October 3rd, 2008 §
Deveria falar sobre os que partiram, os que ainda vão voltar, sobre as coisas que não existem, as que vão se inventar. Mas falar disso é fuga, algo que não busco mais pois há muito só faço fugir das sombras projetadas em meus sonhos. Medos transformados em gente, com nome, endereço e documento.
Não penses que tenho culpa de algum crime ou de algum erro imperdoável. Meus crimes, se podem ser chamados assim, são de natureza branda, pequenos diante a cruel realidade que me formou. Culpa, carrego sim, com um peso inenarrável. Me sinto tão culpado de estar vivo que a simples perspectiva de acordar me apavora. Não consigo mais olhar meu rosto no espelho e achar um homem refletido nele.
Vou te falar de culpa, uma culpa ancestral, de medos, de chances perdidas, de um ser humano desprezível que não honra a luz que é consumida quando projeta uma sombra. Falo-te (já deves saber) de mim mesmo.
Perdoa-me, desde já, a linguagem pedante, o estilo forçosamente rebuscado, demonstrando falsa cultura e erudição. É difícil perder o hábito assim, de uma hora para a outra, tentando ser honesto e sincero. Após muito torcer, a mão vicia a escrita.
Pois como pode um adulador profissional, um ser que devotou trinta anos de sua vida a agradar o próximo, a elogiar na hora certa, a se fazer notar sem incomodar, mas causando sempre a impressão de que era necessário, até mesmo fundamental, de uma hora para outra se tornar um homem que honra as calças que veste, que defende idéias próprias, ou melhor, se dá o direito de ter idéias suas, pensadas com sua própria cabeça, e não repetidas de seu superiores ou roubadas de seus assessores.
Quantas vezes deixei um comentário morrer no céu da boca, apenas porque duvidava do agrado do mesmo. Quantas covardias cometi ao me calar ante um impropério, uma calúnia ou mesmo uma piada de mau gosto.
Mas deixa estar, a noite cai em cima dos abandonados, pois para quem tem companhia, luz de lâmpada é dia com mais horas, é convite para os úmidos e entumecidos, é vida de gato. Que sejam sete ou nove.
Para os abandonados, só resta o dia que nasce às quatro e meia da manhã, a hora e meia sacudidas num humilhante, quatro horas de sim senhor, quase hora inteira de bóia e lesmice, mais quatro de não fui eu senhor, duas horas de mais sacudir mais banho e cama desarrumada de ontem, quando não é sexta-feira, que é banho e menos sono por causa da reza dos crentes em frente de casa. Sábado é dia de cuidar da casa que não se cuida só. Domingo é dia de lamento da segunda que se aproxima.
Acordo e não me esqueço da noite de ontem. Drogas e álcool foram inúteis. Teu gosto ainda fica na minha boca apesar das outras. Mas uma felicidade boba e vã insiste em continuar a me perseguir. Pois não sou o tolo a quem gozam os bufões? Não sou o idiota a quem os pivetes, os moleques xingam ao passar na rua? Então, este imbecil aqui procura porque, mas não encontra aonde, motivo do sorriso descarado que exibe na cara rota.
É bem-amado? Pois não, vive de chutes e pontapés das biscas que não recusam a outros. É bem pago? Pois não, para as contas mal dá o salário e sempre sobra mês no fim do dinheiro. É culto? Inteligente? Tampouco, tampouco. Erra os pronomes, mal fala o português que diz falar o “brasileiro”, não soma ou diminui, sequer supõe que as duas operações são a mesma. Como pode um assim ganhar dinheiro que dê para não morrer faminto?
Pobre coitado que nem coito leva para si, nem gripe ou outra doença o atira na cama para que, mesmo febril, consiga descansar um dia ou dois. Pois férias, feriado, não tem que o patrão não assina a carteira que, afinal de contas, aonde um imbecil de pai e mãe conseguiria um emprego tão bom? Aqui, comigo você pode crescer, diz o patrão, mas crescer como, diz o idiota apedeuta, cresce sendo homem de confiança, mas para isso preciso confiar em ti primeiro, diz o explorador, e ganhas confiança trabalhando muito, de sol a sol, termina calando o primeiro. Pois não vive o imbecil. É morto e vivo que perdeu caminho do cemitério nem se encontrando no paraíso, inferno ou purgatório. É fugido do umbral dos homens e dos animais. Entende os aqueles, quando berram, age como estes, passivo.
Mas de onde o estúpido arrumou o sorriso? Pois não compraria prazer nem em Vila Mimosa aonde o amor é barato e se compra com todos os tipos de papéis. Tampouco arrumou caridade com moça ou mulher, pois é feio de trocar de calçada os marginais. Que raios de sorriso é esse? Seria dos tolos que, sem saber que males existem em volta de si, se regozijam em torno de cerveja, carne e batuque? Seria dos desesperados que encontram em palavra forte de pastor e mímicas de demônios expulsos acham-se mais amados pelo divino que o seu vizinho? Seria de uma fumaça ou erva que abobalha os sentidos e estampa uma fome no ventre? Seria de um outro bobo que, em sua bobice, divertiu o cretino que agora sobe a ladeira de sua favela. Passa pela vala negra, que ajuda a cumprir os escritos sagrados na bíblia das moscas: “Crescei, multiplicai e repeti tudo de novo”, com uma indiferença que só cabe aos que nasceram e foram criados perto de valas negras. Entra em casa sua alugada de outro e vê no espelho rachado que fica em cima da pia um sorriso que nunca foi seu. Deste momento em diante, não é mais bicho-homem. É homem.
Só o homem ri.
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July 17th, 2008 §
Odeio o Personare.
Sol na casa 6, lua na casa 12
16/07 (ontem) às 3h20 a 18/07 às 14h45
Lua Cheia, Zander! Os momentos cheios da Lua tendem a ser fases particularmente instáveis, num sentido emocional. Neste momento em particular, em que ela atua sobre sua Casa 12 astrológica (enquanto que o Sol atua na sexta casa), convém tomar um cuidado especial com doenças. A doença é, muitas vezes, uma mensagem que o inconsciente tenta nos transmitir, portanto convém dar atenção aos sinais que o corpo lhe dá. Não é absolutamente obrigatório que você adoeça, portanto procure descansar, recolher-se, evitar farras e festas. Entre 16/07 (ontem) às 3h20 e 18/07 às 14h45, você estará vivendo uma fase fisicamente delicada. Repouse!
Merda de gripe!
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December 21st, 2006 §
publicado em LIVinRooom
Sabia o que lhe esperava quando aceitou ir àquela festa.
Sabia que não tinha a menor chance de Elisa não dar a pinta ali. Pior. De não encontrá-la.
Ela era amicíssima dos noivos – tinha namorado o noivo tempos atrás – e conhecia todos que iriam. Afinal de contas, Elisa era um tipo de celebridade naqueles círculos esquisitos que se formam em cidades pequenas como o Rio de Janeiro. Onde dezessete pessoas monopolizam os nós sociais.
Zanzou a semana inteira tentando arrumar uma gripe ou um braço quebrado. Não rolou. Pior. Alan ainda botou pilha para que fossem os dois juntos. Alan torcia para que eles se encontrassem de uma vez por todas num evento social e que as neuras mútuas deixassem de existir. Cláudio concordou mas estava relutante. Sabia que tudo parecia simples, mas tinha o lance de Ana na semana retrasada e outras encucações.
Por fim, consentiu.
O dia até que se apresentou bonito. Céu de brigadeiro e tudo mais. O horizonte da Enseada de Botafogo era pano de fundo perfeito para o evento. Drinques abundavam. Salgadinhos e doces sensacionais. Bolo com bonecos de playmobil enfeitando o topo. Decoração simples, discreta e elegante. Boa escolha na trilha de fundo. Pessoas bonitas para todos os lados. Conversas divertidas e fúteis, na medida do figurino.
Noivo e noiva estavam saídos de sonhos. Entram sob trilha do Beach Boys. Fudeu. A idéia para aquela música tinha sido dele e sabia que era a preferida de Elisa. Olhou pelos cantos procurando o sniper que o abateria naquele momento. Nada. Não seria tão fácil assim. O padre chama a atenção de todos, reza, abençoa, canta música e parte. Estão casados.
No meio da balbúrdia dos cumprimentos, arumou uma quina estratégica perto do banheiro e se encostou, escondido, num ponto cego da festa. A sua paranóia lúdica finalmente serveria para alguma coisa. Alan procurou o amigo inutilmente. Sabia que o cara tava ali, mas achá-lo estava realmente complicado.
Deixou quieto. Na pior das hipóteses, o arrastaria para casa num táxi que seria inevitavelmente batizado com o vômito de ambos.
Abandonando a zona de conforto, Cláudio deslizava entre os diversos grupos de amigos, disfarçando aqui e acolá. Achou um cantinho perto da varanda e se debruçou, paquerando o vento fresco e os carros que estacionavam nos jardins da mansão. O muzak estava agradável: The Beatles, Raveonettes e Young Gods rolavam soltos na vitrola intercalados com os indefectíveis Ray Coniff e Jorge Benjor. O coquetel de frutas descia macio, refrescando sem embriagar.
O álcool e os amigos íntimos seriam evitados hoje de qualquer maneira. Sabia que algum dos confidentes faria pergunta capiciosa, inevitável, ou que as possíveis doses de uísque soltariam a língua que, repetia para si mesmo, deveria ficar presa.
Já tinha filmado Elisa numa outra mesa. Ela também o vira e sorriu dissimulada. Ele não conseguiu disfarçar o nó da garganta. Fugiu para a cozinha, desviando dos garçons. Sentou num barril de chope fechado e namorou o copo de água semi-vazio.
Elisa entrou na cozinha e leva um susto.
“Tá perdido aí?” “…” “O povo tá dançando na pista, você não quer ir?”
Ele a encarou.
Respirou fundo e discursou por vinte minutos do amor que sentia, da doença que lhe tirava o ânimo, da culpa no coração, da frustração dos atos errados, da impossibilidade de se fazer o certo, da tendência em destruir tudo aquilo que era bonito, dos filhos que não teriam, da casa que projetara anos atrás e só conseguia ver montada para si e ela, juntos. E, principalmente, da vontade que tinha de voltar no tempo e refazer tudo. Pediu para que ela apenas escutasse. Ela atendeu aos pedidos e deu o braço a ele.
Saíram à francesa.
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September 25th, 2005 §
- pós Beach Boys (obrigado, Lia! Que disco foda!)
Saltou na Barata Ribeiro como se descesse da ante-sala do Inferno, enfim liberto das agruras e torturas diárias a que se submetia. Vendia coisas que não importavam a pessoas desinteressantes e tentava convencer outras pessoas desinteressantes que as coisas que vendia eram importantes e seus clientes eram interessantes. Mas nada disso tem importância, exceto o simples fato que ele descia do 127 Praça Mauá – Copacabana como se deixasse o Inferno após pagar o todo o seu suplício.
Ao atravessar a rua, lembrou-se que não cumprira todos os ritos a que estava acostumado. “Bah! Voltar pra quê? Amanhã eu passo lá.” Namorava um som há dois anos. Obviamente não era sempre o mesmo aparelho, mas fazia planos em comprar um para si desde o falecimento do anterior. Ficava olhando pelas vitrines, comprava revistas, lia tudo que saía publicado e trocava o modelo de seus sonhos de acordo com as dívidas e os lançamentos.
“Que falta faz a Som Três…”
Ele cumpria esse ritual diário religiosamente. Saltava antes da Santa Clara, paquerava o som pela vitrine da Modern Soud, eventualmente comprava um CD ou uma camiseta por lá mesmo. Sabia que poderia pagar a metade do preço de qualquer um desses ítens se comprasse no centro, mas achava que assim pagaria um dízimo de fidelidade nesse templo do estilo e culto à boa música, como um clube de milhagem no céu dos aparelhos de som de alta sofisticação e sensibilidade.
Após a oração no templo, partia na sua perigrinação, no seu caminho de São Tiago pessoal. Da Barata Ribeiro, descia pela Santa Clara, parava na banca de jornais na esquina com a Nossa Senhora de Copacabana, procurava por uma publicação nova ou algum artigo em uma outra revista. Quando achava tentava ler ali mesmo, de pé. Se não conseguia, planejava economizar em um almoço ou dois para comprá-la no fim de semana. Ia andando até a Domingos Ferreira, passando por livrarias decadentes e bares idem. Comia um croquete ou um pastel quando tinha um troco e chegava em casa cansado e baldado, mas sempre esperançoso.
Mas nesse dia, não cumprira o seu pequeno ritual.
“Bah! Voltar pra quê? Amanhã eu passo lá.”
Ao atravessar a Santa Clara – para trocar de calçada – notou um despacho na encruzilhada. Nada demais até aí, sempre tem alguma macumba espalhada nas árvores de Copa. Notou o ebó. Dois pombos. “Epa hei!” disse para si mesmo “Axé, meu pai!” Uma trovoada vibrou o céu em cima da cabeça dele e o dia virou noite de relance. “Tá certo. Eu nunca trago um guarda-chuva mesmo. Tinha de chover hoje.” Correu para a marquise enquanto o ar tornava-se mais úmido que um urinol. No tempinho que esperava a chuva de verão passar, olhou com um pouco mais de interesse para o pote com farofa e duas pombas mortas. Lembrou-se que os pombos eram usados como sacrifício para os judeus, no dia do corte do prepúcio, se não estava enganado. E vacas para Odin no equinócio de inverno, ou seria no solstício de verão.
Sentiu-se cercado pelos deuses do passado e imaginou fadas mercuriais passando pelos fios de cobre dos postes, criaturas feéricas habitando os esgotos, espíritos construtores nos alicerces dos prédios e sílfides etéreas nos aparelhos de som.
Tomado por um medo ancestral, atravessou as ruas no meio da chuva, correndo entre os carros e voltou no seu templo de dedicação para prostar-se na vitrine e admirar as relíquias que queria trazer para sua casa. Caixas de som de mogno. “Salve os espíritos da madeira e os padroeiros das montadoras!” Auto-falantes alemães. “Salve os gnomos importadores e os deuses do magneto!” Amplificador francês…
“Oi. Você vem sempre aqui, não é? Por que não entra?” Virou-se e deparou-se com uma mulher alta, de cabelos escorridos, como se estivessem molhados. Dã! Estava chovendo, né? Linda ela, não? E que olhos profundos. Parecia que varavam sua alma. Ela fechou o guarda-chuva que usava, limpou os pés, digo, a sola dos tênis que usava no carpete de entrada da loja e dirigiu-se a ele.
“Vai entrar ou não? Vamos! Eu te pago um café! Tem um café aqui, né?” Beliscou-se. “Salve os demônios dos ferormônios.” Falou baixinho e ela não conseguiu conter um riso debochado. Sentaram-se e conversaram um bocado. Seis cafés e dois sanduíches depois ele descobriu que ela estava de mudança para São Paulo mas ainda iria ficar umas duas semanas no Rio. “Preciso do Sol e do Mar. Aquele me faz falta e este precisa de mim.” “As marés né?” “É.”
A chuva passara mas a conversa no café não. Ele contou do trabalho insosso e frustrante que tinha e dos sonhos e da vida inócua, medíocre. “Não é ruim ser medíocre.” “Como assim não é ruim?” “Não é ruim. É médio.” “Verdade.” “As pessoas é que querem ser reis o tempo inteiro. Não dá, né?” “Qual o seu signo?” “Câncer.” “Óbvio, né?” “Sim.” “Você é de Peixes, não é mesmo?” “Sim.” Ela passou a mão no rosto gelado dele. “Que besteira a minha! Aqui está um frio danado.” “O café esquenta.” “Mas não cura a gripe que você vai pegar.” “Não fico doente.” “Nem eu, mas isso não é desculpa.” “Vou pra casa agora que a chuva passou.” “Está bem. Você tem o meu telefone?” “Tenho sim.” “Me liga. Vou embora no fim da semana que vem.”
Ele assentiu e se levantou para ir para casa.
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