E então eu embarco no ônibus da viação Itapemirim com uma leve dor de cabeça. É fome, penso. Como o lanche que vem de brinde e a diaba não passa. Coloco uns filmes para ver no lepitópi -Battlestar Galatica está sensacional!- e a dor de cabeça só piora. É o balançar do ônibus, penso. Desligo tudo e tento cochilar. Nada. Só começa a espalhar do lugarzinho detrás do olho onde a cefaléia mora, desce pro ombro e se estica como arame até o dedão do pé. É enxaqueca, decreto.
Daí espero a parada de sempre, compro uma caixa de neosaldina -santa salvadora hosana nas alturas- e tomo quatro. Não passa. Quatro horas de batidas na cabeça no vidro entre as cochiladas da viagem para ver se o crânio rachava ou a dor cedia. Nem um nem outro. Chego em sampa e parece que a coisa melhora um pouco. Tô bom, me iludo. Nada feito: era a endorfina da manhã dando o seu alívio. Oito horas decido tomar Novalgina(tm) para ver se a diaba cede. Nada. Mais um grama do remédio santo -salve salve hosana nas alturas- e parece que começa a ceder. Tomo mais dois gramas só para ver se o negócio anda mais rápido. Anda sim e eu chapo na cama como um bebê.
Acordo às 15h com o dia perdido. Ainda bem que avisei à chefe, penso. Agora, às 2h22 fico fazendo desejos de sono de volta.
Saco.
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Passava por uma fase apática, de conquistas pífias: não se interessava pelo trabalho, achava que tudo era sem importância, sem relevância para si e para A Empresa; as mulheres ou lhe deixavam a esperar ou não causavam espécie, desinteressantes, desimportantes; os porres inócuos, mal lhe davam a dor de cabeça do arrependimento; a casa, largada ao tempo, cresciam fungos às paredes.
Voltou de sua rotina estapafúrdia cansado da vida, esperando encontrar abrigo na frente de um tubo de raios catódicos ou de algo que o levasse para uma condição morna de existência.
Chegou em casa, largou a pasta em cima da cadeira de sempre, ligou a televisão, procurou um devedê na sua coleção de filmes antigos, lascou um “Era uma vez no Oeste” dentro do bicho e foi tirar gelo do congelador. Adicionou água e uísque, sentou-se no sofá, retirando os sapatos com desprezo. Olhou mais uma vez para a infiltração de estimação da cozinha para a sala e se prometeu, mais uma vez, que iria ligar para um arquiteto, um bombeiro, para o exército da salvação, qualquer um que pudesse resolver aquilo. Estava começando a afetar a sua saúde. Aliás, já era efeito do álcool ou tinha um rosto naquela mancha?
Assistiu o filme com indiferença. Desligou a tevê. Largou a garrafa vazia para o lixo, o copo para a pia, as meias para a máquina de lavar e os sapatos para a janela. Voltou para a sala, guardou o disco do filme na sua própria caixa, arrumou-o na sua coleção e foi para a escrivaninha. Pegou o pendrive com o serviço que trouxera do trabalho, ligou o laptop e copiou os arquivos.
Trabalhou dez minutos e conectou-se à internet. Seis horas depois desligou o micro, saciado.
Acordou mais miserável que o dia anterior mas menos que o seguinte. Tomou banho, masturbou-se, enxugou-se e vestiu uma roupa nova que era tão igual quanto as antigas. Saiu de casa pensando na sexta-feira próxima e nas compras da semana. Pensou no cartão de crédito, na conta de luz, de gás, de telefone, aliás, os dois telefones, na conta de tevê a cabo que não assistia e no salário que dava para pagar tudo com folga. Esse último pensamento foi o alento e ânimo necessário para pegar o táxi que o levaria ao trabalho.
Sentou-se à baia executiva, tornou a vida de alguns mais miserável, preencheu mais relatórios, almoçou, fez o meta-trabalho de praxe, retornou à baia, delegou aquilo que não queria resolver ou não achava interessante, esperou pacientemente o horário de saída. Fingiu que tinha mais trabalho a fazer e enrolou mais duas horas para “fazer cena”. Levantou-se às oito e meia e chamando o rádio-táxi no caminho da portaria. Às nove e quinze estava em casa.
Era a vida que planejara anos a fio. Não havia envolvimento, emoção. Mas o engraçado é que um simples sinal pode desmontar uma fantasia.
Quando mais jovem era um rebelde, um irresponsável. Apaixonava-se a torto e direito, era um poeta louco, ator insano mas negou essa parte de si para que pudesse ser um outro alguém. Não se sabe em que momento essa mudança se deu, mas aos poucos a chama passional que ele portava fora apagada. Tinha decidido que viveria um dia por vez, aceitando os favores do tempo da maneira que se apresentavam. Não criaria expectativas ou ilusões.
Só que o destino sempre tem cartas desconhecidas nas mangas.
Tá certo que nada indicava a possibilidade de algo acontecer. Mas a nesga de esperança que teimava em se agarrar ao seu sonho era tão tentadora que ele permitiu que o sol entrasse em áreas que ele tinha jurado que ficariam fechadas. Bastou um sorriso sincero, apesar de inocente, e ele se prostrou novamente aos desmandos dos deuses do acaso.
Estava pagando pela língua no final das contas.
Em seis semanas despediria-se do emprego, do cárcere, da segurança de acordar no dia seguinte. Anunciava-se o Carnaval.
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