dez mais oito

January 20th, 2009 § 2

Eu tinha um sonho, quando tinha dezoito anos. Nos dezoito anos que eu tinha, sonhava em ter trinta e muitos, filhos poucos e histórias. Várias. Eu tinha dezoito anos quando meus sonhos foram devorados.

Hoje tenho o que sobra dos sonhos, o que resta da esperança de vê-los de pé, sorrindo e tomando vento e sol e maresia e dizendo que o mundo é deles. Hoje me sobra o que tenho de lembranças de quando eu era maior e melhor e perfeito e tinha as verdades do mundo dentro de mim.

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Saber crescer

February 16th, 2008 § 5

publicado na Tribuna da Imprensa

Nunca mais olhei a pequena com os mesmos olhos. Eles não cabiam mais em mim e a imagem da criança de cabelos encaracolados tampouco cabia nela. A menina, já pré-adolescente, tinha o seu próprio mundo, cercado de nomes que eu não entendia, músicas que eu curtia, maneiras que eu estranhava. E eu, acima de tudo, um estranhamento típico de quem envelhece e não se dá conta disso.

Sentamos na cadeira do shopping center – essa praça moderna – e tomamos um sorvete vadio, um picolé de várzea, um ato cada vez menos urbano e mais confinado. Eu observava a indiferença da pequena ao mundo que a cercava e tinha certeza: havia ali um cínico se desabrochando.

Sabemos todos que o cínico não se faz, é descoberto. Algo entre os dez e os dezoito anos desperta junto com os hormônios e transforma o mais feliz e iludido dos infantes num inexorável e inamovível adulto. Afirmo categoricamente que todo adulto é um cínico.

Mas não é a modorrenta maturidade que me assombrava ali, naquele momento, mas o desabrochar do cinismo e – por que não dizer – do deboche adolescente que jorrava pela boca e pelos olhos daquela criaturazinha que mal ultrapassava os meus ombros no alto dos seus dez anos recém-completados. Eu reparei que ela não se encantava mais com as coisas. E entendi que o cinismo era exatamente isso: a morte do encantamento.

Não confundamos alhos com bugalhos agora. O encantamento pode – e deve – ser um processo bem racional e consciente. Como não se admirar do fato de tudo e todos termos a mesma origem no mesmo evento singular de quinze, dezesseis bilhões de anos atrás. Ou de termos a certeza racional que somos senhores de nós mesmos, com a responsabilidade moral, ética e concreta que isso traz às nossas vidas, sem termos de depositar essas cargas em algo divino.

Mas nada é tão belo quanto o encantamento infantil. Porque ali, as coisas tomam um sentido próprio, o do descobrir os sentido nas coisas ensimesmadas. Nelson Rodrigues escreveu que “aos três anos o sujeito começa a inventar o mundo” e nessa invenção há um deslumbre que não se renova nunca mais na vida. Ok. Talvez quando alguém escute uma determinada musica de uma banda que lhe fará comprar uma guitarra ou uma pintura que lhe convide a sentar horas e horas a fio à sua frente.

Já eu precisei mudar de cidade e encarar um pôr do sol na Lagoa Rodrigo de Freitas para me relembrar encantado com o mundo.

Eu acredito piamente que o homem quando descobre-se cínico, perde a capacidade desse deslumbre primário. Um sorvete passa a ser apenas um sorvete; uma praça, a mesma praça e nada mais que isso. Nós, os adultos, já vimos tanto do mesmo que perdemos a noção da coisa e – tragédia! tragédia! – mantemos a lembrança do deslumbre. Pois o que é essa nossa busca pelo novo, senão um desesperado apelo à memória do universo encantado que nos fora apresentado quando tínhamos menos de um metro?

Ali, na praça do shopping center, os sorvetes derreteram goela abaixo, pegamos as compras e partimos rumo ao dia seguinte.

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Dos problemas corporativos e das putas

October 29th, 2005 § 1

Burro andava mais animado do que a média. De lá de dentro de sua baia corporate, voiciferava impropérios em diversas línguas. Não que fosse mestre em alguma delas, sua educação sempre fora improvisada e incompleta, na melhor das hipóteses, mas sabia como sobreviver em oito idiomas diferentes. “Farabuto!” Tinha feito diversos cursos na Europa e trabalhara em umas três multinacionais antes de ser convidado para A Empresa. “Sonovabitch!” Sempre colara nos chefes “importados” para ganhar um pouco mais de prestígo e experiência. Seu alto conhecimento do bas fond carioca também ajudava a reforçar a boa imagem do Brasil com o exterior. A imagem de povo pacífico, amistoso e “receptivo” era endossada por Burro sempre que podia. “FILHO DA PUTA!”, berrou na entrada da baia para todos os funcionários.

“Esse filho da puta me deu o cano!” “Calma chefinho, calma!” “Porra, Rogê! Vai puxar o saco da diretoria que hoje tô com o ovo virado!” Entrou bufando, sentou-se na cadeira, ligou o laptop e chamou a secretária: “Dona Paula! Traz um café e dois quilos de boa vontade que o dia vai ser longo!” “Ó doutor, o seu Marconi quer falar com o senhor. E ele tava meio puto da vida.” E lá foi Burro engolindo o café com úlcera que ele consumia todos os dias pela manhã. Subiu os seis lances de escada que separavam-no da presidência e adentrou a sala do Doutor Marconi.

Doutor Marconi estava no Brasil há seis anos, desde a chegada d’A Empresa em Terra Papagalis e Burro tinha conseguido quebrar sucessivamente com ele o seu recorde de gafes e comentários inoportunos com pessoas de alto ranking empresarial. A bem da verdade, Burro tinha o dom de dizer a coisa errada na hora mais imprópria, mas o seu carisma o defendia de quaisquer outras conseqüências mais nefastas que ganhar o rótulo de “excêntrico” ou de “distraído do marketing”. Pena que isso não o tinha protegido da bile certeira do Doutor Marconi.

Subiu, conversou e desceu cabisbaixo.

“Tô fudido.” Confessou ao Gordo quando acabou o expediente. Gordo passara por ali porque sabia que tinha inaugurado uma nova “casa de tolerância” em Jacarépaguá e ele queria um companheiro que topasse uma expedição antropológica nessas ermas áreas. “Mas porque tá fudido? O que você fez de errado agora? Falou alguma merda? Mandou algum arquivo errado? Roubou…” “Não! Isso nunca!” “…algum enfeite da mesa do chefão?” “Pior, muito pior.” “Então conta!” “O filho do chefão veio da Itália semana retrasada e foi uma galera ‘confraternizar’ em Copacabana. Tava toda a gringaiada na Help dançando, bebendo e se esbaldando com ‘as meninas’ quando saquei que o moleque tava meio sorumbático, não tava se soltando e tal.” “Era viado, o moleque?” “Porra Gordo! Espera eu terminar de contar a história!” “Tu enrola muito. Era viado ou não?” “Era. Não era. Sei lá, porra. Parece que tá na moda de viadinho ficar em dúvida se vai dar o cú ou não. Porra, no meu tempo ou a bicha era ou não era. Não tinha essa de experimentar ou de não ter certeza. Se não era, mas tinha skill pra isso a galera já zoaria o putinho de tal maneira que não teria outro jeito. Ou ele ia carcar a primeira vagabunda, ou ia dar o rabo desde cedo.” “E o viadinho do filho do teu chefe?” “Pois é. O moleque catou uma vagaba lá. Porra cara, o menino tem dezoito anos mal completados. Tem um pai que é uma lápide de mármore e que deve ter um enorme coração de chumbo. Se o moleque desse pinta ali no meio dos filhos da puta que trabalham com o pai, ele iria manchar o nome da famiglia toda.” “Tá. Tu levou o moleque pro puteiro. Ele carcou uma lá. Qual a merda que você fez?” “Parece que o moleque gostou do esporte. E como fui eu quem apresentou ‘a menina’, virei o best man dessa nova vida.” “Ainda não entendi qual o problema.” “Pera. Daí o Doutor Marconi me chamou na sala dele. Tava meio irritado porque o menino andava direto na noitada, sem dormir direito, sem ir às aulas e tal, mas tava contente porque ‘despertei o macho siciliano que dormia dentro dele’.” “PORRA! E tu diz que tá fudido? Tá na maior fita com o chefão e tá reclamando?” “O muleque tá traçando tudo quanto é puta de Copacabana, Gordo. Ou vai pegar doença ou vai ganhar um filho em breve.” “Saquei, daí a culpa vai ser sua, né?” “Exatamente!” “Tu tá fodido.”

Saíram e foram afogar as mágoas no Devassa da Barra. Lá pelas tantas, chega Grande com duas amigas. Velhas amigas. Suzi e Fabi. Eram boas de copo, boas de papo, péssimas de cama. Já tinham ficado com os três nas suas remotas adolescências de milênio passado. Não dera certo. Eram “homens de saia” como dizia o Gordo. “Diluidoras do extrato escrotal”, segundo Burro.

“Quer dizer que Burro colocou o menino no ‘Bom Combate’ e deu merda? Tu é um merda, Burro.” “Mas Suzi, vai que o menino aprende o caminho que lhe é de direito.” “Fabi e Suzi, não tem jeito. Quem nunca comeu açúcar, se lambuza com melado.” “Mas não tem jeito, Burro?” “Tem não Grande.” “Tem sim.”

Gordo sempre tinha uma solução. Normalmente era imprópria ou ilegal. Neste caso era ambas.

“Pega o moleque. Apresenta para aquelas suas amigas que curtem carne fresca. Deixa as balzacas ensinarem o caminho para ele. Elas não querem filhos ou já têm os seus e prezam a liberdade que conquistaram. Na pior das hipóteses vão dar uma chave de buceta no moleque e ele vai ficar apaixonado.” “Boa.” “Pera lá. O menino é bonito?” “É sim, Suzi.” “Pô Burro. Põe na fita.” “Peralá!” “Pô Gordo, põe na fita. Ou eu ou Fabi damos um jeito no moleque. Colocamos ele na linha.”

Os três se entreolharam com cara amargas e meio que não concordaram. Mas sabiam que não teria jeito. As duas quando queriam alguém, nada ficava no caminho. Dali a duas semanas era o italianinho com uma uma na Melt ou com outra na Nuth, com uma na Ploc ou com outra na Soundtrack. E toma-lhe chave. Um mês se passou, o moleque voltou para a Itália e os cinco se reencontraram para um chope. Na verdade os três manés foram convocados pelas meninas. Impreterivelmente.

Marcaram num pub novo lá na Paula Freitas. As meninas moravam em Copa e normalmente saíam dos botecos em estado pior que os nerds. Chegaram, chopearam, chopearam mais um pouco, contaram piadas, sacanearam a tudo e todos e só tangenciavam o assunto. Ninguém falava no menino. Nem elas. Obviamente havia algo de errado. “Porra. Tamos aqui desde cedo rodando o assunto e ninguém fala.” “Deixa quieto gordo. A cerva tá descendo macia e não tô a fim de falar de homem.” “Porra Grande. Então tu veio porquê?” “Vim porque gosto de beber aqui. Não se nega cerveja boa nem ida a boteco novo.” “Tá bom. Tu tá roxo de ciúmes só porque o viadinho lá tá comeu a Fabi.” “Peralá! Não põe o meu nome nessa história!” “Como não? Ele te comeu ou não?” “Não, porra!” “Então comeu a Suzi!” “Também não me comeu.” “PORRA, CARALHO. PUTAQUEPARIU!” “Que foi Gordo. Tu tá nervoso com o quê?” “…” “Deixa ele quieto, Burro. Gordo, o menino não comeu nem a mim nem a Suzi. Mas não posso dizer das minhas amigas. Elas gostaram bastante do menino.” “!” “Que cara é essa, Gordo. Eu e Suzi até tínhamos a intenção de ‘fazer’ o menino sim. Mas não dava.” “É meninos. Não rolou.”

Ficaram os três estupefatos enquanto as duas riam e contavam dos casos das amigas. Estupefatos e invejando ter vinte anos e duas amigas balzacas para apresentá-los aos prazeres da vida. Puto, depois de horas olhando a cerveja stout esquentar no copo, Burro se levantou. “Eu sou um merda mesmo. Mesmo não me fodendo, me fodi.” Em solidariedade, os outros dois se levantaram e foram mijar. Quando sentou, Fabi sussurrou-lhe no pé do ouvido: “Você foi o melhor dos três.” As duas pagaram a conta inteira e levantaram-se. Sabiam que uma pequena mentira sempre seria seguida de outra e nada como uma pequena verdade para terminar a corrente.

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pequenos desejos 1: configuração de lamento

April 25th, 2005 § 2

Há tempos eu queria começar uma pequena série de textos longos (ou uma longa série de textos pequenos, o que vier tá bom) sobre alguns desejos recorrentes. Coisas que eu queria fazer, comprar, construir, experimentar, etc.

Algumas eu já consegui, para outras me falta dinheiro ou oportunidade, para muitas apenas não tive coragem.

Uma delas eu relembrei nesse fim de semana ao rever o Hellraiser, de Clive Barker, um filme com o qual o tempo foi bastante cruel. Em dezoito anos, passou de horripilante e perturbador para ridículo (ele é de 1987) apesar de manter o seu conceito intacto. A de anjos/demônios de dor/prazer eternos que são instrumentos de diversas pessoas no passar dos séculos.

A chave para essa dimensão de sensações da carne está num instrumento chamado Configuração de Lamento que é um quebra-cabeças interdimensional.

Dá para fazer n analogias com as mandalas e com os níveis de percepção da mente humana, mas o que sempre me intrigou e apavorou era a possibilidade do mal ou prazer supremo em nossas mãos.

Acho que ainda quero uma caixa dessas…
Lament Configuration Box

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Where Am I?

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