December 30th, 2009 §
São duas, na verdade.
Uma: as pessoas procuram padrões, padrões transformam-se em causas, em motivos, conspirações. Transformam-se também em deuses, empresas, metas, objetivos de vida, razões e destino. Procuram padrões para se reconhecer, para demonstrar que sabem o como, onde e porquê da vida inteira. Padrões viram ciência, filosofia, teologia, senso comum, bullshit, argumento, retórica. Não conheço ser humano que consiga viver no definitivo caos.
Duas: as pessoas querem deixar um legado. Sobre isso poderia falar bem mais, mas prefiro resumir que cada um quer deixar uma boa história para ser contada. Talvez uma pela qual pudesse ser ninado.
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April 24th, 2009 §
Me considero um cara desapegado da vida. Não me entendam mal: não é que eu não goste de viver com conforto, de comprar livros, CDs, DVDs, comer bem (ou bem mal) e consumir produtos divertidos, mas me desapego deles na memsa medida que eles deixam de significar algo.
Se aquele gibi (ou livro, ou revista) me fez encarar o mundo de uma forma diferente, que ele seja passado para frente e -talvez- comova o próximo. Mas isso não me faz me livrar dos gibis do Sandman que guardo há mais de dez anos, ou dos álbuns de luxo do Watchmen. Não por enquanto.
Sou desapegado com a matéria sim e em muitas formas, com as pessoas também.
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Às vezes eu tenho vontade de fechar todas as portas e passar a chave na fechadura, dar as costas ao que passou e só andar na direção do sol nascente.
Talvez porque eu não consiga ficar imóvel e, contudo, ainda não tenha aprendido a dar os movimentos corretamente, ainda acho que é preferível caminhar sem destino que esperá-lo bater à porta, com o chá à mesa.
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Tenho pensado em me fechar digitalmente: matar o blogue, matar os flogs, os álbuns de fotos, os tuíteres, listas de discussão, instant messengers e afins. Pela primeira vez penso seriamente em fechar tudo mesmo e cuidar dos meus.
Mas acho que esse é um desapego que ainda não sou capaz de fazer. Não por enquanto.
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Escrevo menos e menos a cada dia aqui. Não é que tenha desistido de escrever, muito pelo contrário. Participo de um velho hábito digital de discutir em listas de (dã!) discussões. Ali tergiverso sobre política, ciência, filosofia, música, fotografia.
Falo pouco sobre o que sei e muito -muitíssimo- sobre o que sei que não sei. Escrevo tanto que daria para encher uns livros só com a quantidade de asneira petulante destilo nos emails.
Ainda bem que por ali fica, por ali morre. Contexto é tudo.
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Não me canso de olhar para os céus de São Paulo. Já escrevi sobre isso e não me repetirei.
Não por enquanto.
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September 15th, 2008 §
Eu gostava de me imaginar velho, quando novo. Nunca tive sonhos de uma juventude imorredoura. A velhice me dava um alento de realização que sempre achei muito mais interessante que a energia difusa e desfocada da adolescência. Sou atípico, fato, mas acho que não sou único. Me precede Nelson Rodrigues e tantos outros antes dele.
O que me encantava – encanta – na visão projetada da velhice é a sensação da realização sem a penúria e o esforço do erigir. Era saber que teria uma história que me precederia antes de eu entrar numa sala. Já imaginava as pessoas cochichando: “Olhe lá! Aquele é o Zander Catta Preta! O autor de vinte livros, fala doze línguas e doutor em filosofia. E um gato, no alto dos seus cento e doze anos!”
Mas me enerva ter de gramar por tanto tempo e por tanto nada e por tantas vezes. Sinto-me um jumento mascando a grama da vida a cada dia, sem entender que deitar e rolar na relva úmida de orvalho dá mais prazer que a barriga cheia de celulose e clorofila que sou obrigado a deglutir diariamente. Se a bosta que sai desse processo tivesse serventia, ainda que esse excremento adubasse algo a mais que mais grama, eu ficaria feliz de ser parte do processo de grama-bosta-grama-bosta-grama.
Nesse caso, eu zurraria ao mundo que a grama é boa. “A grama é boa!” E comeria tufos seguidamente e ofereceria mais quantidades aos outros companheiros dizendo que “a grama é boa!” e que “bela bosta” teríamos produzido ao fim de cada dia. Ao cair da noite, me recolheria ao estábulo onde, ainda cansado de tanto gramar, dormiria um sono exausto, suado e sem sonhos.
Mas – o horror! o horror! – por vezes a própria merda que é o que é consumido e com beiços lambidos. Mas aí já não é minha culpa, apenas a desculpa de medíocre ambulante que teima em ser “diferente” da massa que zurra em uníssono comigo. Me porto como quem grasna descontroladamente no meio do quintal verde, cheíssimo da mesmíssima grama. Ali, eu finjo caçar vermes e abano asas inúteis que não me voam e estico o pescoço para grasnar: “A grama é uma merda! A grama é merda!” e bato no próprio peito como se houvesse orgulho em continuar no processo com a revolta juvenil renovada no peito. Mas até isso cansa e volto a abaixar as minhas orelhas, desemplumando-me.
Dado o percurso até aqui, não me surpreendo que, num futuro bem próximo, eu seja olhado com desdém por alguém que se porta como ganso que aponta na coluna da vida os derrotados, os mal-ajambrados, os losers, como se ele próprio se arrolasse entre os winners. Daí, na mesa do boteco semi na moda, ele falaria ao ver o velho passar na Ladeira da Memória: “Olhe aí! O Zander quase tropeçou em você. Bêbado, mal-ajambrado e frustrado, até que está bem para os seus setenta e dois anos.” “Ele tem quarenta, rapaz. Quarenta.” “Que vida de merda, né?”
Ainda assim espero desalentado o júbilo que o anonimato me reserva.
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June 30th, 2008 §

Ele estufa o peito cantando o hino nacional.
Chora na copa do mundo.
Grita na olímpiadas.
Range os dentes até na disputa do oscar de melhor filme estrangeiro.
Diz que esse país é do caralho.
Estaciona em fila dupla.
Joga papel no chão.
Fura fila em banco/supermercado.
Dá dinheiro pro guarda liberar o carro com documento vencido.
Vota no deputado que prometeu uma vaga na secretaria municipal de obras.
Diz que num país atrasado assim não dá mais pra viver.
Tá tirando o passaporte pra ir morar no Canadá.
Obs: Na polícia federal pagou uma taxa de propina pra receber o passaporte mais rápido.
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June 1st, 2008 §
publicado na Tribuna da Imprensa
…costumava ser uma expressão usada na faculdade para o ato de passar a brenfa, marofa, canha, baseado, doizinho, pega, a maconha – enfim – com velocidade que, a priori, não deveria ser própria de quem está consumindo um entorpecente relaxador. Ou seja, o cara pega, puxa, traga, e passa sem ter tempo de contemplar o ato, de curtir o momento, e só espera que a onda bata logo. Obviamente pegar a bagana, a vela, a maria-joana, o fumo, o cigarro e ficar contemplando o mundo enquanto ficava olhando a parada queimar lentamente para o nada era chamado de “na carioca”.
Hoje fico pensando se não existe algo mais nessa comparação que a falsa calma do carioca e da pressa inequívoca do paulistano.
Antes que me processem por apologia ao narcotráfico, aviso: nunca fui adepto do uso da cannabis sativa – jamais consegui dar mais que dois tapas e não desmaiar em seqüência – mas curtia ficar com o pessoal na vila dos diretórios acadêmicos da PUC-RJ, na chamada esquina da esquadrilha da fumaça, a quina formada pelas casinhas do povo de desenho industrial, de filosofia e geografia e era completada pela casa do CA de Direito que, diga-se de passagem, o único que tentava fazer algo que lembrava remotamente um movimento estudantil naquela época pós-caras pintadas, pós-reabertura política, pós-ideologias, pós-juventude.
Gostava porque a maioria ouvia o bom e velho rock’n’roll – apesar de um reggae ocasional me torturar a paciência – e todos gostavam de quadrinhos e de alguma literatura. Além disso era o pit-stop obrigatório no caminho do boteco. Esse sim, fornecedor do meu elemento de entorpecimento favorito.
Desculpem se tergiverso um bocado, mas é que me lembrei disso hoje ao andar na Avenida Paulista.
Chovia de um jeito que é cada vez mais raro em São Paulo – chuva fina, tempo frio, vento cortante – e eu ia da Consolação ao Paraíso. Da rua Augusta à rua Brigadeiro Luiz Antônio. Na calçada, a fauna de costume: casais gays na altura do Conjunto Nacional – e da Frei Caneca – jovens executivos entre a Freica e o Trianon, alguns rapazes perdidos no parque, estudantes nos botecos até a Joaquim Eugênio de Lima, mais jovens executivos que foram estudantes há pouco nos mesmos botecos com mesas e cadeiras em plena calçada, hippies/mendigos na altura daquela casa branca que estava abandonada e que fora um MacDonalds até um tempo atrás.
No passar da turba, uma cena insólita. Como sou muito míope, as imagens me vêem aos poucos, sendo construídas no meio da minha falta de foco. Primeiro, um engravatado carregando algo pesado. Depois, consegui ver o portador de terno completo e gravata com mais nitidez. Ele carregava um monitor velho de computador, daqueles de tubo, de umas quinze polegadas, com algum esforço, mas andava com energia e determinação. Mais uns cinco metros consegui ver a face. Barba por fazer, cabelos desgrenhados e loiros, olhar injetado de fúria e os braços de terno sem camisa.
Passou por mim como se não existisse chuva ou destino. Na paulista.
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June 13th, 2007 §
publicado na Tribuna da Imprensa
“Não entendo a tua relação com Paula, cara. Você diz que é apaixonado pela garota mas deixa ela correr solta.” “É complicado mesmo. Não sei se vale a pena explicar.” “Também não acho que valha a pena. Mas não quero entender o teu querer nela, mas o porquê de você não colocar essa fila para andar.” “Mas a fila anda, o caixa é rápido e eu ainda a quero.” “Só pode ser fissura.” “É isso. É uma fissura. Fissura aqui dentro, ó. Fissura chamada ciúmes.”
Enquanto Marquinhos apontava para a cabeça, Júlio pedia mais dois chopes. Colarinho curto, por favor. Isso. Dois dedos.
“Por que você pede ‘por favor’ pros garçons? Eles não estão fazendo favor algum a ti. É o trabalho deles.” “Mania de carioca. Lá podemos não fazer uso de ‘muito obrigado’, ‘com licença’ ou ‘por favor’. A não ser com os garçons.” “Juro que não entendo.” “É simples: temos de ficar amigos dos garçons para conseguirmos ser atendidos. Nos bares ‘clássicos’ é assim ao menos.” “Ainda não entendo.” “É porque você não é carioca. Não vai entender a referência de banheiro sujo e atendimento ruim para boteco bom.”
Os chopes chegam, Júlio agradece mais uma vez e elogia o excelente serviço. Muito obrigado, doutor. Estamos aqui para isso mesmo.
“Mas conta aí. Quando começou essa tua fissura na menina.” “Não é uma fissura nela. É uma fissura por conta dela. Um ciúme que foge aos padrões, meu.” “Que seja. Conta.” “Então. Eu a conheci nessas idas e vindas da USP. Numa vernissage estávamos falando de Sartre e Heiddeger. Eu, o Carlos – que você conheceu ontem – e o nosso professor de Lógica.” “O coroa tem pinta de curtir uma caninha mesmo.” “Não perde um evento de ácool gratuito, o puto. Mas estávamos lá vomitando filosofia de quinta movida a vinho de sexta quando surge do meio do nada a menina linda. Cabelos negros, um olhar de desesperada, uma tatuagem sensacional no ombro e um cheiro de quem havia dado há pouco. O professor catou a menina num canto e faturou a noite. Nunca mais esqueci dela.”
Júlio virou o que restava do chope e pediu um jiló assado. Com alho, por favor. Ah! Manda uma porção de pastéis de carne e queijo. Valeu! Olhou pro amigo e começou a entender a questão.
“Fala mais.” “Nem tem o que falar. Ela fez contato via Orkut com uma galera do evento e ficamos ‘amiguinhos’. Daí messenger, telefone, cafés e sopas e eu me vi confidente das aventuras sexuais dela.” “Dançou, negão. Mesmo. Essa daí você nunca vai ver pelada na vida.” “Eu sei. Mas não sei o que fazer.”
Marquinhos virou o chope quente e comeu um pastel. Fez careta quando viu que era de queijo e sinal pro garçom quando capturou sua atenção. Me vê mais um. Chope. Olhou pro amigo e respirou fundo antes de falar.
“Meu, o lance não é ela ter alguém. Tô pouco me lixando para isso. Será que é tão difícil de entender? Não quero saber de amor, traição, adultério, essas merdas todas que rodeiam os relacionamentos. O meu lance é o desejo e até onde chega a tolerância de um homem frente a esse desejo. Ela tirou umas fotos peladas com o carinha atual, sabe? E eu estou pouco me lixando se o mundo vai ver ela pelada ou se o cara vai transar com ela centenas de vezes. Ou com centenas de homens. Ou mulheres, tamanduás, anões de jardim. Não me importa. A questão é entre mim e ela: eu quero vê-la gozando e eu sendo o responsável por esse gozo. E eu não consigo viver com ela me negando a chance de fazê-la feliz uma vez ao menos.”
Pediram a conta.
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March 26th, 2006 §
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos, 15-1-1928
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November 1st, 2005 §
- pós The Beatles
Saíram do cinema abraçados, como se fossem dois namorados. Deram vexame durante a exibição da fita, quando pararam para tomar um café, antes de entrar no carro, dentro do carro, nos sinais, até mesmo quando ela estacionou para deixá-lo em casa.
“Sobe?” Diz ele ao se prepara para saltar do carro. “Não posso.” Ela responde sem muita convicção. “Porquê?” “Você sabe.” “Você pode sim. Não quer.” “Não posso. Ele pode chegar a qualquer momento.” “Dane-se ele! Aliás, dane-se tudo! Você sabe que ele tá comendo meio mundo agora! E a outra metade comeu pela manhã! E você não o ama mais!” “Para com isso! Aqui no meio da rua! E se um vizinho passa por aqui?” “Melhor! Assim você tem de assumir tudo logo de uma vez e paramos com essa palhaçada. Porra! Faz cinco anos que saímos quase todo fim de semana. O cara viaja na quinta, sobe pra Petrópolis, Teresópolis, Patópolis, sei lá, e te deixa aqui para eu tomar conta.” “Pára! Você sabe que não é assim! Eu te amo, mas eu o amo também!” “Ama? Como se ama um cara com quem você não transa faz dois anos e meio?” “Porra. Vamos ter essa conversa aqui, no meio da rua?” “Não. Podemos subir e ter essa conversa lá em cima, se quiser. E eu sei que você quer.”
Subiram tensos os lances de escada até o terceiro andar. Era uma apartamento antigo em Botafogo. Daqueles com varanda ampla e salas enormes e cozinhas monumentais. Tinha apenas o inconveniente de não ter elevador mas, melhor, o condomínio ficava mais em conta. Ele tinha alugado-o numa distração do proprietário. Era um esquema de aluguel para conhecidos de conhecidos e ele quase que conhecia alguém que estava deixando o apê. Deu uma de João-sem-braço e se ofereceu como candidato à vaga. Sorte que foram com a cara dele e conseguiu alugar sem que pensassem duas vezes ou pedissem suas referências. Estava lá há três anos e não pretendia se mudar tão cedo dali.
Abriram a porta do apê. Ela se sentia em casa, mas essa era uma sensação que lhe incomodava tremendamente. Estava tudo errado. Ela era casada, tinha três filhos lindos e saudáveis. O marido sempre lhe fora carinhoso e atencioso. Até ela o conhecer de verdade. Antes de descobrir que ele pulava mais a cerca que carneiro rebelde. Daí para ela encontrar um amante foi um passo fácil. No início se sentia suja, mas aprendeu a gostar da sujeira, de se emporcalhar com o corpo do outro, a se sentir desejada, cortejada, a fazer com que gozassem com o seu gozo e a tomar o suor do outro como quem toma um copo de alma alheia. Comia os amantes como quem faz desejum em hotel. Dava na pinta. Deixava dicas. E ele parecia gostar disso. Devia gostar mesmo, o puto. Não lhe amava. Não sabia lhe dar valor. Não mais lhe beijava em público, tampouco lhe roçava as mãos nas ancas ou nas coxas quando se aproximava por trás. A sua nuca já lhe era território virgem novamente. Aliás, virgem nada. Ele que se fiava por mapas velhos enquanto outros aventureiros abriam bandeiras por ali. Ela era a fêmea-alfa agora. E ele apenas o provedor dos filhos.
“São cinco anos que estamos juntos e você nunca mais falou em largar aquele cara. Você já não o ama! E sei que não sou o teu primeiro amante. Você mesma disse isso para mim.”
Ele falava como quem implora e isso era o quem mais a irritava. De início era bonitinho ter um macho que falava fino quando ela mostrava a que veio, quando se mostrava dona da situação e colocava-os no seu lugar, de consolo que beija e anda. Esse nem era especialmente bonito, forte ou viril. Como dizia, era exatamente isso que ela achava interessante de início. E ele era do tipo medroso, um lucky bastard na escala evolutiva. Fugiu do leão ao invés de enfrentá-lo e sobreviveu para dar cria. Gerou toda uma linhagem de covardes, cagões que não honravam as bolas por conta dessa cepa ruim, desprovida de brios e amor-próprio.
Com ela não era diferente. Se dissesse para ele passear de mãos dadas em pleno Centro Comercial de Copacabana ele se derretia como criança no dia doze de outubro. Se ela mandasse ele não olhar na cara dela enquanto andavam pelo Fashion Mall, ele se portava como empregadinho subjugado. Talvez por isso tenha durado tanto. Cinco anos nessa mesma merda e ele só começou a reclamar agora. Deve ter mulher nova nessa história.
“Eu tô vendo uma outra pessoa. Estou saindo com a Ângela.” “Com quem? Aquela criança? Hahahahahahahaahaha!” “Não fala assim dela. Ela me ama!” “Ama porra nenhuma. É uma mal-comida que tá doida para amarrar o primeiro mané.” “Porra! Ela quer ficar comigo. Será que você não sacou que tô de saco cheio dessa vida de piroca de gaveta? Quero acordar do seu lado uma vez na vida. Ou melhor, quero acordar do lado de qualquer mulher que me queira.” “Mas, bicho, a Ângela? Ela é pagodeira. E vai em micareta. Não tem nada a ver contigo!” “Foda-se! Ela quer dormir comigo, me apresentar aos amigos dela e eu a apresentarei aos meus.” “Que amigos, cara? Os coleguinhas de vinte anos dela? PORRA, você é dezesseis anos mais velho que ela.” “Pois é. Dezenove anos e na flor da idade e me quer.”
Isso era o que mais lhe incomodava. Por mais que dividissem os prazeres e as confissões mútuas, ela nunca queria saber de sua vida offline e ele era barrado ao tentar saber mais da dela. A sua defesa era tão adaptada ao seu modo de agir que ele nem mais tentava forçar uma situação. Não mais se convidava para eventos ou tentava descobrir onde ela iria e com quem. Aceitara que seria chamado quando fosse conveniente e pronto. De início, isso bastava. Ela era linda, poderosa e se portava como uma deusa do sexo. Uma devota de Istar que se erguia gigante nos seus quase metro e meio. Um olhar bastava para trazer da inação o mais desanimado dos seres. Mas Ângela não ficava atrás e ela sabia disso. Sabia que dali pra frente ela não seria mais quem guiaria a relação. Ela teria os seus homens e ele as suas fêmeas. “Mais e melhores que você.” Pensou baixinho no verso do Chico Buarque.
“Você não vai aturá-la mais de dois meses.” “Que seja! Mas serão dois meses sensacionais.” “Cara. Você não dirige e ela só pensa em carro, cachorro e samba.” “Eu ensinarei coisas novas a ela. Mostrarei o que a vida tem de bom.” “Vai ensinar o quê? As novas vertentes do Rock Inglês? As composições atonais do Arrigo Barnabé? Filosofia Moderna? A teoria do Inifinitesimal de Hegel?” “Leibnitz. É do Leibnitz. Definição do limite. ‘Deus está no limite.’” “Ha! Duvido até que ela leia qualquer coisa que você dê a ela.” “Na boa? Prefiro viver um amor furtado que isso que temos hoje. Não dá mais.” Ela levantou-se, pegou a bolsa, dirigiu-se à porta. “Babaca.”
Desceu calmamente a escada. Entrou no carro. Mal conseguiu colocar a chave na ignição de tanto que as mãos tremiam.
“PORRA! Não posso chorar por esse babaca.”
Lentamente o céu se solidarizou com a dor da segunda rejeição de sua vida.
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October 23rd, 2005 §
Ele tinha um hábito irritante de freqüentar vernissages, noites de autógrafo e outros desses eventos semi-abertos onde se serve o péssimo vinho que importadoras de bebidas que desovam como “patrocínio” ou “apoio cultural”. Chegava a ser uma compulsão, na verdade. Tinha alguns contatos de quarta categoria que se divertiam em enviá-lo para os eventos mais esdrúxulos como a reinauguração da placa do centenário do canhão inaugural do forte de Copacabana ou a noite de autógrafos de um blogueiro qualquer que conseguiou publicar suas crônicas semanais.
O que ele não revelava às pessoas é que a diversão não era o evento em si, mas ficar nos cantos fingindo que conhecia os proto-famosos, dando um acenos com cabeça e com um ar blasè treinado a anos a fio. Outro hobby era ficar ouvindo fragmentos de conversas e tentar ficar advinhando o papo como um todo. Anotava os fragmentos em guardanapos sujos ou em cadernos-brinde para usar em algum momento importante da sua vida.
Numa estréia teatral, ele pega o papo de um autor de peças de teatro com um engravatado aleatório.
“E, recitando um poema de Florbela Espanca, ele a pega como se fosse beijá-la. Ela se desmonta em suas mãos. Ao terminar o poema, ele se vira para os outros no churrasco e pede uma cerveja. Ela olha meio puta meio pidona para ele e, antes que ela pergunte qualquer coisa ele responde: ‘Beijo não é para ser esperado. É para ser tomado com o consentimento do outro. Beijo é a porta do prazer e se você não tem ciência disso e espera que o prazer lhe seja entregue em bandeja de prata, não merece o gozo’.” “É uma boa cena, mas acho que temos de cortar a parte do poema. Não dá Ibope.” “Mas aí perde todo o sentido. Deixa eu te mostrar o poema.” “Não. Sem poema.”
Ele se dirigiu para o bar para tentar caçar um salgadinho ou mais uma taça de vinho. Quem sabe até teria sorte e coletaria mais alguma história interessante. Achou um casal que debatia sobre o sexo e os homens.
“Ainda acho essa uma posição muito machista, a sua.” “Nem é. É apenas factual.” “Ah! Que isso? Essa história de três mulheres… para mim isso é putaria. Safadeza pura.” “Não é bem assim nem bem isso, você trocou as bolas.” “Explica então.” “Ok. Como eu dizia, toda mulher merece uma noite de amor. Todas. Mesmo as mais feias. Mesmo as aleijadas, sem dentes, com mau hálito, as que fedem, as que têm corrimento. Todas mesmo. Todas merecem uma noite de paixão, sexo e amor.” “Que coisa mais promíscua!” “Não se trata de promiscuidade, mas de humanidade. Amar uma bela, é fácil e até mesmo simples. Mas amar quem merece, quem precisa do amor do próximo. É o que chamo de abnegação.” “Tá. Acho que entendo esse conceito. Não concordo, mas entendo.” “Algumas mulheres merecem uma segunda noite. São aquelas que despertam algo no homem que ele não compreende de imediato. Algo que desperta o seu limiar.” “Hein? Como assim?” “No sexo, o homem que realmente ama, se encontra perto da pequena morte, do início e do fim de tudo. Ali ele pode ter uma revelação sublime, um momento de epifania, de adoração. Mas isso apenas quando ele encontra a mulher com quem se deitará pela terceira e derradeira vez.” “Pára tudo. Me perdi agora.” “Pois bem, essa mulher com quem ele se deita pela segunda vez, o faz por dúvida. Lembra-se? A primeira é por abnegação, a segunda pela dúvida, a terceira, para sempre.” “Acho que entendo e começo a concordar.”
Não entendendo bem do riscado, retirou-se anotando no seu caderninho as anedotas coletadas. Ainda conseguiu relatar mais um papo interessante aquela noite.
Eram dois estudantes, pela pinta. E um senhor bem mais velho, beirando os setenta. Todos falavam sobre filosofia, Sartre, Heidegger, conceitos, conceituaçao. E o senhorzinho ficava em silêncio, assentindo ou rejeitando com o olhar. E “processava” várias taças de vinho, não deixando pedra de gelo sobre pedra no debate entre a noite e o seu estado etílico.
“Ninguém é livre. A liberdade é uma falácia.” “Não seja bobo. Você parece aquele matemático que dizia que os números reais são uma ilusão inventada pelo homem. Que o universo não fala com os números reais.” “Mas é isso mesmo. Falando da Liberdade: ela não existe. Você não escolhe as suas opções de vida. Elas se apenas se apresentam e, na maioria das vezes, você apenas opta sem se dar conta disso. Assim como um outro animal qualquer que não tem como saber se ao virar à esquerda vai gerar a extinção de sua espécie.” “A liberdade, cara, tem suas limitações. Assim como a consciência humana, a percepção de realidade e os números reais. O que interessa é que são instrumentos…” “Instrumentos imprecisos!” “…para entender o que nos cerca. Para mim é claro que somos apenas um degrau para o além do homem…” “Ah não. Citar Nietzsche é apelação.” “…e que, nesse processo, inventamos modelos cognitivos para entender a realidade ao nosso redor.” “Fato, cara é que temos de entender as coisas como elas são. Senão ficamos tentando estudar as sombras, não a realidade.” “As as coisas são da maneira que se apresentam. Não existe um Deus por detrás delas. Elas são e se aparentam como são.”
O senhor finalimente se manifestou. Com voz embargada, com o olhar trôpego e desfocado, meio cambaleante, disse: “Pessoa era foda.” Pegou mais uma taça de vinho, aproximou-se de uma menina de um grupo anexo, enlaçou-a na altura da cintura, falou uma ou duas obscenidades na sua orelha e levou-a consigo para o resto da noite.
Anotou, aparvalhado, a reação dos dois proto-filósofos que não conseguiram manter a compostura ante o velho mestre. Tomou coragem. Se aproximou dos dois e falou uma verdade universal.
“O mais sortudo é sempre o mais apto. É ele quem consegue deixar a semente para a próxima geração.”
Saiu à francesa.
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February 25th, 2005 §
Novamente envolvido em planos de dominação global (ou apenas tentando quitar os meus cartões de crédito) me encontro numa situação muito esquisita a respeito do trabalho.
N’A Empresa, tenho um salário razoável (excelente, se comparado à média nacional; ridículo, se comparado à minha necessidade de consumo), uma estabilidade razoável (enquanto os sistemas de comunicação sem fio não migram para A Cidade Eterna, dada a (in)competência dos Imperiais) e quase nenhum, repito: QUASE NENHUM, trabalho.
Conseqüentemente, eu deveria estar tocando dez projetos e vinte frilas ao mesmo tempo, certo? Errado!
Os frilas aparecem sazonalmente e são dores de cabeça em potencial pois, ora são relativos a programas que não tenho (nem posso ter) no trabalho ou são hiper-ultra-poderosamente secretos que não devem ser revelados fora do banheiro da área da cozinha.
Os meus projetos pessoais incluem estudo em línguas esdrúxulas (PHP, MySQL, MUMPS, ALGOL, LISP, FORTRAN, Latim ou Gaélico), gastos extraplanetários (comprar uns livros, um domínio, um apartamento, iates, mansões) ou apenas disposição.
E é nesse último ítem que tenho pecado mais capitalmente.
Eu tenho andado broxa para tudo cujo esforço não gere um prazer imediato, instantâneo. Se está dando um pouco de trabalho, deixo de lado, não tenho mais tesão e vontade sequer de olhar.
Por isso estou carregando livros das línguas supracitadas por mais de cinco meses, de casa para o trabalho e vice-versa. Mal consigo lê-los, sequer estudar, menos ainda colocar em pática o conhecimento não adquirido.
A última coisa que consegui realizar foi renovar esse meu blog velho e cigano mas, o impulso inercial que me motivou a escrever um bocado, está se exaurindo e, aos poucos, volto a ser consumido pelo processo tecnocrático, burocrático, de 9 às 19, acordar cedo, dormir idem, pensar pouco e fazer menos.
Aos poucos fico mais e mais medíocre. E acho que estou pouco me fudendo para isso tudo.
De fato, de que me serve a Filosofia, a Ciência, a Literatura, as Artes, o Cinema, a boa cultura e formação, a minha Autodidaxia, a capacidade de MultThreading se o que me é exigido é apenas a hipocrisia de um corpo presente?
De que serve a capacitação tecnológica, o conhecimento de mercado, o domínio das ferremantas de marketing, a consciência crítica e analítica de produtos desenvolvidos (ou a desenvolver) se o que pedem de mim é preencher planilhas, desfazendo o trabalho de outrem, de automático para analógico, de inteligente para imbecil e, daí, para idiota?
De que me serve a capacidade de transformar ATP em ADP se o produto do meu suor é inócuo? Não gera sequer memória.
Vou lá bater o cartão do almoço. Ah! nem me pagam hora extra.
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