.

Quando minha mãe recebia aqueles envelopes com cartas abençoadas por Santa Edvigies, Aquerupita ou Efidálzia, ela prontamente sentava-se à máquina de escrever e copiava copiosamente os textos mal-redigidos que prometiam fortuna eterna ou danação em sete dias, caso não fossem enviadas no menor tempo possível para centenas de pessoas. Hoje, cá com os meus botões, eu daria um emprego ao marqueteiro que bolou esse viral para a ECT.

Rabugices à parte, essa corrente dos livros me cativou na hora que recebi. E o que me animou nem foi tanto a corrente em si, mas saber que quem me enviou é uma consumidora voraz de livros. Ou seja, vindo de quem veio, eu não tinha como recusar. Muito obrigado, Giseli. Vai ter troco!

Bom, vamos aos livros bons:

Extremamente Alto e Incrivelmente Perto - Jonathan Safran Foer

1. Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, de Jonathan Safran Foer, conta a história de Oskar Schell, inventor, entomologista amador, francófono, escritor de cartas, pacifista, percucionista, romântico, explorador, joalheiro, detetive, vegetariano e colecionador de borboletas e um menino de nove anos. É apenas a melhor coisa que li nos últimos anos.

Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios - Marçal Aquino

2. Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios, de Marçal Aquino, traz-nos uma aventura de sexo, vingança e violência no interior da Amazônia. Não bastasse ser sensacional, apenas pela história em si, é uma coletânea de citações dignas de Bernard Shaw ou de Ambrose Bierce. Vale nem que seja para aumentar o repertório de cantadas.

O Berro Impresso das Manchetes - Nelson Rodrigues

3. O Berro Impresso das Manchetes, de Nelson Rodrigues. Me diziam que Deus está morto e sua palavra chegou até nós. Eu não acreditava, mas agora sou o seu maior discípulo, apóstolo e profeta. Deus – em pt_BR – chama-se Nelson Rodrigues e o cabra é simplesmente o ponto mais alto que eu consigo imaginar na narrativa em língua portuguesa. Não que ele seja perfeito, mas quem quer um Deus literário perfeito? Já temos Shakespeare e Camões ocupando esse posto letra-a-letra. Mas essa coletânea de crônicas me faz torcer por uma peleja de futebol como nunca dantes. Aliás, nunca havia gostado de futebol até ler a palavra de Deus.

4. Encyclopedia of Things That Never Were, de Michael Page e Robert R. Ingpen. Não é um livro para se ler de cabo a rabo, mas para se deitar na rede da casa, sentir a brisa do outono trazendo a noite e a chuva fina enquanto se sente o cheiro do bolo de chocolate solado saindo do forno, um leite gelado com café e manteiga derretida em cima de pães de queijo. Depois, arruma-se tudo no centro da sala com a tevê ligada em algum desenho animado o qual você não prestará atenção. E, súbito, você estará em terras distantes, entre pessoas que nunca existiram. É dos livros que mantêm a criança viva dentro de ti. É alimento para a alma.

Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach

5. Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach. Li quando criança. Reli quando adolescente. Re-reli quando adulto. Não é um exemplo de texto, de mensagem, de qualquer outra coisa mas tenho uma memória afetiva muito boa com esse livro. Li todos os outros do Richard Bach até ele embarcar numa viagem mística muito chata. Fica a lembrança boa de lágrimas molhando os olhos no balançar do ônibus para a escola.

Agora vem a parte mais desagradável. O livro ruim. Desagradável porque são tantos, mas tantos, que eu geraria uma legião de ogres ensandecidos que viriam à minha casa com archotes me martirizar. Ou não.

6. Urbanóides, de Zander Catta Preta (http://casadozander.com/urbanoides). É uma obra menor, corrida, mas feita com coração. Baixem. É de graça. Ao menos nenhuma árvore precisa morrer para vocês lerem-no.

Passo a corrente para Gabi, Eric, Júlio, Júnior e Lia (que provavelmente não a repassarão para ninguém).

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Farsantes

January 23rd, 2008 § 6

publicado na Tribuna da Imprensa

Num boteco de quinta.

“Olá, o senhor é o Zander Catta Preta?”

“Sim, eu mesmo.”

“O senhor é o que se diz um farsante?”

“Exatamente, farsa é o que eu faço, farsante é o que sou.”

“O senhor poderia me explicar um pouco melhor?”

“Depende. É de interesse profissional ou pessoal?”

“Um pouco de cada. É que não sei bem o que fazer da vida e pensei em entrar nessa área. O senhor tem muita competição?”

“Na verdade, não. O problema são os falsos farsantes. Os que farseam o dia inteiro e se travestem de outras coisas. Eles tomam todo o mercado das farsas e são, hoje, um empecilho para aumentar a lucrabilidade e rentabilidade da farsa produzida honestamente.

“Entendo. E são muitos esses falsos farsantes.”

“São legiões deles. Pior! Se vendem por qualquer ninharia.”

“O senhor não?”

“Só aceito euros. E adiantado.”

“Nossa! O senhor deve ser um farsante conhecido!”

“Farsante conhecido sim, conhecidamente farsante, não. É essa a dica que te dou. Não deixem os outros saberem que é uma farsa, mas faça que os outros te conheçam.”

“Mas como funciona isso? Assim… tem escola para farsante? Tem faculdade disso?”

“Ter, tem. Mas eles colocam outros nomes nas faculdades. É como o Rotary e o Lions. Todo mundo sabe que eles são sociedades secretas que têm planos de conquista globais, mas se disfarçam de senhores cristãos de meia-idade que engordam nos eventos do clube.”

“Entendo… entendo… mas o senhor pode falar um pouco mais desse negócio de farsa? Tem que passar nota? Tem contrato?”

“Olha. É bom sempre deixar tudo por escrito, né? Tem muito pilantra que dá o cano depois da farsa pronta.”

“Mas o pilantra…”

“Esse você tem que aprender a evitar. Nunca confunda o canalha com o pilantra nem com o biltre. Esse tipo de vilania está fora do nosso escopo, da nossa arte de farsear.”

“E há diferença entre um e outro?”

“Não é clara, límpida e translúcida a diferença?”

“Não consigo ver, não é claro.”

“Se não é claro, é farsa. E se obviamente é uma farsa, na verdade é uma vilania dessas aí. Uma farsa nunca é clara ou óbvia. Mesmo quando é claro e óbvio que se trata de um farsante.”

“Mas eu ainda não entendo.”

“É bem por aí. A farsa não é para ser entendida. Quando há compreensão, ela se morre.”

“Mas isso não é o ilusionismo? A mágica de palco?”

“Isso, menino. O farsante é o mágico das palavras.”

Beberam o chope e pagaram a conta.

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Os céus azuis de São Paulo

January 22nd, 2008 § 9

publicado da Tribuna da Imprensa

Costumo acordar relativamente cedo às segundas-feiras.

É algo já bem enraizado na minha personalidade que não consigo apagar, mesmo com o hábito de nerdar até tarde com joguinhos de computador ou em mensageiros instantâneos que me mantém em contato com os amigos e, principalmente, as amigas daqui e do Rio. Não sei quando esse mau hábito nasceu, mas acho que tem algo a ver com o meu desinteresse pelo Fantástico e o fato de eu ter de acordar às 5h da matina para ir ao colégio ainda no milênio passado.

Além desse hábito desagradável, tenho a estranha mania masoquista de insistir em sentir saudades das pessoas que passaram na minha vida. Pior. Tenho saudades de quem sequer se lembrará de mim na próxima ida ao cinema ou tomar um chope num quiosque no calçadão de Copacabana. Mas não os culpo. Como bom ariano, o meu gostar é egoísta: eu não espero que elas gostem – ou se lembrem – de mim, faço-o por minha conta e pronto! Nunca tive essa coisa de esperar retribuição de carinho, querer ou amar. Eu careço, quero e amo incondicionalmente. Nunca aprendi a agir diferente e não vai ser agora, na virada do cabo da boa esperança, que eu vou mudar o meu jeitão esquisitão de ser.

Estou com outra mania detestável. Essa, mais chique e tecnológica, me isola do mundo e dos ruídos do trânsito paulistano que me estressavam antes mesmo do expediente começar. Explico: no fim do ano troquei o meu lapetope Apple e comprei um iPod. Daí, posso agora escrever com muito mais tecnologia e processadores múltiplos as mesmas letras que escrevia antes no meu antigo iBook e a minha vida tem trilha sonora. Uma vasta, enorme e peripatética trilha sonora.

Outra coisa que estou criando nessa terra esquisita é um gostar do calor. Não estou dizendo que gosto de ver uns trinta e cinco graus nos termômetros espalhados pela cidade, mas, diabos, é verão afinal de contas! Como assim acordar segunda-feira, às 6h30min da manhã, com uma temperatura de treze graus? É insalubre isso!

Esse preâmbulo todo foi para dizer que eu estava escutando Chico no meu iPod, no táxi, indo para o trabalho, numa manhã fria de segunda-feira e resolvi tirar os olhos do meu livro do Mário Prata – Cem Melhores Crônicas – para olhar o céu e, putaquepariu, que céu! Que céu!

Como uma desgraça só nunca vem sozinha, o Chico me sussurra “Pedaço de Mim” ao pé do ouvido. Batata! Começo a soluçar como uma menina de seis anos que se perdeu dos pais e descobre que ser independente não é tão legal assim. É assustador, na verdade.

Me lembrei das pessoas que ficaram para trás na vida e eu não disse adeus. Daquelas que eu queria que estivessem do meu lado naquele momento, sentindo a brisa fria e luminosa da Faria Lima, que estivessem do meu lado – mesmo a mais de quatrocentos quilômetros de distancia – e com os mesmos projetos divididos, na minha filha que mais me ensina e que mal acompanhei os centímetros que viraram metro e sessenta e que provavelmente não verei chegar ao seu metro e oitenta.

Chorei porque eu não podia – juro! Por tudo que é mais sagrado! – descer do carro naquele instante, às 6h55min da manhã, tirar os sapatos, sentar na grama com orvalho, encostar-me numa árvore ou numa pedra e apenas curtir o céu azul de São Paulo. Chorei porque morreu dentro de mim alguém que faria isso sem pensar duas vezes na reunião que eu teria às 9h e curtiria aquele momento como se não houvesse amanhã.

Pra que, meu Deus, inventaram manhãs assim?

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As estrelas

October 28th, 2007 § 0

publicado na Tribuna da Imprensa

Costumo ir ao Rio uma vez ao mês, ao menos. Uso a “desculpa” que tenho de visitar a minha filha, mas a verdade é que não tenho obrigações nenhumas. Vou porque ali é que mora a minha história, a minha memória e passar tempo com a baixinha – que já se torna uma adolescente – é um prazer, nunca uma obrigação.

Passeávamos à praia, com o sol se pondo e ela, mirando a estrela d’Alva, me perguntou sobre as estrelas cadentes.

Tentando ser poético – como isso ajudasse em alguma coisa a minha imagem com ela – disse que as estrelas cadentes são o choro do céu. Pessoalmente, nunca entendi essa coisa de desejo a ser realizado quando se vê uma delas riscando o negrume da noite, acho mais válido fazer à primeira estrela – “first star I see, I make a wish tonight” – a uma que cai.

Em resposta, ela as comparou a vaga-lumes, só que sem o brilho constante e repetitivo – acho que essa menina vai ser mais uma bióloga – mas não engoliu direito a história de choro e céu. Não sei por que insisto em poetizar com essa criaturazinha cínica e materialista.

“São apenas estrelas que caem” – menti para ela por preguiça de explicar as efemérides dos asteróides e detrito estrelares que se incandescem ao entrar na atmosfera – “são estrelas que ficam tristes do lugar que estão e resolvem se mudar de lugar, como o pai.” Insisti no erro.

“Mas as estrelas têm amigos, pai. E gente que olha por elas. Como podem ficar tristes ali?”

Daí eu desatei a explicar os motivos e razões das pessoas ficarem tristes, a angústia original que move o ser humano, o inconformismo com o presente, a falta de perspectiva, o desejo de mudança, mas a menina – cínica, cínica e objetiva – tinha um bom ponto de argumentação.

Ela virou os olhos com aquela expressão de você-não-entende-nada-papai a qual costuma usar quando eu cometo essas besteiras de tentar ser mais inteligente que ela. Um dia eu aprendo.

“Papai. O que uma estrela cair é a queda. O resto é o só o choro.”

Deixei a baixinha em casa e me encaminhei para a rodoviária, onde o ônibus da meia-noite me esperava. Embarquei e ao acordar, já em São Paulo, me veio a imagem de uma estrela cadente no alvorecer. Fiz um desejo inconscientemente e parti para a minha rotina diária.

No decorrer da semana, a história da estrela não saiu da minha cabeça, mas, como sempre, a vida não dá muito tempo pra gente pensar nela mesma. Ela oferece tanta opção, tanta cobrança, tanta vida que somos impelidos a achar que essa cacofonia de eventos que se sucedem em movimentos frenéticos é a vida em si.

Papeava numa mesa de bar com uma amiga, e falávamos de suas angústias. Das diversas histórias que ela havia passado, dos relacionamentos desfeitos, das pessoas que nunca se encaixam devidamente no que sonhamos ou no que nos tornamos. Dos empregos e trabalhos que, embora venham em profusão para ela, nunca a satisfazem.

Soltei a pérola. “Lindona, o que interessa é só a queda, o movimento. O resto é o choro.” Não sabia bem o porquê da frase de efeito, mas o fato é que surtiu. Ela deu uma risada sonora e eu anotei mentalmente que tinha de dar um presente à baixinha. Não apenas por conta do dia das crianças, mas por ela ser o pequeno gênio emocional que é.

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Dois beijos

October 19th, 2007 § 6

publicado na Tribuna da Imprensa

E foi isso: dois beijos e tchau. Aí ele olhou para ela e pediu o telefone. Ela deu. Ele chegou a pretexto de se despedir novamente sob alguma desculpa esfarrapada deu mais dois beijos. Ali no ladinho, derrapando na curva. Ela retribuiu os beijos com um olhar maroto. Ele saiu achando que tinha de ficar. Tomou caminho de casa com a sensação que algo ficara natimorto.

Abriu o livro que o fazia chorar de saudades de casa e das histórias e terminou-o. Reparou que o cheiro dela ficara na camisa. O cheiro de rosas? Cheiro doce e azedo. Cheiro que ficaria bem se misturado ao suor dele e ao atrito do látex e lubrificantes íntimos. Cheiro que combinaria com lençóis limpos em lavanderias industriais e odorizadores de quartos de hotéis de três estrelas.

Chegou em casa, tirou a roupa e tomou um banho. Tonto, por conta da cerveja forte, lavou-se por mais tempo que precisava. Lembrou-se das histórias que sabia da moça e sabia que era insensato insistir naquele curso de ação. Não era sensato, absolutamente. A história já estava escrita e reescrita e ele já errara suficientemente para saber o que fazer. Demorou-se mais que o necessário no banho. A água quente relaxava as costas tensas das semanas ruins que antecederam o evento. Sonhou um pouco com uma fortuna que nunca viria pela mega-sena. Sonhou mais um bocado com sexo com metade das mulheres bonitas que viu no dia.

Enxugou-se e vestiu o moletom centenário que usava como pijama. Fazia tempo que não tinha companhia feminina regular, daí o acúmulo de roupas que mereciam o oblívio no seu guarda-roupas.

Mandou uma mensagem de texto pro celular dela. “Quero te ver. Beijo.”

Colocou um Bob Dylan para ouvir e deitou-se na cama. O cheiro não sumia. Pode ser a camisa, a calça, as meias, a cueca. Levou-as todas para a máquina de lavar roupas e colocou-as em molho. Voltou para o quarto. Não entendia o que o velho Bob cantava, mas estava confortável e agradável. Pegou um livro do Eco e folheou umas dez páginas. Dormiu.

Acordou com Mr. Tamborine Man e viu que cochilara por dez segundos, ou minutos. Sonhou muito no meio do processo. Descobriu uma animação incomum para uma quinta-feira à noite e tomou outro banho. Bebeu água. Colocou Chet Baker para tocar no lugar. My Funny Valentine. Sentiu vontade de tomar um vinho e comer um pão com queijo. O vinho veio fácil, como água. O pão deu mais trabalho. Desistiu e abriu um pacote de batatas fritas de marca americana. Começou a tocar Billy Paul e ele trocou a música. Lembrava de uma moça que ele queria. E que tinha um perfume igual.

Sabia que não iria dormir. Olhou pro celular esperando uma resposta. “Duvido. Deve estar mais bêbada que eu.”

Era verdade.

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O suor nosso de cada dia, nos dai hoje

July 12th, 2007 § 7

publicado na Tribuna da Imprensa

Sentado na sala, esqueço o que está passando na telinha no momento seguinte em que as informações chegam à minha retina. Ali eu exercito a minha capacidade de memória de peixinho dourado de aquário. É delicioso me imbecilizar diante do mundo que passa sem fazer qualquer sentido. Os romances de mentira, as necessidades inventadas, as informações que não afetarão em nada a minha capacidade de produzir, interagir ou de entender o mundo. Tudo isso passa, passa, passa, passa, passa, passa, passa. E eu fico sentado ouvindo as pessoas me dizendo: “isso vai passar, cara, vai passar”.

Mas não passa.

É essa a questão. As coisas não passam sempre como na tevê. Por vezes o que resta de uma situação é a exaustão. É como quando num gozo. O evento em si é rápido, mas a sensação e o estupor levam um tempo até o esquecimento. Mesmo o suor demora em secar quando a paixão é muito intensa. Fica na pele como lembrança do desejo feito em ato. É sombra do esforço que terminou. E não passa como um comercial de trinta segundos. Ele tem o seu tempo exato para que os músculos relaxem e retomem a condição inicial. O tempo de cada história é diferente até mesmo para as pessoas que participaram.

É como aquele ator que só tem duas falas no início da novela e lá pelo capítulo cento e cinqüenta tem uma cena inteira só para si, passando cal na parede da casa nova que comprou com a mocinha rica que finge que é pobre por causa da irmã gêmea má que quer roubar o seu namorado pobre, bonitão, boa pinta e bom de cama que sairá na G magazine no mês que vem. O tempo dele é lento e só aparecerá mesmo quando a novela for esquecida. Só a memória da cena dele caiando a parede com uma expressão de cansaço é que ficará nos programas de reprise da vida.

No caso, eu falava do cronista que se largou na cadeira da sala e ficou vendo televisão para esquecer-se que a vida não é nem sombra do que planejara, de que trabalha com o que gosta, mas teve de abandonar as pessoas que mais ama para poder fazer isso, de que tem a sina de amar mais o amor que as pessoas e que se apaixona mais pela paixão que pelo ato em si e que já não está no target do seu público-alvo, que já é velho para ir a shows de indie rock, mas é muito novo para curtir os bares de jazz com sinceridade.

O fato é que a vida pesa e carregar esse fardo cansa. Aliás, cansa diariamente e é por isso que as pessoas dormem. Não tem nada a ver com essas teorias neurológicas aí não. É a exaustão de carregar a si mesmo todos os dias, de sol a sol, que faz o homem arregar ao cair da noite e procurar o aconchego de uma cama.

Não que esse esforço seja ruim, entenda-me. A opção a isso está definitivamente fora dos meus planos momentâneos. Sei que a inevitável se fará presente, mas bem preciso de um século e meio de amargura e azedume antes que a derradeira data chegue. No mínimo. Quero muito esforço, desgaste, coração partido, suor mal-seco no corpo, lençóis desarrumados, empregos que exijam de mim, bocas que se recusam a ser beijadas novamente e noitadas anacrônicas antes que eu descanse essas férias sem fim.

Afinal de contas, única sensação que vale a pena é a do cansaço.

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Crônica do amor seco

March 29th, 2007 § 11

publicado na Tribuna da Imprensa

Te prometo o amor seco e morno. Porque todo calor se dissipa e toda umidade evapora. Só alma permanece. A ti, meu amor, registro as promessas para a eternidade em que passaremos juntos.

Te prometo a traição diária, o flerte compulsivo, a obsessão no outro. Afirmo que o meu amor por ti é tão grande que não cabe em mim. E esse amor me comanda, me domina e me fascina. Ele me faz procurar cantos onde possa guardá-lo e toda alma de coração vazio é receptáculo para essa paixão. Paixão que traz alegria e prazer. E a alegria não se contenta em si só, quer se multiplicar para o outro, dar de si para todos que lhe rodeiam. E levar as pequenas alegrias aos que não têm amor é fazer aumentar a ambos numa torrente infinita de prazer, alegria e amor. A alegria de muitos é a prova do amor que trago para ti.

Te prometo a desculpa vazia, sem vontade, a sinceridade invertida. Pois a verdade acaba com o glamour, destrói o elán que mantém a paixão em ebulição. A verdade castra, castiga e maltrata o amante, o amado e o amor. Pois não foram as mentiras pequenas, sussurradas ao pé de ouvido que lhe trouxeram? Não fora o encanto do impossível, do amor eterno e sublime que te fez despir os seios? Não fora o desejo irreal do gozo perpétuo que te fez voltar à minha casa? Pois temos de manter esse encanto vivo e vívido. A manutenção desse encanto é prova do amor que trago para ti.

Te prometo a pouca atenção nas suas coisas, o desinteresse na tua vida, o muxoxo resignado. Dado que o mundano desencanta mais que a verdade. O cotidiano massacra e torna vulgar o que era belo e raro. Assim como uma foto desbotada de tanto se manipular ou um disco de vinil, arranhado de tanto chorar as canções para ouvidos moucos que se embolavam no sofá da sala e xingavam quando tinham de trocar do lado A para o B. O nosso amor deve ser motivo e razão, início e fim, dos nossos dias. O resto não deverá mais importar. A intensidade dessa paixão é a prova do amor que trago para ti.

Te prometo o eterno adiar das mudanças, dos consertos, de fazer dar certo. Mudar poderia arruinar o que foi conquistado. Pois o passado é perfeito e não permito nada menos que a perfeição para ti. É no mundo estático, finito e imutável que vivemos a nossa história particular e ali é que manteremos a chama que nunca se acabará – apesar do poeta – e que nos aquecerá para todo o sempre. O instante em que nos beijamos pela primeira vez, o primeiro gozo, a primeira refeição, o primeiro acordar, serão sempre os momentos que nos moverão de agora por diante. A manutenção da memória do que fomos e que sempre seremos é a prova de amor que trago para ti.

Te prometo a negação premente, posto que não fui eu, mas o meu desejo a me fazer errar. Negando, te dou a certeza. A certeza traz a segurança. A segurança a manutenção. A manutenção, o elan, o glamour, a paixão e a alergia. Então te negarei tudo: as verdades, as mudanças, as vidas de outrem, a minha dedicação, a atenção, o céu, o universo, a terra e negarei – por fim – até mesmo que te amo. Pois preciso de ti mais que a mim mesmo e te negando o tudo, nego a mim. Só tu me importa. E essa minha dedicação é a prova de amor que trago para ti.

Te prometo a tristeza perene, o desânimo diário, o desesperançar noturno. Pois cada um tem de ser a alegria, a razão suprema e sublime da existência, o motor de alma do outro e, dado o brilho de nossa convivência, o restante do mundo será opaco e sem viço. Então, ao nos separarmos, nada fará sentido, nada terá gosto ou causará espécie. Somos o sal, o vinagre, o azeite e pimenta da vida. E esse tempero é a prova de amor que trago para ti. Somente para ti.

Te prometo o amor seco e morno. Porque todo calor se dissipa e toda umidade evapora. Só a alma permanece.

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Vernissage

October 23rd, 2005 § 3

Ele tinha um hábito irritante de freqüentar vernissages, noites de autógrafo e outros desses eventos semi-abertos onde se serve o péssimo vinho que importadoras de bebidas que desovam como “patrocínio” ou “apoio cultural”. Chegava a ser uma compulsão, na verdade. Tinha alguns contatos de quarta categoria que se divertiam em enviá-lo para os eventos mais esdrúxulos como a reinauguração da placa do centenário do canhão inaugural do forte de Copacabana ou a noite de autógrafos de um blogueiro qualquer que conseguiou publicar suas crônicas semanais.

O que ele não revelava às pessoas é que a diversão não era o evento em si, mas ficar nos cantos fingindo que conhecia os proto-famosos, dando um acenos com cabeça e com um ar blasè treinado a anos a fio. Outro hobby era ficar ouvindo fragmentos de conversas e tentar ficar advinhando o papo como um todo. Anotava os fragmentos em guardanapos sujos ou em cadernos-brinde para usar em algum momento importante da sua vida.

Numa estréia teatral, ele pega o papo de um autor de peças de teatro com um engravatado aleatório.

“E, recitando um poema de Florbela Espanca, ele a pega como se fosse beijá-la. Ela se desmonta em suas mãos. Ao terminar o poema, ele se vira para os outros no churrasco e pede uma cerveja. Ela olha meio puta meio pidona para ele e, antes que ela pergunte qualquer coisa ele responde: ‘Beijo não é para ser esperado. É para ser tomado com o consentimento do outro. Beijo é a porta do prazer e se você não tem ciência disso e espera que o prazer lhe seja entregue em bandeja de prata, não merece o gozo’.” “É uma boa cena, mas acho que temos de cortar a parte do poema. Não dá Ibope.” “Mas aí perde todo o sentido. Deixa eu te mostrar o poema.” “Não. Sem poema.”

Ele se dirigiu para o bar para tentar caçar um salgadinho ou mais uma taça de vinho. Quem sabe até teria sorte e coletaria mais alguma história interessante. Achou um casal que debatia sobre o sexo e os homens.

“Ainda acho essa uma posição muito machista, a sua.” “Nem é. É apenas factual.” “Ah! Que isso? Essa história de três mulheres… para mim isso é putaria. Safadeza pura.” “Não é bem assim nem bem isso, você trocou as bolas.” “Explica então.” “Ok. Como eu dizia, toda mulher merece uma noite de amor. Todas. Mesmo as mais feias. Mesmo as aleijadas, sem dentes, com mau hálito, as que fedem, as que têm corrimento. Todas mesmo. Todas merecem uma noite de paixão, sexo e amor.” “Que coisa mais promíscua!” “Não se trata de promiscuidade, mas de humanidade. Amar uma bela, é fácil e até mesmo simples. Mas amar quem merece, quem precisa do amor do próximo. É o que chamo de abnegação.” “Tá. Acho que entendo esse conceito. Não concordo, mas entendo.” “Algumas mulheres merecem uma segunda noite. São aquelas que despertam algo no homem que ele não compreende de imediato. Algo que desperta o seu limiar.” “Hein? Como assim?” “No sexo, o homem que realmente ama, se encontra perto da pequena morte, do início e do fim de tudo. Ali ele pode ter uma revelação sublime, um momento de epifania, de adoração. Mas isso apenas quando ele encontra a mulher com quem se deitará pela terceira e derradeira vez.” “Pára tudo. Me perdi agora.” “Pois bem, essa mulher com quem ele se deita pela segunda vez, o faz por dúvida. Lembra-se? A primeira é por abnegação, a segunda pela dúvida, a terceira, para sempre.” “Acho que entendo e começo a concordar.”

Não entendendo bem do riscado, retirou-se anotando no seu caderninho as anedotas coletadas. Ainda conseguiu relatar mais um papo interessante aquela noite.

Eram dois estudantes, pela pinta. E um senhor bem mais velho, beirando os setenta. Todos falavam sobre filosofia, Sartre, Heidegger, conceitos, conceituaçao. E o senhorzinho ficava em silêncio, assentindo ou rejeitando com o olhar. E “processava” várias taças de vinho, não deixando pedra de gelo sobre pedra no debate entre a noite e o seu estado etílico.

“Ninguém é livre. A liberdade é uma falácia.” “Não seja bobo. Você parece aquele matemático que dizia que os números reais são uma ilusão inventada pelo homem. Que o universo não fala com os números reais.” “Mas é isso mesmo. Falando da Liberdade: ela não existe. Você não escolhe as suas opções de vida. Elas se apenas se apresentam e, na maioria das vezes, você apenas opta sem se dar conta disso. Assim como um outro animal qualquer que não tem como saber se ao virar à esquerda vai gerar a extinção de sua espécie.” “A liberdade, cara, tem suas limitações. Assim como a consciência humana, a percepção de realidade e os números reais. O que interessa é que são instrumentos…” “Instrumentos imprecisos!” “…para entender o que nos cerca. Para mim é claro que somos apenas um degrau para o além do homem…” “Ah não. Citar Nietzsche é apelação.” “…e que, nesse processo, inventamos modelos cognitivos para entender a realidade ao nosso redor.” “Fato, cara é que temos de entender as coisas como elas são. Senão ficamos tentando estudar as sombras, não a realidade.” “As as coisas são da maneira que se apresentam. Não existe um Deus por detrás delas. Elas são e se aparentam como são.”

O senhor finalimente se manifestou. Com voz embargada, com o olhar trôpego e desfocado, meio cambaleante, disse: “Pessoa era foda.” Pegou mais uma taça de vinho, aproximou-se de uma menina de um grupo anexo, enlaçou-a na altura da cintura, falou uma ou duas obscenidades na sua orelha e levou-a consigo para o resto da noite.

Anotou, aparvalhado, a reação dos dois proto-filósofos que não conseguiram manter a compostura ante o velho mestre. Tomou coragem. Se aproximou dos dois e falou uma verdade universal.

“O mais sortudo é sempre o mais apto. É ele quem consegue deixar a semente para a próxima geração.”

Saiu à francesa.

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