sabe qual o pior medo? é o de perder o que se tem.
e a maior frustração? a de ter tido medo de se lançar no abismo.
e o maior cansaço? de ter sucessivas frustrações.
e a maior perda? a de cansar de si mesmo.
February 26th, 2009 § 1
sabe qual o pior medo? é o de perder o que se tem.
e a maior frustração? a de ter tido medo de se lançar no abismo.
e o maior cansaço? de ter sucessivas frustrações.
e a maior perda? a de cansar de si mesmo.
February 24th, 2009 § 3
Eu tenho uma letra horrorosa, quando escrevo com pressa. Para falar a verdade, tenho uma letra horrorosa quando não uso uma “máquina de escrever” o que, para mim, remonta à tenra idade de oito anos, quando ganhei a minha Olivetti Portátil de natal.

Não era um presente usual, eu sei, mas minha mãe não tinha achado o “avião que dava mil piruetas” para vender (o que era bem provável, já que ele só existia na minha imaginação) mas tinha se virado em seis para comprar o “robô que dava cambalhotas”, o “carro que bate-e-volta” e a indefectível bicicleta de rodinhas.
Fato é que não posso me queixar de presentes quando criança. Não mesmo. Já quando adolescente, a história era outra e fica para outra história.
Mas eu falava da minha letra horrorosa – tão feia que nem eu mesmo consigo lê-la quando tento rever minhas anotações – e da minha mania de comprar cadernos e blocos e canetas e lápis. Acho que a minha letra é a minha primeira frustração.
Todos em casa tinham uma letra desenhada. Minha tia até hoje tem uma caligrafia personalíssima e inteligível à distância. Minha mãe tem um traço firme e nervoso, mais parecido com caminhos de formiga. Ainda assim, legível até no escuro. Do meu tio mais velho só lembro dos números, das contas. Precisas, calaras. Dos tios mais novos, não lembro nada.
Fiz caligrafia por um tempo, mas desistia como bom preguiçoso do signo do porco. Dava trabalho e eu escrevia melhor e mais rápido na Olivetti. Pena que era muito pesada para levar à escola. Pena que não dava para escrever com ela nas provas e nas redações.
Um pouco mais tarde, ganhei meu primeiro computador – um TK85 – seguido logo, logo, do segundo – um Hotbit/MSX – que veio a ser o centro da minha primeira “estação de trabalho”: computador, monitor (uma TV), impressora matricial de oitenta colunas e um disk drive de 5 ¼ polegadas. Com a chegada da impressora, a caligrafia há muito abandonada foi de vez para as cucuias. Com o micro, as minhas outras frustrações ficavam mais patentes.
O bichinho “tocava” música, se eu o programasse, e eu sabia ler um pouco de notação musical. Então lá ia o pequeno Zander programar no computador as partituras que ele não conseguia – nem tentava muito – tocar no violão. “Afinal de contas, eu queria um baixo!” – era a minha desculpa – “E nem para ganhar presente direito!” – eu completava com a malcriação típica dos quinze anos. Amava música (se é que punk rock pode ser chamado de música) e não tocava patavinas. O mesmo se aplicava para as meninas: amava-as e necas de pitibiriba de descolar umazinha que fosse.
Obviamente tudo era desculpa para uma falta de empenho meu. Se eu quisesse comprar um contrabaixo, que eu economizasse nos gibis e livros, né? Ou que eu deixasse de comprar tanto vinil, ou que eu vendesse o meu super-hiper-som modular da Philips e fizesse mais umas aulas de violão para eu mostrar que me empenhava em alguma coisa de verdade, que não me viesse fácil. Reclamar da vida sempre fora mais fácil que fazer o meu desejo virar a verdade.
Acho que ouvi uma vez alguém dizer que amadurecer é colecionar frustrações.
Falo disso tudo porque, vira e mexe, me acho uma farsa. Uma farsa no trabalho, com os amigos, com a família, com os amores. Não tenho metade da inteligência que presumo ou apresento, um terço do talento que me atribuem, um décimo da capacidade que vendo, um centésimo da compreensão e da tolerância para os meus entes queridos e um milésimo da capacidade de amar que qualquer ser humano merece.
É como me sinto nas noites insones de calor do Rio de Janeiro. Como uma farsa de mim mesmo, esboço de alguém que eu nunca poderei ser plenamente apenas porque escrever as letras de forma legível dá mais trabalho que inventar o texto do meio dos meus garranchos.
January 7th, 2008 § 20
O carioca, além das mazelas normais dos nativos de qualquer metrópole moderna e das agruras dos brasileiros em geral, vive uma sina cruel e ímpar às demais cidades do mundo: é condenado a viver com um cenário tão maravilhoso que o torna insensível às diversas nuances da beleza.
É como se nos alimentássemos dos mais maravilhosos pratos de restaurantes da mais alta gastronomia e não conseguíssemos mais encarar o prazer de um misto quente no pão francês.
Ou algo assim.
É uma sina porque cada cidadão fica insensível ao mediano, ao mundano, ao medíocre e subitamente este se torna intolerável. Como aceitar que o máximo que teremos é uma vida mediana, uma posição mediana, um desempenho mediano? Outras cidades também impelem seus habitantes a uma frustração prévia, mas o Rio de Janeiro tem uma característica à parte.
Mais que sucesso, o carioca quer ser belo, belíssimo.
Como conseqüência, temos as legiões de barrigas de tanques e braços hipertrofiados saídos das academias que deveriam primar pela saúde e integridade física de seus associados e suas peles galvanizadas em bronze, dada a contínua exposição da cútis nas praias.
Mas até aí, os únicos que correm o risco de se ferrar nessa busca da perfeição física é o próprio estagiário de Apolo ou Afrodite. Porém a coisa é pior e mais sutil que isso.
Ante essa busca da beleza, as opções ficam limitadas. Excluindo-se o mediano, não é mais possível ter uma pele alva, ainda que saudável, e ser belo ou uma barriga expoente, ainda que feliz, e ser saudável. E torna-se heresia maior ostentar ambas em pleno verão.
O leitor pode até achar que isso é ranhetice do cronista nerd e branquelo. Mas entenda que não me magoa mais, do alto da minha meia-vida, que os meus concidadãos ainda tenham esse desejo de serem Apolos ou Afrodites e não entenderem atavicamente quem não compartilha dos mesmos princípios. Já me acostumei.
Para falar a verdade, acho até bem louvável que cada indivíduo desenvolva uma vaidade no prazer de se olhar no espelho e refletir a sua força de vontade expressa em formas que decidira conscientemente. Como um atleta que sabe que precisa de pouquíssima gordura no corpo para agüentar uma maratona ou nenhum pelo para nadar mais rapidamente.
Porém, a questão aí é a da consciência.
Novamente não culpo os demiurgos que se apresentam pontualmente às academias para as sessões de modelagem corporal. Eles são vítimas do seu meio.
Uma cidade que apresenta ao seu morador um horizonte na natureza do espelho d’água da Lagoa Rodrigo de Freitas, da enseada de Botafogo, do pôr-do-sol do Posto Nove, massacra o seu cidadão a ponto de entender que a única possibilidade de se tornar digno da – ou suportável à – beleza acachapante diária a que é submetido é se tornando espelho dela mesma.
Ou seja, o Rio transforma o seu cidadão à sua imagem e semelhança.
July 31st, 2007 § 4
publicado na Tribuna da Imprensa
Não entendeu quando o telefone foi desligado, lá do outro lado da linha. Ficou um gosto ruim na boca, de algo incompleto. Uma goiabada vencida, sem o catupiry. Não teve opção senão aceitar os fatos e fechar a história. Olhou brevemente para as fotos do criado mudo, repousou o aparelho na baia de recarga e escolheu uma foto aleatória. Não era ela na cena do retrato, mas lembrou-se de quando passearam no parque, juntos, pela primeira vez. Havia um encanto, um élan que não era comum. Eram raros um para o outro e sabiam disso desde o primeiro momento.
Não era o primeiro fora que tomara nem seria o último. Nem por isso o sabor da rejeição estava mais doce. Era fel que lhe vinha à boca quando chegou em casa cansado da viração sem sentido nos bares e boates de Botafogo. Entrara na roda-viva de quem sofria as dores etéreas dos desamores da vida.
Novamente.
O álcool que vomitava em ondas contínuas era o que havia anestesiado o seu choro. E agora, ao vê-lo misturado com a bile negra, ambos expulsos com muito esforço, lembrou-se tristemente que essa seria a última vez que suaria por aquela mulher. Havia dado de si, o esforço do prazer mútuo, tal e qual um guerreiro que enfrentava as legiões por seus generais até o gozo derradeiro da sua amada. Tinha para si o mote que o prazer da parceira era o goal final, o sentido de sua dedicação. No entanto, suava para expurgar a dor e a frustração de um amor defenestrado. Só lamentava que tanto esforço não gerasse um sorriso no fim. Pois não há como sorrir quando o seu corpo expurga tanta dor. Afinal, aquilo não era um parto: era um aborto de um amor.
Passaram-se as semanas e a vida ditou novamente sua monocórdia melodia. As pessoas não tinham mais cores para ele. Eram chatas, medíocres e sem brilho. Mal sabia que ele estava apenas refletindo-se nos outros. Daí veio a chance. A menina estava disponível e queria revê-lo. Contrariando toda a racionalidade e as leis do amor próprio, foi encontrá-la. Nunca poderia dar certo.
Obviamente, não deu.
Chegou uma hora antes do combinado, escolheu a mesa ideal e escondeu a caixa de bombons. Conversou rapidamente com o garçom e já tinha em mente o que iria pedir para comer e beber. Não iria fazer feio. Checou insistentemente no celular chamadas perdidas e mensagens de texto. Faltando quinze minutos para a hora exata, ligou.
“Estou chegando.” Ela disse.
Sonhara meses com aquela voz em diversos tons. Principalmente dizendo uma frase em especial que ele repetira várias vezes, sempre com adendos desnecessários para disfarçar o fato que estava entregue completamente ao sentimento. Era de sua natureza apaixonar-se pela paixão. Não tinha jeito mesmo. Dez minutos de atraso e ela chega. Linda. De vestido vermelho e sandália baixa, de acordo com o figurino em voga na capital do império. Num segundo, ela destrói tudo.
“É estranho isso. Não te cumprimentar com um beijo na boca.” Ela sorri como se tivesse contado uma piada. Ele sorri como se o seu mundo interior tivesse desabado.
December 21st, 2006 § 0
publicado em LIVinRooom
Sabia o que lhe esperava quando aceitou ir àquela festa.
Sabia que não tinha a menor chance de Elisa não dar a pinta ali. Pior. De não encontrá-la.
Ela era amicíssima dos noivos – tinha namorado o noivo tempos atrás – e conhecia todos que iriam. Afinal de contas, Elisa era um tipo de celebridade naqueles círculos esquisitos que se formam em cidades pequenas como o Rio de Janeiro. Onde dezessete pessoas monopolizam os nós sociais.
Zanzou a semana inteira tentando arrumar uma gripe ou um braço quebrado. Não rolou. Pior. Alan ainda botou pilha para que fossem os dois juntos. Alan torcia para que eles se encontrassem de uma vez por todas num evento social e que as neuras mútuas deixassem de existir. Cláudio concordou mas estava relutante. Sabia que tudo parecia simples, mas tinha o lance de Ana na semana retrasada e outras encucações.
Por fim, consentiu.
O dia até que se apresentou bonito. Céu de brigadeiro e tudo mais. O horizonte da Enseada de Botafogo era pano de fundo perfeito para o evento. Drinques abundavam. Salgadinhos e doces sensacionais. Bolo com bonecos de playmobil enfeitando o topo. Decoração simples, discreta e elegante. Boa escolha na trilha de fundo. Pessoas bonitas para todos os lados. Conversas divertidas e fúteis, na medida do figurino.
Noivo e noiva estavam saídos de sonhos. Entram sob trilha do Beach Boys. Fudeu. A idéia para aquela música tinha sido dele e sabia que era a preferida de Elisa. Olhou pelos cantos procurando o sniper que o abateria naquele momento. Nada. Não seria tão fácil assim. O padre chama a atenção de todos, reza, abençoa, canta música e parte. Estão casados.
No meio da balbúrdia dos cumprimentos, arumou uma quina estratégica perto do banheiro e se encostou, escondido, num ponto cego da festa. A sua paranóia lúdica finalmente serveria para alguma coisa. Alan procurou o amigo inutilmente. Sabia que o cara tava ali, mas achá-lo estava realmente complicado.
Deixou quieto. Na pior das hipóteses, o arrastaria para casa num táxi que seria inevitavelmente batizado com o vômito de ambos.
Abandonando a zona de conforto, Cláudio deslizava entre os diversos grupos de amigos, disfarçando aqui e acolá. Achou um cantinho perto da varanda e se debruçou, paquerando o vento fresco e os carros que estacionavam nos jardins da mansão. O muzak estava agradável: The Beatles, Raveonettes e Young Gods rolavam soltos na vitrola intercalados com os indefectíveis Ray Coniff e Jorge Benjor. O coquetel de frutas descia macio, refrescando sem embriagar.
O álcool e os amigos íntimos seriam evitados hoje de qualquer maneira. Sabia que algum dos confidentes faria pergunta capiciosa, inevitável, ou que as possíveis doses de uísque soltariam a língua que, repetia para si mesmo, deveria ficar presa.
Já tinha filmado Elisa numa outra mesa. Ela também o vira e sorriu dissimulada. Ele não conseguiu disfarçar o nó da garganta. Fugiu para a cozinha, desviando dos garçons. Sentou num barril de chope fechado e namorou o copo de água semi-vazio.
Elisa entrou na cozinha e leva um susto.
“Tá perdido aí?” “…” “O povo tá dançando na pista, você não quer ir?”
Ele a encarou.
Respirou fundo e discursou por vinte minutos do amor que sentia, da doença que lhe tirava o ânimo, da culpa no coração, da frustração dos atos errados, da impossibilidade de se fazer o certo, da tendência em destruir tudo aquilo que era bonito, dos filhos que não teriam, da casa que projetara anos atrás e só conseguia ver montada para si e ela, juntos. E, principalmente, da vontade que tinha de voltar no tempo e refazer tudo. Pediu para que ela apenas escutasse. Ela atendeu aos pedidos e deu o braço a ele.
Saíram à francesa.