Missiva à moça que é uma outra

December 22nd, 2009 § 0

Saudades de tu, minha querida.

Já faz um bom tempo que não nos falamos, não nos escrevemos, não nos perturbamos mutuamente com as questões mundanas e eternamente irresolvíveis. O Bardo Inglês se desdobrou em pena, tinta e pergaminho (ele usava pergaminho ou papel?) e falou eternamente sobre os mesmos assuntos que conversamos hoje em dia. Mesmos assuntos, personagens diferentes, quinhentos anos de intervalo, mesma merda.

Pois é.

Hoje em dia não é diferente. Coloco aqui as binárias formiguinhas escreventes para mandar mensagens nesse mar de estática que se tornou o coletivo de blogues, jornais e fanzines digitais. Nem rascunhar com destino certo essa joça serve mais, mas tudo bem. O outro lá, na corte da Elizabeth, a Tudor, tinha um público certo e definido, mas não sabia que estava fazendo algo que iria ser a síntese da psique moderna. De certa forma, mirou na num trono e seus baba-ovos e acertou na humanidade inteira. Fez bem, o diacho.

Eu tenho tido dias de intermezzo, saca? Como aquela musiquinha entre os intervalos entre os atos de uma peça – ou na troca dos rolos de filmes antigos, na França. Eles vêm como quem não quer nada porque já sabem que a história grande foi contada antes e não contarão coisa alguma agora, porque o devir é mais interessante e tá guardado para mim. Assim é a sensação: de que algo que era esperado, sonhado, está arrumadinho ali, no fim da década, para se fazer presente.

Engraçado como um sinal pequeno pode ocasionar um efeito grande. Não vou fazer apologia ao “efeito borboleta” mas um email enviado, uma festa, um olhar, podem mudar a vida em cento e oitenta graus e anunciar um novo mundo, um novo futuro.

Daqui, do alto das minhas quatro décadas incompletas, me empolgo com o porvir, mesmo sabendo que não sobreviverei ao que se anuncia.

Antecipadamente apaixonado pelo futuro, me despeço, querida moça.

Amo-te.

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Dos inícios que flertam com o fim

November 2nd, 2009 § 27

Uma amiga me perguntou como eu conseguia advinhar quanto tempo durava um relacionamento – meus e dos outros – com alguma precisão. Obviamente eu não sou onisciente e nem tenho uma taxa de acerto razoavelmente alta, cientificamente alta, mas como tudo que envolve o sentimento, os acertos contam mais que os erros.

Daí eu expliquei que todo relacionamento tem uma “matemática”. Já escrevi sobre isso antes e acho que consegui sintetizar isso hoje. As regras são simples e são cinco ou seis.

A regra primeira diz que é necessário ter algo em comum. E esse algo tem de ser dentro de casa. Gostar de shows, filmes, bares e amigos e atividades na rua é legal, mas sob um teto a coisa muda de figura. Se os relacionantes não conseguem fazer um bocado de nada juntos, diminui-se o tempo do relacionamento.

A regra segunda diz que eles têm de ter alguma discordância. Mas daquelas brabas, que cause brigas, tapas na cara ou ódio eterno. É no atrito que se aprende a negociar os espaços, a ceder, a treinar a tolerância. Mas ambos têm de ter isso ou o lado cedente acaba cansando.

A regra terceira diz que eles precsiam achar que o outro é melhor que eles em algo ou em tudo. Mas tem de ser mútuo. A admiração pelo outro é o que impulsiona o dia-a-dia. Caso contrário, o outro vira objeto de escárnio e qualquer opção fora do relacionamento acaba valendo mais a pena. Novamente ambos precisam achar que o outro é melhor, senão o caldo desanda.

A regra quarta diz que ambos têm de ter um nível sócio-econônico-cultural próximo um do outro. Mais cultural, sócio ou econômico dependendo da índole de cada um. Nada contra uma pessoa ser sustentada mental, social ou economicamente pela outra, mas há de ter troca entre os relacionantes. Já conheci casais perfeitos que sucumbiram à dureza, à burrice ou ao isolamento social. Não nessa ordem.

A regra quinta diz todas essas regras anteriores devem e serão quebradas em algum momento e nunca serão sempre observadas durante os relacionamentos que tivermos pela vida.

E a sexta, a derradeira e única absoluta, é que só se entra num relacionamento sabendo e esperando que um dia ele acabe. É a única garantia de que será infinito, como diria o poetinha.

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Jazz, charutos cubanos e Vivaldi

October 19th, 2009 § 5

Eu não gosto de Jazz. Minto. Adoro Jazz. Não gosto é de quem arrota Jazz como se fosse atestado de nobreza urbana ou de quem diz que adora o estilo e vomita nomes, discos, movimentos e músicas como se mijasse uma linha intelectual que separa os geniais e a mediocridade mundana média regular. Obviamente, se colocando no lado de lá. É o mesmo povo que gosta de desbancar os standards, os gênios consagrados apenas pelo choque ou para se destacar da “massa ignara” ou da massa de manobra cultural.

Se confundem a esses os “apreciadores de charutos cubanos” que gostam de ostentar os caros cilindros de tabaco enrolado em locais inusitados, como botecos apertados e caixas de supermercado, ignorando que há local, hora e sentido para prazeres caros e que os maiores e mais deliciosos tendem a ser praticados no isolamento de seus lares, sem atentar ao acinte que é brandir para um transeunte – normalmente um empregado do recinto – uma fortuna virando fumaça ante os olhos tristes de quem ganha o bom e velho salário mínimo.

Não gosto de Jazzistas, de charuteiros, de enólogos, cinéfilos, teóricos de teatro, críticos de cinema, de teatro, de tevê, publicitários, marqueteiros, fãs de quadrinhos, de errepegê, de mídas sociais, de internet e nerdices, de filmes de animação, de mangazeiros, fanzineiros, não gosto, não gosto, desgosto.

Essa gente toda que deveria sair de casa num sábado e caminhar na chuva de verão, andar descalço no chão molhado, chapinhando a sola do pé no asfalto que transpira a água recém-chegada ou correr até se estabacar na grama úmida, ensopada de tanto céu na terra. E depois se levantar sorrindo, dos arranhões no joelho e vendo que a vida é feita de dor e de cheiro de ozônio e de cabelos desgrenhados e suor, muito suor, e com as Quatro Estações, de Vivaldi, como trilha sonora.

Na verdade, na verdade mesmo, eu não gosto é de gente que não anda de bicicleta com medo de cair.

O resto é rabugice minha.

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As amigas e o sexo

September 8th, 2009 § 6

Nunca entendi quem gosta de separar definitivamente, entre dois mundos à parte, duas coisas: amizade e lascívia. Quer dizer, não que ambos venham acompanhados sempre e absolutamente juntos, mas que achem impossível a convivência pacífica dos dois.

Claro que esse problema – na minha humilde opinião – afeta quase que exclusivamente as mulheres. Homens tendem a separar (e misturar) afeto com tesão desde priscas eras. Aliás, somos adestrados a querer sexualmente a outra (ou o outro) pelas revistas de mulé pelada, filmes pornográficos e admiração de calcinhas distraídas que se anunciam debaixo das carteiras do colégio.

Isso talvez se dê pela forma paradoxal que as mulheres se referem ao próprio ato sexual. Na mesma argumentação com um cavalheiro, a dama irá se referir ao ato em si como “apenas sexo” e como “isso aqui” – apontando para as áreas púdicas – “não é para qualquer um”. É a síndrome que eu chamo de buceta cara/buceta barata.

Explico. Uso o termo crasso buceta (ou boceta) para tornar a coisa ridícula porque, em essência, não faz o menor sentido o processo. E uso o binômio cara-barata para ilustrar a contradição em termos.

Ilustro em caso.

Rapaz aborda a menina. Ela é sua conhecida, talvez uma amiga. Há tensão sexual do lado da menina. Há clara e declarada do lado do rapaz. Resolvem sair juntos. Ele aborda a menina. Ela diz “mas você só quer sexo comigo”. Ele diz “como assim sexo é ‘só’ sexo? Sexo nunca é só. É algo mais, é completude, é o carinho definitivo, o beijo mais íntimo e o afago mais descarado. Nunca é pouco.”

Ela pensa, bebe uma cerveja – talvez uma tequila, se o mancebo for ardiloso e inescrupuloso – e diz: “eu não sou qualquer uma. Eu não transo com qualquer um. Eu me valorizo, sabe?”

Quantas vezes não vimos essa cena? Então a menina tem um grande valor e o sexo em si é pouca coisa?

Nunca consegui entender o conceito de “sexo estraga a amizade”. Sé é algo sem valor, então qual a diferença entre um beijo na bochecha e o sexo? Se é algo valiosíssimo, que mantenhemos a virgindade acima de tudo e até o casamento, certo? Mas não é o que se pratica. As moçoilas preferem ser iludidas pelo príncipe em armadura reluzente que se revela um cretino a transar com o amigo que está ali, ouvindo as mazelas diurnas – e noturnas – da outra.

De outro lado, entendo quem não quer nenhum tipo de intimidade com os amigos. Que o limite da intimidade com o alheio é o beijo no rosto. Mas essas não abrem sua necessaire emocional para outros, para o conselho, o desejo e o querer do amigo do lado.

Ou talvez eu esteja redondamente enganado e não passe de um cretino. Mais um cretino.

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Insônia e enxaqueca

February 10th, 2009 § 5

E então eu embarco no ônibus da viação Itapemirim com uma leve dor de cabeça. É fome, penso. Como o lanche que vem de brinde e a diaba não passa. Coloco uns filmes para ver no lepitópi -Battlestar Galatica está sensacional!- e a dor de cabeça só piora. É o balançar do ônibus, penso. Desligo tudo e tento cochilar. Nada. Só começa a espalhar do lugarzinho detrás do olho onde a cefaléia mora, desce pro ombro e se estica como arame até o dedão do pé. É enxaqueca, decreto.

Daí espero a parada de sempre, compro uma caixa de neosaldina -santa salvadora hosana nas alturas- e tomo quatro. Não passa. Quatro horas de batidas na cabeça no vidro entre as cochiladas da viagem para ver se o crânio rachava ou a dor cedia. Nem um nem outro. Chego em sampa e parece que a coisa melhora um pouco. Tô bom, me iludo. Nada feito: era a endorfina da manhã dando o seu alívio. Oito horas decido tomar Novalgina(tm) para ver se a diaba cede. Nada. Mais um grama do remédio santo -salve salve hosana nas alturas- e parece que começa a ceder. Tomo mais dois gramas só para ver se o negócio anda mais rápido. Anda sim e eu chapo na cama como um bebê.

Acordo às 15h com o dia perdido. Ainda bem que avisei à chefe, penso. Agora, às 2h22 fico fazendo desejos de sono de volta.

Saco.

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rotina dos fins de semana

January 12th, 2009 § 2

rodoviária carioca pela manhã. táxi. casa. acordo a moça. durmo. acordo. banho. casa da avó. almoço. papo. lanche. shopping. cinema. janto. casa. acordo domingo tarde. banho. almoço na casa da tia. papo. café na casa de amigos. casa. filmes (2). despedida. rodoviária. ônibus. sono. são paulo.

no ínterim, sexo sempre que conveniente.

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Potência e decisão

November 11th, 2007 § 4

publicado na Tribuna da Imprensa

Fui ao cinema. Tudo bem, não há novidade ou nada excepcional nisso. Costumo ir ao cinema umas três, quatro vezes ao mês. Assisto a filmes infantis com a filhota, a filmes de violência descerebrada com os amigos, e comédias românticas com as demais companhias.

De fato estou indo menos ao cinema que fui dos 15 aos 18 anos. Em parte o preço dos ingressos não estimula a minha ida – me recuso a falsificar a carteirinha de estudante e compactuar com mais uma infração generalizada – e o advento do DVD me mantinham longe das salas escuras e da tela gigante.

Desde que vim para Sampa, eu retomei o hábito de “cinemar” ao menos umas duas vezes ao mês. O fato de eu morar a poucas quadras da maior concentração de salas de cinema do país ajuda um bocado e tenho diversos amigos cinéfilos. Desses que acham um absurdo eu não ir a todas as sessões do festival de cinema de SP ou à mostra de curtas do cinema francês no SESC.

Fato é que, mesmo com hábito que ressuscita, ontem assisti a um filme quase que por acaso. Tinha saído de casa sem pretensão maior de ver um filme leve, comer pipoca e ficar de carinhos no cinema. Um programa quase adolescente, confesso, que me agrada muito quando a companhia é divertida, bonita, carinhosa e inteligente. No caso, sim, sim, sim e muito sim.

Acabamos indo ver Leões e Cordeiros mais por conta do horário que pela escolha do filme em si. No filme, o personagem de Robert Redford é um professor que tenta retirar um aluno do marasmo que ele se encontrava, da vida fácil e rasa que a nossa sociedade do espetáculo tanto oferece, seduzindo, quando nos draga, suga e drena para se manter eternamente rasa. Uma nata fina, tenra e desejada por todos. Não era o mote principal do filme, ele passa por questões mais amplas como o equilíbrio entre audiência e notícia – questões importantes do infotainment moderno – e pelo equilíbrio de forças geopolíticas atual.

Mas o que me moveu de fato foi uma cena rápida. O professor vira-se pro aluno que é brilhante, mas está desestimulado com o que tem pela frente e ele solta a seguinte pérola: O que você é, essa potencialidade tua, essa tua capacidade de realizar agora, nunca mais acontecerá. Você será uma pessoa diferente daqui para a frente e verá que desperdiçou a sua própria capacidade de realizar, de mudar as coisas. Não foi bem com essas palavras, mas foi nesse tom. O menino retruca que de que adianta tentar? Se fizer direito, mudaremos pouco. Se errar, não mudará. Se não tentar, nem um nem outro darão errado.

Nunca fui senhor de meu destino. Minha vida é como uma biruta que vai de acordo com o vagar do vento e, até ontem, isso nunca havia me incomodado. Não pretendo usar esse espaço como depósito de confissões e frustrações, pois elas já ocupam boa parte do tempo dos meus amigos que ainda teimam em me escutar lamuriando e reclamando, mas ontem, definitivamente fiquei abalado.

Não sei mais como encarar a minha filha sem pensar: “o que fiz para tentar melhorar o meu mundo, justamente quando o mundo esperava que eu mudasse?” Que tipo de exemplo ou conselho eu darei para ela? Será que ela sequer vai ter esse tipo de dúvida alguma vez na vida?

Por favor, quem se pegou pensando nisso ou se moveu para mudar as coisas, levante a mão. Já que a minha ficará abaixada.

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A direita tacanha

March 31st, 2007 § 0

Publicado por Pedro Doria | 31/03/07 00:01 | No Mínimo

Quando Carlos Lacerda começava a falar, todo mundo escutava. Ele às vezes era rábico, alguns sugeriam até que desequilibrado. Mas se Lacerda falava, escutava-se. Governador da Guanabara, sozinho, dentro do pátio, impôs ordem num presídio que se rebelava. O homem, durante anos, encarnou a direita tupinambá.

Teve uma boa gente, uma gente respeitável, esta direita. Roberto Campos, por exemplo. Sujeito astuto, inteligente, de idéias claras. Podia-se discordar de tudo o que dizia, mas lá estava Bob Fields com seu sorrisinho ligeiro de quem se julga superior. E, bem, eram poucos que conseguiam argumentar com ele. Na imprensa, havia Paulo Francis, culto até dizer chega, por vezes leviano, um homem sensível e, para os de coração fraco, insuportável.

A seu modo, não faz muito, a direita brasileira contava com homens brilhantes. É verdade que havia aqueles generais – mas, mesmo dentre eles, sempre se podia pinçar um Golbery, o ‘gênio da raça’ como genialmente sugeriu Glauber Rocha. (Pois é: seus filmes podem deixar a desejar, mas era um grande frasista; também a esquerda teve homens melhores.)

Sobrou o quê?

Uma das qualidades da boa direita brasileira era que, dentre outras coisas, era cética. Não é preciso muito para imaginar prazenteiramente a piada que Francis escreveria se alguém lhe perguntasse o signo. Ou se sugerisse compor seu mapa astral. Mas é uma das modas correntes na direita tupinambá. São, como pode, astrólogos.

E, como astrólogos, têm sérios problemas com a ciência. Se uma turma da esquerda gosta de fazer pseudo-discursos que parecem – e não se sustentam além da aparência – sofisticados que envolvam mecânica quântica, a nova direita olha Einstein com assombro. Acreditam na bomba atômica mas acham o Big Bang esquisito. Gostam de dizer que Darwin ‘é só teoria’. E alguns, às vezes parece, acreditam mesmo que a Evolução é dúvida. Se o assunto é aquecimento global, então, aí é festa. A nova direita tem certeza de que o aquecimento global é coisa de comunista.

(Como sente falta dos velhos inimigos, os comunistas, a nova direita.)

Direita anti-ciência sempre houve. Era aquela turma mais tacanha, preconceituosa e, em geral, muito católica. Faz tempo. Hoje eles não são mais a classe-média que marcha com Deus pela liberdade. Hoje são libertários.

Não que sigam à risca o credo libertário, o laissez-faire deles tem limite. Pois, veja bem: liberdade para todos? Claro. Mas casamento homossexual é um pouco demais. Liberdade? Evidentemente. Mas aborto, de jeito nenhum, a mulher não manda em seu corpo e a vida é inviolável. Inviolável? Em termos, compreenda-se, nalguns casos o Estado pode decidir matar quem aprontou.

Timidamente, lá consigo, a nova direita quer o Estado mínimo (não tem dúvidas a este respeito) mas se a Igreja puder dar um jeitinho nas leis, assim de leve, bem que ajudava na lida com estes sem vergonhas.

A direita velha tinha uma qualidade excepcional que o velho Nelson Rodrigues incorporava como ninguém: o sarcasmo. Esta é uma qualidade que a nova direita manteve. Aquilo que a velha direita tinha e a nova não tem é a habilidade de rir-se de si mesma. Paulo Francis não escrevia tanto por convicção; escrevia pelas reações que sabia que despertaria dos bobos que o levavam a sério. A nova direita é sarcástica mas convicta de suas razões.

A turma convicta de que está certa é sempre a mais chata. Gente que não muda de idéia raramente tem algo a dizer.

A nova direita é tão incrivelmente triste que, fora uma meia dúzia de seguidores que amealha, não consegue qualquer representação política. Verdade: os seguidores falam alto; continuam poucos. E, cá entre nós, é só olhar em volta: a esquerda no poder é tão ruim que não deveria ser difícil desbancá-la em dois tempos. O povo brasileiro é conservador. Pintasse um novo Lacerda, seguiam rapidinho.

Mas Lacerda não há mais.

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Farol Traseiro

February 8th, 2007 § 3

publicado na Tribuna da Imprensa.

Diariamente recebo diversas tranqueiras digitais. Normalmente enviadas por amigos que acham interessante abarrotar a caixa postal de outrem com apresentações malfeitas, com música irritante e imagens mal digitalizadas. Ou então é um parente que envia os mesmos arquivos ou piadas que já circularam na internet seis anos atrás. Pior, quando um texto de origem desconhecida – ou, pior, de um conhecido seu – chega no seu inbox como se tivesse sido escrito pelo Jabor, Veríssimo ou Ubaldo.

Todas têm destino certo: o oblívio digital da minha lixeira.

Eventualmente uma dessas mensagens tem uma sobrevida de segundos. É o tempo suficiente para eu ler o texto, ou passar os olhos nas imagens, pensar se vale a pena registrar a informação e, em seqüência, apagá-la. Recentemene me peguei assistindo a um vídeo edificante e de alto valor moral que me chamou a atenção por mais que os costumeiros dez segundos.

Primeiro, porque era bem editado e com trilha sonora bem arranjada. Segundo, porque o tema me é caro: a insignificância humana perante a grandiosidade do universo. Esse vídeo nos colocava no devido lugar de macacos pelados que pensam que não são macacos. A priori, nada de mais, já que filmes foram feitos sobre variações desse mesmo tema e Gilles Deleuze nunca se preocupou em repensar linhas filosóficas por conta disso. Mas ficou o registro mental.

Ontem, estava eu representando na vida real mais um dos personagens do Woody Allen quando me perguntei: “caramba, trinta e seis anos na cara e parece que aprendi porcaria nenhuma.”

Duas coisas a partir disso: a primeira é o caso ridículo de onde gerou essa minha auto-análise que pode ser acompanhada nos textos do meu blogue. A segunda é um questionamento da real necessidade da experiência. O quão valorizamos essa característica humana e o quão dependentes disso nos tornamos quando envelhecemos. Eu, ao menos, o sou.

De certo deixamos de ser macacos reativos ao meio ambiente e passamos a ser pró-ativos – odeio esse termo – quando conseguimos passar a experiência acumulada dos indivíduos e da coletividade para frente, criando cultura. Esse é o primeiro diferencial. Aquele papo do cru e do cozido que os antropólogos e sociólogos podem dissertar melhor que eu.

De fato, esse tipo de experiência é imprescindível.

Agora, existe a experiência pessoal emotiva que também pode ser chamada de inteligência emocional, maturidade, compostura, etc. Algumas pessoas se vangloriam da experiência acumulada ao passar dos anos. Engraçado que eu mesmo caio nessa armadilha diariamente.

Digo armadilha pois ela só ensina a o que fazer quando erramos e exatamente nos mesmos erros do passado. Quando nos deparamos em situações parecidas com as já vividas – trocando-se apenas os personagens e o cenário – e agimos pensando que não erraríamos de novo, lá vem a vida nos pregar mais uma peça e vermos que ou não aprendemos a lição direito ou aquela experiência seriviu de nada.

Se eu fosse seguir pela primeira via, me consideraria um imbecil; na segunda, um idiota.

A essa altura da minha meia-vida, tiro para mim que as desventuras pelas que passo diariamente são fontes de boas histórias, de causos para fazer rir os colegas da mesa de bar, esperando que eles vejam os faróis traseiros de minha vida e decidam que caminho tomar nas suas próprias encruzilhadas.

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Alan e Cláudio

November 24th, 2006 § 1

publicado em LIVinRooom

Dessa vez Alan decidiu que não iria sair. Já estava cansado da farra ininterrupta dos últimos quinze dias e precisava de um pouco de descanso. Mas a necessidade de ver gente ainda não acalmava dentro de si: ele era um monstro social, afinal das contas. Decidiu chamar a turma para assistir a uns filmes em casa mesmo. Tinha cerveja, refrigerantes, salgadinhos, uma tevê de quarenta e duas polegadas, vários devedês e sofás super aconchegantes na sala.

Ligou para uma galera que refugou frente ao convite. A noite tava quente demais para ficarem trancados vendo filmes antigos ou tomando cerveja com amigo cueca. Tava quase desistindo do programa quando ligou para Claudinho que topou de prima. Ele andava meio borocoxô fazia uma semana e precisava sair da gosma da pasmaceira casa-trabalho-casa. Sabia que Alan era um bom anfitrião. Nunca enchia o saco com perguntas desnecessárias tampouco ficava xeretando na vida alheia. Além disso tinha um ótimo gosto para música e cinema. Só era amigo de uns três babacas que ele não topava de jeito algum.

Outro que deu uma meia-confirmada foi o Burro. Disse que iria, mas Alan sabia que Grande estava marcando uma despedida do Brasil no bas fond da Prado Júnior. Então, se um dos putos viesse, seria por pouco tempo. Ou ainda, viriam os três e colocariam a casa abaixo. O que era um bom programa no fim das contas. Pena que Cláudio não topava com os três. Fazer o quê? O cara tinha a Elisa na mão desde que ela deixou de ser uma ninfeta promissora e passou a ser uma fêmea furiosa. Uns têm sorte. Outros ficam na rebarba.

Cláudio chegou na hora marcada. Trouxe doze cervejas já geladas e começamos logo os serviços de consumo de líquidos. Primeiro filme selecionado da lista de DiVx do computador foi LEXXX, uma ficção científica obscura do Canadá. Ambos se amarravam nessas produções trash e ficavam bebendo e zoando os filmes. Faziam isso desde a adolescência. Tava no finalzinho da fita quando Alan atendeu o telefone.

“Olá lindona! Finalmente deu sinal de vida, né?” “…” “Pois é… estamos vendo uns filmes trash aqui e esperando o resto do povo chegar. Se chegar.” “…” “É… tô só eu e Cláudio aqui de bigode esperando…” “Sei. Você tem certeza disso? Talvez os putos cheguem depois da farra na Prado Júnior.” “…” “Não deram certeza de nada. Não mesmo.” “…” “Então tá. Te espero aqui. Traga amigas. E camisinhas.” “…” “Ha ha ha ha! Também te adoro. Beijo.”

Cláudio olhou pro Alan e não precisou perguntar nada.

“É cara. Ela não vem contigo aqui.” “Eu imaginei isso. Achava que ela já tinha passado por cima de tudo.” “Cara, sei que não é da minha conta e você pode…” “Já sei o que você vai perguntar.” “Então.”

Cláudio levantou-se, mexeu no controle do Xbox hackeado que tinha os quatro filmes da série canadense, escolheu um disco cheio de emipetrês e colocou para tocar. Abriu uma cerveja nova. Sentou-se no sofá e fez cara de quem tinha uma longa história para contar.

“Os caras vêm?” “Acho que sim. Grande não tava a fim de ficar na putaria. Embarca amanhã cedo para Sampa e de lá para Buenos Aires. Fica seis meses, se não me engano. Os ourtos é que podem virar a noite lá mesmo.” “Tu tá a fim de encontrar os caras?” “Não mesmo. Gosto de todos, mas preciso de tempo. É muita nerdice concentrada no mesmo lugar.” “Tu sabe porque eu não gosto deles, né?” “Sei que você não gosta do Gordo. Dos outros, tem antipatia por proximidade.” “Isso.” “E isso tem a ver com a Elisa, né?” “Claro.”

Alan foi até a cozinha, pegou uns pedaços de queijo, pão, facas e uma tábua. Trouxe para a sala para comerem algo. A cerveja tava acabando e ele fez sinal que iria trazer mais se acabasse aquela.

“Não vou encher os cornos hoje, cara. Não tô no clima para andar bêbado por Copacabana afora. Vou acabar num puteiro ou brigando desnecessariamente com alguém.” Comeram os pães, o queijo, mataram mais doze cervejas e criticaram filmes de ficção científica canadenses, filmes de fantasia japoneses, a estética de quadrinhos belgas e as coreografias exageradas do Pacto com Lobos. Listaram as próximas aquisições de devedês, cedês e livros nos próximos meses. Falaram dos trabalhos que estão fazendo em seus respectivos escritórios, comentaram da extinção dos cinemas de rua e da segurança e qualidade das salas em shopping centers.

Deu três e meia da manhã e o telefone de Alan tocou novamente. Era o Burro. Mal se entendia o que ele falava, mas parecia que estavam arrastando umas cinco mulheres de profissão para a casa do Alan e precisavam do aval dele para a realização de evento pouco ortodoxo. Alan riu e mandou-o tomar devidamente no cu. Burro riu do outro lado e disse que ia dispensar as meretrizes, mas iria para lá da mesma forma e que Gordo já tinha soçobrado ante os espíritos do álcool e Grande tinha partido para casa horas antes.

Cláudio se levantou no meio da conversa e foi ao banheiro. Na volta, Alan já tinha desligado o telefone.

“Você ainda quer saber da história?” “Na verdade, não. Nunca foi da minha conta. Mas você é meu chapa. Queria ajudar de alguma forma.” “Então faz uma coisa para mim. Fala com aquela mulher que ela é a mãe dos meus filhos. Eu agora tenho certeza disso.”

Se despediram e Alan começou a arrumar a pequena bagunça quando o interfone tocou novamente. Era Elisa.

“Ele já foi, menina. Você chegou tarde.” “O que ele disse?” Ela estava soluçando. Ele tentou convencê-la a subir, mas nada a demovia do intento de continuar no seu posto. “Ele repetiu aquilo que você me disse, menina. Esse cara te ama.”

Elisa despediu-se e fez sinal para um táxi que acabara de despejar cinco mulheres e um nerd na portaria do Alan.

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